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Clarice Lispector


Clarice Lispector nasceu no dia 10 de dezembro de 1920, em Tchetchelnik, na Ucrânia, tendo recebido o nome de Haia Lispector, terceira filha de Pinkouss e de Mania Lispector. Seu nascimento ocorreu durante a viagem de emigração da família em direção à América.

Seu pai conseguiu, em Bucareste, um passaporte para toda a família no consulado da Rússia. Era fevereiro de 1922 quando foram para a Alemanha e, no porto de Hamburgo, embarcaram no navio "Cuyaba" com destino ao Brasil. Chegaram a Maceió em março desse ano, sendo recebidos por Zaina, irmã de Mania, e seu marido e primo José Rabin, que viabilizara a entrada de Clarice e de sua família no Brasil mediante uma "carta de chamada".  Por iniciativa de seu pai, à exceção de Tania — irmã, todos mudaram de nome: o pai passou a se chamar Pedro; Mania, Marieta; Leia — irmã, Elisa; e Haia, Clarice. Pedro passa a trabalhar com Rabin, já um próspero comerciante.

Em 1925 a família muda-se para Recife, Pernambuco, onde Pedro pretende construir uma nova vida. A doença de sua mãe, Marieta, que ficou paralítica, faz com sua irmã Elisa se dedique a cuidar de todos e da casa.

Clarice freqüentou o Grupo Escolar João Barbalho, naquela cidade, onde aprendeu a ler. Durante sua infância a família passou por sérias crises financeiras.

Morre a mãe de Clarice no dia 21 de setembro de 1930. Nessa época, com nove anos, matriculou-se no Collegio Hebreo-Idisch-Brasileiro, onde terminou o terceiro ano primário. Estudou piano, hebraico e iídiche. Uma ida ao teatro a inspirou e ela escreveu Pobre menina rica, peça em três atos, cujos originais foram perdidos. Seu pai resolve adotar a nacionalidade brasileira.

Em 1931 inscreveu-se para o exame de admissão no Ginásio Pernambucano. Já escrevia suas historinhas, todas recusadas pelo Diário de Pernambuco, que àquela época dedicava uma página às composições infantis. Isso se devia ao fato de que, ao contrário das outras crianças, as histórias de Clarice não tinham enredo e fatos — apenas sensações. Conviveu com inúmeros primos e primas.

Quando em 1932 ingressou no Ginásio Pernambucano, fundado em 1825. Passa a visitar a livraria do pai de uma amiga. Lê Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, que pegou emprestado, já que não podia comprá-lo.

Seu pai prospera e mudam-se para casa própria, no mesmo bairro. Mas em dezembro de 1934, Pedro, pai de Clarice, decide transferir-se para a cidade do Rio de Janeiro.

Viajou então para o Rio, em companhia de sua irmã Tania e de seu pai, na terceira classe do vapor inglês "Highland Monarch". Foram morar numa casa alugada perto do Campo de São Cristóvão. Ainda nesse ano, mudaram-se para uma casa na Tijuca, na rua Mariz e Barros. No colégio Sílvio Leite, na mesma rua de sua casa, cursou o quarta série ginasial. Lê romances adocicados, próprios para sua idade. Quando terminou o curso ginasial iniciou-se na leitura de livros de autores nacionais e estrangeiros mais conhecidos, alugados em uma biblioteca de seu bairro. Conhece os trabalhos de Rachel de Queiroz, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Dostoiévski e Júlio Diniz.

Fez Direito na Faculdade Nacional de Direito. Fez traduções de textos científicos para revistas em um laboratório onde trabalhou como secretária. Trabalhou, também como secretária, em um escritório de advocacia.

Em 1940, no dia 25 de maio, seu conto, Triunfo, é publicado no semanário "Pan", de Tasso da Silveira. Em outubro desse ano, é publicado na revista "Vamos Ler!", editada por Raymundo Magalhães Júnior, o conto Eu e Jimmy. Esses trabalhos não fazem parte de nenhuma de suas coletâneas. Após a morte de seu pai, no dia 26 de agosto, a escritora — talvez motivada por esse acontecimento — escreveu diversos contos: A fuga, História interrompida e O delírio. Esses contos foram publicados postumamente em A bela e a fera, de 1979. Passou a morar com a irmã Tania, já casada, no bairro do Catete. Conseguiu um emprego de tradutora no temido Departamento de Imprensa e Propaganda - DIP, dirigido por Lourival Fontes. Como não havia vaga para esse trabalho, Clarice ganhou o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional. Iniciou-se, ai, sua carreira de jornalista. No novo emprego, conviveu com Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por quem nutriu durante tempos uma paixão não correspondida: o escritor era homossexual. Com seu primeiro salário, entrou numa livraria e comprou "Bliss - Felicidade", de Katherine Mansfield, com tradução de Érico Veríssimo, pois sentiu afinidade com a escritora neozelandesa.

Em 19 de janeiro de 1941, publica a reportagem Onde se ensinará a ser feliz, no jornal "Diário do Povo", de Campinas (SP), sobre a inauguração de um lar para meninas carentes realizada pela primeira-dama Darcy Vargas. Além de textos jornalísticos, continuou a publicar textos literários. Cursando o terceiro ano de direito, colaborou com a revista dos estudantes de sua faculdade, A Época, com os artigos Observações sobre o fundamento do direito de punir e Deve a mulher trabalhar? Passou a freqüentar o bar Recreio, na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de autores como Lúcio Cardoso, Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e muitos mais.

Começou a namorar com Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos de idade, recebeu seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal A Noite. Leu Drummond, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Realizou cursos de antropologia brasileira e psicologia, na Casa do Estudante do Brasil. Nesse ano, escreveu seu primeiro romance, Perto do coração selvagem.

Casou-se com o colega de faculdade Maury Gurgel Valente e terminou o curso de Direito. Seu marido, por concurso, ingressou na carreira diplomática.

Em 1944 mudou-se para Belém do Pará (PA), acompanhando seu marido. Ficou por lá apenas seis meses. Seu livro recebeu críticas favoráveis de Guilherme Figueiredo, Breno Accioly, Dinah Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, Lúcio Cardoso, Antonio Cândido e Ledo Ivo, entre outros. Álvaro Lins publicou resenha com reparos ao livro mesmo antes de sua publicação, baseado na leitura dos originais. Qualificou o livro de "experiência incompleta". Há os que pretendiam não compreender o romance, os que procuraram influências — de Virgínia Wolf e James Joyce, quando ela nem os tinha lido — e ainda os que invocaram o temperamento feminino. Nas palavras de Lauro Escorel, as características do romance revelaram uma "personalidade de romancista verdadeiramente excepcional, pelos seus recursos técnicos e pela força da sua natureza inteligente e sensível." O casal voltou ao Rio e, em 13/07/44, mudou-se para Nápoles, em plena Segunda Guerra Mundial, onde o marido da escritora foi trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostrou-se dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar a família e os amigos. Quando chegou à Itália, depois de um mês de viagem, escreveu: "Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar." Terminou seu segundo romance, O lustre. Recebeu o prêmio Graça Aranha com Perto do coração selvagem, considerado o melhor romance de 1943. Conheceu Rubem Braga, então correspondente de guerra do jornal "Diário Carioca".

Deu assistência a brasileiros feridos na guerra, em 1945, trabalhando em hospital americano. O pintor italiano Giorgio De Chirico pintou-lhe um retrato. Viajou pela Europa e conheceu o poeta Giuseppe Ungaretti. O lustre é publicado no Brasil pela Livraria Agir Editora.

Após o lançamento do livro, Clarice veio ao Brasil como correio diplomático do Ministério das Relações Exteriores, aqui ficando por quase três meses. Nessa época, apresentado por Rubem Braga, conheceu Fernando Sabino que a introduziu a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino. De volta à Europa, foi morar com a família em Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido designado como segundo-secretário. Sua correspondência com amigos brasileiros a mantinha a par das novidades, em especial as trocadas com Fernando Sabino. A troca de cartas com o escritor, quase que diariamente, duraria até janeiro de 1969. A convite, passaram as festas de fim de ano com Bluma e Samuel Wainer, em Paris.

Em carta às irmãs, em janeiro de 1947, de Paris, Clarice expôs seu estado de inadaptação "Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma."  Em carta a Lúcio Cardoso, que havia lhe enviado seu livro "Anfiteatro", demonstrou sua admiração pelas personagens femininas da obra.

Em 1948 Clarice ficou grávida de seu primeiro filho. Para ela, a vida em Berna foi de miséria existencial. A Cidade Sitiada, após três anos de trabalho, ficou pronto. Terminado o último capítulo, deu à luz. Nasceu então um complemento ao método de trabalho. Ela escreveu com a máquina no colo para cuidar do filho. Na crônica Lembrança de uma fonte, de uma cidade, Clarice afirmou que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro, ocorrido em 10/09/1948, e por ter escrito um dos livros "menos gostados" (a editora Agir recusara a publicação).

Clarice voltou ao Rio em 1949. Seu marido foi removido para a Secretaria de Estado, no Rio de Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela editora "A Noite". O livro não obtém grande repercussão entre o público e a crítica.

Escrevendo contos e convivendo com os amigos (Sabino, Otto, Lúcio e Paulo M. Campos), viu chegar a hora de partir: seguindo os passos de seu marido, retornou à Europa, onde morou por seis meses na cidade de Torquay, Inglaterra.

Sofreu um aborto espontâneo em Londres. Foi atendida pelo vice-cônsul na capital inglesa, João Cabral de Melo Neto.

A escritora retornou ao Rio de Janeiro, em março de 1951. Publicou uma seleta com seis contos na coleção Cadernos de cultura, editada pelo Ministério da Educação e Saúde. É neste mesmo ano que falece sua grande amiga Bluma, ex-esposa de Samuel Wainer.

Sua colação de grau na faculdade de direito, depois de muitos adiamentos, foi em 1952. Voltou a trabalhar em jornais, no período de maio a outubro, assinando a página Entre Mulheres, no jornal Comício, sob o pseudônimo de Tereza Quadros. Atendeu a um pedido do amigo Rubem Braga, um dos fundadores do jornal. Nesse setembro, já grávida, embarcou para a capital americana onde permaneceu por oito anos. Clarice iniciou o esboço do romance A veia no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 1961.

Em 10 de fevereiro de 1953, nasceu Paulo, seu segundo filho. Ela continuou a escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores. Mãe, Clarice Lispector dividiu seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil. Nos Estados Unidos, Clarice conheceu o renomado escritor Érico Veríssimo e sua esposa Mafalda, dos quais tornou-se grande amiga. O escritor gaúcho e sua esposa foram  escolhidos para padrinhos de Paulo. Não teve sucesso seu projeto de escrever uma crônica semanal para a revista Manchete. Tem a agradável notícia de que seu romance Perto do coração selvagem seria traduzido para o francês.

Foi lançada em 1954, a primeira edição francesa de Perto do coração selvagem, pela Editora Plon, com capa de Henri Matisse, após inúmeras reclamações da escritora sobre erros na tradução. Em julho, com os filhos, viajou para o Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aos Estados Unidos, interrompeu a elaboração de A maçã no escuro e se dedicou, por cinco meses, a escrever seis contos encomendados por Simeão Leal.

Retornou depois a escrever o novo romance e contos. Sabino, que leu os seis contos feitos sob encomenda, os achou "obras de arte".

Terminou de escrever A Maçã no Escuro (até então com o titulo de A veia no pulso). Érico Veríssimo e família retornaram ao Brasil, não sem antes aceitarem serem os padrinhos de Pedro e Paulo. Entre os escritores, iniciou-se uma vasta correspondência. A escritora e filhos vieram passar as férias no Brasil e Clarice aproveitou para tentar a publicação de seu novo romance e os novos contos. Apesar de todo o empenho de Fernando Sabino e Rubem Braga, os livros não são editados. A escritora deu sinais de sua indisposição para com o tipo de vida que leva.

Rompeu unilateralmente o contrato com Simeão Leal e autorizou Sabino e Braga a encaminharem seus contos — nessa altura em número de quinze — para serem publicados no Suplemento Cultural do jornal O Estado de São Paulo. Seu casamento vivia momentos de tensão.

Em 1958 conhece e tornou-se amiga da pintora Maria Bonomi. Foi convidada a colaborar com a revista Senhor, prevista para ser lançada no início do ano seguinte. Érico Veríssimo escreveu informando estar autorizado a editar seu romance e, também, seus contos pela Editora Globo, de Porto Alegre. 1.000 exemplares — dos mais de 1.700 remanescentes — de Près du coeur sauvage são incinerados, por falta de espaço de armazenamento. O casamento de Clarice deu sinais de seu final.

Separou-se então do marido e regressou ao Brasil com seus filhos. Seu livro continuou inédito. A escritora resolveu comprar o apartamento onde estava residindo, no bairro do Leme, e, para isso, buscou aumentar seus ganhos. Sob o pseudônimo de Helen Palmer, iniciaou uma coluna no jornal Correio da Manhã, intitulada Correio feminino — Feira de utilidades.

Em 1960 publicou, finalmente, Laços de Família, seu primeiro livro de contos, pela editora Francisco Alves. Começou a assinar a coluna Só para Mulheres, como "ghost-writer" da atriz Ilka Soares, no Diário da Noite, a convite do jornalista Alberto Dines. Assinou, com a Francisco Alves, novo contrato para a publicação de A maçã no escuro. Tornou-se amiga da escritora Nélida Piñon.

Publicou o romance A maçã no escuro em 1961 e recebeu o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por Laços de família.

Passou a assinar a coluna Children's Corner, da seção Sr. & Cia., onde publicou contos e crônicas. Visitou, com os filhos, seu ex-marido que se encontrava na Polônia. Recebeu o prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela senhora paulistana de mesmo nome), por A maçã no escuro, considerado o melhor livro do ano.

A convite, proferiu no XI Congresso Bienal do Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana, realizado em Austin - Texas, em 1963, conferência sobre o tema "Literatura de vanguarda no Brasil. Conheceu Gregory Rabassa, mais tarde tradutor para o inglês de A maçã no escuro. A paixão segundo G. H. foi escrito em poucos meses, sendo entregue à Editora do Autor, de Sabino e Braga, para publicação. Comprou um apartamento em construção no bairro do Leme.

Em 1964 publicou o livro de contos A legião estrangeira e o romance A Paixão Segundo G. H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro, o juiz proferiu a sentença que poria fim ao processo de separação de Clarice e Maury.

Em maio de 1965, mudou-se para o apartamento comprados em 1963. Sua obra passou a ser vista com outros olhos — pela crítica e pelo público leitor — após A paixão segundo G. H. Resultado de uma seleta de trechos de seus livros, adaptados por Fauzi Arap, foi encenada no Teatro Maison de France o espetáculo Perto do coração selvagem, com José Wilker, Glauce Rocha e outros. Dedicou-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresentava um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas e da republicação de diversos livros, a situação financeira de Clarice foi muito difícil.

Na madrugada de 14 de setembro de 1966, a escritora dormiu com um cigarro aceso, provocando um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte — e dois meses hospitalizada. Quase teve sua mão direita — a mais afetada — amputada pelos médicos. O acidente mudou em definitivo a vida de Clarice.

As inúmeras e profundas cicatrizes fizeram com que a escritora caísse em depressão, apesar de todo o apoio recebido de seus amigos. Não foi só um ano de acontecimentos ruins. Começou a publicar em agosto — a convite de Dines — crônicas no Jornal do Brasil, trabalho que manteve por seis anos. Lançou o livro infantil O mistério do coelho pensante, pela José Álvaro Editor. Em dezembro, passou a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro.

Em maio de 1968, o livro O mistério do coelho pensante foi agraciado com a Ordem do Calunga, concedido pela Campanha Nacional da Criança. Entrevistou personalidades para a revista Manchete na seção Diálogos possíveis com Clarice Lispector. Participou da manifestação contra a ditadura militar, em junho, chamada "Passeata dos 100 mil". Morreram seus amigos e escritores Lúcio Cardoso e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Foi nomeada assistente de administração do Estado. Proferiu palestras na Universidade Federal de Minas Gerais e na Livraria do Estudante, em Belo Horizonte. Publicou A mulher que matou os peixes, outro livro infantil, ilustrado por Carlos Scliar.

Em 1969 publicou seu "hino ao amor": Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, pela Editora Sabiá. O romance ganhou o prêmio "Golfinho de Ouro", do Museu da Imagem e do Som. Viajou à Bahia onde entrevistou para a "Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas Mário Cravo e Genaro. Em 14/08 deste ano foi aposentada pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência Social. Seu filho Paulo, morava nos Estados Unidos desde janeiro, num programa de intercâmbio cultural. Seu irmão Pedro, em tratamento psiquiátrico, estava internado por um mês, em junho deste ano.

Em 1970 começou a escrever um novo romance, com o título provisório de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Mais adiante, é chamado Objeto gritante. Foi lançado com o título definitivo de Água viva. Conheceu Olga Borelli, de que se tornou grande amiga.

Em 1971 publicou a coletânea de contos Felicidade clandestina, volume que inclui O ovo e a galinha, escrito sob o impacto da morte do bandido Mineirinho, assassinado pela polícia com treze tiros, no Rio de Janeiro. Há, também, um conjunto de escritos em que rememorou a infância em Recife. Encarregou o professor Alexandre Severino da tradução, para o inglês, de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Dez de seus contos já publicados constam de "Elenco de cronistas modernos", lançado pela Editora Sabiá.

Retoma a revisão de Atrás do pensamento em 1972, com o qual não estava satisfeita. Fez inúmeras alterações no texto e passou a chamá-lo Objeto gritante. Repensando o romance, procurou distrair-se. Durante um mês posou para o pintor Carlos Scliar, em Cabo Frio (RJ).

Em 1973 publicou o romance Água viva, após três anos de elaboração, pela Editora Artenova, que lançaria também, nesse ano, A imitação da rosa, quinze contos já publicados anteriormente em outras coletâneas.Alberto Dines, em carta à escritora, disse sobre Água viva: "[...] É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia". Viajou à Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixou de colaborar com o "Jornal do Brasil", face à demissão de Alberto Dines, no mês de dezembro daquele ano.

Para manter seu nível de renda, aumentou sua atividade como tradutora. Verteu, entre outros, O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil, pela Ediouro. Publicou, pela José Olympio Editora, outro livro infantil, A vida íntima de Laura e dois livros de contos, pela Artenova: A via crucis do corpo e Onde estivestes de noite. Uma curiosidade: a primeira edição de Onde estivestes de noite foi recolhida porque foi colocado, erroneamente, um ponto de interrogação no título.

Seu cão, Ulisses, lhe mordeu o rosto, fazendo com que se submetesse à cirurgia plástica reparadora realizada por seu amigo Dr. Ivo Pitanguy. Leu, em Brasília (DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito Federal, a conferência Literatura de vanguarda no Brasil, que já apresentara no Texas. Participou, em Cali — Colômbia, do IV Congresso da Nova Narrativa Hispano-americana. Seu filho, Paulo, foi morar sozinho, em um apartamento próximo ao da escritora. Pedro foi morar com o pai, em Montevidéu — Uruguai.

Tendo como companheira de viagem a amiga Olga Borelli, participou em 1975, do I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. No dia de sua apresentação sentiu-se indisposta e pediu a alguém que lesse o conto O ovo e a galinha, não apresentando a fala sobre a magia que havia preparado para a introdução da leitura. Muito embora minimizada, essa participação teve muito a ver com as palavras ditas por Otto Lara Resende, conhecido escritor, em um bate-papo com José Castello: "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria." Otto se baseava em estudos feitos por Claire Varin, professora de literatura canadense que escreveu dois livros sobre Clarice. Segundo ela, só era possível ler Clarice tomando seu lugar — sendo Clarice. Não há outro caminho, ela garante. Para corroborar sua tese, Claire citou um trecho da crônica A descoberta do mundo, onde a escritora dizia: "O personagem leitor é um personagem curioso, estranho. Ao mesmo tempo que inteiramente individual e com reações próprias, é tão terrivelmente ligado ao escritor que na verdade ele, o leitor, é o escritor." Traduziu romances, como Luzes acesas, de Bella Chagall, A rendeira, de Pascal Lainé, e livros policiais de Agatha Christie. Ao longo da década, fez adaptações de obras de Julio Verne, Edgar Allan Poe, Walter Scott e Jack London e Ibsen. Lançou Visão do esplendor, com trabalhos já publicados na coluna "Children's Corner", da revista "Senhor" e também no "Jornal do Brasil". Publicou De corpo inteiro, com algumas entrevistas que fizera anteriormente para revistas cariocas. Foi muito elogiada quando visitou Belo Horizonte, fato que a deixou contrariada. Passou a dedicar-se à pintura.

Morreu, dia 28 de novembro, seu grande amigo e compadre Érico Veríssimo.

Reuniu trabalhos de Andréa Azulay num volume artesanal ilustrado por Sérgio Mata, intitulado Meus primeiros contos. Andréa tinha, então, dez anos de idade.

Seu filho Paulo casou-se com Ilana Kauffmann em 1976. Participou, em Buenos Aires, Argentina, da Segunda Exposición — Feira Internacional del Autor al Lector, onde recebeu muitas homenagens. Foi agraciada, em abril daquele ano, com o prêmio concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. Gravou depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro conduzido por Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti e por João Salgueiro, diretor do MIS. Em maio, correu o boato de que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no jornal "O Globo", mesmo assim telefonou e conseguiu marcar um encontro. Após muitas idas e vindas foi recebido. Travou então o seguinte diálogo com Clarice:

J.C. "— Por que você escreve?

C.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?"

J.C. "— Por que bebo água? Porque tenho sede."

C.L. "— Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva."

Enquanto escrevia A hora da estrela com a a ajuda da amiga Olga, tomou notas para o novo romance, Um sopro de vida. Reviu Recife e visitou parentes. Em dezembro, "Fatos e Fotos Gente", revista do grupo "Manchete", publicou entrevista feita com a artista Elke Maravilha, a primeira de uma série que se estenderia até outubro de 1977.

A revista "Fatos e Fotos Gente" publicou entrevista feita pela escritora com Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. O jornal "Última Hora" passou a publicar, semanalmente, as suas crônicas. Foi entrevistada pelo jornalista Júlio Lerner para o programa "Panorama Especial", TV Cultura de São Paulo, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Escreveu um livro para crianças, que seria publicado em 1978, sob o título Quase de verdade. Escreveu, ainda, doze histórias infantis para o calendário de 1978 da fábrica de brinquedos "Estrela", intitulado Como nasceram as estrelas. Foi à França e retornou inesperadamente. Publicou A hora da estrela, pela José Olympio, com introdução — O grito do silêncio — de Eduardo Portella. Esse livro seria adaptado para o cinema, em 1985, por Suzana Amaral. A editora Ática lançou nova edição de A legião estrangeira, com prefácio de Affonso Romano de Sant'Anna. Clarice morreu, no Rio, no dia 9 de dezembro de 1977, um dia antes do seu 57° aniversário vitimada por uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida que, depois, veio-se a saber, ter sido motivada por um adenocarcinoma de ovário irreversível. O enterro aconteceu no Cemitério Comunal Israelita, no bairro do Caju, no dia 11. Foi ao ar, pela TV Cultura, no dia 28/12, a entrevista gravada em fevereiro desse ano.

Em 1978 três livros póstumos são publicados: o romance Um sopro de vida — Pulsações, pela Nova Fronteira, a partir de fragmentos em parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicas Para não esquecer, e o infantil, Quase de verdade, em volume autônomo, pela Ática. Para não esquecer é composto de crônicas que haviam sido publicadas na segunda parte do livro A legião estrangeira, em 1964, que compunham a seção "Fundo de Gaveta" do citado livro. A hora da estrela foi agraciado com o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A paixão sendo G. H. é publicado na França, com tradução de Claude Farny.

Em 1979 foi publicado A bela e a fera, pela Nova Fronteira, contendo contos publicados esparsamente em jornais e revistas. Estreou no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro de vida, baseado em livro de mesmo nome, com adaptação de Marilena Ansaldi e direção de José Possi Neto.

Em 1981, Clarice Lispector — Esboço para um retrato, de Olga Borelli, foi lançado pela Nova Fronteira.

Reunindo a quase totalidade de crônicas publicadas no Jornal do Brasil, no período de 1967 a 1973, foi lançado, em 1984, A descoberta do mundo, organização de Paulo Gurgel Valente, filho da autora. A Éditions des Femmes, da França, lançou, em sua coleção "La Bibliotèque des voix", fita cassete com trechos de La passion selon G. H., lidos pela atríz Anouk Aimée.

A hora da estrela recebeu dois prêmios na 36ª edição do Festival de Berlim, em 1985: da Confederação Internacional de Cineclubes — Cicae, e da Organização Católica Internacional do Cinema e do Audiovisual — Ocic. O longa-metragem de mesmo nome, dirigido por Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo Oros também foi premiado: Marcélia Cartaxo recebeu o Urso de Prata de "Melhor Atriz".

Outros acontecimentos

Os 10 anos da morte da escritora foram lembrados com diversas homenagens em sua memória. Foi aberto ao público o conjunto de documentos que viria a constituir o Arquivo Clarice Lispector, do Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa - FCRB, no Rio de Janeiro, constituído de documentos doados por Paulo Gurgel Valente.

Em 1990, a Francisco Alves Editora iniciou a reedição da obra da escritora. A paixão segundo G. H. foi encenada na capital francesa, no teatro Gérard Philippe, em montagem de Alain Neddam. Diane E. Marting, em 1993, publicou Clarice Lispector, A Bio-Bibliography, pela Westport: Greenwood Press, nos Estados Unidos. Em 1996, foi lançada a antologia Os melhores contos de Clarice Lispector, pela editora Global.

Estreou no Rio de Janeiro Clarice — Coração selvagem, adaptado e dirigido por Maria Lúcia Lima, com Aracy Balabanian, em 1998.

No ano seguinte, Que mistérios tem Clarice, adaptado por Luiz Arthur Nunes e Mário Piragibe estreou no teatro N. E. X. T.

Fernando Sabino, em 2001, organizou e publicou, pela Record, Cartas perto do coração, contendo correspondência que manteve com a escritora de 1946 a 1969.

A editora Rocco lançou, em 2002, Correspondências — Clarice Lispector, antologia de cartas de e para a escritora, seleção de Teresa Montero.

No aniversário de Clarice, 10/12/2002, a Embaixada do Brasil na Ucrânia e a Prefeitura de Tchetchelnik se associaram em homenagem à memória da escritora, inaugurando uma placa com dados biográficos gravados em russo e em português, que foi afixada na entrada da sede da administração municipal.

Em 2004, os manuscritos de A hora da estrela e parte dos livros que pertenciam à biblioteca pessoal de Clarice Lispector foram confiados por Paulo Gurgel Valente à guarda do Instituto Moreira Salles, que lançou, em dezembro, edição especial dos "Cadernos de Literatura Brasileira", dedicada à vida e à obra da autora.

Em artigo publicado no jornal "The New York Times", no dia 11/03/2005, a escritora foi descrita como o equivalente de Kafta na literatura latino-americana. A afirmação foi feita por Gregory Rabassa, tradutor para o inglês de Jorge Amado, Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e de Clarice. No dia 13/01, foi discutido o viés judaico na obra da autora no Centro de História Judaica em Nova York.

Com seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem, Clarice desperta estranhamento e surpresa em alguns críticos, precisamente porque sua obra não se enquadrava em qualquer programa dos modernistas, nem dos regionalistas do período anterior.

O trabalho da escritora é complexo e identificado como o ponto mais alto da segunda fase do Modernismo. O tema dominante versa sobre a necessidade que o homem tem de amparar-se na linguagem para suportar o desamparo diante do universo, recoberto pelo silêncio intraduzível.

A tarefa da escritora é aprisionar esse silêncio e dar-lhe sentido. Esse trabalho exige contínuas retomadas que vão criando um discurso paradoxal, transitório, assim definido por Benedito Nunes: "o sentido erra entre o exprimível dos significantes e o inexprimível do significado".

Nas obras de Clarice se destacam: o emprego intenso da metáfora, o fluxo da consciência e o rompimento com o enredo. No conjunto, essa técnica colabora para a visitação do mundo interior das personagens, sempre manifestado pela subjetividade em crise. A memória serve de elo condutor entre o subjetivo e o "real", favorecendo à auto-análise, numa espécie de "um contínuo denso de experiência existencial".

Essa experiência resulta em despersonalização das personagens, diante da impossibilidade da representação do mundo e do quotidiano, enquanto buscam o centro de si mesmas. É, pois, uma queda no vazio, provocadora de horror, como em A Paixão Segundo G.H.. Seus temas mais comuns são: a relação entre o bem e o mal, a culpa, o crime, o castigo e o pecado.

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