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Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira


Análise da obra

Obra de imaginação eficaz e rigorosa, o romance Uma abelha na chuva, de Carlos de Oliveira observa o mundo real através de tenso trabalho verbal iluminador do grande símbolo de tragédia e das referências simbólicas defluentes que alguma crítica encontra nas palavras tão autorais como são “paisagem” e “povoamento”.

Da sintaxe simbólica da tragédia com a luta gandarense (paisagem e povoamento, afinal), segue o livro o seu trajeto tenso de símbolos, como o afirmam os pares opositivos fogo / água, mel / cinzas, mel / tabaco, abelha / água, mel / chuva, fonte / rio ou mar / poço, com variações de significação de acordo com as representações e os momentos textuais.

O signo trágico assenta na utilização articulada de palavras-símbolo, assumindo cada uma as metamorfoses decorrentes da narrativa. A tragédia resulta da interação dos elementos que transformam o mel em fel, tudo arrastando para a corrosão e para as cinzas. Em paisagem cinérea, armadilhado o povoamento pelo destino trágico, a morte de Clara é decidida pela paixão e pela impossibilidade de ser fecunda num espaço dominado pela secura e pelo incontato. O mel cede ao fel e à "moeda de ouro", com a perfeição do círculo e o valor da perenidade, é também Jacinto, assim designado por onomástica significativa que convoca a perfeição, a beleza e a preciosidade. A morte anunciava-se desde há muito: o pisar das folhas caídas e a devoração desse “oiro” pelos vermes diziam já a morte de Jacinto, corpo jovem que foi bode expiatório de uma comunidade improdutiva e viciosa.

Afinal, o tempo dos senhores, numa narratividade cíclica feita da vacuidade dos serões e das crises conjugais de Álvaro e Maria dos Prazeres, esmaga o tempo dos dominados que progride para o aniquilamento. E nem assim cessa a esperança, a luta.

O código temporal do romance caracteriza-se pela linearidade da história e pelo ordenamento. A par, a conflitualidade e a frustração relacional propiciam o recurso à analepse (volta ao passado), que afirma através da imagem da água o primado da ancestralidade face a um tempo doloroso do presente de que conhecemos cerca de quatro dias. A constância dos fluxos aquáticos ao longo da obra, afinal, símbolo claro do fluir do tempo, traz consigo a imagem da irreversibilidade.

Portanto, o código temporal e o repertório simbólico de Uma abelha na chuva contribuem decisivamente para a unidade de uma das mais importantes obras da literatura portuguesa do século XX.

Este romance representa a assimilação sincrética da maioria dos temas versados antes, sem se desviar do humanitarismo socialista orientador de todas as obras de ficção do autor e do neo-realismo português em geral.

Como nos três romances anteriores, Uma abelha na chuva localiza-se na região da Gândara, nos arredores de Coimbra.

O romance tem como foco as trágicas conseqüências psico-sociais resultantes da união forçada entre a doente aristocracia da província e a burguesia rural.

Temos uma obra depurada de excessivo localismo, o que Carlos de Oliveira não conseguiu em nenhum outro romance.

A união de Maria e Silvestre representa o choque de duas classes integradas no contexto sócio-econômico da Gândara. Porém, a problemática interna destas personagens e as repercursões dessa problemática nas outras personagens da obra transcendem o pequeno mundo gandarês, sem por isso deixar de refleti-lo.

A opressão do pobre pelo rico, uma constante do neo-realismo português, ainda está presente neste livro. No entanto, agora é tratada com incomum maestria mediante o recurso a um apto simbolismo que se patenteia no título e percorre toda a obra, não só lhe conferindo um caráter transcendente, mas, como no caso do símbolo da chuva, contribuindo para a sua estrutura orgânica.

O romance quer demonstrar que não existe significativa mudança social que não produza sofrimento; e o pobre, devido à sua condição de subserviente e a certa ironia do destino, acaba sempre por ser a verdadeira vítima dos ódios e tragédias dos poderosos: um bode expiatório no verdadeiro sentido da frase. Nota-se que o motivo do sacrifício de vítimas inocentes percorre todo o romance. Mas até mesmo os próprios opressores são vitimados por desígnios de outrem ou por circunstâncias para além do seu próprio controle, embora a simpatia do narrador poucas vezes esteja com eles. É o caso de Maria dos Prazeres e até certo ponto de Álvaro. No fundo, e aqui se começa antever o caráter universalista do romance, não se trata de "uma", mas sim de um microcosmo de "abelhas" humanas na chuva.

Apesar de seus momentos de tragédia, Uma abelha na chuva deixa transparecer um tom de zombaria, principalmente na crítica à sociedade provinciana retratada no romance: o burguês abastado, proprietário de uma casa em que não tem onde dormir porque a mulher trancou a porta do quarto; dois assassinos trapalhões que têm medo de trovoadas e carregam para longe o corpo da vítima no meio de uma tempestade, quando poderiam tê-lo escondido em qualquer lugar; o aprendiz que, no momento de maior tensão, abandona o mestre para correr atrás de um burro; uma beata encarregada de vestir os anjos e a outra que lhe fornece asas, túnicas, sandálias e resplendores.

Simbologia

A abelha - o casal Álvaro / D. Maria dos Prazeres são identificados como “abelhas cegas obcecadas", tal como o são os seus amigos íntimos. Deste modo, encontra-se explicitamente posto em causa, pela via da simbolização, o equilíbrio de um estrato da sociedade (o dominante no microcosmos social deste romance) corrompido por força de uma aliança de interesses inconciliáveis, o que explica a amarga conclusão do Dr. Neto, de que, tendo ajudado, "anos e anos aquela obra de pintar e repintar, a colméia dos Silvestres" não atendera "a que lá dentro o enxame apodrecia". Portanto o símbolo da abelha serve, numa primeira utilização, para salientar, pela negativa, o que, de degradado e imperfeito existe num determinado nível social.

O mel - evoca a idéia de perfeição e de doçura e também o da transformação. Ao nível de Álvaro e D. Maria dos Prazeres "todos eles fabricam fel", é junto do par Jacinto / Clara que o mel (isto é, a doçura, a perfeição apoiada no tempo) é suscetível de ser encontrado: tanto a gravidez de Clara como os projetos de ambos e até o envolvimento espacial em que estes últimos são considerados apontam para um futuro de otimismo (ou seja, de doçura idêntica a do mel) que o decorrer do tempo social e histórico propiciará.

A água e a chuva - esta evoca globalmente o sentido da agressividade (relacionada com o tema da opressão). Agressividade, porque com a sua presença gera o desconforto das personagens e acentua os seus conflitos. A água é também fonte e rio. A fonte, enquanto imagem da água que jorra e corre da terra, evoca o passado recôndito que flui da memória de certas personagens. A fonte é imagem próxima da infância e quando se transforma em rio passa a evocar, com toda a nitidez, o escoar de um tempo que quanto mais afastado da infância mais conspurcado se apresenta. Mas quando está em causa o desfecho das relações Jacinto / Clara, a água é também mar e poço, cenários particulares, de morte que a ambos atinge. Quando Jacinto é lançado às águas do mar, a personagem acaba por penetrar no elemento que ao seu comportamento habitual convém: no mar, símbolo da dinâmica da vida, do seu movimento e constantes mutações, exatamente na linha do pensamento de Jacinto, enquanto personagem norteada pelo desejo de transformar o mundo pela medida dos seus projetos. E, para além de Clara, Jacinto fecunda sobretudo o movimento de revolta popular que estilhaça os vidros do casal marcado pelo estigma da infertilidade. A morte de Jacinto, encerrando um ciclo de vida individual abre (fecunda) um ciclo de vida coletivamente assumida.

Álvaro Silvestre / D. Maria dos Prazeres - passado; presente perdido; classe social ameaçada; morte do grupo improdutivo; destruição; opressão; vingança; solidão.

Jacinto / Clara - presente destruído; futuro alcançado; vitória do grupo produtivo; comunhão; semente promissora.

Aparentemente, o romance encerra com uma mensagem de pessimismo traduzida na eliminação daquela (Clara) que com o símbolo da abelha mais explicitamente se identifica; porque, com efeito, é ela que integra os sentidos da produtividade laboriosa e da fertilidade.

Os episódios finais do romance e a sua leitura simbólica clarificam o sentido do pessimismo. Abre-se a possibilidade de uma inversão de juízos, quando se conclui que entre a aparência (a colmeia repintada, isto é, a organização e compromissos sociais que sustentam, os Silvestres) e a realidade (o enxame apodrecido, ou seja, a existência social e psicológica degradada) a relação é de oposição. Por outro lado, aquilo que à primeira vista inculca destruição e morte pode finalmente não o significar:

"A abelha foi apanhada pela chuva..." A destruição da abelha não implica necessariamente a do enxame. Existe uma relação simbólica evidente entre abelha / Clara, atingida pela força destruidora da água, mas a morte de uma abelha isoladamente não só não compromete a sobrevivência e coesão social do enxame que a perdeu, como sobretudo faz dessa abelha semente de um processo de transformação da vida que evitará a existência de futuras abelhas na chuva.

Clara = abelha.

Uma abelha morre = ficam as outras.

Clara morre = ficam as outras pessoas.

A chuva = a classe opressora, a força da opressão.

Colmeia apodrecida = colmeia morta = classe social a desaparecer.

Colmeia verde = cidade verde = esperança na vitória = a consciência do povo desperta preparada para a luta.

As Abelhas - simbolizam as "trabalhadoras disciplinadas e incansáveis". Asseguram a continuidade da espécie ao trabalharem para a colmeia fazendo o mel. A colméia remete para o lar, para a casa que simboliza a concha, o bem-estar a proteção.

Em oposição às abelhas temos o casal Álvaro Silvestre e Maria dos Prazeres (esta referência é feita por Dr. Neto), que diz "todos eles fabricam fel; abelhas cegas, obcecadas". As abelhas cegas remetem para o único objetivo deste casal que são os interesses econômicos que os levam "a roubar ao balcão, nas feiras, nas soldadas dos trabalhadores e na legítima de meu irmão", confissão. A abelha obcecada serve para vincar o que de negativo e imperfeito existe porque uma abelha cega não é útil para a colméia. Este casal também não é útil à sociedade porque para além de todos estes defeitos não asseguram a perenidade, a continuidade do nome e da riqueza pois é um casal infértil. Ainda, através de Dr. Neto, este diz que ajudou "anos e anos, aquela obra de pintar e repintar, a colméia dos Silvestres, sem atender a que lá dentro o enxame apodrecia".

A colméia remete para o lar, para a casa que simboliza a concha, o bem-estar a proteção que são sensações que não existem na casa dos Silvestres porque se vive num ambiente degradado, corrompido perverso, sendo que este último se afigura na personagem de Álvaro quando veio avisar o mestre Antônio. O ambiente da casa dos Silvestres é tão viciado que não pode produzir nada de bom. Por tudo isto são o oposto das abelhas pois não há equilíbrio na sua casa e só produzem fel.

Comparação as abelhas - Clara que juntamente com Jacinto forma um casal equilibrado onde reina a harmonia, tal como na colméia. Jacinto tem o nome da flor da qual Clara se alimenta para produzir mel, o filho. O zangão é Jacinto que após a cópula com a abelha, morre. No último capítulo, a referência é a de que a abelha foi apanhada por uma chuva forte, da qual não consegue sair ou abrigar-se pelo que tentou debater-se, mas acabou por morrer. Tudo estava contra ela, por isso não conseguiu defender, era uma luta injusta.

Dr. Neto também tem todas as qualidades da abelha, além de ser ele próprio apicultor.

A água - A chuva é o sinônimo de agressividade no ambiente social e está presente nos conflitos pessoais e nos momentos mais importantes da ação. Nos momentos de grande desconforto, de grande tensão, a chuva está patente, aumenta a sua densidade consoante o conflito está acentuado.

A fonte quando a água jorra e corre da terra simboliza a evocação de memórias do passado: quando Álvaro Silvestre recorda a sua infância como refúgio; um tempo de bem-estar por oposição ao desconforto do presente. Para Maria dos Prazeres a fonte é também a imagem do passado, mas depois torna-se num rio.

O mar é o espaço para onde o corpo de jacinto é atirado. Simboliza a dinâmica da vida, pelos seus movimentos de ondas, e Jacinto acaba por ter um fim que se enquadra na dinâmica que era a sua vida, repleta de projetos por concretizar.

Do poço se recolhe a água que é vida, sendo por isso um espaço de origem da vida. No entanto, Clara atira-se ao poço, acabando por provocar-lhe a morte, como se fosse castigada pela ousadia de projetar uma outra vida sem o apoio do seu pai.

Os Nomes

Álvaro Silvestre: pelo fato de ser curto revela que não tem linhagem. Álvaro vem de "alvo" que significa branco, puro, honesto e virtuoso. Silvestre significa que é próprio da selva, que é selvagem, bravio, agreste e inculto.

Maria dos Prazeres Pessoa de Alva Sancho... Silvestre: o seu nome extenso representa a sua linhagem. Prazeres só mentais.

Tempo

A cronologia da ação concentra-se em cerca de três dias. Este fato, porém, não deve induzir-nos ao erro, já que, se materialmente o tempo da ação é reduzido, em dois outros aspectos ele apresenta-se mais dilatado. Em termos históricos, na medida em que a analepse projeta muitas vezes as ações do passado sobre as do presente. Em termos psicológicos, porque a focalização interna sujeita os eventos às vivências das personagens cuja óptica comanda a representação narrativa. Este tempo revela-se, pois, muito mais extenso devido às inúmeras evocações do passado.

1º Período: entre as cinco horas de uma quinta-feira do mês de Outubro (cap. I) e a manhã do dia seguinte (cap. XVI).

2° Período: duração de 24 horas do dia de sexta-feira (cap. XVI - XXVI)

3° Período: o dia de sábado até o amanhecer de domingo (cap. XXVII - XXXV)

A cena dialogada instaura um tempo discursivo isocrônico e surge quando se apresentam ações ligadas aos momentos de confronto entre as personagens, às reflexões que originam monólogos, aos serões e à preparação e consumação do assassínio de Jacinto. A cena dialogada põe a nu, muitas vezes, a incomunicabilidade entre as personagens.

O tempo psicológico diz respeito ao modo como as personagens do romance vivem o passar do tempo. As analepses traduzem uma vivência interior por parte das personagens que refugiando-se no passado, fogem a um presente insuportável.

Espaço

Geograficamente, a ação é localizada com alguma precisão. As localidades referidas no romance, como Montouro, S. Caetano e Fonterrada localiza-se na região de Cantanhede, na zona litoral do distrito de Coimbra.

O espaço interior é o quarto do casal Álvaro Silvestre / D. Maria dos Prazeres e o palheiro onde se passam os amores de Jacinto e Clara.

A tese do romance pode sintetizar-se assim: não existe uma significativa mudança social que não produza sofrimento; e o pobre, devido à sua condição de subserviente, acaba por ser a verdadeira vítima dos ódios e tragédias dos poderosos.

O espaço psicológico manifesta-se através do monólogo interior de algumas personagens, revelando-se, assim, os conflitos vividos pelos protagonistas na sua consciência.

Narração

A representação da história é conduzida por um narrador onisciente, capaz de penetrar no universo psicológico, social e cultural que determina o comportamento das personagens, e principalmente pela utilização da focalização interna, isto é, concedendo um papel dominante à perspectiva subjetiva e parcial que as personagens têm da própria história.

A focalização interna (ou seja, a representação da história através do ponto de vista de uma ou mais personagens), aquela que o narrador utiliza de modo mais insistente; a focalização onisciente, como processo de vigência de uma visão (a do narrador) transcendente à história, é concedida uma função meramente acessória; a focalização externa, na condição de modo de apresentação do exterior de personagens e eventos, apenas esporadicamente surge atualizada como signo da representação.

Quando abre a narrativa, é em focalização externa que é apresentada a personagem em ação: "Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois de árdua jornada...". Para além desta referência outra surge no capítulo XIII que serve para apresentar uma outra personagem: "...saltou da boleia para receber as ordens da dona da charrete, uma senhora pálida, de meia idade, agasalhada num xaile de lã e com manta de viagem enrolada nas pernas: — Perguntem no café se o viram."

Além destas duas ocorrências, pode dizer-se que não mais se repete o recurso à focalização externa, como processo representativo autônomo.

Ação

A ação principal está intimamente ligada à ação secundária, sendo esta emocional e evidentemente trágica, ao passo que aquela é física, surdamente dramática.

A ação principal apresenta as relações impossíveis e altamente conflituosas de D. Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre; a ação secundária é constituída pelo amor de Jacinto e Clara, violentamente truncado. Por esta razão, é na ação secundária que surpreendemos uma intriga com uma série de acontecimentos encadeados de forma casual e com um desfecho sem retorno: diremos, então, que estamos perante uma ação fechada.

Quanto à ação principal, é aberta, porquanto, retratando retalhos de vida, não nos aponta solução nenhuma para as personagens.

Neste aspecto, Uma abelha na chuva integra-se perfeitamente na tradição geral do romance neo-realista português, refletindo cenários sociais e históricos que não apresentam uma ação completa, mas «fatias» de vidas acidentadas.

Na ação principal marcada por momentos arrastados, se encontra de forma bem evidente uma caracterização social e psicológica; com efeito, se nos detivermos nos capítulos VII - X e XXXII - XXXIV, verificaremos que estes dois serões se seguem, respectivamente, ao denso episódio na redação do jornal e subseqüente viagem e à morte do Jacinto e subseqüente manifestação popular. E verificaremos que é durante esses serões que há um esboço de convívio social onde se discutem acontecimentos e aspectos "lá de fora", assim como se revelam características das personagens secundárias. Mesmo assim, essa espécie de conforto momentâneo "a quebreira do lume, o rumor insistente da chuva pela noite, a comodidade das cadeiras de braços bem almofadas" não são suficientes para amenizar sequer as tensões que dominam os donos da casa. Mesmo no desenrolar desses serões saltam fagulhas de revolta ou de fúria, reflexo do sofrimento contido no peito dos protagonistas, como quando Álvaro Silvestre reflete sobre a morte:

...os outros regressam a casa e eu para ali fico, sufocado, sozinho, a morrer outra vez, porque via tudo isso como se as coisas se passassem e ele com consciência, como se ouvisse o rumor da noite em que o velavam o latim do padre Abel no cemitério, as pazadas de terra a cair no caixão, o fervilhar irreparável dos vermes.
Atirou-se ao brandy para não gritar.

Ou quando se dá de conta, finalmente, que na sua vida chegou a um beco sem saída:

Caminhou para a porta, oscilando tanto que parecia aluir a cada passo, e desatou aos gritos, sem ninguém saber se pedia ou protestava: Onde é que há brandy nesta casa? Onde é que há brandy nesta casa?

É a estes momentos de prolongamento da ação, em que tudo parece parado no tempo, que chamamos catálises, onde há ao mesmo tempo uma caracterização social e psicológica.

Pelo contrário, há todo um conjunto de seqüências onde impera o movimento, isto é, a dinâmica dos acontecimentos. Observando atentamente esta extensa parte de Uma abelha na Chuva, podemos verificar que elas constituem unidades estruturais bem equilibradas, uma vez que a sua extensão é relativamente idêntica; vejamos então que as três etapas que determinam a constituição da ação secundária se encontram distribuídas de forma harmoniosa, como se pode ver nos capítulos XVII - XX (correspondem aos indícios), nos capítulos XXI - XVI (correspondem as conseqüências).

Na ação desta obra podemos também analisar o sentido genérico que as seqüências manifestam, sendo este sentido o da violência, revelado, contudo, de forma variadas. É assim que, em várias seqüências, essa violência se revela eminentemente física: a "agressão" de que são objeto os quadros da família Alva por parte de Álvaro Silvestre (Cap. XIII), tendo uma dimensão simbólica, não deixa de pertencer a mesma linha que o assassinato de Jacinto ou o suicídio de Clara, assumindo sempre essa violência o sinal do deflagrar de irreprimíveis conflitos de raiz psicológica e social. Por outro lado, há outras sequências que se integram também, embora de forma indireta, em situações violentas, como é o caso da seqüência inicial em que a aversão contida nos sentimentos dos protagonistas "estala" no estranho diálogo entre ambos e o diretor do jornal.

O jornalista aproveitou para mudar de conversa:
— Forte aguaceiro. Estala.
Álvaro Silvestre anuiu logo:
— Boa bátega, sim senhor.
Só ela preferiu continuar a bater no mesmo prego:
— A boa bátega que te podia ter apanhado no caminho. Já pensaste nisso?
Fechou os olhos de puro desalento: cala-te, Maria, cala-te.

Podemos compreender finalmente que a violência de sentimentos entre o casal é transferida para a chuvarada que se abate sobre Corgos, do mesmo modo que, no capítulo VI, quando D. Maria dos Prazeres chicoteia a égua, esta não é o seu verdadeiro destinatário, mas o marido, que cochila a seu lado. Essa mesma violência revolve-se no interior dos protagonistas, sem se revelar exteriormente, quando Silvestre surpreende o diálogo entre Jacinto e Clara ou quando é atormentado pelo sentimento de culpa que resulta da denúncia feita ao pai da rapariga.

Personagens

Certas personagens de Uma abelha na chuva parecem ter sido inspiradas por pequenos fidalgos, padres, sacristães, beatas, lavradores, barbeiros, camponeses, criados, cegos, em que não é difícil reconhecer traços de Maria dos Prazeres, Padre Abel, do sacristão Antunes, do lavrador Álvaro Silvestre, do cocheiro Jacinto e de mestre António, o santeiro cego, entre outros.

Na tensa atmosfera do romance, predominam as relações de opressão que muitas vezes se manifestam através dos "expedientes, espertezas, graças, truculências" de que o ser humano lança mão a fim de garantir seu domínio sobre os demais: "A alma humana posta a nu e meio mundo a enganar o outro meio", como observou o autor, Carlos de Oliveira.

Personagens da ação principal

D. Maria dos Prazeres

Álvaro Silvestre

Dr. Neto

D. Violante

Nesta ação destaca-se as relações de antagonismos entre D. Maria dos Prazeres e Álvaro Silvestre, enquadradas pelos dois pares de personagens que com estas coexistem: Dr. Neto e D. Violante.

O Dr. Neto é apresentado pelo narrador, caracterizando-o de modo direto, isto é, dando sobre ele informações mesmo antes de ele aparecer (cap. IX). Ficamos sabendo então que o Dr. Neto "amava a realidade e só daí é que partia para as abstrações"; era um observador materialista, até para explicar a sua atitude virtualmente amorosa em relação à D. Cláudia, de que afirmava: "Sou um heredo-sifilítico; a D. Cláudia, uma constituição linfática, fragilíssima; pois bem, casamo-nos, e depois que filhos deitaremos ao mundo?".

Mas o Dr. Neto não se fixava apenas no concreto. De acordo com a tradicional e universal leitura simbólica dos povos, o médico via no mel o simbolismo da perfeição suprema, o símbolo daquilo que a vida pode produzir de belo e saboroso. Mas ele não é só o apaixonado pelas abelhas e o seu trabalho, é também médico "atascado até ao pescoço na vida de Montouro", o agricultor que "sabia bem o que custava uma espiga de milho, aos homens e à terra". Esta é, incontestavelmente, uma descrição de personagem na linha neo-realista: o narrador que tudo sabe informa sobre a dureza do trabalho da terra, do trabalho da própria terra no seu processo de germinação e o trabalho intenso das abelhas na fabricação do mel. Embora no romance não se fale das relações de trabalho numa análise um pouco mais profunda, essas relações são nítidas quando colocamos a obra no tempo da sua produção (1953), fazendo-a assim desempenhar uma função social que não deixou, na época, de despertar a censura política.

Quanto a D. Claudia, pouco há a dizer que o narrador não tenha dito já:

Pálida e medrosa... a D. Cláudia temia a natureza, a chuva, o sol, o mar, o vento, ignorava as flores... E a própria vida humana, as relações sociais, os pequenos equívocos da convivência, as conversas mais acaloradas assustavam-na.

Pode-se dizer que ela pedia desculpa à vida por estar viva e tudo nela era fantasia e irrealidade. Por isso, "ia protelando o casamento e o Dr. Neto concordava". Também as relações entre o padre Abel e D. Violante se traduziam em termos de incompatibilidade não evidente. No aspecto físico, como se fosse um indício de algo que não pretende ser conhecido, estes "dois irmãos" não têm qualquer semelhança, como nos diz o narrador no capítulo VII.

A criada abriu a porta que dava para o pátio por uma escadaria lateral de pedra e a D. Violante e o padre Abel entraram. Parecidos como um ovo com um aspecto. Sempre os via juntos, ela maciça e baixa, o padre esgrouviado, D. Maria dos Prazeres tinha um sorriso de dúvida: realmente... ninguém dirá que são irmãos.

Para além da diferença física, também temos que levar em conta o murmurar da sociedade em que estas personagens se inserem e que sobre elas exerce a suspeita de que vivem em como amantes:

As beatas de Montouro garantiam... e embora lhe tivessem perdoado a ele há muito, reservavam ainda a D. Violante um ódio velho... chamavam-lhe a irmã do padre, num sublinhar irônico do parentesco que deixava em aberto as suposições mais escabrosas.

Vemos então que é real o antagonismo interpretado pelos dois pares que envolvem Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres, embora ele se expresse apenas em termos estáticos, uma vez que surge formulado quase sempre de modo descritivo, revelado apenas como enquadramento dos conflitos vividos pelos protagonistas, a estas personagens não pode caber obviamente uma função tão atuante como a que é própria do casal Álvaro Silvestre e D. Maria dos Prazeres:

...hei-de aturar-te até ao fim da vida, até que Deus me leve deste inferno que é a tua casa. Tenho nojo de ti, nojo, entendeste bem?

"Até ao fim da vida" é uma eternidade, a eternidade do tempo quando a vida transporta essa marca indelével de inferno que é o casamento para uma católica como Maria dos Prazeres, efetivamente, a casa de Álvaro é o inferno, ao contrário de uma verdadeira casa, tranqüilizadora, protetora, local de refúgio, reconfortante, nada que se assemelhe à descrição do inferno.

O espaço onde vivem estes dois seres não tem qualquer semelhança com uma casa. Sabemos bem por meio da analepse que surge logo no início, numa gradação sugestiva, o processo interior em que ela recorda a entrada no inferno da casa de Álvaro Silvestre:

Primeiro. A fonte brotou ténuamente, muito ao longe, na infância, depois, a agua mansa turvou-se ao longo do caminho, do tempo, com o lixo que lhe forma atirando das margens, agora é cachoante, escura, desesperada.

Nesse recordar, os bens da família Alva foram "levados pela voragem". Para a personagem contam somente os fatos que a afetam; o que subjaz ou simplesmente ultrapassa os fatos não lhe interessa. É aí que o narrador assume um papel atuante, tentando veicular idéias, à maneira neo-realista. Por isso, ao longo do tempo, a transformação realizou-se: uma classe deu lugar a outra e a sua compatibilização é impossível. A luta, no casal Silvestre, mantém-se, a nível pessoal e social: é a luta entre a aristocracia e a burguesia.

Para Maria dos Prazeres, o próprio calor físico é importante; mas também não tem mais esse calor físico e afetivo. Tem agora o quarto frio, o do inferno, da casa de Álvaro, pois que:

A casa, toda ela, gelava... No escritório do marido, na sala de jantar, fora possível conseguir um mínimo de aconchego.. No quarto não...

Dr. Neto, o médico "conhecia bem o inferno que era a vida dos Silvestres. É visível esse inferno logo no primeiro serão, em que Álvaro Silvestre afundou-se nos almofadões da cadeira de verga, ao pé do lume. Tinha o brandy à mão" (cap. VIII).

À medida que o tempo do serão vai passando, Álvaro bebe cada vez mais sob o olhar de desprezo da mulher "até ao brusco despejar do brandy na garganta". Com a chegada o Dr. Neto (cap. X), revela-se outro aspecto do caráter de Álvaro, pela pena onisciente do narrador: "a morte é perder as terras, a loja, o dinheiro, para sempre; e apodrecer, devorado pelos vermes... atirou-se ao brandy para não gritar." E até ao fim do romance a aguardente está presente como o próprio Silvestre, tornando-o cada vez mais alheio ao que o rodeia, mas, ao mesmo tempo, mortificado por todos os fantasmas que o habitam e o destroem. Por isso, é "uma concha de silêncio" (cap. III) perante a mulher, quando ela o apanha no escritório do jornal, prestes a acusá-la do roubo dos pinhais de Leopoldino; mas é também um obcecado quando (cap. XI), terminado o serão, "poisou o castiçal na secretária e... preparava-se para os dois problemas que tinha a resolver": a construção de um jazigo que o impedisse de ficar solitário na terra e a desculpa que teria que dar ao irmão pela venda fraudulenta dos pinhais.

No capítulo XXX, esse silêncio faz-se voz quando Maria dos Prazeres chega perto dele com um frasco de amoníaco ao nariz para o tirar do torpor em que o álcool o deixou. Irritaram-se, insultaram-se, tentando Álvaro subestimar a origem aristocrática da mulher. "Quem é que está bêbado, sua fidalga de trampa?... Muito Conde, muita léria, mas há vinte anos que me comes as sopas", enquanto esta o reduz à categoria de cocheiro merecedor de levar chicotadas: "Os cocheiros conhecem-se bem pelas palavras."

Há momentos em que um relâmpago de luz desperta em Álvaro, quando perante o insulto da mulher, ele pensa: "Como é possível... Ela está a insultar-me, mas eu amo-a, apesar de tudo, amo-a tanto... que..." E, quanto a Maria, há momentos em que uns laivos de remorso parecem lamentar que tudo seja desta forma: "Nunca lhe estendi a mão para um pouco de compreensão recíproca" (cap. VIII).

Afinal, que ódio terrível os une que não deixou vir á superfície um sentimento que poderia nunca os ter separado?

No consultório quando o último doente saiu, o Dr. Neto encostou-se á janela e enrolou o cigarro. Também ele tinha ajudado, anos e anos, aquela obra de pintar, repintar, a colmeia dos Silvestres, sem atender a que lá dentro o enxame apodrecia.

Personagens da ação secundária

Clara

Jacinto

Clara, filha de mestre Antônio, é uma jovem saudável, bonita, apaixonada por Jacinto, o cocheiro dos Silvestre, aquele que D. Maria dos Prazeres vê como "uma moeda de oiro, rebrilhando à luz do sol".

É num dos encontros entre ambos que se ficamos sabendo que a jovem espera um filho do namorado, que, no entanto, parece sinceramente apaixonado e quer casar com ela. Esse casamento também não é fácil realizar-se uma vez que o pai da moça vê na filha a sua única possibilidade de sair da miséria em que tem vivido, casando-a, (vendendo-a), a um lavrador abastado que a "compre" pela sua beleza.

No cap. XV ficamos sabendo que Álvaro Silvestre ouve o diálogo entre os dois jovens e que, subitamente, um raio fere de morte os seus ouvidos: o nome de sua mulher é pronunciado com ironia e resquícios de ciúme, respectivamente por Jacinto, que refere o olhar cobiçoso com que a patroa o olha, e por Clara, que vê na "outra" uma potencial inimiga...

Mas o jovem par, desconhecedor do que se passa fora do palheiro, continua suas promessas de amor, aprontando uma fuga que impeça as ameaças do velho pai e que, ao mesmo tempo, revela a força que o amor e otimismo pode imprimir em quem o sente.

Os dois jovens representam, pois, a coragem de lutar por aquilo em que acreditam e a confiança total na sua capacidade de realização.

António

Marcelo

O capítulo XVIII é uma espécie de separação entre as personagens. É neste capítulo que Álvaro Silvestre, envolto no nevoeiro dos seus remorsos, dos seus fantasmas, das suas fraquezas, parece recobrar ainda forças para tentar libertar-se delas através de um sentimento finamente centralizado em alguém que está à sua mercê: a vingança.

Não é a primeira vez que o assalta tal sentimento, que, contudo nunca é posto em prática pelo medo, medo quase irracional que sente de D. Maria dos Prazeres, contra quem não ousa frontalmente levantar-se, a não ser pontualmente, pela injúria do álcool.

É possível ferir de morte a mulher, destruindo-lhe o encanto dos seus olhos: destruir Jacinto é um meio de dar algum sossego à sua alma, libertando de vez os demônios que o enlouquecem. O retrato do pai parece até acicatá-lo com o seu sorriso, meio irônico, meio repreensivo, e voltam à memória saturada do lavrador farrapos de conversas, sobras de bofetadas que o pai lhe dava para o fazer agir, lutar pela vida. Pois está decidido: "Concentrou no ruivo toda a força do seu pensamento... Nem mais, Álvaro Silvestre".

A partir do capítulo XVIII toda a tragédia se precipita rapidamente: pôs em prática o seu plano, pela primeira vez na vida com decisão, chamou o cego António, contou-lhe da "sangria desatada" pôs-lhe a "pulga atrás da orelha", e a sua filha e o meu cocheiro estavam deitados na palha do curral onde vossemecê recolhe o gado.

Agitando agora o velho Antônio, ensimesmado nos seus pensamentos, durante o dia, propondo sem quê nem porquê a filha ao seu ajudante Marcelo, a troca de ajuda num plano que o rapaz não entende, ainda... mas que, só de sonhar a recompensa, lhe parece milagre, sabendo como sabe quais os desejos do mestre em casar a filha com um lavrador abastado, Marcelo porém saberá o preço que terá de pagar para ter Clara e mesmo quando, num momento bem curto, pensa que "é uma sobra quase indistinta", logo se decide porque "custa menos a ferir que um homem verdadeira à luz do dia". Em última análise, o que toma verdadeiros significado no fim do capítulo XXIV é o diálogo:

E a rapariga? Ainda é minha?
Arreia-lhe e veremos.
[...]
Acertaste-lhe?
Agora tem de ma dar.
Acertaste-lhe ou não?
Tem de ma dar, mestre António...

Aqui pode notar-se a insistência, preocupada de Marcelo que revela um objetivo bem definido dos dois homens, levando-os no entanto a caminhos diferentes. O capítulo XXV é terrível, pela sua condensação: terminado o crime, quando Marcelo julga alcançar a mulher amada, mestre Antônio, embora sem mais explicações, diz uma frase lapidar: "Julgo que a perdeste." (será que o velho tem a percepção do destino imediato da filha, face à tragédia que acaba de cair sobre ela?...)

O povo de Montouro

Este povo, com o regedor à frente "como demônios irritados", revela a exaltação, "vozes desmedidas embatiam nas paredes". Perante esta nova situação, a fragilidade de Álvaro Silvestre revela-se em toda a sua natureza: apavorado, descontrolado, vê-se confrontado com a cólera popular em quem ele vê o carrasco do seu crime: a denúncia a mestre Antônio. E, uma vez mais, Maria dos Prazeres se agiganta na sua inquebrantável altivez, falando tão duramente à população que esta se acovarda e vai saindo, aos poucos, "às golfadas" (cap. XXX). Os capítulos finais dão-nos conta da ação secundária no seu fechamento (assassínio de Jacinto e suicídio de Clara) e da ação principal na sua continuidade: tudo vai servir para perseguir alguns dos populares como o regedor "uma autoridade que permite tais desmandos não é autoridade não é nada" e Antunes "...e o sangue do Antunes é ruim" e considerar o povo como um atentado permanente ao bem-estar da "gente de bem", à moral, à família... consignado na frase "Mancebia, arruaças, assassínio" proferida por uma das personagens das relações de Maria dos Prazeres. A conversa retoma os aspectos habituais, como se tudo se cumprisse num círculo, e a apatia de Álvaro Silvestre é, de súbito, perturbada pela revolta que se vaza no desejo louco de beber; "onde é que há brandy nesta casa? Onde é que há brandy nesta casa?" (cap. XXXIV).

Só o Dr. Neto se sensibiliza perante a sorte de Clara, que salvara em pequena e que agora nada pode impedir da desdita total. E quando, perante a afogada, reconhece a sua impotência perante a injustiça dos homens e de Deus, não é capaz de desistir, "mas continuou até o suor lhe correr pela cara. E as lágrimas também, apesar da sua velha convivência com a morte".

Texto parcial proveniente de apontamentos do Prof. António Melo

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