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Família, a grande fonte da saúde


Dependendo do momento que você está atravessando nas suas relações com pais, filhos e cônjuges, você irá gostar mais ou menos dessa idéia, mas a medicina já se rendeu completamente a ela: a sua família está no centro da sua saúde e tem função determinante no seu bem-estar físico e mental a longo prazo. Na última década, esse aspecto da convivência entre pais, maridos e esposas, irmãos e outros parentes instalou-se no âmago das preocupações de cientistas e obteve financiamentos mais generosos para demonstrar como e por que o que se passa entre quatro paredes tem o poder de condicionar as respostas do organismo. O resultado desse investimento está transformando a maneira de encarar a vida em família.

Dezenas de estudos recentes têm trazido à tona informações consistentes para assegurar que os laços familiares não são importantes apenas na formação de hábitos saudáveis, como gostar de frutas e legumes ou praticar alguma atividade física, mas também em muitas outras facetas da vida jamais imaginadas. Eles interferem, por exemplo, nos riscos que se corre no trânsito, na idade em que têm início as alterações hormonais da puberdade, na tendência à automedicação, na facilidade para perder ou ganhar peso e até na vulnerabilidade ao câncer. A visão revelada pela ciência do papel das ligações familiares sobre a saúde é fascinante. “A boa saúde começa cedo na vida, na infância, influenciada pelo ambiente familiar. E a saúde mais precária também começa dessa maneira”, diz a cientista Rena Repetti, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

A pesquisadora reuniu mais de 500 estudos sobre o tema para fazer uma espécie de auditoria do que já pode ser aceito como verdade. Uma das mais sólidas descobertas é que as crianças que cresceram em um ambiente de acolhimento e segurança emocional em geral são providas de maior senso de integração social e mais capazes de regular o próprio comportamento para manter a saúde do corpo e da mente independentemente do apoio de outras pessoas.

A outra constatação, tão sólida quanto a primeira, é que o contrário disso – viver em famílias cujo cotidiano é marcado por episódios de raiva e agressões – torna crianças, adolescentes e adultos vulneráveis a uma ampla gama de males físicos e mentais. Isso vale tanto para ameaças imediatas – como ficar mais desprotegido diante do risco de tornar-se dependente de álcool, tabagismo e outras drogas – quanto para firmar as bases de longo prazo para a expressão de males cardiovasculares e de desordens afetivas, como a depressão e a ansiedade. Os pesquisadores acreditam que a manutenção da tensão doméstica e a sensação de desamparo constante, por exemplo, levam ao desajuste de vários sistemas do organismo e podem antecipar enfermidades para as quais a pessoa tenha alguma predisposição genética, como a diabete e o câncer. “O que estamos vendo é que existe uma grande e profunda interligação entre as relações familiares, o estilo de vida, a genética, a saúde e a maneira como as pessoas enfrentam as doenças”, explica o geriatra Fábio Nasri, do Hospital Albert Einstein, de São Paulo.

Interessados em aprofundar a compreensão de todo esse complexo mecanismo, os cientistas estão desenvolvendo investigações em todo o planeta. Grande parte delas reforça os achados da pesquisadora Rena Repetti. Na Universidade de Hong Kong, por exemplo, um grupo dedicou-se a avaliar a evolução de 47 crianças que participaram de um programa de tratamento da asma. As que tiveram uma redução de sintomas mais notável, como a diminuição da inflamação dos brônquios, e aderiram melhor às mudanças recomendadas foram aquelas cujos pais se engajaram ativamente nas sessões de terapia familiar oferecidas pelo projeto de controle da doença. “Quando os familiares se envolvem e criam uma rotina que abrange a tomada da medicação na hora certa, as crianças incorporam as medidas de controle com mais tranqüilidade, se preocupam menos com os sintomas e vão parar menos vezes no atendimento de emergência”, disse à ISTOÉ a psicóloga Barbara Fiese, da Universidade de Siracusa, nos Estados Unidos. A instituição também participou do trabalho.

Processo semelhante ocorre com adolescentes, como assinalou um trabalho da Universidade de Chicago, também nos EUA, sobre a bulimia, transtorno alimentar caracterizado pela ingestão de alimentos e posterior indução ao vômito. Cerca de 30% dos jovens cujos pais e irmãos aceitaram fazer psicoterapia – por causa do distúrbio de um dos membros da família – se mantiveram a salvo de novos episódios seis meses após o tratamento, contra 10% entre os que foram tratados sem a mobilização dos familiares.

As linhas invisíveis que unem a saúde atual e futura de uma pessoa à sua família são ainda mais impressionantes. Quem poderia imaginar, por exemplo, que um ambiente familiar estável e com espaço para expressão das emoções e conflitos pode postergar o início das alterações hormonais que levam à puberdade? Segundo pesquisadores de duas universidades americanas, de Wisconsin e do Arizona, isso é possível e, melhor ainda, pode ser um fator de proteção da juventude. Eles chegaram a essa conclusão depois de observar 277 famílias e seus filhos da infância até o ensino médio. Para os especialistas, a antecipação da puberdade é um conhecido risco para problemas de saúde, como transtornos de humor, gravidez precoce e a exposição a doenças sexualmente transmissíveis, como o vírus HPV, que em suas formas mais graves pode levar ao câncer de colo de útero. Segundo os pesquisadores, pobreza, conflitos de casal, negatividade e agressões entre pais e filhos podem acelerar esse processo de antecipação.

Muitos estudos também procuram explicar as conseqüências das relações conjugais bem administradas e daquelas mais conturbadas. Um deles foi feito por pesquisadores americanos e do Rio Grande do Sul com jovens casais de Porto Alegre. “A depressão está associada à má qualidade conjugal. Um problema pode levar ao outro, mas vimos que entre os jovens brasileiros a pobre qualidade da vida conjugal é que abre as portas para a depressão, especialmente nas mulheres”, disse à ISTOÉ o pesquisador Cody Hollist, da Universidade de Nebraska (EUA). Ele agora está avaliando por que as desavenças prolongadas a dois imprimem sua marca com tanta força na saúde mental. Uma das hipóteses do estudo de Nebraska é que a vida a dois gera um apoio social que ajuda as pessoas a lidar com as contrariedades do dia-a-dia. Inversamente, porém, elevados níveis de stress sem interrupção podem levar à depressão e à ansiedade crônica.

Boas ou más, as relações familiares também interferem no que diz respeito ao sucesso de uma dieta. Já era sabido que conseguir fechar a boca, enquanto o parceiro se delicia com um pedaço de bolo ou de pizza bem ao lado, é tarefa dificílima. Mas um levantamento divulgado na última semana pela Universidade de Ryerson, do Canadá, foi mais fundo no assunto. Os cientistas averiguaram o que está por trás das reações quando um dos familiares precisa adotar uma dieta por razões de saúde. “Os gestos da maioria dos parceiros e de outras pessoas importantes à mudança de alimentação refletiram a dinâmica geral da relação. Houve atitudes de cooperação, como mudar a lista de compras e compartilhar informações, mas também pessoas que mostraram ceticismo e raiva”, disse Judy Paisley, coordenadora do trabalho. A pesquisadora percebeu que muitos parceiros dispostos a ajudar entendiam que essa era uma extensão natural das relações. Nos casos em que a proposta não caiu bem para o companheiro ou demais familiares próximos, o gesto mais comum foi degustar alimentos proibidos na frente de quem deve privar-se deles, sem ter consciência de estar causando um dano. Para quem estava em dieta, o esforço teve de ser maior para não ceder às tentações. E a chance de perder peso foi menor.

O que esses trabalhos deixam claro, cada um a seu modo, é que, no ambiente familiar, é preciso tomar cuidado para evitar que os mal-entendidos criem raízes, gerem mágoas e afastem as pessoas. Para conseguir isso, não há solução mágica. Pelo contrário, ela é bem palpável, mas depende do comprometimento de todos para criar estratégias que fortaleçam os vínculos. O geriatra Nasri, por exemplo, guarda o final da tarde de domingo para reuniões com a mulher e o filho de nove anos. Nesses minutos, eles conversam sobre a vida e procuram falar dos sentimentos. É o momento, por exemplo, em que o garoto pode contar sobre as situações em que sentiu medo ou raiva e ter a certeza de que os pais o ouvirão com respeito. Abrir o caminho da conversa, de fato, é fundamental. “Assim, começam a circular os sentimentos e as possibilidades de resolver problemas, estreitar vínculos e ter mais saúde”, diz a psicóloga Magdalena Ramos, autora do livro E agora o que fazer? A difícil arte de criar os filhos.

Isso acaba ocorrendo porque uma boa, franca e pacífica conversa remove as tensões que corroem o bem-estar e que, ao longo do tempo, pavimentam o caminho para o stress e as inúmeras alterações bioquímicas prejudicais ao organismo disparadas por ele. Com um ambiente mais tranqüilo, também fica mais fácil se recuperar de doenças ou melhorar a qualidade de vida mesmo quando a cura não está à vista. São conhecidos os casos de pacientes que apresentam uma convalescença muito mais positiva porque são apoiados por suas famílias. Há várias razões para isso. “Quando o paciente se sente desamparado e deprimido, seu sistema de defesa fica enfraquecido, o que facilita a ocorrência de uma infecção hospitalar ou de um pósoperatório mais lento”, explica o cirurgião torácico Anderson Nassar Guimarães, do Rio de Janeiro. “Ao contrário, quem sabe que é querido tem a autoestima em alta e mais incentivo para se restabelecer”, assegura o especialista. Foi o que aconteceu com o industriário carioca Nelson Araújo Cardoso, 74 anos. Nas duas cirurgias que fez para retirar um tumor do pulmão e outro da cabeça, ele não ficou um minuto sem um ente querido por perto. “Enfrentei melhor as duas cirurgias e a recuperação”, diz.

Fonte: Revista Isto É

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