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Tratado geral das grandezas do ínfimo, de Manoel de Barros


Na obra Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, de Manoel de Barros, observa-se nas entrelinhas de seus poemas, uma explicação não escancarada, mas pronta para ser decifrada pelo seu leitor desconfiado. Barros usa elementos poéticos, aproveitando sua descendência pantaneira, não como exposição de sua origem, mas como exposição da origem da sua arte. Sua linguagem de chão reflete sua arte poética. No chão pantaneiro encontramos o seu material poético que dá vida a sua poesia, revigorando-a, parece que esses elementos constroem um cosmo paralelo, onde o processo da vida e da arte ocorre a cada poema.

Nessa obra estudada, ele também “brinca com a linguagem”, encontramos palavras como: “desimportantes”, “desagero”, “sabimentos”, “divinamentos”, “ocaso”, e muitas outras, que mostram como o poeta chega à semente das palavras. O poeta torna-se o criador e o ceifador delas, utilizando-as para nomear sua realidade lírica.

As pessoas sem valores perante a sociedade capitalista também aparecem nessa obra, deixando a sua “inutilidade” de lado e tornando-se material poético, isto é, útil para a poesia. Os fragmentos, os restos, os ciscos também aparecem nesta obra, formando um universo em pedaços, porém, que ganha unidade à medida que as imagens poéticas são criadas e juntadas de poema em poema.

O eu-lírico passa por metamorfoses, se coisificando e com isso, construindo uma linguagem muito mais poética, pois o mundo é visto e expresso pela coisa poetizada. Como se pode perceber há uma transcendência na sua arte, que deixa de ser meramente descritiva para ganhar dimensões universais. Esse livro parece reunir todo o seu material poético, tornado-se um apanhado geral das suas obras.

A maior parte dos poemas dessas obras possui como material poético o aspecto telúrico ou os seres e coisas que se relacionam a ele. Barros usa o telurismo para criar imagens poéticas a partir das coisas e dos seres do chão pantaneiro. É como se ele “ciscasse” esse chão para achar suas raízes, sua essência. O poeta usa o
poder da palavra para recriar o universo, isto é, para reorganizar o mundo em pedaços. Assim, a terra e seus elementos, seus seres ínfimos, são fontes de inspiração para a construção de uma realidade fantasiosa, sua poesia, mas que encontra no indizível da palavra, a sua concretude.

O livro Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, talvez possamos afirmar que essa obra seja um encontro do seu fazer poético com o seu pensar poético.

A riqueza e originalidade das imagens poéticas da poesia manoelina nos chamam a atenção. Em um primeiro contato com sua obra, chegam a causar estranheza. Há, por vezes, atribuições de sentidos e características a uma determinada coisa/ser pertencentes a outro paradigma de coisas/seres, de modo que algumas atribuições, de tão novas e impensáveis num discurso dominado pela lógica, acabam sendo descartadas pelo leitor. Dizem os versos do poema citado anteriormente que as semelhanças e comparações podem ocorrer entre elementos incomparáveis: semelhanças de pessoas com árvores, pessoas com rãs, pessoas com pedras. O uso da imagem se articula com o artifício da imaginação na poesia. Enquanto uma imagem poética pode ser o germe de um mundo, a imaginação poética tem sua importância na medida em que existe como processo criador – e por vezes instaurador da própria imagem.

Ora, é imanente à poesia a função poética da língua. Não se trata da linguagem corriqueira, prática e comunicativa das situações cotidianas do mundo. Aliás, como já se afirmou, não é uma poesia sobre o mundo, mas a partir da terra. A sabedoria, legado cartesiano de nossa era, é, na poesia de Manoel de Barros, a sabedoria das coisas não-pensadas, da intimidade das coisas, do encantamento poético-funcional que as palavras, imagens e construções frasais adquirem no inaugurar-se de sua poesia. E a importância das coisas e o encantamento que elas proporcionam podem ser simples, no seguinte poema, de Tratado geral das grandezas do ínfimo, intitulado “Sobre importâncias”:

Uma rã se achava importante
Porque o rio passava nas suas margens.
O rio não teria grande importância para a rã
Porque era o rio que estava ao pé dela.
Pois Pois.
Para um artista aquele ramo de luz sobre uma lata
desterrada no canto de uma rua, talvez para um
fotógrafo, aquele pingo de sol na lata seja mais
importante do que o esplendor do sol nos oceanos.
Pois Pois.
Em Roma, o que mais me chamou atenção foi um
prédio que ficava em frente das pombas.
O prédio era de estilo bizantino do século IX.
Colosso!
Mas eu achei as pombas mais importantes do que o
prédio.
Agora, hoje, eu vi um sabiá pousando na Cordilheira
dos Andes.
Achei o sabiá mais importante do que a Cordilheira
dos Andes.
O pessoal falou: seu olhar é distorcido.
Eu, por certo, não saberei medir a importância das
coisas: alguém sabe?
Eu só queria construir nadeiras para botar nas
minhas palavras.
(Barros, 2001, p.35).

Créditos: Viviane de Cássia Duarte Ferrari, Faculdade de Ciências e Letras/UNESP - Letras | André Luiz Portela Martins Filho, Mestre em Literatura Brasileira – UFRJ

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