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Imigrantes vivem pesadelo na fronteira com os Estados Unidos


No último dia 24 de agosto, os corpos de 72 imigrantes ilegais (58 homens e 14 mulheres) foram encontrados pela Marinha mexicana numa fazenda situada próximo à cidade de San Fernando, no Estado de Tamaupilas, ao norte do México. Entre os mortos estavam dois brasileiros. Os demais eram cidadãos de Honduras, El Salvador, Guatemala e Equador. O grupo tentava cruzar a fronteira com o Texas quando foi capturado por traficantes.

Apenas um jovem equatoriano sobreviveu ao massacre. Luis Freddy Lala Pomavilla se fingiu de morto e, mesmo ferido na garganta, conseguiu pedir ajuda aos militares.

Ele contou que os imigrantes ilegais foram sequestrados por integrantes do grupo Los Zetas ("Os Zs"), um dos cartéis de drogas que dominam a região. Os criminosos teriam proposto aos estrangeiros que trabalhassem como matadores de aluguel por um salário de US$ 1 mil por quinzena. Como recusaram a oferta, foram amarrados, amordaçados e fuzilados contra uma parede.

Estimativas indicam que a comunidade brasileira em território americano é de cerca de 1,2 milhão de pessoas, sendo que 20% deste total são clandestinos. Nos últimos anos, porém, o domínio de traficantes tem tornado a travessia ainda mais perigosa. Eles sequestram e obrigam os clandestinos a transportarem drogas ou cometerem outros crimes.

Em 2009, pelo menos 10 mil foram vítimas de sequestro, segundo a Comissão de Direitos Humanos. Dados oficiais do governo mexicano apontam 28 mil mortes desde 2006, quando o presidente Felipe Calderón iniciou uma ofensiva contra o tráfico. O massacre foi atribuído ao Los Zetas, considerado o mais violento grupo paramilitar no México.

A fronteira do México com os Estados Unidos sempre foi retratada como um território violento e sem regras nos filmes de faroeste. Nos últimos anos, a ação de cartéis do narcotráfico tornou a realidade muito mais dramática que a ficção, sobretudo para milhares de imigrantes ilegais que partem em busca do "sonho americano".

Jean Charles

Os brasileiros mortos moravam em cidades vizinhas a Governador Valadares (MG). A região é um dos principais pólos de exportação de mão-de-obra para os Estados Unidos e Europa desde os anos 1960.

Hermínio Cardoso dos Santos, 24 anos, e Juliard Aires Fernandes, 20 anos, vinham de famílias pobres e deixaram o campo em busca de uma vida melhor nos Estados Unidos. Suas histórias são parecidas com a do brasileiro Jean Charles de Menezes (foto ao lado), morto a tiros por policiais no metrô de Londres em 22 de julho de 2005, após ter sido confundido com um terrorista.

Milhares de imigrantes tentam atravessar todos os anos os 3,2 mil km de fronteira que separam o México dos Estados Unidos. Para isso, precisam vencer 1,2 mil km de muro, patrulhas e obstáculos naturais, como o Rio Grande e regiões desérticas. Os clandestinos pagam quantias a guias chamados "coiotes", que os levam através da fronteira.

De acordo com dados do Pew Hispanic Center, em 2008 havia 11,9 milhões de imigrantes ilegais vivendo nos Estados Unidos. Deste total, 76% eram hispânicos, a maioria composta por mexicanos (59%). No Arizona, o governo aprovou, em abril, uma lei que torna crime a imigração ilegal. A lei foi alvo de protestos de grupos de defesa dos direitos civis e é contestada na Justiça. O Estado do Arizona é a principal porta de entrada de estrangeiros sem documentos no país.

Violência

A chacina de Tamaupilas foi a terceira ocorrida somente este ano. Outros 55 corpos foram encontrados em maio no Estado de Guerrero e, em julho, 51 vítimas na cidade de Monterrey, próximo ao Texas.

Ciudad Juárez, localizada na fronteira com El Paso (Texas), é considerada a cidade mais violenta, onde mais de 4.500 pessoas foram mortas desde 2008.

As mortes resultam tanto do confronto de traficantes com militares como consequência da guerra entre os cartéis. Eles assumiram o controle do tráfico de drogas na América do Sul, um negócio estimado entre US$13,6 a US$ 48,4 bilhões anuais, com o declínio dos cartéis colombianos - Medellin e Cali - nos anos 1980.

Estima-se que 90% da cocaína dos Estados Unidos entre no país através da fronteira mexicana. 70 % de todo tipo de droga ilegal que circula no país provém das quadrilhas mexicanas.

Os principais cartéis em atividade são: Cartel de Sinaloa, Cartel do Golfo, Família Michoacana, Beltrán Levya, Cartel de Juarez e Los Zetas.

O Los Zetas é considerado o mais violento grupo paramilitar em atividade no México. Ele foi fundado por desertores das Forças Especiais do Exército mexicano. No começo, seus integrantes foram contratados como mercenários pelo Cartel do Golfo em operações contra os zapatistas, nos anos 1990.

Entre os crimes atribuídos ao grupo está o assassinato de dois prefeitos mexicanos no mês de agosto. O corpo de Edelmiro Cavazos, prefeito de Santiago (Estado de Nuevo Leon), foi encontrado em 18 de agosto. O prefeito de Hidalgo (Estado de Tamaulipas), Marco Antonio Leal Garcia, foi executado a tiros no dia 29 de agosto. O cartel também foi responsabilizado por atentados a bomba na mesma região em que ocorreu a chacina.

Para conter a onda de violência, o governo mexicano colocou, desde 2008, mais de 30 mil soldados nas ruas. Em 2007, o presidente Calderón e o presidente George W. Bush assinaram um acordo conhecido como Iniciativa Mérida, um plano de combate ao tráfico na América Central de cerca de US$ 1,5 bilhão, a serem gastos em três anos. O plano foi aprovado em junho do ano seguinte no Congresso americano. Ele inclui a compra de helicópteros, treinamento de policiais e implementação de tecnologia contra o crime organizado. Até março desde ano, apenas 9% do total destinado foi gasto.

Créditos: José Renato Salatiel, jornalista e professor universitário (Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação)

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