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Viagem no Espelho, de Helena Kolody


Viagem no Espelho é uma antologia da poetisa Helena Kolody. Talvez para justificar o título, os poemas aparecem em ordem inversa, em sentido anti-horário, iniciando-se pelos mais recentes até chegar aos primeiros. A identificação do estilo e da temática da autora vão sendo assim feitos dop mais depurado ao mais intuitivo inicial, embora se note desde o início a capacidade poética e o cuidado com o texto.

A produção literária da poeta paranaense é uma viagem ao contrário, como se fosse um espelho. Começa com "Reika", de 1993, e vai até "Paisagem interior", de 1941. Nessa viagem no tempo, por meio da produção de Helena Kolody, o leitor percebe a depuração do estilo, a constante adaptação da poeta ao momento literário presente, a evolução e o crescimento do ser humano que se revela o eu poético.

Nos poemas do livro Viagem no Espelho os sentimentos de fugacidade, transitoriedade, temporalidade e mutabilidade, bem como de esperança e procura, estão presentes em vários de seus poemas.

Estrutura

Reika - Compõe-se principalmente de haicais (3 versos) e tancas (5 versos), com forte presença da natureza.

Ontem Agora - Miscelânia de poemas curtos (haicais e epigramas) e outros mais longos. Em Nós, lembra Alphonsus de Guimaraens, demonstra ironia em Lição Moderna, Nunca e Sempre trabalha com antítese.

Poesia Mínima - Há muita metapoesia. Comenta a meta linguagem e o poeta inspirado (Dom), trabalha a aliteração (Noturno Urbano) e comenta a impotência da palavra para expressar a poesia. Predominam as formas poéticas breves.

Sempre Palavra - Predomina ideia de fugacidade e efemeridade (tema comum a muitos simbolistas e neo-simbolistas), como bem prova o poema Passado Presente.

Infinito Presente - Percebe-se a depressão pessoal, tristeza e nostalgia (Areia).

Saga - Poemas variados, muitos com versos brancos; linguagem bastante metafórica e impressões intimistas, como no poema título.

Tempo - A temática básica é o tempo, a efemeridade (A Esfera do Tempo). Há também a religiosidade, com temas bíblicos (Sarças Ardentes, Ensinamento) e lirismo intimista (Correnteza).

Trilha Sonora - Cenas da natureza em contraste com a vida urbana (Bucólica e Menino de Arranha-Céu).

Era Espacial - É o progresso tirando a beleza, a graça das coisas (Lua Profanada, Maquinomem).

Vida Breve - Retoma o tema da brevidade... (...somos todos estrangeiros nesta vida), do exílio e da espiritualidade (Eucaristia).

A Sombra no Rio - Sobressai a espiritualidade, o desejo de comunhão com Deus. Há referências a origens eslavas e aos imigrantes, bem como fortes lembranças bucólicas da infância. Dedica também um poema aos seus alunos.

Música Submersa - Muito forte a influência religiosa ucraniana nessa parte. Mais intimista e espiritualista, demonstra humildade e visão de Deus (Fio d'Água). parece crer numa predestinação para a dor (Elegia, Emblema). Presença de poemas mais longos, em contraste com alguns breves.

Paisagem Interior - Chegada ao início da carreira da poeta. Linguagem bem mais metafórica, simbólica. Há transcedentalismo, movimento de ascenção (Araucária), forte sentimento de humildade (Rio de Planície) e reconhecimento de um atavismo ancestral (Atavismo). Nesse livro, a autora ainda está com o temperamento oscilante entre soltar-se e reprimir-se (a natureza selvagem embate-se com a religião e a opressão). O anseio da libertar-se, de fugir é constante (Alma). Fala de amor, paixão, de forma lírica e sentimental. Poemas mais longos nos quais predominam as formas clássicas, de versos regulares.

Poemas retirados da obra:

RESSONÂNCIA
Bate breve o gongo.
Na amplidão do templo ecoa
o som lento e longo.

FLECHA DE SOL
A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.

NOITE
Luar nos cabelos.
Constelações na memória.
Orvalho no olhar.

SAUDADES
Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

REPUXO ILUMINADO
Em líquidos caules,
irisadas flores d'água
cintilam ao sol.

DEPOIS
Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

ALQUIMIA
Nas mãos inspiradas
nascem antigas palavras
com novo matiz.

JORNADA
Tão longa a jornada!
E a gente cai, de repente,
No abismo do nada.

SEMPRE MADRUGADA
Para quem viaja ao encontro do sol,
é sempre madrugada.

RETRATO ANTIGO (1988 )
Quem é essa
que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

VOZ DA NOITE (1986)
O sol se apaga.
De mansinho,
a sombra cresce.

A voz da noite
diz, baixinho:
esquece... esquece...

A MIRAGEM NO CAMINHO (1978)
Perdeu-se em nada,
caminhou sozinho,
a perseguir um grande sonho louco.

(E a felicidade
era aquele pouco
que desprezou ao longo do caminho)
.

DOM
Deus dá a todos uma estrela.
Uns fazem da estrela um sol.
Outros nem conseguem vê-la.

POESIA MÍNIMA
Pintou estrelas no muro
e teve o céu
ao alcance das mãos.

INFINITO PRESENTE
No movimento veloz
de nossa viagem,
embala-nos a ilusão
da fuga do tempo.
Poeira esparsa no vento,
apenas passamos nós.
O tempo é mar que se alarga
num infinito presente.

Créditos: Colégio Guarulhos

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