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Entenda o que é "guerra cambial"



Strauss-Kahn (direita) disse que países usam
câmbio como arma

Representantes das principais economias do mundo estarão reunidos neste final de semana em Washington com uma preocupação em comum: como evitar o que especialistas e governos vêm chamando de “guerra cambial”. Diversos países, entre eles Estados Unidos e Brasil, reclamam de outras nações, sobretudo emergentes, que estariam forçando a desvalorização de suas moedas como forma de beneficiar suas exportações.

Anfitrião do encontro, o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn, disse que muitos países consideram suas moedas como uma “arma” e que isso “certamente não é bom para a economia global”.

O foco das críticas tem sido a China, que tem o controle cambial sobre sua moeda, o yuan – enquanto nas principais economias do mundo as moedas locais flutuam de acordo com as negociações de mercado.

O governo brasileiro já começou a agir: em menos de uma semana anunciou duas medidas com o objetivo de restringir a entrada de capital estrangeiro no país e, assim, tentar atenuar a valorização do real.

O que seria uma guerra cambial?

O termo vem sendo usado por diversos governos e economistas para descrever uma suposta disputa entre os países envolvendo suas moedas.

O argumento é de que alguns países, sobretudo emergentes, estariam “forçando” a desvalorização de suas moedas para beneficiar seus ganhos com exportação.


Apesar de negócios com a China, EUA criticaram
a desvalorização do yuan

Os governos têm evitado um confronto direto com a China, mas muitos consideram o país asiático como vilão dessa disputa. Além de ser uma das principais economias do mundo, a China é uma das poucas a manter o regime de câmbio fixo.

A cotação da moeda local, o yuan, é controlada pelo governo, enquanto nas principais economias o câmbio é flutuante, ou seja, tem sua cotação definida pelas negociações de mercado.

Para muitos economistas, essa diferença entre os regimes causa distorções na economia financeira internacional, levando à adoção de medidas de retaliação – daí o termo “guerra cambial”.

Essa guerra já está em curso?

É difícil afirmar com precisão. Muitos especialistas, como o colunista do jornal britânico Financial Times, Martin Wolff, acreditam que sim. Já o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, prefere falar em “tensão” no lugar de “guerra”.

Seja guerra ou apenas uma tensão, todos parecem concordar que existe um movimento em curso em diversos países cujo objetivo seria o de evitar prejuízos com uma excessiva valorização cambial.

Um desses países é o Brasil, que em menos de uma semana anunciou duas medidas para tentar atenuar a valorização do real. A principal delas foi a elevação de 2% para 4% do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre o capital estrangeiro que entra no país em busca de rendimentos de curto prazo (basicamente, títulos do governo).

Mas o Brasil não é o único. No mês passado, o governo japonês decidiu intervir na cotação de sua moeda, o iene, algo que o país não fazia desde 2004. O banco central da Coreia do Sul também anunciou medidas que deverão interferir no câmbio a partir deste mês.

Os Estados Unidos, apesar de mais cautelosos em função da forte ligação econômica com Pequim, também têm subido o tom contra a desvalorização da moeda chinesa.

No mês passado, a Câmara dos EUA aprovou um projeto de lei que permitirá ao governo americano tratar a desvalorização do iene como um subsídio, abrindo as portas para uma série de medidas protecionistas contra a importação de produtos chineses.

Se o câmbio chinês sempre foi fixo, por que essa discussão agora?

Segundo o professor da Faculdade de Economia da USP Celso Grisi, a origem desse debate está na crise financeira internacional.

“Estados Unidos e Europa, principalmente, ainda sofrem as consequências da turbulência que começou há dois anos, com desemprego e sérios problemas fiscais”, diz o economista.

Com o consumo interno ainda fraco, muitos países têm buscado nas exportações uma forma de manter a economia rodando.

Mas como não tem sido fácil encontrar compradores em outros países, a desvalorização cambial acaba sendo uma saída para tornar as vendas ao exterior mais competitivas.


A China é considerada uma das principais
responsáveis pelo debate

O problema, então, está só na China?

Segundo os economistas, não. Por ser o maior exportador do mundo e exercer o controle sobre sua moeda, a China é responsável por grande parte do problema, mas não é a única.

Há diversos fatores que também contribuem para a excessiva valorização de algumas moedas e para um desequilíbrio comercial.

Com um deficit de 3% (em relação ao PIB) em sua conta corrente, que inclui um forte deficit comercial com os chineses, os Estados Unidos culpam Pequim por prática de “comércio injusto” ao manter o yuan desvalorizado.

Por outro lado, há o argumento de que os Estados Unidos não só “criaram a crise”, como também permitiram que a poupança interna ficasse abaixo do desejável, tornando o país extremamente dependente de importações.

O governo brasileiro, que acompanha os Estados Unidos nas críticas à política cambial da China, também tem problemas internos que mantêm sua moeda valorizada.

“O Brasil tem uma das maiores taxas de juros do mundo, que acabam sendo mantidas nesse patamar para sustentar a dívida pública. Ou seja, o problema não é só com os chineses”, diz Grisi.

E qual seria a solução para o problema?

A discussão sobre como equilibrar as diferenças cambiais entre os países é considerada um dos temas mais controversos da macroeconomia. Para muitos especialistas, trata-se de um problema sem uma solução única.

Como os teóricos da atualidade descartam a volta de um regime internacional de câmbio fixo, que segundo eles impõe uma série de desvantagens, a saída seria um “meio termo” – ou seja, manter o câmbio flutuante, mas com alguma coordenação entre os países.

Essa coordenação, no entanto, pressupõe uma ampla negociação entre as principais economias. “Em toda negociação, todos têm de ceder. E esse nunca é um processo fácil entre potências”, diz o professor da USP.

Segundo ele, algumas medidas poderiam “atenuar” o problema, como um maior controle sobre gastos públicos da parte dos países ricos e uma disposição da China em aceitar um grau maior de valorização de sua moeda. “Mas nada disso é simples”, acrescenta Grisi.

O assunto promete ser o principal tema não apenas da reunião do FMI, que começa nesta sexta-feira, mas também da cúpula do G20, nos dias 11 e 12 de novembro, na Coreia do Sul.

Fonte: BBC Brasil

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