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Mídia e Sociedade II


Por Leonardo Campos*

Dando continuidade ao artigo publicado no mês passado, iremos analisar dessa vez alguns casos locais sobre o estudo da mídia e sua relação com a sociedade.

No artigo anterior, abordamos o conceito de mídia e mostramos alguns bons filmes que nos servem de exemplo para melhor entendimento do termo. Vale lembrar que os vestibulares de todo o país estão construindo provas cada vez mais bem elaboradas, trabalhando as ciências humanas de forma coesa, e assim, é preciso saber analisar criticamente assuntos da atualidade e se possível, fazer as devidas ilações com temas passados. Dessa forma, você mostrará que domina o que diz, e sua prova alcançará o ponto crítico necessário para uma boa avaliação. É por esta razão, entre outros motivos, que alguns vestibulares colocam filmes atrelados a lista de livros obrigatórios.

Dessa vez, faremos um estudo mais profundo sobre dois filmes distintos: o primeiro deles, citado no artigo passado, trata-se de Mera Coincidência, produção de 1997, dirigida por Barry Levinson. Com atores famosos em seu elenco, Mera Coincidência é um filme muito utilizado para discussões acerca do tema em voga: mídia e sociedade.

Logo depois, faremos um estudo sobre o filme Última Parada 174, dirigido por Bruno Barreto. A história do menino Sandro, que foi documentada de forma imparcial por José Padilha alguns anos atrás, ganhou abordagem fictícia, e em muitos momentos, problemática. Veja mais detalhes adiante.

Mera Coincidência: uma comédia sobre verdade, justiça e outros efeitos especiais


Robert de Niro em "Mera Coincidência"
O cinema é um poderoso suporte para veiculação das polêmicas de determinado momento da sociedade. Como ilustração, devemos lembrar da fase em que os escândalos políticos tomavam conta da mídia. No mesmo momento em que Mera Coincidência chegava aos cinemas norte-americanos, Monica Lewinsky transformava-se numa espécie de estrela. A moça foi até convidada para uma cerimônia do Oscar na posteridade. Alguém sabe o verdadeiro motivo? Após o início das filmagens de Mera Coincidência e ainda antes do lançamento do filme nos cinemas norte-americanos, o até então presidente Bill Clinton se envolveu em um escândalo sexual com sua secretária, Monica Lewinski, e também em uma ação militar contra o Iraque. A semelhança com os fatos reais e os narrados no filme foi o grande motivo do título brasileiro de Mera Coincidência.

Para melhor entendimento, retomaremos a sinopse do filme: o presidente dos Estados Unidos (Michael Belson), a poucos dias antes da eleição, se vê envolvido em um escândalo sexual e, diante deste quadro, não vê muita chance de ser reeleito. Assim, um dos seus assessores entra em contato com um produtor de Hollywood (Dustin Hoffman) para que este "invente" uma guerra na Albânia, na qual o presidente poderia ajudar a terminar, além de desviar a atenção pública para outro fato bem mais apropriado para interesses eleitoreiros.

Um dos pontos mais marcantes da narrativa curta de Mera Coincidência (um filme que diz muito em apenas 96 minutos) é o momento em que a Guerra na Albânia está em produção. Todos os recursos originários do cinema estão na matéria jornalística lançada para dispersar a população dos escândalos do presidente. A ideia lançada por Mera Coincidência é um lançamento para o que é transmitido na contemporaneidade nos telejornais: reportagens com closes, trilha sonora (geralmente dramática), efeitos como fade-in e fade-out.

Uma curiosidade para quem desejar assistir ao filme e conferir as questões abordadas nesse artigo: o slogan da campanha de reeleição do presidente mostrada em Mera Coincidência é "Don't change horses in the middle of the stream" ("Não mude de cavalos no meio do fluxo"). Trata-se do mesmo slogan utilizado pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt durante sua campanha de reeleição, em meio à Segunda Guerra Mundial.

Última Parada 174 e Ônibus 174: a ficção de Bruno Barreto e o documentário de José Padilha


Em busca do “furo”: cena de "Pânico 2", sucesso de bilheteria e
crítica na década de 90
A especialista Vera França, ao retomar as reflexões de Umberto Eco em um artigo, afirmou que a televisão cria cenários, recupera e reedita trilhas sonoras, acoplada aos novos recursos multimídia que geram imagens e sons criativos e inusitados. A falta de ética na mídia, como vimos em 2008 no Caso Eloá, pode ser ilustrada também por outro ícone da cultura pop na década de 90. O suspense Pânico, dirigido pelo mestre dos filmes de terror, Wes Craven. No filme, a falta de ética da imprensa e a violência são panos de fundo para a trama. A repórter sem escrúpulos Gale Wheaters (Courteney Cox Arquette) busca durante toda a trama o tal “furo”. Mesmo correndo sério risco de morte (a personagem é uma das protagonistas da trama), Gale não mede esforços para captar as melhores cenas e com isso, ganhar exclusividade na cobertura do caso. Não seria isso que a mídia do filme O 4º Poder (ver o artigo anterior) estaria interessada? E no caso de Última Parada 174? Qual o papel da imprensa no acontecimento que marcou o país no ano 2000?

A história do menino Sandro foi analisada de duas formas distintas pelo cinema nacional. Vamos nos ater ao documentário nessa primeira parte: com 133 minutos de duração, Ônibus 174 é uma investigação cuidadosa, com base em imagens de arquivo, documentos e entrevistas oficiais, sobre o sequestro de um ônibus em plena luz do dia na Zona Sul do Rio de Janeiro. O acontecimento, ocorrido em 12 de junho de 2000, paralisou o país, sendo transmitido ao vivo por quaro horas, até o seu desfecho trágico. No documentário, a história do sequestro é contada, porém, com ênfase total à história de tragédias familiares do sequestrador, intercaladas com imagens da ocorrência policial feitas pela televisão. Sandro, o responsável pelo acontecimento, é visto como uma das vítimas da invisibilidade social de muitos como ele: garoto de rua, cheio de frustrações e com uma base familiar erguida através da marginalidade e violência. Durante os relatos no documentário de José Padilha, vemos que até mesmo as vítimas do sequestro reconhecem Sandro hoje como uma das vítimas daquilo tudo. Percebe-se que José Padilha buscou impor seu ponto de vista de toda forma. Os comentários e a edição buscam inserir na mente dos espectadores que o responsável pelo assassinato de Janaína (o acontecimento fatal do sequestro) é uma vítima da sociedade da exclusão.


O diretor José Padilha, em entrevista
Nesse documentário de José Padilha, que recentemente se tornou ficção, temos um viés interessante de análise: a forma como a violência transforma a sociedade. Uma das grandes problemáticas de discussão dessa invisibilidade social comentada acima parte do posicionamento que as favelas ocupam dentro do nosso quadro social injusto. Num panorama geral, percebemos que a história do Brasil é pautada por uma extraordinária violência, arraigada , sempre aplicada de cima para baixo. Uma sociedade onde estamos inseridos na base da exclusão social e na violência, seja ela direcionada aos homossexuais, negros e pobres, membros da aldeia da exclusão.

Agora, vamos tecer alguns comentários acerca da ficção de Bruno Barreto sobre os acontecimentos vistos no documentário Ônibus 174. Intitulado de Última Parada 174, o filme já se mostra problemático em seu material de divulgação. O cartaz, trabalhado à base de sombreamento na imagem do menino Sandro, com fundo amarelado traz uma visão demonizadora do mesmo. Daí, diferentemente de José Padilha, o filme do diretor Bruno Barreto já impõe um ponto de vista diante dos fatos verídicos, deixando de lado a imparcialidade e com isso, expondo desde já o seu discurso.


Observe a imagem: os efeitos de sombreamento lhe dizem alguma coisa?
As últimas horas da vida de Sandro do Nascimento, 22 anos, o “sequestrador do ônibus 174”, foram acompanhadas por milhões de pessoas através da TV. O enterro dele foi acompanhado por apenas uma pessoa – sua mãe adotiva. Instigado pelo documentário Ônibus 174, de José Padilha, o diretor Bruno Barreto construiu um relato ficcional para contar a história do encontro de um adolescente órfão e de uma mulher obcecada pela memória do filho. O encontro de duas pessoas à deriva, que teve como desfecho a morte de uma jovem professora e de Sandro, deixando aquela mãe novamente órfã de seu filho.

O assunto das relações da mídia e a sociedade são vastos e podem ser analisados sob diferentes perspectivas. Baseado nessas conclusões, faremos na próxima oportunidade mais um estudo sobre o assunto. Dessa vez, analisaremos como o cinema estrangeiro, em especial o norte-americano e europeu, fazem uma pintura do Brasil para o mundo: um show de estereótipos que não percebemos, todos imbricados nas mais divertidas narrativas: séries como Os Simpsons e Sex and the City; filmes de terror como Turistas e até mesmo filmes de ação como 007 – Contra o Foguete da Morte e outros filmes.

Vestibulando, lembre-se que esse artigo lhe traz uma série de questionamentos para reflexão. A verdade absoluta não está aqui. Nem podia. Cabe a você analisar os pontos colocados e com isso tirar as suas próprias conclusões.

* Graduando em Letras Vernáculas com Habilitação em Língua Estrangeira Moderna - Inglês - UFBA | Membro do grupo de pesquisas “Da invenção à reivenção do Nordeste” – Letras – UFBA | Pesquisador na área de cinema, literatura e cultura - Colaborador do PASSEIWEB.com

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