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Entenda o conflito do Cáucaso


A Ossétia do Sul é um território 1,5 vez o de Luxemburgo, com uma população estimada em 70 mil pessoas.

Legalmente ela é parte da Geórgia, pois sua auto-proclamada independência não foi reconhecida por nenhum outro país, inclusive pela Rússia.

A Ossétia do Sul, palco hoje de confrontos entre tropas separatistas e georgianas, é um território no sul do Cáucaso que oficialmente faz parte da Geórgia e limita ao norte com a Ossétia do Norte, república pertencente à Federação Russa. Depois da queda da União Soviética, em 1991, a Geórgia votou pela restauração da independência que havia brevemente experimentado durante a Revolução Bolchevique.

No entanto, a postura nacionalista refletiu em problemas com a região norte da fronteira da Geórgia, habitada pelos ossetas - um grupo étnico distinto natural das planícies russas, ao sul do rio Don.

A Ossétia do Sul fica do lado georgiano da fronteira, enquanto a Ossétia do Norte fica em território russo. Apesar disso, os laços entre as duas regiões permaneceram fortes e o movimento pela independência osseta foi estimulado pelas dificuldades enfrentadas na época dos czares, no período comunista até atualmente.

Quando a Geórgia se separou da União Soviética, o governo nacionalista proibiu o partido político da Ossétia do Sul, o que levou os ossetas a boicotarem a política georgiana e realizarem suas próprias eleições - pleito que foi considerado ilegal pela Geórgia. Os conflitos entre os separatistas e as forças georgianas começaram nesta época, mas o Exército da Geórgia não exterminou os rebeldes ossetas por medo de uma intervenção russa.

A Ossétia do Sul proclamou sua independência em 1992, mas sua autonomia não foi reconhecida pela comunidade internacional. A região quer ser agregada à Federação Russa, assim como a Ossétia do Norte. A situação está frágil desde 1990 e se agravou ainda mais há quatro anos, quando os georgianos começaram a realizar operações policiais e de combate ao contrabando na região.

As autoridades da Ossétia do Sul convocaram para 2006 um plebiscito de independência. Tbilisi não reconheceu a validade da consulta popular, embora 99% da população local tenha votado a favor da independência.

Duas semanas depois de o Kosovo ter declarado de forma unilateral sua independência, o Parlamento da Ossétia do Sul pediu à ONU, à União Européia (UE), à pós-soviética Comunidade dos Estados Independentes (CEI) e à Rússia que reconhecessem sua independência.

Rússia X Geórgia

A tensões entre os dois países começaram antes mesmo do colapso da União Soviética, quando o nacionalismo na Geórgia começou a se tornar uma poderosa força política. Houve um momento crucial em abril de 1989, quando os militares soviéticos usaram a força para reprimir manifestações pró-independência, matando 19 pessoas. Desde então, Moscou - seja como capital da União Soviética ou da Rússia - tem sido vista por muitos georgianos como inimiga da independência da Geórgia.

A Rússia tem sido muito crítica de "revoluções" populares como a da Geórgia, que foi bem-sucedida graças ao apoio que os ativistas receberam do Ocidente. Quaisquer que sejam as diferenças entre os dois países, a Rússia abriga uma comunidade de pelo menos 1 milhão de georgianos, e muitas famílias na Geórgia, uma nação com 5 milhões de habitantes, dependem do dinheiro que os parentes enviam para casa.

Durante o conflito na região separatista da Abkhásia, que começou em 1992, ano seguinte à independência da Geórgia, foram divulgados vários relatos confiáveis de que as forças russas ajudaram os separatistas. No entanto, é mais provável que esta política tenha sido coordenada por comandantes militares em terreno do que pelo Kremlin.

Muitos georgianos suspeitam que os pacifistas russos enviados à Abkhásia e à outra região separatista da Geórgia, a Ossétia do Sul, são ferramentas para preservar a influência russa na região. Mas, se eles parecem ameaçadores para os georgianos, da perspectiva dos habitantes da Abecásia e da Ossétia do Sul, eles são uma garantia essencial contra uma possível agressão por parte da Geórgia.

Os georgianos culpam o ex-chefe de segurança da Geórgia Igor Giorgadze por pelo menos duas tentativas de assassinato contra o ex-presidente Eduard Shevardnadze (1992-2003). Giorgadze foi para a Rússia em meados da década de 1990 e fundou um partido político georgiano pró-Rússia em 2003. Vários militantes do partido foram presos em setembro de 2006, acusados de planejar um golpe contra o presidente Mikhail Saakashvili.Quando um oleoduto que levava gás russo à Geórgia explodiu em janeiro de 2006, o presidente Saakashvili acusou a Rússia de "sabotagem". A Rússia classificou essa acusação de "histeria".

A Geórgia sempre manteve a Rússia à distância. Por outro lado, também cortejava a Otan, os Estados Unidos e outras potências ocidentais. Os georgeanos foram um dos fundadores do grupo des países GUAM (Geórgia, Ucrânia, Azerbaijão e Moldávia), criado como parte dos esforços para contrapor a influência da Rússia na região. Também participaram dos esforços apoiados pelo ocidente para criar um "corredor" de energia do Cáucaso ao Mar Cáspio, contornando o território russo.

A Rússia acusou algumas vezes a Geórgia de apoiar os rebeldes chechenos, e sabe-se que os rebeldes recebiam suprimentos e reforços pelo território da Geórgia. Sabe-se também que os rebeldes se refugiaram no desfiladeiro de Pankisi, do lado georgiano da fronteira, onde há uma comunidade étnica chechena.

O auge das tensões foi em 2002, com a Rússia ameaçando lançar ataques contra os rebeldes. A Geórgia, então, tomou medidas para estabelecer a ordem em Pankisi e concordou em unir as patrulhas da fronteira. O Exército russo continua a conduzir operações contra os rebeldes chechenos, incluindo ataques aéreos na região montanhosa da fronteira, e o governo de Moscou ainda é freqüentemente acusado de violar o espaço aéreo georgiano.

CONFLITO NA OSSÉTIA DO SUL EXPÕE JOGO DE PODER ENTRE RÚSSIA E GEÓRGIA

O presidente da Geórgia, Mikhail Saakashvili, pediu ao seu país para se "mobilizar" diante de "uma agressão russa muito direta".

O ministro do Exterior da Rússia, Sergei Lavrov, disse que Moscou tem notícia de "limpeza étnica" em vilarejos.

Tanques russos teriam entrado na capital da região, que tem sido alvo de pesado bombardeio pelas forças da Geórgia.

Seu povo e seus líderes separatistas não querem ser parte do Estado georgiano em nenhuma capacidade.

Eles querem reconhecimento internacional como um Estado independente ou unir-se aos integrantes de sua etnia que vivem do outro lado da fronteira, na região russa da Ossétia do Norte.

A Rússia diz que seu papel desde o fim da guerra na Ossétia do Sul, em 1992, tem sido o de manter a paz.

Conflito 'cristalizado'

Mas, os russos apoiaram o regime separatista em termos militares e financeiros, e há notícias de que possuem um número considerável de agentes de inteligência e de segurança na região.

A Geórgia também alega que mercenários russos estão ativos na Ossétia do Sul.

O estado de 'cristalização' do conflito na Ossétia do Sul, assim como o da outra região separatista georgiana, a Abkházia, permitiu à Rússia preservar um instrumento vital de influência sobre seu vizinho do sul, um país que hoje vê como indócil, ou mesmo hostil.

Há, claro, um processo de paz internacional, mas anos de trabalho mal começaram a aproximar Geórgia e Ossétia do Sul. Suas posições continuam fundamentalmente irreconciliáveis.

Há ainda claras divisões entre Rússia e o Ocidente na forma de lidar com as tensões imediatas.

Uma declaração do Conselho de Segurança das Nações Unidas esboçada pela Rússia pedindo que ambas - a Geórgia e a Ossétia do Sul - renunciem ao uso de força não conseguiu apoio britânico e americano.

A Rússia entregou à maioria dos habitantes da Ossétia do Sul passaportes russos, justificando potencialmente intervenção direta (com base na proteção de "seus próprios" cidadãos).

O recente aumento da tensão militar efetivamente deu à Rússia um pretexto mais sólido para intervenção.

O envolvimento militar pode acarretar o risco de grandes baixas e condenação internacional, mas a alternativa de reconhecer unilateralmente a independência de Ossétia do Sul e Abkházia pode levar a um conflito ainda mais amplo.

Otan

Falando na TV nacional da Geórgia, Saakashvili retratou suas ações como as do líder de uma nação democrática, amante da liberdade, defendendo-se de inimigos externos.

Embora ele tenha muitos simpatizantes influentes no Ocidente, também há os que duvidam de suas credenciais democráticas pessoais. Ou suspeitam que ele possa agora estar cometendo exageros em uma aventura militar na Ossétia do Sul.

Moscou, por sua vez, quer um fim na tentativa da Geórgia de integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança de defesa ocidental).

Há pouco, o ministro russo do Exterior, Sergei Lavrov, em um longo ensaio sobre a posição da Rússia no mundo, insistiu que a Otan deve ser suplantada como o principal fiador da segurança européia.

Nesta vertente de suspeita em relação à Otan e ao Ocidente, uma outra corrente de pensamento acredita que Mikhael Saakashvili na verdade está tentando arrastar a Otan para uma intervenção na disputa de seu país com Moscou.

Saakashvili já tentou propagar a idéia de sua integração à Otan como um fato, não uma possibilidade no longo-prazo. Então, daqui por diante, parece inconcebível que a Otan se envolva.

O "fator Kosovo" tem importância aqui.

Mesmo antes de a província sérvia ter declarado independência unilateralmente, havia uma idéia nos meios políticos e diplomáticos russos de que o reconhecimento russo da independência da Ossétia do Sul e da Abkházia seriam moralmente e politicamente justificáveis.

Isto se tornou muito mais forte porque muitos países ocidentais ignoraram as fortes objeções russas e reconheceram a independência de Kosovo.

Fontes: BBC Brasil | Jornal O Estado de S. Paulo

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