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Uma amizade sincera (Conto das obras Felicidade clandestina e A legião estrangeira), de Clarice Lispector


Neste conto, a história incomoda porque obriga ver a amizade como um desconforto: o cotidiano de dois amigos, as confidências, a partilha das coisas banais da convivência são um fardo que ambos suportam pela amizade. Os momentos mais tipicamente valorizados na amizade convencional, a confidência e a solidariedade, são marcados negativamente pelo narrador, que os relata com uma carga latente de ironia; os momentos ruis, aqueles que normalmente se evitam, como o esgotamento de ter o que dizer ao outro e a presença incômoda, quase indesejada, a denunciar a solidão, são, por seu turno, os mais valorizados.

O enredo funciona de modo inverso ao do conto "Os obedientes": a amizade sincera é aquela que não pode continuar sendo; a perda, a despedida, não é resultado de desafeto, mas, ao contrário, conseqüência de um afeto intenso. O sentimento de doação e cumplicidade de dois amigos é tal que empresta à amizade um ar de homossexualismo, que o narrador faz questão de negar, contando o episódio em que fica noivo. Do ponto de vista de senso comum, esta seria a amizade que "não deu certo".

Uma leitura tranqüilizadora deste conto tende a negar a afirmação final do narrador de que eram "amigos sinceros". Esta "amizade" seria exagerada, muito exigente e egoísta ("se eles cedessem cada qual um pouquinho, dava pra continuar amigos").

Os dois amigos não são nomeados. O tempo é cronológico, não determinado. A narrativa em primeira pessoa, com onisciência parcial, segue a estrutura tradicional do enredo (início – meio – fim) e nos é contada depois dos fatos terem acontecidos. O espeço é urbano, não determinado.

Este conto tem duas características fundamentais: a originalidade do estilo e a profundidade psicológica no enfoque de temas aparentemente banais. A linha condutora é a estória de uma amizade que vai se desgastando com o tempo e a convivência acentuada. Através da consciência do narrador, é revelada ao leitor uma dimensão humana profunda e poética, de forma simples.

A narrativa, cheia de digressões (que fazem lembrar o estilo machadiano), vai além da descrição realista de um cotidiano inexpressivo, questiona os valores universais do ser humano. Seu estilo caracteriza-se pela ausência de retórica (discursos eloqüentes) e sem melodramas (impactos emocionais), o interior das personagens vai aparecendo e sensibilizando (é o que chamamos de epifânia).

O narrador conheceu um colega de escola no último ano de estudo. Desde então, tornaram-se amigos inseparáveis. Quando não estavam conversando pessoalmente, falavam-se pelo telefone.

A partir de certo momento, os assuntos começaram a faltar. Às vezes, marcavam encontro e, juntos, não tinham sobre o que conversar. Calados, logo logo se despediam e, ao chegar cada qual em sua casa, a solidão batia mais forte.

A família do narrador mudou-se para São Paulo e ele, então, ficou no apartamento dos pais. O amigo morava sozinho, pois seus parentes ficaram no Piauí. A convite do outro, dividiram o mesmo apartamento. Ficaram alegres, porém instalou-se a falta de assunto. Só tinham amizade e mais nada. Tentaram organizar umas farras no apartamento, contudo a vizinhança reclamou.

As férias foram angustiantes. A solidão de um ao lado do outro era incômoda demais. Quando o amigo teve uma pequena questão com a Prefeitura, o narrador fez disso pretexto para uma intensa movimentação, assumiu cuidar de toda a documentação exigida. No fim do dia os dois tinham assunto, pois exageravam as palavras no comentário de detalhes de pouca importância. Foi então que o narrador entendeu por que os namorados se presenteiam, por que marido e mulher cuidam um do outro e por que as mães multiplicam o zelo pelos filhos. É para terem oportunidade de ceder a alma um ao outro.

Resolvida a questão com a Prefeitura, os dois arrumaram falsas justificativas de viajarem sós para estar com as respectivas famílias. Sabiam que nunca mais se reveriam. “Mais que isso", conclui o narrador, "que não queríamos nos rever. E sabíamos também que éramos amigos. Amigos sinceros.”

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