dcsimg

Eurípedes


Eurípides, trágico grego, nasceu por volta de 485 a.C. em Salamina, perto de Atenas, e morreu em 406 a.C. na cidade de Pela, capital da Macedônia. Sua família era abastada e viveu a maior parte de sua vida em Atenas. É possível que tenha realmente possuído uma biblioteca, coisa raríssima na época. Era filho de um latifundiário e os dados sobre a sua vida são inseguros. Sabe-se que em jovem era adepto do culto de Apolo, que tinha três filhos, e que triunfou poucas vezes nos concursos teatrais. No ano de 406 a. C. Sófocles homenageia-o no decurso de uma festa teatral dionisíaca.

Homem culto e céptico, um pouco mais jovem que Sófocles, é alheio à vida pública do seu tempo. A obra de Eurípides distingue-se da dos seus precursores por estar centrada nos problemas humanos e calar profundamente no espírito do homem e nas suas características. Chegam até nós um drama satírico, Ciclope, e dezessete tragédias baseadas em fatos lendários. As mais notáveis são As Troianas, Hécuba, Helena, Andrômaca (lenda de Tróia), Electra, Orestes, Ifigênia de Áulide, Medéia, Hipólito (lendas áticas), As Bacantes (lenda tebana) e Alceste (lenda de Hércules).

Medéia é uma das grandes criações de Eurípides. A sacerdotisa Medeia, repudiada por Jasão, que vai casar-se com a filha do rei Creonte, é tomada de ciúmes e planeia uma vingança terrível nas pessoas amadas por Jasão. Com as suas artes mágicas faz com que morram queimados o rei Creonte e a sua filha e, de seguida, dirige a sua ira contra os seus próprios filhos, a quem dá a morte. A violência do ódio e da vingança nascida dos ciúmes tem uma dimensão trágica extraordinária.

O êxito de Eurípides é escasso durante a sua vida. Após a sua morte, da sua obra surge a "nova comédia", muito apreciada no período helenístico. Também o latino Sêneca imita o teatro deste autor. A partir do século xvi, a sua influência na literatura teatral ocidental é determinante. Os personagens de Eurípides, desvinculados do mito, humanizam-se e aproximam-se mais de nós. Especialmente atrativas são as suas personagens femininas: Andrômaca, Ifigênia, Fedra, Medeia. Racine e Goethe, para nomear apenas os mais notáveis, são devedores das suas concepções trágicas e teatrais.

A dramaturgia de Eurípides

Nos cinqüenta anos de teatro, durante os quais escreveu noventa e duas peças, conquistou apenas cinco prêmios, sendo o quinto concedido após sua morte. Permanente alvo dos poetas cômicos, especialmente de Aristófanes, tornou-se objeto das mais desenfreadas calúnias e zombarias.

Julgado por impiedade deixou Atenas totalmente desacreditado. A corte macedônia do rei Arquelau honrou-o. Mas apenas uns dezoito meses depois veio tragicamente a falecer. Eurípides é o exemplo clássico do artista incompreendido.

Sócrates colocava-o acima de todos os outros dramaturgos e jamais ia ao teatro senão quando Eurípides tinha uma de suas peças encenadas. Sófocles respeitava seu colega-dramaturgo, ainda que não aprovasse seu realismo.

A estória de Eurípides é a de um homem que estava fora de sintonia com a maioria. Era um livre-pensador, humanitário e pacifista num período que se tornou cada vez mais intolerante e enlouquecido pela guerra.

Se Eurípides era um acirrado crítico de seu tempo, podia contudo, assinalar com justiça que não fora ele quem mudara e sim Atenas. Rica, poderosa e cosmopolita em virtude de seu comércio e imperialismo, a Atenas de sua juventude ofereceu o solo adequado para a filosofia liberal que mais tarde experimentou dias tão negros.

Eurípides esteve estreitamente ligado à religião que mais tarde questionaria com tão ingrata perseverança. Foi um dos muitos livres-pensadores da Europa, criados numa atmosfera religiosa. Talvez uma certa ligação com religião seja sempre pré-requisito para o agnosticismo ativo.

Eurípides permaneceu suscetível aos valores estéticos da adoração religiosa até o fim de seus dias. Seu fascínio como dramaturgo está nesse dualismo entre o pensamento e a fantasia, entre emoção e a razão.

Os sofistas, que questionavam todas as doutrinas e ensinavam a hábil arte do raciocínio, o enfeitiçaram para sempre. Vário pensadores não convencionais que expunham diversas doutrinas racionalistas e humanistas imbuíram Eurípides de um apaixonado amor pela verdade racional. Foi a partir deles que o primeiro dramaturgo "moderno" desenvolveu o hábito do sofisma em seu diálogo e adotou uma perspectiva social que sustentava a igualdade de escravos e senhores, homens e mulheres, cidadãos e estrangeiros.

Quando Atenas se empenhou na luta de vida ou morte com a Esparta anti-intelectual, provinciana e militarista, acorreu em sua defesa não apenas como soldado mas também como propagandista que exaltava seus ideais.

Prolongando-se a guerra com Esparta e sofrendo Atenas derrota após derrota, o povo perdeu a predisposição para a razão e tolerância. Péricles, o estadista liberal, viu sua influência desaparecer, foi obrigado a permitir o exílio de Anaxágoras e Fídias e chegou mesmo a sofrer um impeachment. Um a um, Eurípides viu seus amigos e mestres silenciados ou expulsos da cidade.

Em meio a esses acontecimentos, Eurípides continuou a escrever peças que mantinham em solução os ensinamentos dos exilados, sendo pessoalmente salvo do banimento em parte porque suas heresias eram mais expressas por suas personagens que por ele mesmo e em parte porque o dramaturgo apresentava sua filosofia num molde tradicional. Em aparência era mais formal que o próprio Ésquilo.

O ateniense comum era abrandado por um final convencional, as sutilezas da peça podiam escorregar por suas mãos e seus sentidos excitavam-se com as doces canções e músicas. Eurípides pôde continuar em Atenas por longo tempo mesmo sendo considerado com suspeita e suas peças recebendo normalmente o segundo ou terceiro lugar dos vigilantes juizes do festival de teatro.

A estrutura artística desigual e muitas vezes enigmática de seu trabalho prova que foi grandemente cerceado por essa necessidade de estabelecer um compromisso com o público inamistoso. Suas peças freqüentemente têm dois finais: um inconvencional, ditado pela lógica do drama e outro convencional, para o povo, violando a lógica dramática.

Se algumas vezes Eurípides comprou sua liberdade intelectual às custas da perfeição, a compra foi uma barganha em termos de evolução dramática. Enquanto brincava de cabra-cega com seu público, conseguiu criar o mais vigoroso realismo e a crítica social da cena clássica. O povo simples começou a aparecer em suas peças e seus heróis homéricos eram freqüentemente personagens anônimos ou desagradáveis. Outras personagens homéricas com Electra e Crestes são até hoje casos caros à clinica psiquiátrica. Eurípides e o primeiro dramaturgo a dramatizar os conflitos internos do indivíduo sem atribuir a vitória final aos impulsos mais nobres.

A obra de Eurípides constitui, sem dúvida alguma, o protótipo do moderno drama realista e psicológico.

Eurípides poderia sem dúvida Ter continuado a criar poderosos dramas pessoais ad infinitium. Mas a vida tornava-se cada vez mais complicada para um pensador humanista. Em 431, ano de Medéia, Atenas entrou em sua longa e desastrosa guerra com Esparta. Não era momento para um homem como Eurípides preocupar-se com problemas predominantemente pessoais.

Por certo, ao envelhecer, Eurípides pouco fez para granjear a favor de seus concidadãos. Na verdade, atormentavam-no ainda mais do que ao tempo em que escrevia seus mais amargos dramas sociais. Foi declarado blasfemo e sofista. Segundo o poeta cômico Filodemo, Eurípides deixou Atenas porque quase toda a cidade "divertia-se às suas custas".

Conheça a história do Teatro

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: