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A opção de estudar fora


Cada vez mais brasileiros buscam uma universidade no exterior. Pode ser até mais barato que estudar aqui.

O brasileiro Sheide Chammas ficou impressionado quando viu, ao longe, o prédio gótico que abriga uma das bibliotecas da Universidade Yale, um dos maiores e mais antigos bancos de dados do mundo. É nessa bela construção erguida pelo arquiteto americano Richard Meyer que o jovem de 19 anos terá a chance de se perder. Seus corredores abrigam parte do acervo de 11 milhões de volumes, de papiros antigos a obras que só existem em acervo eletrônico. Localizada em New Haven, no Estado americano de Connecticut, a escola de Chammas é a que mais formou presidentes até hoje, entre eles George W. Bush e Bill Clinton. De lá saíram mais de uma dezena de prêmios Nobel, como James Tobin, assessor econômico do presidente John F. Kennedy. Até o grito de guerra de Yale é obra de um ex-aluno ilustre que não chegou a concluir a graduação por lá. As rimas foram criadas por Cole Porter, um dos maiores compositores americanos. Chammas é calouro na Universidade Yale. É um dos primeiros alunos aprovados em uma das instituições mais desejadas do mundo. Não teve o mesmo sucesso quando tentou cursar Direito na Universidade Federal da Bahia. “Eu não li todos os livros e não estava acostumado com testes tão longos”, diz. Para compensar, conta que se preparou melhor para Yale.

A experiência de Chammas é também a de pelo menos 5 mil brasileiros que experimentam a graduação fora do país neste ano. Até dois anos atrás, o mais comum era concluir o curso superior no Brasil e só depois investir em uma experiência internacional. A tendência se inverteu. De acordo com o Instituto Internacional de Educação, no ano passado 3.582 brasileiros passaram pelo menos um semestre fazendo graduação nos Estados Unidos, mais que os 2.599 matriculados em cursos de pós-graduação. Somem-se a eles os 1.300 brasileiros que foram para a Espanha, os 900 que foram para a Inglaterra, e por aí vai. Estima-se que o aumento de estudantes lá fora tenha sido de 40% em menos de cinco anos.

Uma das razões para essa tendência é o custo. Com o dólar mais baixo e mensalidades em torno de US$ 1.000, os estudantes brasileiros passaram a considerar a oportunidade de estudar fora já na graduação. Esse é o preço da Universidade Binghamton, uma das cem melhores de acordo com o anuário da U.S. News & World Report. Ela é mais barata que o Ibmec-SP. No Brasil, apenas duas universidades aparecem na lista das 200 melhores do Suplemento Times de Educação Superior, publicação britânica que avalia instituições de todos os países. São a Universidade de São Paulo (175º lugar) e a Universidade de Campinas (177º lugar). Em compensação, há pelo menos 30 instituições americanas na lista das melhores do mundo com mensalidade de cerca de US$ 1.000.

A segunda razão para o aumento da procura das faculdades estrangeiras é a própria globalização do mercado de trabalho. A principal vantagem de estudar em uma boa universidade fora do país é conseguir o que os especialistas chamam de empregabilidade global. “O estudante fica mais solicitado e pode encontrar um emprego em qualquer lugar do mundo”, diz Ryon Braga, consultor educacional. O economista e matemático Rodrigo Ferreira, de 24 anos, formado na Universidade Lawrence, no Estado americano de Wisconsin, participou de um programa de trainee e foi convidado a trabalhar em um banco de investimentos na Inglaterra. Disputou com outros 5 mil candidatos e ficou com uma das 250 vagas. “Acho que levei vantagem pela bagagem cultural”, diz o carioca, que estudou nos Estados Unidos.

Dá para arcar com o custo de vida em outro país? A resposta é sim, na maioria dos casos. As universidades americanas e inglesas estão preparadas para receber estudantes internacionais. Elas sabem que alunos latinos e asiáticos, em geral, não têm condições de se manter em outro país sem ajuda financeira. E oferecem algumas opções para isso. Os estudantes podem trabalhar no campus da universidade e trocar algumas horas diárias como monitor de laboratório ou ajudante de biblioteca por comida e hospedagem. Nos EUA vale uma regra básica para os bons alunos: a meritocracia. “Se for preciso, a gente faz um empréstimo, mas alunos excepcionais não ficam de fora”, diz Richard Levin, presidente de Yale. “Cérebros geniais não têm nacionalidade. E nós de Yale queremos todos os que forem possíveis.”

Para conquistar uma vaga lá fora é preciso conhecer o processo de avaliação (leia o quadro). Não há vestibular. A prova é uma espécie de Enem, o exame brasileiro que avalia o ensino médio. Mas não é tudo. A nota é somada ao histórico escolar, ao exame de proficiência em inglês e à avaliação de um questionário extenso que mede conceitos como empreendedorismo e poder de persuasão, com perguntas do tipo: “quem é você?” e “por que deseja ser nosso aluno”. “Uma boa nota nesse teste é decisiva para estudantes estrangeiros”, afirma a consultora Patrícia Cas Monteiro, que diz ter colocado 252 brasileiros nas cinco melhores universidades do mundo. Foi nessa etapa importante que Chammas se destacou. Ele mandou para os avaliadores seu teorema de matemática, o projeto feito para drenar o campo de futebol do colégio, que sempre alagava, e escreveu uma redação sobre sua experiência como presidente do grêmio na escola. “Nos EUA, o candidato que não tenha experiências fora da escola para contar está automaticamente excluído do processo”, afirma Thais Xavier, diretora da Fundação Estudar, entidade brasileira que concede bolsas de estudos para jovens no Brasil e no exterior.

A maior parte dos estudantes brasileiros interessados em estudar fora se associa a pessoas como Patrícia, que ganha a vida treinando estudantes, ou a entidades como a Fundação Estudar, que conhece o caminho até lá. Algumas oferecem bolsas de estudos. A Fundação Estudar ajudou 37 universitários de graduação neste ano, entre eles Chammas. A Fulbright, um programa de intercâmbio educacional e cultural do governo dos EUA, ofereceu ajuda a outros 50 brasileiros interessados em escolas técnicas de nível superior nos EUA. A British Council deu 30 bolsas para instituições inglesas, e a Fundação Carolina outras 20 para a Espanha.

Para quem não tem grande desempenho acadêmico, o caminho mais fácil é apostar na habilidade esportiva. Grande parte das universidades americanas reserva vagas para atletas. A demanda é tamanha que hoje há empresas especializadas na área. “O esporte é o passaporte para que muitos jovens possam estudar”, diz o empresário Felipe Fonseca, do Daquiprafora, uma espécie de loja de atletas universitários. Ele já encaminhou 500 jovens esportistas brasileiros para universidades americanas. Entre eles Idalina França, que conclui neste ano o curso de Comércio Exterior na Universidade de North Texas.

A jovem de 25 anos diz que não teria dinheiro para pagar uma universidade privada no Brasil nem formação para ser aprovada em uma instituição pública. Mas Idalina tem habilidade esportiva. Ela aprendeu a jogar tênis na academia em que o irmão dava aula. No início,trabalhava como pegadora de bola. “Eu treinava sempre que a quadra estava vazia”, diz. “Sei que vou deixar o esporte em alguns anos, mas a formação acadêmica que estou tendo aqui já mudou minha vida.” Neste ano, Idalina foi eleita a melhor jogadora da universidade. Ela tem bolsa para estudar e para morar. Mas tem de apresentar bom desempenho na quadra e no boletim no fim de cada semestre.

Além disso, as universidades americanas são tolerantes à indecisão dos vestibulandos. Essa foi uma das razões que levaram o baiano Chammas a escolher os EUA. Elas permitem que os alunos decidam a profissão apenas no final do 2o ano. “Enquanto isso, a gente vai experimentando as disciplinas e amadurecendo a idéia”, diz Chammas. Ao se inscrever no vestibular, ele pretendia ser engenheiro. Hoje, após dois meses de aula, diz que pode se formar economista. Se fosse no Brasil, o estudante teria feito sua opção ao preencher o manual do candidato. E, se voltasse atrás, teria de prestar o vestibular novamente.

Algumas áreas do conhecimento são bem mais desenvolvidas na Europa e nos Estados Unidos. Essa é outra razão que arrasta centenas de estudantes para esses lugares. A proliferação das universidades no Brasil é recente. Em 1995, eram 894 instituições de ensino superior. Em 2005, o número mais que dobrou, para 2.165, segundo o Ministério da Educação. Não houve tempo, portanto, para que cursos de vanguarda como Moda, Tecnologia e Design alcançassem o nível de excelência que existe em outras partes do mundo. Foi o que levou a carioca Elisa Gouveia a optar por um curso de Teatro em Nova York. Ela se formou no ano passado na Universidade Hofstra, na cidade de Long Island. De lá para cá, já se apresentou em duas peças de teatro na Time Square e participou da filmagem de um clipe e de um curta-metragem. Pretende continuar nos Estados Unidos para fazer pós-graduação. “No Brasil, eu não encontraria laboratórios de pesquisa tão focados em interpretação como aqui”, diz.

As universidades brasileiras estão reagindo à tendência de globalização dos alunos. Mais de 200 instituições brasileiras de nível superior já assinaram convênios com universidades estrangeiras. A idéia é oferecer essa vantagem aos alunos que estudam aqui. A prática se tornou tão comum que ganhou até um nome: graduação-sanduíche. É o curso de graduação no Brasil com a experiência internacional no meio. O curso de Gastronomia da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, unificou o currículo com o Instituto de Educação Superior Glion, na Suíça, de modo que o aluno de lá sai com dupla titulação.

Alguns especialistas dizem que o sanduíche é ainda melhor que fazer toda a graduação fora. Afirmam que a perda de contato com o mercado de trabalho durante a formação superior pode colocar o estudante em desvantagem. “Afinal, boa parte dos profissionais contratados passa por um programa de estágio ou trainee durante os últimos anos do curso”, diz Fátima Rosseto, consultora da DBM Brasil, uma empresa de gestão de recursos humanos. “Há também uma idéia falsa de supervalorização do currículo.” Ela explica que a experiência internacional é um diferencial na carreira, mas não é tudo. Em algumas áreas a graduação fora é quase inviável, como Direito e Medicina, em que é praticamente impossível revalidar o currículo aqui sem ter de estudar tudo de novo. “Estudar fora do país envolve planejamento de carreira – e a manutenção da rede de contatos no Brasil”, diz o especialista em carreiras Max Gehringer, colunista de ÉPOCA. Isso porque boa parte dos estudantes que se formam volta para começar a carreira no Brasil.

Outra dificuldade é a própria adaptação à vida lá fora. Mesmo jovens com experiência prévia de viagens ao exterior podem se surpreender com os rigores da vida cotidiana em uma universidade estrangeira. “Quando um aluno chega até mim com a idéia de estudar fora, eu logo pergunto se já experimentou o frio e como se sente em relação a ele”, diz a consultora Patrícia. “Há quem volte por motivos que parecem banais, mas que no dia-a-dia pesam.” A consultora Fátima, da DBM Brasil, diz que já entrevistou recém-formados que tinham desistido da universidade estrangeira e terminado o curso no Brasil

Independentemente das dificuldades, a tendência de globalização do ensino superior é boa para o Brasil. A experiência que os estudantes adquirem fora contribui para criar uma cultura empreendedora aqui. “A diferença é que fora do Brasil os alunos aprendem a transformar conhecimento em produtividade. Eles são estimulados a ser empreendedores”, diz Luciano Salamacha, consultor de empresas e professor da FGV-Rio. “Isso é bom para o país. Há inúmeros casos de jovens que voltam, abrem o próprio negócio aqui e geram riqueza para o país.”

Foi o caso de Ricardo Alves, que abriu uma empresa de software para celulares no Brasil, depois de se formar engenheiro de computação na Universidade Stanford, na Califórnia. Sua empresa é uma das maiores do mercado brasileiro e já exporta soluções para os Estados Unidos e alguns países da Europa.

Aqui e lá

Compare a anuidade de algumas universidades estrangeiras e brasileiras:

Fonte: Revista Época

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