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Hugo Chávez, 10 anos no poder



Hugo Chávez, 10 anos no poder

Há dez anos, cerca de 4,8 milhões de venezuelanos viviam em situação de pobreza e a saúde e a educação eram um privilégio.

Desde que o presidente Hugo Chávez assumiu o governo, a área social passou a ser prioritária em sua gestão, que contou com o incremento dos preços do petróleo para o financiamento dos projetos sociais.

Até mesmo os críticos da política econômica do governo, cuja estrutura continua dependente fundamentalmente da exploração petrolífera, concordam que as condições de vida dos venezuelanos melhoraram sob a administração chavista. “Os setores sociais antes marginalizados e excluídos, realmente saíram da pobreza crítica, estão melhor, ninguém pode negar isso. Os que não comiam nem o suficiente, agora estão comendo”, afirmou Domingo Maza Zavala, ex-diretor do Banco Central da Venezuela (BCV).

De acordo com o Instituto Nacional de Estatísticas, em 1999, 20,1% dos venezuelanos viviam na extrema pobreza. Em 2007, o índice havia caído para 9,5%. O número de pobres total no início do governo era de 50,5 % - mais de 11 milhões de venezuelanos. Esse número caiu para 31,5%. De um universo de 26,4 milhões de pessoas, 18,8% dos venezuelanos saíram da linha da pobreza (cálculo realizado com base nos dados oficiais).

Para o historiador norte-americano Steve Ellner, professor da Universidade dos Andes, no Estado de Mérida (Venezuela), entre apostar no desenvolvimento econômico e na industrialização do país ou investir no setor social, Chávez privilegiou o segundo na divisão da renda obtida com o petróleo. “No curto prazo, programas de desenvolvimento econômico teriam dado resultados mais rápidos, mas a prioridade era o social”, afirmou.

O relatório da Cepal de 2008, que aponta a diminuição da pobreza na América Latina, indica que os programas sociais foram os responsáveis pela queda no número de pobres na Venezuela.

De acordo com uma pesquisa realizada em 2007 pela empresa Datanálisis, nos últimos oito anos o consumo das classes E e D havia aumentado em 22%, impulsionado pelo incremento do salário mínimo (que subiu de US$ 47 em 1999 para US$ 371) e pela ajuda financeira que provém dos programas sociais.

Com exceção dos programas relacionados com a saúde, os beneficiários das “missões” (nome dado por Chávez aos programas sociais) recebem uma ajuda média de US$ 100. “Parte dos recursos obtidos com o petróleo foi distribuída por meio desses programas”, afirmou o ex-diretor do BCV Maza Zavala.

“Missões”


Troca de petróleo por médicos cubanos faz
parte das 'missões bairro adentro'

O “Bairro Adentro” foi um programa social implementado pelo governo em 2003. Esta “missão”, que presta atendimento médico básico e familiar nas periferias do país, inaugurou o projeto de cooperação Cuba-Venezuela, que hoje está presente nas áreas de saúde, educação e esporte.

Os programais sociais são financiados com a receita excedente do petróleo e contam com estrutura e dinâmicas próprias, que obedecem fundamentalmente às diretrizes da Presidência da República, sem passar pelo filtro dos ministérios.

No entendimento do governo, a estrutura burocrática governamental impediria que os projetos alcançassem, com a velocidade que a conjuntura política exigia, um número considerável da população pobre, que foi e continua sendo a base de apoio do chavismo. “Quando o governo teve que enfrentar a ameaça de perder o referendo (revogatório realizado em 2004), tirou quase que da manga o programa 'Bairro Adentro ', que teve um impacto extraordinário”, afirmou à BBC Brasil o sociólogo Edgardo Lander, da Universidade Central da Venezuela. “Agora, as pessoas têm um médico a duas quadras de casa no caso de uma emergência, é uma mudança significativa na qualidade de vida das pessoas”, acrescentou.

Lander explica que a crise da saúde pública no país no período anterior a Chávez estava associada a dois fatores principais: a privatização do sistema e a resistência dos profissionais em atuar no setor público, desmantelado nas décadas anteriores, de acordo com o sociólogo. Agora, as pessoas têm um médico a duas quadras de casa no caso de uma emergência, é uma mudança significativa na qualidade de vida.

“Para esses médicos, ir a um bairro pobre era o mesmo que ir a uma zona de guerra. Era algo completamente alheio à sua realidade”. Edgardo Lander, sociólogo


Organização

Magaly Perez é coordenadora de um Comitê de Saúde no bairro periférico de 23 de Enero, em Caracas.

Os comitês reúnem voluntários da vizinhança onde está instalado o programa “Bairro Adentro”, que diagnosticam os problemas de saúde do local e auxiliam na atuação dos médicos cubanos.

Perez conta que o trabalho de censo da população do bairro fez com que esses voluntários “tomassem consciência da organização comunitária e da importância de participar para transformar nossa realidade”.

De acordo com os moradores do bairro, antes, a única alternativa para a população de baixa renda era enfrentar horas de fila em hospitais para receber algum tipo de atenção.

“Antes, morriam pessoas aqui porque não tínhamos assistência médica adequada. Isso mudou com a revolução”, afirmou Magaly Perez à BBC Brasil, enquanto anotava a lista dos idosos que participariam do exercício matinal realizado três vezes por semana com o auxílio de um técnico cubano. “Os cubanos trabalham dia e noite, mas os médicos venezuelanos não, eles são capitalistas e o povo deu as costas a ele. Eles não sobem o morro para socorrer ninguém”, afirmou.

“Antes, morriam pessoas aqui porque não tínhamos assistência médica adequada. Isso mudou com a revolução". Magaly Perez


Em 1998, havia 1,6 mil médicos atuando no atendimento primário de uma população de 23,4 milhões de pessoas. Atualmente há 19,6 mil para uma população de 7 milhões. Deste total, 14 mil profissionais são cubanos, entre médicos, enfermeiras e técnicos em saúde.

A disputa entre os médicos venezuelanos - que alegam falta de condições e segurança para atuar nas periferias e hospitais públicos – e o governo – que argumenta que o problema é de natureza política - levou a administração chavista a criar um sistema de saúde paralelo, com a ampliação do “Bairro Adentro” em pequenas clínicas especializadas.

O resultado da disputa, de acordo com Lander, foi o abandono ainda maior da rede de hospitais públicos. “A rede hospitalar foi abandonada na parte de insumos e atendimentos, os hospitais sofreram um deterioramento grande”, afirmou.

A quantidade de novas clínicas do “Bairro Adentro”, porém, ainda é insuficiente para atender a toda a população, de acordo com a organização não-governamental PROVEA.

Política

Na mesa da sala de espera do pequeno consultório no bairro de 23 de Enero havia um abaixo assinado em apoio à emenda constitucional que irá a referendo em 15 de fevereiro, cuja eventual aprovação colocará fim ao limite para a reeleição aos cargos públicos, entre eles, a Presidência.

Uma das senhoras que aguardavam atendimento se antecipou em dar uma explicação: "A saúde aqui não tem ideologia política, muitos que vêm aqui não apóiam o comandante (Chávez), mas, mesmo assim, são beneficiados", afirmou Josefina Rodriguez, de 70 anos.

De acordo com o Ministério da Saúde, a mortalidade infantil também foi combatida na última década, ao passar de 21,4 por cada mil nascidos, em 1998, para 13,7 em 2007. No Brasil, em 2007, o índice era de 24,32 por cada mil nascimentos.

O “Bairro Adentro” serviu de modelo para as outras “missões”, que abrangem as áreas de educação básica, superior e profissionalizante, de auxílio às mães solteiras, de subsídio alimentar, entre outras.

Em 2005, na metade do governo Chávez, o Ministério de Educação declarou o país “livre de analfabetismo” com a aplicação do método cubano “Yo sí puedo”, metodologia aplicada recentemente na Bolívia e em algumas áreas do nordeste do Brasil.

De acordo com o governo, 1,6 milhão de adultos foram alfabetizados no período de dois anos. Ainda segundo o governo, 3,4 milhões de pessoas foram graduadas nas “missões” educativas.

Institucionalização

Julio Borges, dirigente do partido de oposição Primeiro Justiça (centro-direita) reconhece que durante o governo Chávez “houve um despertar social muito importante, principalmente entre os mais pobres, com a participação” das pessoas envolvidas com o projeto chavista.

Borges, porém, questiona se a estrutura criada para manter as missões poderá ser mantida ao longo do tempo. “É um problema estrutural. As pessoas estão contentes com Chávez porque estão se afogando no mar e as missões são um colete salva-vidas. Mas a pergunta é se um dia elas vão sair do mar”, afirmou.

Para a oposição, analistas e inclusive alguns chavistas, a falta de institucionalização nos programas sociais abre o precedente para a corrupção, já que não há um sistema de controle que regule essas atividades e o manejo dos recursos públicos.

“As pessoas estão contentes com Chávez porque estão se afogando no mar e as missões são um colete salva-vidas. Mas a pergunta é se um dia elas vão sair do mar". Julio Borges, dirigente do partido Primeiro Justiça


Em 2008, o orçamento anunciado para as missões foi de US$ 2,6 bilhões.

O sociólogo Edgardo Lander avalia que, passado o período de “emergência” para a criação dos programas sociais, o governo deveria institucionalizá-los. “As pessoas não podem viver neste estado de emergência permanentemente e não pode haver essa espécie de militância na gestão pública”, afirmou.

Dívida

A insegurança continua sendo a principal dívida social do governo, na avaliação de especialistas. A violência é a principal preocupação dos venezuelanos, de acordo com uma pesquisa da empresa Hinterlaces.

De acordo com um levantamento do Centro para a Paz e Direitos Humanos da Universidade Central da Venezuela, publicado no relatório da ONG Provea de 2007, em 1998, o índice de homicídios era de 25 por 100 mil habitantes.

Em nove anos o número subiu para uma média de 45 mortos por 100 mil pessoas em 2007, com cerca de 13 mil assassinatos no mesmo período.

“Em um governo que pretende impulsionar a democratização da sociedade e favorecer os setores populares, nos damos conta de que são justamente eles os que mais sofrem as conseqüências da insegurança”, afirmou Edgardo Lander. “O governo pensa que o problema da segurança é somente estrutural no âmbito da educação e da cultura”, acrescentou.

“Em um governo que pretende favorecer os setores populares, nos damos conta de que são justamente eles os que mais sofrem as conseqüências da insegurança". Edgardo Lander, sociólogo


O ministro de Relações Exteriores, Nicolas Maduro, ex-presidente do Congresso, admite que um dos principais desafios do governo é combater a criminalidade, sem apontar no entanto, soluções para o problema. “É muito grave que em um país no qual se pretende construir a paz e estabilidade existam esses fenômenos, talvez seja um dos grandes desafios para a próxima década”, afirmou.

VENEZUELA ENFRENTA DESAFIO DE REDUZIR DEPENDÊNCIA DO PETRÓLEO

 


Há uma década, o país que é o 5º exportador mundial de petróleo

Quando o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, abriu a sessão da bolsa de valores de Nova York em 1999, a crítica feroz ao capitalismo, presente em seus discursos dos últimos anos, passava longe do vocabulário do mandatário.

Essa história mudou. Chávez, que hoje defende a implementação de um modelo socialista no país, admite que no início de seu governo havia um momento de "indefinições". "Hoje não tenho dúvidas, esse é o caminho (...) o impulso dessa revolução já está dado, o que temos que dar é boa direção rumo ao socialismo bolivariano", afirmou o mandatário em recente entrevista concedida a um canal de TV local, ao avaliar seus dez anos na Presidência.

No entendimento do governo, a consolidação do socialismo deveria passar pela recuperação do papel do Estado na economia, em uma tentativa de inverter a doutrina liberal aplicada nas décadas anteriores, de acordo com a avaliação da historiadora Margarita López Maya, da Universidade Central da Venezuela. Agora estamos outra vez em um processo de centralização do Estado na regulação de todos os âmbitos da vida nacional", afirmou.

Nacionalizações

Para recuperar o papel do Estado na economia o governo adotou como medida a re-estatização dos setores considerados estratégicos. Foram re-estatizadas as companhias de telecomunicações e de eletricidade, a Faixa Petrolífera do rio Orinoco (que em 2010 poderá ser certificada como a maior reserva petrolífera do mundo), a maior indústria siderúrgica do país e três empresas de cimento.

Para o economista Andrés Santeliz, professor da Universidade Central da Venezuela (UCV), com exceção do setor petrolífero, peça-chave da economia venezuelana, a medida não ataca o principal problema econômico do país, que a seu ver é o incremento da produção. "Os recursos gastos nas re-estatizações seriam mais bem aproveitados se fossem aplicados em outras áreas de produção, para desenvolver infra-estruturas e moradias, por exemplo", afirmou.

Estima-se que o governo tenha investido cerca de US$ 6 bilhões em estatizações.

Diversificação da economia

Há uma década, quando Chávez assumiu o poder no país que é o quinto exportador mundial de petróleo, os principais desafios apontados pela sua equipe econômica eram tirar a Venezuela da recessão dos últimos anos e tornar a economia menos dependente do combustível. A promessa era "propiciar uma reativação econômica sobre bases sólidas e permanentes", diz o Programa Econômico de Transição 1999-2000.

A primeira tarefa o governo cumpriu. A economia se recuperou depois de enfrentar períodos de instabilidade política. O mais grave deles culminou em um fracassado golpe de Estado em 2002. Além disso, a Venezuela enfrentou uma greve do setor petrolífero entre 2002 e 2003, o que levou o país a uma recessão econômica com perda de 24% do PIB. A partir do terceiro trimestre de 2003 até o segundo trimestre de 2008, a economia Venezuela foi uma das que mais cresceram na América Latina, com uma média de 11,2%, números "sem precedentes na história" afirma o ex-diretor do Banco Central da Venezuela, Domingo Maza Zavala.

De acordo com relatório do BC divulgado ano passado, o crescimento é fruto indireto da bonança do setor petroleiro, e teria sido "estimulado pelo aumento de investimentos e o consumo" e também "pelo nível do gasto público associado à extensão dos programas sociais do governo". O gasto público que era de US$ 12 bilhões em 1998 saltou para US$ 140 bilhões em 2007, de acordo com dados da entidade financeira.

Mais dependência

O segundo e maior desafio, porém, que é reduzir o modelo de dependência do petróleo, a partir da diversificação da economia, continua. Na opinião do economista Enzo Del Búfalo, na última década essa transição se tornou ainda mais difícil. Quando Chávez assumiu o poder, o preço do barril do petróleo era cotado em US$ 7. Com o aumento da demanda mundial e a guerra no Iraque, aliadas a políticas de ajuste da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o preço do barril disparou, chegando a US$ 147 em julho de 2008.

"Todo esse auge petroleiro não se traduziu no mais importante para a economia que são os investimentos", afirmou o economista. "O modelo rentista petroleiro longe de ser eliminado se acentuou nesses dez anos", acrescentou.

Atualmente, 94% das exportações são de origem petroleira. Para Del Búfalo, o governo não investiu no campo produtivo e a "tendência à desindustrialização" iniciada na década de 90 teria sido incrementada neste período.

De acordo com Confederação Venezuelana de Indústrias, o setor foi o que menos cresceu na última década em relação aos demais setores como o comércio, manufaturas e financeiro, com uma queda de 44% das atividades sob a atual gestão.

Disputa política

Na avaliação de Del Búfalo, as dificuldades em estabelecer um projeto de desenvolvimento também estão relacionadas com a disputa política entre governo e o setor privado. O divórcio entre o governo e o setor empresarial teve início na crise política de 2002-2003, quando logo depois do golpe a federação de empresários Fedecamaras implementou, aliada à direção da estatal PDVSA, um boicote que tinha como objetivo derrocar o presidente venezuelano.

Uma das conseqüências dessa disputa, na opinião de Domingo Maza Zavala, ex-diretor do BC, é que "não há coordenação entre o setor público e privado, o que há é enfrentamento e ameaças de expropriação, de confisco das empresas (por parte do governo)", afirmou Maza Zavala.

O ministro de Relações Exteriores, Nicolas Maduro, um dos homens do "núcleo duro" do governo, responsabilizou, por sua vez, a "elite empresarial" pelas dificuldades de estabelecer um plano comum de produção voltado ao desenvolvimento do país. "Nós temos uma burguesia parasitária, ‘Miameira', dependente da visão comercial dos Estados Unidos. Ainda não temos uma burguesia nacional como existe no Brasil", afirmou.

Controle de câmbio

Na avaliação do economista Mark Weisbrot, co-diretor do Centro de Pesquisas de Política Econômica (CEPR, na sigla em inglês) de Washington, um dos principais problemas da economia venezuelana é o controle de câmbio, implementado em 2003. Com o bolívar cotado a US$ 2,15, ao mesmo tempo que o governo conseguiu conter a fuga de capitais no período de instabilidade política, o controle cambial trouxe como consequência uma supervalorização da moeda, um dos fatores que na opinião de Weisbrot impedem a diversificação da economia.

"O controle de câmbio faz com que as importações sejam artificialmente mais baratas e que as exportações não petroleiras sejam muito caras, colocando os bens comerciais venezuelanos em uma situação de desvantagem tanto no mercado internacional como no mercado interno", afirmou. "Isso dificulta a diversificação da economia e a possibilidade de romper com a dependência do petróleo, porque para isso é necessário uma taxa de câmbio mais competitiva", acrescentou.

Na prática, para o governo é mais barato importar que produzir, lógica que foi incrementada para suprir o déficit na oferta de alimentos e de outros bens e serviços ocasionados pelo aumento da demanda dos últimos anos.

Impulsionado pelo crescimento da economia, de 1998 a 2007 o consumo dos venezuelanos se incrementou em 18,7%, de acordo com o ministério de Finanças.

Crise financeira

Com o fim do boom petroleiro ocasionado pelo fim da crise financeira internacional, os especialistas afirmam que o governo terá que reajustar o orçamento, cuja base foi calculada com o preço do barril a US$60, e reduzir o gasto público. "Quando cair o gasto público, cairá a sustentação da demanda e por consequência a atividade econômica", afirma o ex-diretor do BC Maza Zavala.

Weisbrot acredita que o remédio para enfrentar a crise não é a retração do gasto, e sim mais investimentos. Para isso, o governo terá de criar um pacote de estímulos fiscais para reativar a economia. A longo prazo, o economista avalia que o governo terá de definir "uma estratégia clara de desenvolvimento" que inclua a indústria, o setor de tecnologia e a agricultura.

A desvalorização da moeda, defendida por alguns economistas, poderia ser uma receita amarga, advertem outros. Ao mesmo tempo que a medida tornaria o Bolívar mais barato e incentivaria o produção nacional, teria como conseqüência imediata o incremento da inflação, que só em 2008 registrou alta de 30%, com uma média na última década de 20,4%.

PARA ANALISTAS, ERROS DA OPOSIÇÃO FORTALECERAM CHÁVEZ

 


Chávez conta com enorme apoio popular na Venezuela

Além dos altos índices de popularidade, do controle sobre as Forças Armadas e da bonança do petróleo, o presidente da Venezuela Hugo Chávez contou com um elemento fundamental que colaborou para fortalecer seu poder ao longo da última década no país: o conjunto dos erros da oposição.
Na avaliação de analistas e políticos ouvidos pela BBC Brasil a tentativa, a qualquer preço, de derrubar o presidente e tirar a legitimidade de seu governo, aliada à divisão e a incapacidade desse grupo de propor um projeto alternativo ao chavismo, contribuíram para a consolidação da chamada revolução bolivariana.

O fracassado golpe de Estado, em abril de 2002, que chegou a afastar Chávez do poder por 48 horas, foi o primeiro e o principal erro da oposição na avaliação de Julio Borges, da direção do partido opositor Primeiro Justiça (PJ) de centro-direita. "O erro foi pensar que era preciso tirar Chávez do Palácio de Miraflores (sede do governo) quando o que tínhamos de ter feito era tirá-lo do coração das pessoas", afirmou.

Borges argumenta que a oposição ainda batalha para recuperar a confiança perdida junto à população no período de crise política no país. "Ainda estamos pagando (pelo erro) porque ao final o que se produziu é que o país viu durante muitos anos que de um lado estava Chávez e o povo e do outro lado estava a oposição", acrescentou.

O golpe levou milhares de simpatizantes do presidente, provenientes fundamentalmente dos bairros pobres, a tomarem as ruas para exigir o regresso do mandatário ao Palácio de governo, episódio que fortaleceu o presidente.

A partir de então a polarização tomou conta da sociedade venezuelana e permitiu que a tese de que a disputa política na Venezuela também se tratava de uma batalha entre pobres (chavistas) e ricos (anti-chavistas) se fortalecesse.

Greve petroleira

Diferente da situação atual, em 2002, os partidos políticos eram um grupo minoritário na corrente opositora ao governo. Empresários, a cúpula da Igreja Católica e os meios de comunicação privados eram os grupos com maior poder de decisão. "Todos eles tinham mais credibilidade do que os partidos políticos, porém, esses são setores que não foram feitos para negociar e sim para impor o seu ponto de vista", afirmou a historiadora Margarita López Maya, da Universidade Central da Venezuela.

Meses depois do golpe, a oposição organizou um locaute liderado pela federação de empresários Fedecamaras e pela direção da PDVSA, estatal petroleira responsável por 94% das divisas que ingressam ao país.

A medida, que tinha como objetivo levar à renúncia o presidente, afundou o país em uma crise econômica, com uma perda de 24% do Produto Interno Bruto (PIB) e de desabastecimento de alimentos e combustível. "A teoria era de que não há governo na Venezuela que resista a três dias de greve petroleira. Chávez agüentou 62 dias (de locaute) e a greve morreu sozinha", afirmou o diretor do diário opositor Tal Cual, Teodoro Petkoff, ex-assessor de campanha do candidato presidencial Manuel Rosales.

Depois da greve, Chávez demitiu 18 mil funcionários da PDVSA e estabeleceu pleno controle da principal indústria do país, hoje um dos pilares de sustentação de seu governo.

Derrotas

Em 2004, a oposição acumulou mais uma derrota. Agrupados na organização civil Coordenadora Democrática, os opositores recolheram assinaturas e conseguiram submeter o mandato presidencial a referendo revogatório, em mais uma tentativa de encurtar o período de Chávez no poder. Foi o auge da polarização entre chavistas e anti-chavistas.

Chávez saiu vitorioso das urnas com 58,25% dos votos. Os opositores, porém, não acataram os resultados e acusaram o governo de ter manipulado a votação.

Teodoro Petkoff considera que, ao denunciar a fraude sem poder demonstrá-la, a oposição desqualificou a via eleitoral como alternativa à Chávez e desmobilizou seus eleitores para as eleições de governadores e prefeitos que ocorreram poucos meses depois. "A abstenção nas eleições regionais foi tão grande que entregou de graça o controle do país a Chávez, sem oposição", afirmou. Na ocasião, os aliados do governo conquistaram 21 governos estaduais dos 23 em disputa.

A perda do espaço da oposição no Legislativo foi similar. Em 2005, buscando tirar a legitimidade da disputa para a eleição do novo Parlamento, os partidos opositores decidiram não participar do pleito, alegando que o sistema eleitoral era fraudulento. Até as eleições, a oposição controlava 45% das cadeiras na Assembléia Nacional.

A oposição "pensava que se as pessoas não participassem, o governo se deslegitimaria e perderia apoio popular, mas ao final quem perdeu credibilidade foi a própria oposição", afirmou Julio Borges (PJ).

Sem espaços institucionais para disputar politicamente com o chavismo, as ações da oposição de caráter público tiveram que limitar-se a manifestações de rua, em protestos que acabaram sendo ignorados pelo Executivo.

Nova oposição

A resistência da oposição à disputa eleitoral passou a mudar a partir de 2006, quando o candidato Manuel Rosales participou da eleição presidencial e aceitou a vitória - e reeleição - do presidente venezuelano com mais de 61% dos votos. "Se marcou uma estratégia que admitia a democracia como caminho e o processo eleitoral como saída (para derrotar o chavismo)", afirmou Teodoro Petkoff, que assessorou Rosales durante a campanha eleitoral.

Mas foi a derrota do chavismo no referendo da reforma constitucional de 2007, porém, que deu novo fôlego à oposição, que passou a acreditar, ainda que com uma vitória apertada no pleito, que era possível vencer nas urnas. "Pela primeira vez se ganhou uma de Chávez", disse Petkoff.

Os opositores do governo ganharam novos adeptos durante a campanha para modificar a Carta Magna. Primeiro o partido Podemos (social-democrata), que deixou a base governista e se aliou à oposição.

A outra ruptura veio com a saída do ex-ministro de Defesa Raul Isaías Baduel. O general, até então visto como um dos "heróis" que garantiram o regresso de Chávez ao poder durante o golpe, criticou o que chamou de "projeto autoritário" de Chávez e rompeu com o governo. Mas, diferente do que previam alguns analistas, Baduel tampouco foi aceito pela oposição.

"Em muitos casos os ataques contra mim provém mais da oposição do que do próprio governo", afirmou. Baduel defendeu a realização de uma nova Assembléia Constituinte para modificar a Constituição de 1999, proposta que não foi acolhida, até agora, pelos demais opositores.

Recuperação


Manuel Rosales se consolidou como
governador de Zulia

Embalados com a vitória no referendo da reforma constitucional, os representantes anti-chavistas de maior peso conseguiram em alguns casos recuperar e, em outros, consolidar espaços de poder, nas eleições regionais realizadas em novembro do ano passado.

A vitória da oposição em cinco Estados e também da prefeitura da grande Caracas marcou uma mudança de atitude dos partidos opositores, inclusive da ala mais radical. "Foi a primeira vez nos últimos anos em que nenhum grupo opositor fez campanha pela abstenção", afirmou Julio Borges do PJ.

Ligado aos setores empresarial e agropecuário do Estado Zulia, Rosales se consolidou no poder local e entrou fortalecido na corrida às eleições presidenciais de 2013. Rosales - que é acusado de corrupção - conquistou a prefeitura de Maracaibo, capital zuliana e conseguiu eleger seu candidato Pablo Perez (ambos do partido Um Novo Tempo) como governador desse Estado.

No Estado de Miranda, um dos mais importantes do país, Capriles Radonski (PJ), saiu vitorioso, reforçando o peso de seu partido no campo opositor.

Em busca de um líder

Analistas consideram que a incapacidade de propor alternativas ao chavismo foi um dos principais fracassos da oposição.

Entre os anti-chavistas, há também muitos que acham que a oposição carece de um líder que seja capaz de unificá-los. Teodoro Petkoff admite que a única liderança existente no país, ainda que não concorde com ela, é a do presidente da República. "A liderança de Chávez é massacrante, ao lado dele não cresce nada, por isso há tanta carência de referências políticas", afirmou.

Petkoff aposta que nos próximos quatro anos a oposição construirá uma candidatura presidencial viável, mas admite que, no momento, não há outro líder ou projeto no país comparáveis a Chávez e a revolução bolivariana. "Ainda não há alternativa no país, há oposição, mas não há alternativa", afirmou Petkoff. "Todos os setores sociais que vão se desencantando (com o chavismo), quando olham para o outro lado, não vêem alternativa".

Para a historiadora Margarita López Maya, o desafio da oposição é entender que, no imaginário do venezuelano comum, a política liberal adotada nas décadas anteriores não seria aceita pelos venezuelanos. "Eles ainda não entenderam que, para os venezuelanos, este projeto está derrotado, que há que se pensar em um novo modelo", diz ela.

López Maya acredita que é necessário romper com o "messianismo" da era Chávez, mas a seu ver, "enquanto o governo tiver recursos e enquanto não houver uma oposição crível, os venezuelanos preferirão continuar como estão do que experimentar outras coisas", afirmou.

O opositor Julio Borges sintetiza o dilema vivido por seus aliados: "O problema é que os que não estão de acordo com Chávez ainda não se colocaram de acordo sobre o quê concordam. Sabem que não gostam disso (chavismo), mas o problema é: do que gostam então?".

Fonte: BBC Brasil

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