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Uma vida em segredo, de Autran Dourado


Uma Vida em Segredo representou, na obra de Autran Dourado, mais um desafio: o de trazer ao primeiro plano da narrativa o retrato psicológico de Biela, personagem ingênua e primitiva, apegada às suas raízes roceiras, e com uma vida interior bastante complexa - conquanto externamente pareça simples, até simplória.

Autran Dourado conseguiu fazer da humilde Biela, com sua canastra e jeitos acanhados, uma personagem que penetra fundo no coração dos leitores e se torna inesquecível.

O narrador evidencia a simplicidade, o desapego aos bens matérias de Biela e através do fluxo de consciência, recurso utilizado por Autran Dourado, é mostrada a inadaptação da personagem ao espaço urbano. Pode-se concluir que a personagem teve a vida desperdiçada devido à sua criação, mas o verdadeiro segredo só ela realmente conhece.

Uma vida em segredo é uma novela onde o escritor discorre sobre a gente simplória do interior das Minas Gerais.

A protagonista

Figura de grandeza franciscana, Biela é sobretudo o símbolo de um mundo que é pobre, rude e coitado só para quem se detém na superfície das coisas. Ela tem em si a Graça dos "pobres de espírito", para ficar nos termos do catolicismo que, afinal, é a religião onipresente da pequena cidade. É quase detentora de uma santidade tão mais crível porque em tudo e por tudo despremeditada, inconsciente.

Guarda como absoluto tesouro suas lembranças da roça: o barulho de um monjolo, a voz da mãe, o canto dos passarinhos. É seu foco de resistência a um mundo infamiliar, hostil. Interiormente, Biela é muito mais viva e interessante que toda a sua família citadina, convencional à medula. Ela é, na verdade, a portadora das chaves de um reino paradisíaco escondido por um atavismo de acanhamento, de rudeza, de simplicidade pouco cativante. Sua "vida em segredo" é a vida de quem é obstinadamente fiel a si mesmo e por isso tem direito ao Paraíso, já está nele, mesmo sem sabê-lo e até principalmente porque não o sabe.

Enredo

Uma Vida em Segredo, conta a história da moça Biela, que, depois da morte do pai e já órfã de mãe, é obrigada a deixar sua terra, a Fazenda do Fundão, para morar na cidade, em casa de parentes.

Centrado na figura da prima Biela, o enredo elucida os dramas morais e psicológicos da moça feia que cresceu na roça e mudou-se para a cidade após a morte do pai. Reprimida, ela transforma seus desejos em reclusão voluntária. Após a morte de seu pai, a jovem Biela, de 17 anos, passa a morar com Conrado, seu primo, que a leva para viver junto com sua família em uma pequena cidade. A vida de Biela acontecia no mais profundo silêncio.

A chegada de Biela à casa dos primos dá o tom ao livro: ela fica paralizada na porta, não consegue me mexer, ou se manifestar. Constança a pega pelo braço, a leva para o centro da família e começa a falar sem parar, fazer planos e perguntar da viagem. Quanto menos Biela fala, mais Constança tagarela; quanto mais Constança tagarela, mais Biela fica intimidada de falar qualquer coisa.

Constança, esposa de Conrado, busca adaptar Biela a uma vida social de acordo com as posses da família e para tanto encomenda vestidos ricos e a ensina a se portar como uma jovem educada e rica. Biela, por seu lado, sentindo a afeição genuína da prima, tenta se deixar moldar e se adaptar àquele novo ambiente. Biela é coerente, fiel a si mesma, uma personagem densa e intimista, que aceita a imposição do destino, mas à sua maneira.

Extremamente calada e retraída, Biela afunda mais e mais dentro de si mesma. Por fim, é pedida em casamento pelo filho de um dos fazendeiros da região. O rapaz é um bom partido e Biela aceita somente por insistência de Constança. Entretanto, pouco antes da cerimônia, o noivo foge.

Depois disso, Biela rompe de vez com o mundo externo. Afasta-se da família, vai dormir em um quarto nos fundos da casa e passa a conviver cada vez mais com os empregados, com quem descobre os prazeres da palavra, de conversa sobre bichos, comidas e coisas da terra. E torna-se, finalmente, feliz.

Criada no campo, morando a vida toda com um pai carrancudo e calado, sem ter uma figura materna em sua vida, Biela está totalmente despreparada para lidar com o ambiente da cidade e para interagir com Constança. Apesar de toda a boa vontade da prima, sua verborragia só enfatizava que Biela não estava mais em seu mundo, em seu meio ambiente. À torrente de palavras de Constança, Biela responde com o que sabe, com o silêncio.

Perseguida pelos meninos da casa, em um ambiente totalmente novo, Biela vai aos poucos soltando a língua. Primeiro, com o pessoal da cozinha, depois, quando a sós com Constança, sempre temerosa de dizer inconveniências, sempre tentando inserir no seu minguado vocabulário as palavras que a ouvia.

Trecho da obra

Quem deu a idéia de trazer prima Biela para a cidade foi Constança. Deixa, Conrado, traz ela cá para casa, disse. Biela fica morando com a gente, pode até me ajudar com as meninas, fazer companhia. Olha, quando você vai para a roça, tem dias que eu sinto uma falta danada de alguém para conversar. De noite, então... Tem Mazília, se limitou Conrado na resposta. Mazília, disse ela, ainda é menina. Já é mocinha, disse Conrado, de pouca conversa.
A princípio Conrado não deu muito ouvido, tinha outra coisa em mente. A ele, como homem, competia decidir. Ainda mais agora, tutor e testamenteiro. Era calado, ordeiro, sério, compenetrado.
As vezes punha a questão em forma de pergunta, mas não era para a mulher responder, ela sabia: mais uma forma de pensar alto. Quem sabe não era melhor mandá-la para o convento das freiras, lá em Ubá? Ela podia dar um bom dote, e depois a herança, as freiras a aceitariam logo com gosto.
Constança, que não percebeu que o marido estava apenas pensando, ou fez que não percebeu, ponderou, não ia dar certo, Biela não tinha com certeza nem cartilha nem Trajano, nem educação direito, criada lá na roça, só com o pai, homem fechado e meio maníaco, que nunca saía do Fundão. E já era moça velha, para aprender. As freiras não aceitariam.
Não digo pra ser freira, disse Conrado esquecido de que estava apenas pensando. Que não sei nem se ela tem vocação. Pra morar lá com elas. Depois, quem sabe? se lhe desse vontade, podia até ser irmã serva ou leiga, sei lá como elas dizem. Pode prestar serviço. Constança, senhora da brecha que o marido abria na sua decisão, disse não fica bem, o que é que vão dizer de nós, de você que foi nomeado tutor e testamenteiro, mandar ela para longe, quando tem tanto lugar aqui em casa?
Conrado não gostava da idéia. A mulher não conhecia a prima, não sabia como ela era, como eram seus hábitos. Capaz de não dar certo. Moça criada na roça, sem mãe desde cedo, com suas maneiras lá dela, talvez não se desse bem morando na cidade com eles. Ele mesmo mal a conhecia, só vira a prima umas duas ou três vezes, quando tinha ido à Fazenda do Fundão tratar de uns negócios de gado com o primo Juvêncio Fernandes. Primo Juvêncio era seu primo por parte de pai. Se lembrava da primeira vez que viu Biela. Prima Biela só o cumprimentou porque primo Juvêncio disse vem cá dar bom dia pro primo. Ela o cumprimentou arisca meio de longe, estendendo-lhe as pontas dos dedos, os olhos no chão. Depois saiu ligeira para os fundos da casa, não apareceu mais. E a prima? disse ao se despedir, já no cavalo. Deixa pra lá, tem dessas esquisitices de ausência de moça solteira, desculpou o pai. Mas não está certo, foi Conrado pensando enquanto calcava de leve as esporas nos vazios do cavalo. Criar moça assim tão sozinha, desde menina, sem nenhuma mulher mais velha para gerir. Primo Juvêncio, quando prima Gasparina morreu, devia ter tomado de novo estado, ou vindo com a menina para a cidade. Mas não, primo Juvêncio era de outros tempos. Cismado, meio louco-manso-enfezado nas suas opiniões, ficou para sempre reinando sozinho no território do Fundão. O primo era de umas ausências de vista estranhas, ficava olhando enviesado uns longes para além dos cimos. Tinha até, de raro em raro, uns ataques de repelão e espuma, diziam que ficou bom no fim da vida, com umas ervas de seu Querêncio Gouveia. Conrado no fundo tinha medo, a coisa podia se repetir na filha Biela, essas histórias de herança de corpo e da alma. Nada, tem disso não, procurava se acalmar, histórias de gente sem oficio e ocupação. Depois, nunca tinha ouvido dizer nada de prima Biela, vocês sabem como estas coisas correm.
Conrado não gostava da idéia, cismarento. Pesava no prato de sua decisão uma razão muito escondida, que ele não queria nem pensar: primo Juvêncio Fernandes deixou escrito, foi o que explicou o tabelião, que o usufruto dos bens seria dele, enquanto Biela estivesse em sua guarda, menor que era, como convinha. Esta parte ele não contou a ninguém, nem à mulher, para que Constança não o ajudasse a pensar claro demais.
Conrado não gostava da idéia mas acabou cedendo. No fundo já se decidira, quaisquer que fossem as conseqüências. Agora era arranjar as razões de espírito, para a alma quieta, tranqüila, no remanso. Não foi difícil, as artimanhas, os esconde-escondes da alma. Afinal não era sua prima? Juvêncio não lhe queria tanto, não tinha tanta confiança nele, não o encarregara de tudo em testamento e por boca? Da Fazenda do Fundão, do dinheiro no banco, dos títulos e jóias de prima Gasparina. Depois, tinha as suas vantagens ela ficar morando com eles - podia, com ela perto, cuidar melhor de seus negócios, ouvi-la nas suas vontades, ver juntos o que iam fazer da Fazenda do Fundão. A Fazenda do Fundão era de muitos e muitos alqueires de terra. Tudo terra boa, terra roxa de café. Os cafezais eram velhos, é verdade, mas havia ainda muita terra livre, pastos sem fim, o gado, muito gado. Conrado fazia o arrolamento, pensava e repensava. Com ela perto, seria mais fácil defender os interesses de prima Biela. Depois, Constança queria tanto, fazia tanto gosto, alvoroçada com a novidade.
Está bem, disse ele, que já tinha concordado com a idéia da mulher mas não queria dar parte de fraco; vou pensar e depois que eu decidir, a gente se fala. Constança se alegrou, sabia que vencera. Não disse nada, escondeu a alegria, conhecia Conrado, respeitava-o, sabia como lidar com ele.
Daí a uns dias Conrado mandou arrear a besta Gaúcha, encher os alforjes, e foi buscar prima Biela na Fazenda do Fundão.
A chegada de Biela marcou época para os meninos. Mazília, Gilda, Fernanda, Alfeu e Silvino ficavam impacientes, toda hora chegando na janela para ver o pai apontar no fim da rua: a sua grande figura na besta Gaúcha toda branca, leve e firme, os peitos largos e trotando, o melhor animal de sela da Fazenda do Quebra. De vez em quando, a própria Constança chegava para ver se já vinham vindo. Tudo pronto, o quarto da sala onde ficaria prima Biela preparado, ela também se impacientava com a chegada.
Só chegaram lá pela tardinha.
E vem eles, gritou Alfeu para dentro de casa, chamando os outros, que tinham desistido de esperar. As meninas se atropelaram para ver quem chegava primeiro e garantia melhor lugar na janela, de onde podiam ver bem o pai na besta Gaúcha e a prima Biela num cavalo que não sabiam como era.
Alfeu e Silvino na verdade se preocupavam mais com a besta Gaúcha, gostavam de cavalos, queriam saber como era a montaria da prima. Já imaginavam que poderiam no outro dia sair para umas voltas pela cidade e pelos matos ali por perto, cavalgando desabalados. As meninas é que cuidavam mais da figura de prima Biela. Queriam saber como era o jeito dela, os modos de moça fazendeira, os vestidos dela. Faziam planos, preparavam conversas, urdiam as histórias que haviam de contar, muito perguntadeiras.
O pai vinha na frente. O vulto alto, o chapelão para trás, senhor do animal, bom cavaleiro.
Os meninos desceram para a rua, queriam ser os primeiros a ver; queriam, já montados, levar os animais para dentro do quintal, ajudar Gomercindo a desencilhar.
A besta Gaúcha trotava grande, bem balanceado, branca, o peito empinado, batendo picado os cascos ferrados de pouco. O pai deixava o corpo seguir o molejo da besta. Mais perto puderam ver que apressava o passo. Como o pai fazia quando desejava que Gaúcha trotasse ligeiro: esporeava em pequenos arrancos os vazios do animal. Mais atrás, na poeira do pai, o cavalo de prima Biela, um pampa meio ronceiro. O corpo malhado, vermelho e branco, a cara branca. Se o pai deixasse, Alfeu, que era o mais velho, ficaria com a Gaúcha e Silvino com o pampa.
Olha ela, disse Fernanda, a menorzinha, para as irmãs, apontando a prima que chegava da Fazenda do Fundão.
E viram como prima Biela, para alcançar o trote da besta Gaúcha, batia desajeitada e deselegante o chicote nas ancas do cavalo malhado. Não disseram nada, olharam apenas meio desiludidas a figura miúda e socada que vinha encilhada no cavalo pampa, debaixo de uma sombrinha vermelha desbotada.
Enquanto os meninos seguravam as rédeas dos animais que impavam resfolegantes, cansados da caminhada de muitas léguas, o pai procurou ajudar Biela a descer do silhão. Não foi preciso, ela fez que não queria, de um salto estava no chão. Meio cambaleante ainda, primeiro cuidou de ajeitar as pregas da saia de chitão amarrotada; depois verificou se os botões da blusa estavam nas suas casas; finalmente alisou os cabelos pretos empoeirados que tinham escapulido do coque. Compunha um tanto envergonhada, num recato medido de quem queria aparentar bem, a sua figura. Em nenhum momento ergueu o olhar para as janelas onde as meninas se apinhavam, para Constança. Como os pés procuravam se acostumar ao chão, os olhos baixos também buscavam raízes na terra.
As meninas repararam em tudo: a sombrinha vermelha desbotada de cabo comprido, as botinas de cordão que apareceram quando ela saltou do cavalo, a saia muito comprida quase se arrastando no chão, a blusa de botõezinhos fechada até pescoço, os gestos todos que ela fez. Não viram a cara, que ela trazia sempre baixa. Mas viram o coque grosso, baixo, de longas tranças, empoeirado.
Constança, gritou o pai já na porta da sala, a prima chegou. Vai entrando, a casa é sua, voltou-se para trás.
Parada na soleira da porta, prima Biela esperava, esperava não sabia o quê, assustada feito súbito um animal pára na estrada, estranhando.
(...).

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Fonte: DOURADO, Autran. Uma vida em segredo. 12ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1990. p. 29-36.

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