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G20: como funciona e a importância do próximo encontro


O G20 (grupos das vinte maiores economias do mundo) se reúne em Seul, na Coreia do Sul, de 10 a 12 de novembro, com uma agenda ambiciosa. O principal desafio do grupo é chegar a um consenso sobre como impedir uma nova rodada da chamada “guerra cambial”. Paralelamente, o debate “estímulo versus austeridade” e a proposta dos Estados Unidos de fixar um limite para os saldos comerciais dos países, levantada durante a reunião preparatória para o encontro em outubro, devem fazer parte das discussões periféricas.

Alcunha dada pelo ministro da Fazenda brasileiro Guido Mantega, a “guerra cambial” define as medidas unilaterais dos países para conter a valorização excessiva de suas moedas em relação ao dólar. A moeda forte prejudica as exportações, já que os produtos ficam mais caros no mercado internacional. A tensão em torno do tema aumentou nos últimos dias, frente à grande desaprovação mundial às medidas tomadas pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de despejar nos Estados Unidos 600 bilhões de novos dólares destinados à compra de títulos do governo.

A segunda rodada de afrouxamento monetário nos EUA, chamada de “Quantitative Easing 2”, foi amplamente criticada pelos países emergentes, que devem sofrer uma inundação de dólares em forma de capital especulativo, o que, por sua vez, contribui para a valorização de suas moedas. O real inclusive. A China, que resiste em deixar o yuan se fortalecer, continuará no centro do debate, embora haja ceticismo sobre uma resolução rápida do impasse. O G20 já havia concordado, em sua reunião preparatória, em deter as desvalorizações competitivas de moedas, mas não ditou metas específicas. Se o grupo não atingir um consenso realista de como lidar com o tema daqui em diante, corre o risco de perder relevância como fiador da unidade econômica mundial.

Estímulo versus austeridade - Os EUA, por conta de sua política monetária frouxa, também enfrentarão no encontro a oposição de líderes europeus. A medida do Fed vai contra o acordo definido na última reunião do G20, realizada em junho, no Canadá, de controlar os déficits orçamentários. Os países desenvolvidos haviam determinado cortar seus déficits pela metade até 2013 e reduzir a dívida pública em relação ao produto interno bruto (PIB) – principal indicador de solvência de um país. O estímulo americano mira no sentido contrário aos pacotes rígidos de austeridade a que estão se submetendo os países europeus e deve enfrentar protestos em Seul.

A proposta americana - No encontro preparatório de outubro em Gyeongju, também na Coreia do Sul, os EUA propuseram uma medida polêmica: fixar limites aos saldos comerciais de todos os países, na tentativa de conter a disputa cambial. O secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, defendeu um de teto de 4% do PIB para o resultado em transações correntes para corrigir desequilíbrios. A proposta enfrentou a oposição dos exportadores China, Alemanha e Japão. Neste próximo encontro, os EUA devem pressionar para que os ministros das finanças e presidentes de bancos centrais dos países-membro cheguem a um acordo sobre o tema.

Outros temas - Entre outros temas, a agenda do G20 também deve integrar discussões sobre regulação financeira e revisar o acordo de Basileia III, estabelecido em setembro deste ano. Os países emergentes também aproveitarão a reunião para pressionar pelo avanço da reforma do Fundo Monetário Internacional (FMI), estabelecida no encontro preliminar de outubro. Pelo acordo, países europeus devem ceder dois de seus oitos assentos no comitê de 24 membros, dando mais poder aos poderes emergentes, como Brasil, Rússia, Índia e China, os integrantes do Bric.

Imediatamente após o encontro, no dia 13 de novembro, a França deve assumir a presidência do G20, atualmente nas mãos da Coreia do Sul. A Coreia é o primeiro país asiático a sediar a reunião do grupo e o primeiro fora do G8 (grupo das oito maiores economias do mundo).

ENTENDA COMO FUNCIONA O G20 E A RELEVÂNCIA DO PRÓXIMO ENCONTRO

1.Quando e por que foi criado o G20?
O G20 foi criado em 1999, ao final de uma década marcada por turbulências na economia (na Ásia, no México e na Rússia). Além de resposta a essas crises, a formação do grupo foi uma forma de os países ricos reconhecerem o peso dos emergentes, que se mostraram capazes de ameaçar os mercados com suas instabilidades. O G7 - bloco de nações mais desenvolvidas do planeta, que agrega agora a Rússia - já se reunia para falar de economia desde 1975. Mas, com os distúrbios da década de 1990, passou a abrir a discussão a países em desenvolvimento. Em 1998, reuniões mais amplas que as do G8, com até 33 países, deram início à inserção dos emergentes na conversa. O movimento resultaria na formação do G20.

2. Quais as nações que compõem o grupo?
Ministros da área econômica e presidentes dos bancos centrais de 19 países: os que formam o G8 e ainda 11 emergentes. No G8, estão Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Reino Unido e Rússia. Os componentes do G20 são: Brasil, Argentina, México, China, Índia, Austrália, Indonésia, Arábia Saudita, África do Sul, Coréia do Sul e Turquia. A União Européia, em bloco, é o membro de número 20, representado pelo Banco Central Europeu e pela presidência rotativa do Conselho Europeu. O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, assim como os Comitês Monetário e Financeiro Internacional e de Desenvolvimento, por meio de seus representantes, também tomam assento nas reuniões do G20. 3. Quais os critérios para adesão ao grupo?
Apesar de não haver critérios formais de adesão ao G20, existe uma intenção declarada de unir num mesmo grupo grandes potências e nações em desenvolvimento e também de manter inalterado o tamanho da organização. "Em um fórum como o G20, é particularmente importante que o número de países envolvidos seja restrito e fixado para assegurar a eficácia e a continuidade de suas atividades", diz texto do site da instituição. A composição é a mesma desde a sua fundação, em 1999. Aspectos como o equilíbrio geográfico e a representação populacional dos países-membros também foram levados em conta à época da criação do grupo.

4. A que fração da economia mundial corresponde o G20?
Os países que compõem o grupo respondem juntos por 90% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Se computadas as transações internas da União Européia, o grupo responsável por cerca de 80% do comércio internacional. Além disso, dois terços da população global estão distribuídos entre os países que formam o G20. Em declaração feita no final de 2008, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que os emergentes do G20 respondem hoje por "75% do crescimento mundial".

5. Como funciona o G20?
Ao contrário de organismos transnacionais como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o G20 não conta com equipe permanente. Neste sentido, seu modelo de operação é semelhante ao do G8. Rotativa, a presidência do grupo muda a cada ano. Em 2008, o Brasil foi escolhido para presidir o G20; em 2009, o Reino Unido e, em 2010, a Coréia do Sul. Para garantir a continuidade dos trabalhos, a presidência opera em um esquema tripartite, chamado de Troica: uma diretoria formada por três peças fundamentais concentra ao mesmo tempo uma pessoa ligada à presidência anterior, uma relacionada à atual e outra à futura gestão. A cada presidência, é definido um secretariado provisório, que coordena os trabalhos e organiza as reuniões do grupo.

6. Quando acontecem as reuniões e o que se discute nelas?
Os ministros da área econômica e os presidentes de bancos centrais do G20 costumam se reunir uma vez por ano. Em 2008, o encontro aconteceu em São Paulo, nos dias 8 e 9 de novembro - poucos dias depois, chefes de estado do G20 se reuniriam em Washington, a convite do presidente americano, George W. Bush. Nessas oportunidades, os dirigentes debatem tópicos orçamentários e monetários, comerciais, energéticos, saídas para o crescimento e formas de combater o financiamento ao terrorismo. Na presidência rotativa da organização, o Brasil propôs três temas para 2008: competição nos mercados financeiros, energia limpa e desenvolvimento econômico e elementos fiscais de crescimento e desenvolvimento. Os assuntos foram abordados em seminários realizados em fevereiro, na Indonésia, em maio, em Londres, e em junho, em Buenos Aires. Em pleno movimento de recuperação, os países discutem nesta edição de 2010 questões relacionadas à estabilidade da economia global e às possíveis maneiras de fortalecer o comércio e seus investimentos. 7. Que decisões já foram tomadas nessas reuniões?
Na cúpula de 2008, em Washington, o primeiro encontro desde o início da crise financeira, os países decidiram maneiras de retomar o crescimento econômico, as maneiras de lidar com crises financeiras e o estabelecimento de normas para evitar crises futuras. Em 2009, em Londres, a ideia foi construir bases para a reforma de um sistema financeiro mais seguro. Vale lembrar que o G20 é um fórum informal, não um bloco econômico como a União Europeia.

8. Instituições privadas são convidadas a participar?
Sim. Como forma de promover diálogo e sinergia entre estado e mercado, podem tomar lugar nas reuniões especialistas de instituições privadas que sejam convidados a participar. Já a presença do Banco Mundial, do FMI e dos coordenadores do Comitê Financeiro e Monetário Internacional e do Comitê de Desenvolvimento tem a função de assegurar a integração do grupo com as instituições do sistema financeiro internacional criado em Bretton Woods, em 1944, quando se estabeleceram regras para atuação financeira internacional e se tomou o dólar como parâmetro para as outras moedas.

9. Existe mais de um G20?
Sim, e isso é uma grande fonte de confusão. Existe o G20 que está sendo explicado aqui, que une países desenvolvidos e outros em desenvolvimento para falar de economia. Ele é chamado de G20 financeiro. Um outro grupo, formado apenas por nações emergentes (mais de 20, na realidade), também se denomina G20. Ele foi batizado pela imprensa de G20 comercial, já que seu foco são as relações comerciais entre países ricos e emergentes. O G20 comercial nasceu em 2003, numa reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) realizada em Cancún, no México. Liderado pelo Brasil, o grupo procura defender os interesses agrícolas dos países em desenvolvimento diante das nações ricas, que fazem uso de subsídios para sustentar a sua produção. Exceto pela Austrália, Arábia Saudita, Coreia do Sul e Turquia, todas as nações emergentes do G20 financeiro estão no G20 comercial. Também fazem parte deste grupo Bolívia, Chile, Cuba, Egito, Filipinas, Guatemala, Nigéria, Paquistão, Paraguai, Tanzânia, Tailândia, Uruguai, Venezuela e Zimbábue.

10. Há outros grupos internacionais semelhantes?
Já surgiram muitos "Gs" no cenário internacional, como G4, G5, G8, G10, G8+5 e os dois G20 citados. Vale lembrar que antes da entrada da Rússia o G8 era G7 e que, por isso, há quem o chame de G7/8 ou G7+1. G8+5 é o nome que se dá aos encontros esporádicos entre o G8 e o G5, mais um grupo informal de países em desenvolvimento: Brasil, China, Índia, México e África do Sul. O G5 vem sendo chamado a se sentar à mesa das grandes potências pela relativa importância econômica que vem conquistando no cenário mundial. Já foram criados vários G4, mas o principal deles foi uma associação entre EUA, Brasil, União Européia e Índia. O principal objetivo do grupo era o de tratar de questões comerciais, quando preciso envolvendo a Organização Mundial do Comércio (OMC). Mas alguns fracassos, como nas negociações feitas em Postdam (Alemanha) sobre a liberalização do comércio mundial, em junho de 2007, levaram à saída do Brasil e da Índia e, consequentemente, ao fim do grupo. No episódio de Postdam, Bush culpou os dois países pelo malogro nas negociações. Fundado em 1964, o G10 reunia as dez maiores economias capitalistas da época. Hoje, são 11: Alemanha, Canadá, Bélgica, Estados Unidos, França, Itália, Japão, Holanda, Reino Unido, Suécia e Suíça. Os países do chamado Grupo dos Dez participam do General Arrengements to Borrow (GAB), um acordo para a obtenção de empréstimos suplementares, para o caso dos recursos estimados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) estarem aquém das necessidades de um dos países-membros. O G10 concentra 85% da economia mundial.

Fonte: Revista VEJA

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