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As catástrofes no Paquistão e na Rússia



Turistas também sofrem com o calor e a
poluição em Moscou. (Keystone)

Qual seria a relação entre a onda de calor que cobriu Moscou, a capital russa, com uma espessa neblina de fuligem, e as chuvas que causaram inundações no Paquistão? Para cientistas que estudam as mudanças no clima da Terra, ambas as tragédias, ocorridas nos meses de julho e agosto deste ano, poderiam ser efeitos do aquecimento global.

Na Rússia, esta onda de calor, a maior em mil anos, causou mortes e prejuízos ao país. Desde o começo da seca, em maio, 52 pessoas morreram, e a taxa de mortalidade em Moscou dobrou devido ao calor e à fumaça de incêndios florestais. A temperatura na capital atingiu o recorde de 39 graus, no dia mais quente já registrado. Os níveis de monóxido de carbono chegaram ao dobro do aceitável, obrigando os russos a usarem máscaras nas ruas.

Os incêndios ainda destruíram um quarto das terras usadas para o cultivo de cereais (a Rússia é um dos maiores exportadores mundiais de trigo, centeio e cevada). Para garantir o abastecimento doméstico, o governo suspendeu as exportações até o final do ano.

Havia também o perigo dos incêndios chegarem à usina de Mayak, nos Montes Urais, e Chernobyl , locais onde ocorreram desastres nucleares nos anos de 1957 e 1986, respectivamente. O fogo poderia espalhar partículas radioativas presentes no solo contaminado desses lugares.

O calor também bateu recordes e provocou incêndios em países europeus como Portugal e Grécia, além de inundações na China . Para especialistas, esses eventos teriam sido parcialmente provocados pelo aquecimento global, resultado do efeito estufa .

A combinação de uma extraordinária zona atmosférica de alta pressão sobre a Rússia com uma monção fortíssima na Ásia está na origem da catástrofe das enchentes no Paquistão, diz a pesquisadora suíça Olivia Romppainen.


Juntando o que sobrou das enchentes no povoado de
Turnab, no distrito de Charsada
(Keystone/Ishtiaq Mahsud)

Enquanto a Rússia enfrenta pelo menos 550 incêndios – 40 nos arredores de Moscou – decorrentes da onda de calor, o Paquistão afunda nas inundações ao longo do rio Indo. As enchentes já mataram mais de 1,5 mil pessoas numa extensão de mais de mil quilômetros ao longo do rio. Centenas de milhares de paquistaneses estão desabrigados, mais de dez milhões foram atingidos pela catástrofe.

Em visita ao país no dia 15 de agosto, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki Moon , disse que o desastre é o maior que já viu na vida, e autorizou o envio emergencial de US$ 459 milhões (R$ 811 milhões) para o Paquistão.

Ligação a grandes altitudes

Há de fato uma "ligação dinâmica" entre as duas situações extremas na Rússia e no Paquistão, diz Olivia Romppainen-Martius, pesquisadora do Instituto de Atmosfera e do Clima da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH). Essa ligação consiste numa chamada corrente de jato (ou jet stream), ou seja, fluxos de ar fortes e estreitos que avançam em grandes velocidades para o leste por cima do Himalaia.

Por um lado, a onda de calor na Rússia reforça a corrente de jato com a sua massa de ar quente, declarou Olivia Romppainen à swissinfo.ch. Por outro lado, na área de origem da jet stream), a massa de ar se desloca com força para cima.

Ponto de encontro fatal


No distrito de Nowshehra, à beira do rio Cabul. (Keystone)

Exatamente neste ponto, sobre o Paquistão, entra em jogo a segunda anomalia. "A monção deste ano trouxe muita umidade para o norte da Índia e Paquistão. A ascensão dessa massa de ar muito úmida agora provoca as fortes chuvas." Em outras palavras, o Paquistão é o ponto de interseção fatal, mas de forma alguma aleatório, onde jet stream acelerado no norte encontra a monção incomumente forte do sul.

Olivia Romppainen fala de "uma infeliz combinação desses dois fenômenos". A especialista em Meteorologia Dinâmica, porém, não sabe dizer se esse encontro ocorre por acaso ou se há outros fatores em jogo, como a mudança climática. Como isso teria de ser calculado por meio de modelos, não se pode dizer nada sobre possíveis evoluções futuras do clima, diz a pesquisadora.

Observe no mapa a seguir, as regiões mais atingidas pelas enchentes no Paquistão:

Mais eventos extremos

Com base em cálculos modelares, pesquisadores do clima preveem que o número de eventos meteorológicos extremos aumentará como resultado do aquecimento global. Coincidência ou não, tanto em Moscou, com 40 °C, quanto no Paquistão, com temperaturas de 53,5 °C em maio, foram registrados novos recordes de calor.

Para Romppainen, porém, está claro que as fortes chuvas que no momento provocam morte e devastação no noroeste da China devem ser avaliados como um fenômeno isolado da junção entre jet stream e monção.

O mesmo vale para as cheias que no último final semana causaram oito mortes na Alemanha, Polônia e República Checa. Neste caso, segundo Romppainen, foi uma forte precipitação típica do verão europeu, como já ocorreu em 2002 na Alemanha e em 2005 na Suíça.

Segundo especialistas em meteorologia, essas precipitações costumam ser causadas por uma zona atmosférica de baixa pressão com duração de alguns dias, que traz muita umidade do Mar Mediterrâneo ou da região do Mar Negro para a Europa.

Enquanto a pesquisadora da atmosfera hesita em apontar a mudança climática como verdadeira causa das inundações, especialistas em seguro não hesitam em dar nome aos bois.

No todo, os fenômenos climáticos atuais constituem uma coerente cadeia de indícios que são sinais de mudanças climáticas, estimam analistas da seguradora alemã Münchener Re.

Terra mais quente

O efeito estufa ocorre quando a energia do Sol se acumula na atmosfera terrestre, elevando a temperatura do planeta. Ele é causado pela emissão de seis tipos de gases, como dióxido de carbono (CO2), metano (CH4) e óxido nitroso (N2O). O dióxido de carbono é o mais abundante e duradouro na atmosfera. Ele é liberado pela queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão natural), que constituem a principal fonte de energia das economias mundiais.

O efeito estufa é um fenômeno natural e necessário para a vida no planeta, pois permite que a Terra retenha o calor indispensável para a sobrevivência dos seres vivos. O problema é que, com o aumento da poluição a partir do século 19, houve um desequilíbrio nesse processo, o que provocou o aquecimento global.

Alertados por cientistas, os governos mundiais começaram a se preocupar com questões ambientais nos anos 1980. O último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês), divulgado em 2007, apontou que a temperatura no mundo subiu 0,74% no período de 1906 a 2005, devido à atividade humana. E, se nada for feito, haverá um aumento em 4 graus Celsius até 2100.

Se isso acontecer, espécies de animais e vegetais serão extintas, haverá prejuízo para a agricultura, falta de água, ondas de calor e ocorrência de tufões e furacões. O derretimento das calotas polares elevará o nível dos oceanos, inundando as regiões costeiras do planeta.

Kyoto

Segundo a Organização Meteorológica Mundial da ONU, 2010 pode ser o ano mais quente desde o início dos registros de temperatura em meados do século 19 XIX, ultrapassando o recorde de 1998.

Para os cientistas, o risco de ocorrerem ondas de calor semelhantes às que mataram 35 mil pessoas na Europa em 2003 é, hoje, duas vezes maior por conta das alterações climáticas no planeta. A comunidade científica estuda, agora, métodos e tecnologias mais precisas na previsão de catástrofes como as ocorridas no Paquistão e na Rússia, além de buscar acordos que permitam a redução de poluentes.

A maior dificuldade, no entanto, é contar com o consenso entre as duas maiores potências econômicas do planeta -Estados Unidos e China -, que são, também, os países mais poluidores do planeta.

Em dezembro do ano passado, foi realizado, em Copenhague, capital da Dinamarca, a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 15). O objetivo era estabelecer metas internacionais - que irão substituir o Protocolo de Kyoto após 2012 - de redução da emissão de gases causadores do efeito estufa.

Após duas semanas de negociações, a COP 15 terminou com um acordo tímido entre Estados Unidos, China, Brasil, África do Sul e Índia. Os participantes concordaram com a necessidade de se limitar o aquecimento global em 2 graus Celsius. Porém, não houve avanço no que concerne a metas assumidas por governos ou garantias da assinatura do documento que substituirá o Protocolo de Kyoto.

De concreto, foi criado um fundo anual de 100 bilhões de dólares até 2020 para ajudar os países pobres a colaborarem com planos de combate ao aquecimento global.

Créditos: Página 3 Pedagogia & Comunicação

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