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Emprego deve ter pior primeiro trimestre desde 2003


O mercado de trabalho vai sofrer com maior intensidade os efeitos da crise financeira internacional no primeiro trimestre e enfrentar uma freada ainda mais brusca no ritmo de expansão de vagas do que a já constatada no final de 2008. A criação de empregos formais entre janeiro e março deve chegar ao menor nível desde 2003, primeiro ano do governo Lula.

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A expectativa é a de abertura de 213,5 mil novas vagas no primeiro trimestre deste ano. Em igual período de 2003, considerado um dos piores anos para o emprego, foram gerados 140,8 mil postos de trabalho. Em 2008, foram 554,4 mil empregos com carteira assinada criados em igual período.

A previsão é da LCA Consultores, a partir de dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) e da Rais 2007 (Relação Anual de Informações Sociais), ambos do Ministério do Trabalho e Emprego. A desaceleração será mais brusca no setor industrial e na construção civil.

Se os reflexos da crise sobre a economia brasileira não se intensificarem e o mercado financeiro internacional não presenciar novas quebras de bancos e de empresas, o emprego deve crescer entre 1% e 1,5% neste ano, o que reduz o número de vagas aos que ingressam no mercado de trabalho. O percentual previsto é inferior à metade do crescimento projetado para a ocupação em 2008 - entre 3,6% e 3,7%.

As previsões para o nível de emprego, feitas por consultores, economistas e especialistas em mercado de trabalho, levam em consideração as seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE: São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Porto Alegre.

Com estoques mais elevados, produção desacelerada e escassez de crédito, as empresas devem não só frear a criação de novas vagas mas também fazer ajustes em seu quadro pessoal. O efeito do "facão" deverá ser sentido principalmente no primeiro trimestre.

"É o preço do ajuste", diz Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores. "O empresário primeiro leva o susto. Depois aguarda para verificar o volume de estoques, a redução no nível de atividade e a contração nas vendas. Só então deve tomar a decisão de corte de pessoal, o que deve ocorrer de forma mais intensa nos próximos três meses", afirma.

Empresas maiores e com mais capacidade de planejamento devem iniciar esse ajuste, entretanto, já a partir do final do mês, avalia o economista. Caso da Vale --que anunciou no início de dezembro a demissão de 1.300 empregados no mundo e colocou em férias coletivas outros 5.500 trabalhadores, a maior parte em Minas Gerais- e das montadoras.

O desemprego deve subir ao menos um ponto percentual neste ano e ficar acima da taxa média de 8,5% prevista para 2008, segundo análise de José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ e economista da Opus Gestão de Recursos. Em novembro, a taxa de desemprego verificada pelo IBGE foi de 7,6% -ficou estável em relação à medida em outubro, 7,5%.

"Não acredito em uma onda de demissões em 2009 como a que assistimos nos anos 90. Não será um "tsunami" nem uma "marolinha", para usar as mesmas metáforas do presidente Lula. Mas o país vai enfrentar uma grande ressaca [no mercado de trabalho]", afirma.

Os cortes devem ocorrer de forma mais intensa em setores ligados ao crédito - como o automobilístico e de bens de consumo duráveis (eletrodomésticos, eletroeletrônicos) - e exportadores, como siderúrgico e mineração. "São segmentos que antes da crise haviam se preparado para um crescimento robusto neste ano e aumentaram as contratações de forma significativa. Terão de rever seus planos", avalia Camargo.

Os dados do Caged de novembro já mostram que os ajustes já começaram em vários setores, afirma Fábio Romão, economista da LCA. Foram 40.821 empregos perdidos em novembro de 2008, a maior retração no nível de emprego formal dos últimos dez anos para o mês. Em igual mês de 2007, o saldo foi positivo em 124,6 mil novos postos.

"Nos 12 subsetores que compõem o setor industrial, houve fechamento de vagas. Em alguns casos, como metalurgia, mecânica e material de transporte, a perda de postos foi mais intensa. Esse movimento está ligado à atual conjuntura de travamento de crédito e queda significativa do nível de confiança", afirma Romão.

A indústria de transformação cortou no país 80,8 mil empregos em novembro passado, ante 2.500 fechados em igual mês de 2007. Na construção civil, foram 22,7 mil vagas encerradas, ante 7.800 criadas no mesmo período de 2007. "Os danos [da crise] ao mercado de trabalho foram mais rápidos do que esperávamos", diz Romão.

Na avaliação da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a queda no emprego pode se acentuar a partir deste mês. "Estamos vivendo um período inicial em relação à crise, que tende a ficar mais difícil", diz Paulo Francini, diretor da Fiesp. "É como uma doença. Tomam-se remédios para atenuar sintomas e danos que a moléstia causará. Mas é inevitável ficar doente."

Apesar dos efeitos da crise, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, projeta recuperação do emprego a partir de março e a criação de 1,5 milhão de vagas com carteira assinada em 2009. De janeiro a novembro de 2008, foram 2,107 milhões.

Paulson culpa desequilíbrios mundiais pela crise do crédito

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, afirmou que a dificuldade de enfrentar o crescimento das economias emergentes é, em parte, culpada pela crise financeira, segundo entrevista publicada nesta sexta-feira, 2, pelo Financial Times.

Segundo Paulson, os desequilíbrios entre as nações que registram rápido crescimento e poupam, como a China, e aquelas que investem estão na raiz do problema.

Nos anos que levaram o mundo à crise atual, explicou, as economias de países como a China e os exportadores de petróleo - num momento de baixa inflação e comércio e fluxos de capitais vigorosos - exerceram uma pressão negativa sobre os retornos dos investimentos em outros países.

Isso derrubou as taxas de juros e levou os investidores a procurarem ativos de riscos maiores (e consequentemente com rendimentos melhores), plantando as sementes da bolha do mercado de crédito mundial que atravessou as fronteiras do setor 'subprime' (crédito hipotecário de alto risco americano).

"Os excessos se acumularam durante um longo período, com os investidores buscando maiores retornos, avaliando incorretamente o risco", disse Paulson ao jornal britânico.

O argumento de Paulson sugere que as raízes da crise não estão apenas no sistema financeiro e que, para evitar uma crise futura, será necessário não apenas melhorar a regulação financeira e a gestão do risco como também aumentar a cooperação macroeconômica mundial.

"Precisamos aprender muito mais sobre os desequilíbrios mundiais", declarou Paulson. Para ele, se o FMI (Fundo Monetário Internacional) tiver um papel fortalecido neste contexto será suficiente para enfrentar o problema. Paulson disse que o G20, que inclui as principais nações desenvolvidas e emergentes, é o grupo adequado para buscar uma resposta mundial para a crise.

Fonte: Jornal Folha de S.Paulo

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