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Um Amor Anarquista, de Miguel Sanches Neto

  • Data de publicação

Em Um Amor Anarquista, Miguel Sanches Neto conta, com incrível capacidade de persuasão, a história de um grupo de imigrantes italianos, que, no final do século XIX, na pequena cidade de Palmeira, no interior do Paraná, funda a Colônia Socialista Cecília, na qual tenta destruir o sistema tradicional da família e implantar o amor livre. Assunto que até hoje, passados tantos anos, permanece causando polêmica no Paraná.

O processo de pesquisa de Um Amor Anarquista deu-se atra´ves de pesquisas a partir de um arquivo montado por um médico paranaense, Cândido de Mello Neto, que levantou a história da Colônia Cecília por um interesse familiar. O Dr. Mello era descendente dos Artusi e queria conhecer mais sobre a vinda de seus antepassados e sobre a colônia, assunto até hoje meio silenciado nas famílias por conta do ineditismo da proposta. O autor visitou muitas vezes o local da Colônia e chegou a traduzir os textos de Giovanni Rossi (idealizador do projeto) sobre o Paraná. O livro chama-se A Colônia Cecília e outras utopias (Imprensa Oficial do Paraná, 2000). Foi uma convivência longa com o tema, desde 1994.

As principais dificuldades em se trabalhar a partir de um episódio histórico, e vertê-lo para a ficção, foram não fazer história, não defender uma tese. Ainda mais quando o tema é polêmico. O autor dedicou-se a este episódio com intenções literárias, sem nenhuma preocupação em defender ou refutar o anarquismo ou o socialismo. O que lhe chamou a atenção foi o drama humano vivido pelos personagens. Ele não pretendeu explicar historicamente os acontecimentos. Colocou os personagens em ação. Deu vida a eles, deu uma personalidade para cada um e deixou que eles se confrontassem com as alegrias e as tristezas de todo projeto utópico. Mais tristezas do que alegria, neste caso. Além desta dificuldade de fugir ao histórico, houve ainda o medo de cair numa linguagem caricata. A maior parte dos livros brasileiros que se passam no século XIX usa expressões de época, como o horroroso “vosmecê”. Miguel quis um livro com uma linguagem contemporânea, límpida. E se lembrou dos livros de Italo Calvino, como O barão nas árvores, em que os personagens viviam em séculos passados e falavam como um italiano moderno.

O que mais impressionou o autor na experiência anarquista da Cecília e que o levou a escrever este romance foi o amor livre praticado numa província brasileira, numa região agrícola, em fins do século XIX. Ele sentiu na hora que poderia contar toda a aventura da colônia a partir daquele casamento poliândrico, em que uma mulher recebia contemporaneamente mais de um homem. Era uma coisa tão avançada para a época que ainda hoje causa espanto. Agora, isso aconteceu em uma comunidade agrícola, composta principalmente por agricultores analfabetos, e no seio de uma região dominada pela colonização polonesa, que é extremamente católica e tradicional. Os italianos ateus, anarquistas e praticantes do amor livre caíram no meio dos polacos devotos. Tudo isso lhe chamou a atenção. E também o destino final de Giovanni Rossi, que volta para a Itália e termina seus dias com a mulher que lhe serviu como experiência sociológica, criando como sua a filha nascida dos amores livres na Colônia.

Do ponto de vista literário, o discurso de Um Amor Anarquista apresenta léxico comum, narrador onisciente na maior parte do tempo, índices entre capítulos sob forma de cartas, feedback inicial introduzindo uma ordem linear, herói hierarquicamente bem definido, elipse de anos no final, muitas lágrimas, muitas declarações de amor, muita fome e muitos sonhos. Pode-se dizer que é esta uma síntese do imigrante italiano: lágrimas, declarações, fome e sonhos.

A história, como já visto, se passa num tempo em que anarquismo ainda não era sinônimo de desordem. Giovanni Rossi, intelectual italiano, idealiza uma comunidade experimental na América do Sul, onde aplicaria os princípios socialistas não só à produção, mas também às relações pessoais e amorosas. Seria a primeira experiência do amor livre. O problema é que as poucas mulheres da colônia não estão dispostas a tal prática, e os solteiros têm urgência de amor. As casadas mantêm-se voluntariamente presas ao marido como se este fosse um patrão, os pais não aceitam que as filhas se percam numa vida insegura e errante, enquanto algumas meninas solteiras trocam favores sexuais por presentes, prática abominada por Rossi. A pobreza do lugar e o mau comportamento de alguns imigrantes são reflexos e conseqüência dessa falta de amor (na verdade, de sexo), enquanto o comportamento de pais e maridos em relação a suas mulheres se mostra uma incômoda evidência de que os princípios anarquistas ainda eram utopias distantes. E neste ambiente Rossi conhece Adele, uma italiana socialista, casada e disposta a quebrar preconceitos e adotar o amor livre, beneficiando justamente Rossi, por quem se apaixona.

A Colônia Cecília, pano de fundo para esta história de amor, existiu de fato entre os anos de 1890 e 1894 em Palmeira, cidade do Paraná, tornando-se célebre pela obra Anarquistas, Graças a Deus, de Zélia Gattai (filha de um dos fundadores da colônia). No entanto, diferentemente de Zélia, e também de Afonso Schmidt e Cândido de Mello Neto, o autor paranaense não volta à Colônia Cecília para resgatar valores anarquistas (como pode parecer pelo título e pela concepção da obra), mas sim para questionar a família sob a égide do amor livre. No passado, Escolina trocava marido e filho por noites de amor com Colli, sem deixar de amar Lorenzo e com consentimento deste. Hoje, enquanto num canto da cidade meninas bem arrumadas trocam de namorado a cada noite – ou casais lotam as casas de swing – noutro canto jovens bem sucedidos e com as lições capitalistas na ponta da língua fazem hora extra para enriquecer mais e pagar pelo conserto de seus carros importados com bancos de couro. Pelos pôneis da filha. Tudo em nome da família.

A pergunta “seria constrangedor não conhecer a paternidade de um filho que você viesse a ter?”, feita por Rossi a Adele, é, por isso, o ponto alto do livro, ou pelo menos a síntese de suas indagações. Aliás, do ponto de vista ideológico, o narrador não deixa muita margem para ilusões. Chega a afirmar: “era isso a vida, não deixava espaços para sonhos”. Para ele, a Colônia Cecília é uma alegoria semelhante à Nova Birobidjan, de Scliar, ou à Granja do Solar, de Orwell, onde os paradoxos e defeitos não só diminuem como eliminam as virtudes do ideal socialista.

Trecho da obra

Sobre uma banqueta de madeira, deixada ao lado de minha cama, estreita igual à dos demais solteiros, coloquei uma lata com flores silvestres, para que Jean Gelèac encontrasse ambiente agradável. Ele está com o grupo desde meados de 1891 e nunca teve mulheres, recusara o amor fácil de Narcisa, que mais espalhou a discórdia entre casados e solteiros do que amenizou a falta de fêmea. Tímido e jovem, um tanto romântico como sempre somos aos vinte anos, Gelèac tem se dedicado ao vício da virtude, resolvendo-se sozinho. Seu rosto está coberto de espinhas e, ao contrário dos homens casados, ou dos mais maduros, acostumados à solidão destas matas, ele tem a pele cor de papel e os olhos fundos, revelando ânsia de amor.

Falei seriamente com ele, estava precisando de mulher, e ele me disse que não, agüentava bem a vida na Colônia, mas bastava ver aquele rosto para perceber o quanto sofria. As mulheres casadas, mesmo se quisessem, e desgraçadamente elas não querem, não poderiam dar-lhe o carinho que merece. Decidi então compartilhar minha cama com ele.

Troquei também os lençóis — seria a primeira vez com uma mulher de verdade, e ele merecia algo bonito pelo que fizera à Colônia, por sua coragem e abnegação. Eu estava excitado por poder proporcionar aquele momento de amor.

Adele chegou quando a cama estava arrumada. Vinha com um de seus vestidos velhos, remendado na altura da barriga e ao lado da cintura, fino de tanto ser lavado, revelando o corpo miúdo, mas bem-feito, de mulher madura e saudável — esta saúde seria o remédio de Gelèac. Ela não estava nem expansiva nem acanhada, aproximou-se e me beijou na boca, numa entrega pacífica e silenciosa — senti sua pele fresca e os cabelos ainda úmidos do banho vespertino. Por um momento, tive vontade de ficar com ela no quarto, de trancar a porta de nossa casinha e convidá-la para se deitar; eu também me encontrava órfão de amor. Poderia ficar com ela até o amanhecer, não deixando ninguém tocar naquele corpo, mas este pensamento se desfez logo. Fui à janela e a fechei para que não entrassem pernilongos. Ela acendeu a lamparina pendurada na parede.

Créditos: Astier Basilio, jornalista do Correio das Artes da Paraíba | Marcelo Spalding, colunista do Digestivo Cultural

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