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Josefo


Flávio Josefo (Flavius Josephus), em hebraico: Iossef ben Matitiahu ha-Cohen, nasceu em 37 ou 38 E.C., de uma rica família da aristocracia sacerdotal asmonéia. Foi político, soldado e historiador. Eis como descreve em sua Autobiografia, com orgulho, sua origem aristocrática, para "desmanchar as calúnias de meus inimigos”:

Como eu tenho a minha origem numa longa série de antepassados de família sacerdotal, eu poderia vangloriar-me da nobreza do meu nascimento, pois cada nação, estabelecendo a grandeza de uma família, em certos sinais de honra que a acompanham, entre nós um das mais notáveis, é ter-se a administração das coisas santas. Mas eu não sou somente oriundo da família dos sacrificadores, eu sou também da primeira das vinte e quatro linhas que a compõem e cuja dignidade está acima de todas. A isso eu posso acrescentar que, do lado de minha mãe eu tenho reis, entre meus antepassados. O ramo dos asmoneus, de que ela é proveniente, possuiu durante um longo tempo, entre os hebreus, o reino e a suprema sacrificadura.
[Nasci de] Matias no primeiro ano do reinado do imperador Caio César [o imperador romano Calígula, que reinou de 37 a 41 d.C.]. Quanto a mim, tenho três filhos, o primeiro dos quais, chamado Hircano, nasceu no quarto ano do reinado de Vespasiano [imperador romano que governou de 69 a 79 d.C.]. O segundo chama-se Justo, nasceu no sétimo e o terceiro, de nome Agripa, no nono ano de reinado do mesmo imperador.

Flávio Josefo recebeu uma formação judaica sofisticada. Diz ele em sua Autobiografia:

Fui educado desde minha infância no estudo das letras, com um dos meus irmãos de pai e mãe, que tinha como ele o nome de Matias. Deus deu-me bastante memória e inteligência e eu fiz tão grande progresso que tendo então só catorze anos, os sacrificadores e os mais importantes de Jerusalém se dignaram perguntar minha opinião sobre o que se referia à interpretação das leis.

A natureza do ensino recebido por Josefo não deixa nenhuma dúvida que trata-se de um ensino puramente religioso, baseado na Torá. De fato, julgava-se que os livros sagrados continhm o saber essencial ao homem para que conduzisse sua vida neste mundo. Neles, ele pôde encontrar um código cultural, moral, social, político, assim como a história do universo e das gerações humanas, todas as coisas que ele sabia deveria vincular a uma divindade única e onipresente.

Aos 13 anos entrou em contato com as três principais tendências do judaísmo do século I d.C., desenvolvidas pelos saduceus, fariseus e essênios, mas ainda não havia decidido abraçar nenhuma delas.

Quando fiz treze anos desejei aprender as diversas opiniões dos fariseus, dos saduceus e dos essênios, três seitas que existem entre nós, a fim de, conhecendo-as, eu pudesse adotar a que melhor me parecesse. Assim, estudei-as todas e experimentei-as com muitas dificuldades e muita austeridade.

Em um ambiente como o que se vivia então, é de se esperar que houvesse uma preocupação muito grande com a espiritualidade. Ainda mais em se tratando de um povo cuja religião era determinante para os assuntos tanto sociais quanto individuais. A pluralidade de opções era outra característica marcante do povo judeu daquela época. Não havia autoridade suprema a nível de interpretação dos escritos sagrados, nem da tradição oral e nem com relação à moral. Numa religião sem uma autoridade central e legitimadora em si e sem dogmas fica uma certa amplitude de interpretação o que garante a grupos que podem até se opor, desfrutar da mesma herança religiosa.

Mas, não satisfeito com esta experiência, Josefo foi viver três anos, dos 16 aos 19 anos de idade, junto a um asceta chamado Bano, que “vivia tão austeramente no deserto que só se vestia da casca das árvores e só se alimentava com o que a mesma terra produz; para se conservar casto banhava-se várias vezes por dia e de noite, na água fria; resolvi imitá-lo”.

Esta temporada no deserto junto a Bano, foi uma “tentação essênia” no jovem Josefo e chegou mesmo a dizer que “somente uma estada entre os essênios pode explicar a abundância dos detalhes que ele nos dá tanto sobre a doutrina quanto sobre o seu modo de vida”; além de acrescentar que, embora o anacoreta Bano não fosse conhecido a não ser por esta menção de Josefo, ele “faz irresistivelmente pensar em João Batista, que também vivia no deserto, vestido com uma túnica de pêlo de camelo, um cinto de couro ao redor da cintura, e se alimentava de gafanhotos e mel selvagem”. Após estes três anos no deserto, Josefo volta a Jerusalém, provavelmente para se casar, e opta pela linha teológica farisaica, como nos diz ele em sua autobiografia:

Depois de ter passado três anos com ele, voltei, aos dezenove anos, a Jerusalém. Iniciei-me então nos trabalhos da vida civil e abracei a seita dos fariseus, que se aproxima mais que qualquer outra da dos estóicos, entre os gregos.

Apesar de dizer que optou pelos fariseus, alguns especialistas defendem que Josefo é, na verdade, um saduceu. Só que após a guerra judaica, já em Roma, vivendo à sombra do Imperador, e acusado por seu rival judeu Justo de Tiberíades de ser anti-romano, Josefo diz ser adepto dos moderados fariseus.

Em 64, Josefo foi a Roma, em missão semi-oficial, para libertar sacerdotes judeus presos por Nero. Esta viagem que Josefo fez a Roma desempenhou um papel importante na sua vida. Ele ficou fascinado pela potência romana e convencido de que os romanos eram invencíveis. Ao regressar, tentou em vão dissuadir seus compatriotas de empreender a guerra contra os romanos. Não obstante, quando irrompeu a revolta, ele aceitou organizar a resistência judaica na Galiléia. Em conseqüência, quando os judeus da Palestina se revoltaram e reconquistaram temporariamente a independência em 66, foi considerado especialista em questões políticas e mandado à Galiléia, como representante do governo revolucionário.

Ao irromper a grande revolta da Judéia, em 66, colocou-se ao lado dos insurretos e foi designado pelo San’hedrin governador militar da Galiléia, assumindo o supremo comando militar. Desaveio-se violentamente com os extremistas patrióticos, acusado de tendência à contemporização. Depois de participar de vários combates, foi aprisionado com uns quarenta homens da sua tropa; e, talvez num acesso de terror, sacrificou-os traiçoeiramente, com exceção de um só, para salvar a própria pele.

Julho de 67 da nossa era. Há 14 meses desencadeia-se a guerra entre judeus e romanos. Depois de 47 dias de cerco, as tropas de Vespasiano conseguem tomar e destruir Jotápata, uma praça forte na Galiléia. Josefo, com 30 anos de idade, defensor da cidade e chefe dos revoltosos da Galiléia, refugia-se numa cisterna profunda junto com 40 companheiros. O esconderijo é descoberto. Vespasiano convida Josefo a se render, prometendo-lhe que sua vida será salva. Diante de seus companheiros, aceitar tal proposta seria uma traição: todos prefeririam morrer a se entregar”. Josefo dissuadiu-os do suicídio e propôs estrangularem-se reciprocamente segundo uma ordem determinada pela sorte. Restaram vivos somente ele e um companheiro, como ele mesmo tenta explicar, constrangido, em Guerra III, 387-391: “Não sei se deveríamos dizer que por efeito do acaso ou da Providência Divina”. Teria havido um truque ao tirar a sorte? Josefo se entrega a Vespasiano e prediz que ele ostentaria em breve a púrpura imperial; quando isto se confirmou, foi liberto, como recompensa por sua previsão. O ex-prisioneiro passou para o lado dos vencedores. Terminada a guerra, tornou-se cidadão romano. De acordo com o costume local, adotou o nome de família de seu protetor, Flávio, de onde resultou o cognome pelo qual ficou conhecido na história e na literatura: Flávio Josefo. A partir daí, tornou-se caudilho romano; depois do esmagamento da revolta, foi contemplado com algumas propriedades confiscadas na Judéia, mas viveu em Roma o resto da vida. Rico e considerado, de agora em diante passaria dias felizes na capital imperial.

Ao que tudo indica, depois de ir com o imperador a Alexandria, retornou à guerra da Palestina, na esteira de Tito, testemunhou o cerco e a queda de Jerusalém, acompanhando o vencedor até Roma. Fixou-se na capital do Império, onde sob o patrocínio de Vespasiano, Tito e Domiciano, escreveu a maior parte de seus trabalhos, dos quais restam quatro.

É difícil determinar com precisão o papel que teve nesses acontecimentos, pois a única fonte disponível são seus próprios escritos, nos quais tentou, simultaneamente, demonstrar sua integridade como líder patriótico e sua devoção à causa de Roma. Contudo, são essas as fontes mais autorizadas da história dos judeus, nos primeiros séculos antes e depois do início da E. C., e da guerra de 66-70.

A maneira como salvou sua vida deixou, sem a menor dúvida, remorsos na alma de Josefo. Desta dor na consciência nasceu uma obra literária. Aos olhos dos que o acusavam de traição, Josefo quis justificar sua passagem para o campo romano e apresentar sua explicação sobre a guerra judaica. Os judeus destruíram-se a si mesmos por causa de suas divisões sectárias. Deus os castigou e deu aos romanos uma força irresistível. Este é o tema de A guerra dos Judeus cuja edição aramaica desapareceu. A versão grega, ampliada, surgiu entre 76 e 79. Josefo relatou os acontecimentos de que foi testemunha; esclareceu-os, porém, remontando ao passado até a revolta dos Macabeus, no século II antes da nossa era.

Não é por acaso que o seu primeiro livro é “A Guerra Judaica”. Além de relatar os acontecimentos em que se viu envolvido e cuja decisão lhe parecia, acertadamente, fazer história na vida de seu povo, tratou-se, para ele, de justificar sua própria atuação, que era alvo de violentas acusações de parte dos zelotas e outras correntes judaicas. Assim, não são de admirar o tom polêmico, os exageros laudatórios e as deformações subjetivas dessa obra que, de outro modo, constitui um documento vivo e compreensivo da luta, uma das poucas fontes sobre as particularidades de seu desenvolvimento e da derradeira resistência de Jerusalém ao gládio romano. Josefo a compôs originalmente em aramaico, sobretudo para os judeus da Babilônia; encorajado a traduzi-lo para o grego, ele próprio o fez com o auxílio de estilistas helênicos, e foi esta versão que chegou até nós. A seguir viu-se instado a expandir o relato numa história do seu povo, desde o começo até o seu tempo. Daí surgiram as Antigüidades Judaicas, em vinte livros. Obra muito desigual na matéria que apresenta, suas narrativas fabulosas, contradições e erros mesclam-se com dados preciosos, que denotam conhecimentos aprofundados da história e das tradições judaicas e que a arqueologia moderna vem comprovando de maneira às vezes surpreendente. Ainda hoje ela é não só um repositório literário, um clássico da historiografia antiga, como um dos principais anais do passado de Israel.

A opção política de Josefo não significou abandono de suas convicções religiosas judaicas. De fato, ele sofria muito por causa da ignorância e do desprezo que o mundo greco-romano alimentava em relação aos judeus e à Bíblia. Por isso, esforçou-se para tornar conhecidas entre os gregos tradições igualmente veneráveis e mais antigas do que as deles nas suas Antigüidades Judaicas (ou História Antiga dos Judeus), que apareceram em 93 ou 94.

Justo de Tiberíades, antigo companheiro de luta e seu rival na Galiléia, contestou o papel de Josefo na guerra; imediatamente, este se justificou, publicando sua Vida (Autobiografia), que ele acrescentou como um apêndice a uma nova edição das Antigüidades, no fim do século I, a qual é, acima de tudo, uma autodefesa política com algumas notícias sobre a vida do autor, no começo e no fim do livro.

Parte do tormento que lhe ia na alma transparece em textos como o discurso que Josefo põe nos lábios de um dos chefes, seu companheiro, que se manteve leal até o fim. Vigorava no mundo greco-romano um considerável anti-semitismo, particularmente entre os intelectuais pagãos que não entendiam a religiosidade obstinada dos judeus.

Gregos de Alexandria, entre eles um certo Apion, questionavam as afirmações de Josefo nas Antigüidades sobre o povo judeu, não atestadas nas fontes gregas. O testemunho da Bíblia não tem valor. O anti-semitismo mascara a realidade dos costumes judaicos. Então Josefo retoma o trabalho, para demonstrar a antigüidade e a tradição bíblica e para defender os valores do judaísmo, num livro que chegou até nós sob o título de Contra Apion. Trata-se de uma de suas melhores realizações literárias. Escrita com grande veemência, é uma peça de defesa apaixonada, mas autêntica. Não obstante o seu tom, contém na segunda parte um esforço compreensivo das concepções de vida e dos costumes religiosos e legais dos judeus que, colocados sob a égide da legislação revelada de Moisés e da polis teocrática, inspirada diretamente nos Mandamentos de Deus, encontraram na sua Torá as noções que são também as dos mais sábios dentre os gregos, com a vantagem de terem sido convertidas em prática preceitual e religiosa, argumenta Flávio Josefo.

O espírito apologético impregna todos esses trabalhos que se propunham também a sustentar a causa judaica ante a freqüente hostilidade do mundo greco-romano. Neste sentido, porém, a sua obra mais representativa é o tratado Contra Ápio ou da Antigüidade do Povo Judeu, onde procede à apologia do mosaísmo diante das investidas do gramático alexandrino, que foi o expoente do anti-semitismo clássico.

O Historiador: sua obra e permanência

Se ele houvesse levado em conta exclusivamente os judeus, com grande possibilidade a obra de Josefo jamais teria chegado até nós. Ele só é citado na literatura judaica a partir do século X. Em contrapartida, seus escritos interessaram vivamente os cristãos, que, desde cedo, começam a citá-lo e a utilizá-lo: Orígenes, Eusébio de Cesaréia, Jerônimo e muitos outros em seguida, que viram em Josefo o complemento das Escrituras, particularmente do Novo Testamento. Como os Evangelhos ou os Atos, Josefo fala de Herodes e de seus descendentes, dos procuradores da Judéia, Pôncio Pilatos, Félix. Ainda fala de João Batista, de Jesus e de Tiago. Aliás, a preocupação de Josefo de mostrar a antigüidade da religião judaica vai ao encontro das próprias preocupações da apologética cristã: Moisés, que os cristãos, tanto quanto os judeus, afirmavam ser anterior aos filósofos gregos. Era a prova da veracidade da revelação bíblica e do cristianismo.

Muitos enfatizaram os limites da obra de Josefo, seu pouco rigor cronológico, seu exagero nos números quando se referem a pessoas, sua vontade constante de se defender ou de se valorizar, seus preconceitos de classe etc. Seu comportamento durante a guerra judaica, o proveito que ele tirou de sua ligação com os vencedores não o tornam muito simpático. É preciso reconhecer, entretanto, que o apego de Josefo ao judaísmo valeu para conservar acontecimentos e ensinamentos que só ele transmite. “Sem Josefo, não saberíamos quase nada a respeito do destino do povo judaico durante os dois últimos séculos de sua existência nacional, nada do meio histórico em que nasceu o cristianismo” (Th. Reinach, em 1930). Sem dúvida alguma, as descobertas de Qumram matizam hoje esta afirmação.

Essa imensa obra transmitida em língua grega, foi lida e relida incessantemente no Ocidente cristão, desde a Renascença até o século XIX. Somente o século XX, esquecido das humanidades, afastou-se dela. Houve um tempo em que, na França, na Holanda, na Inglaterra, cada família cristã possuía seu Flávio Josefo, assim como possuía sua Bíblia, e a guarda de um in-fólio que continha a Guerra ou as Antigüidades tinha tanto direito quanto um Evangelho a receber os nomes dos filhos recém-nascidos. A cristandade via nele menos o “Tito Lívio grego”, como o chamava Jerônimo, do que o único historiador judeu que mencionou a existência de Cristo, num trecho aliás muito curto e controverso. Ele era também um maravilhoso contador da história santa, testemunha do que foi, segundo os cristãos, o seu episódio final: a punição do povo condenado às lagrimas e à errância eternas. É a esse mal-entendido que a obra de Flávio Josefo deve sua sobrevivência.

Talvez o fundamento principal da fama duradoura de Josefo como historiador seja o respeito excepcional em que suas obras eram tidas pela Igreja, desde os tempos mais remotos. Este fato devia-se a que ele tinha sido quase contemporâneo de Jesus e dos Apóstolos, na Judéia. Seus relatos (assim consideram muitos modernos eruditos, tanto cristãos quanto judeus) foram textualmente alterados, nos primórdios da era cristã, por ultrazelosos propagandistas da igreja, a fim de obter corroboração histórica para a missão de Jesus, como o Cristo ou Messias, uma vez que não havia outro testemunho histórico contemporâneo e externo que o comprovasse.

No século XVIII, Padre Hardouin, jesuíta francês, irritado com esse autor, popular demais para o seu gosto em país protestante e ainda por cima traduzido para o francês por um jansenista, Robert Arnauld d’Andilly, impôs a ortografia Josefo para distinguir o historiador antigo dos santos de mesmo nome. Esse foi, com certeza, o único legado à posterioridade desse curioso jesuíta, para quem a Eneida não passava de uma alegoria cristã imaginada por um beneditino do século XIII e que professava que Jesus e os apóstolos haviam pregado em latim. Assim criou-se o hábito de reservar o nome Josefo ao historiador judeu, que os ingleses chamam, à maneira latina, de Josephus.

Para o judaísmo, Josefo, embora nunca tenha renegado sua origem e sua fé, passou por filho perdido: por ter sido suspeito de traição; por ter ido viver em Roma, no palácio do vencedor; por ter escrito e difundido sua obra em grego; por ter sido recuperado pelo cristianismo desde os primórdios da Igreja, como um outro judeu, o filósofo Fílon de Alexandria.

Confiscado pelos teólogos, Josefo foi também considerado perdido, em grande medida, para a história romana, à qual, porém, ele dá uma preciosa contribuição. Para abordar a época de que é contemporâneo, os historiadores de Roma sempre se serviram abundantemente dos autores latinos, sobretudo Tácito e Suetônio, restringindo Josefo a um papel de cronista dos assuntos da Judéia. Estes estão tão estreitamente relacionados com os assuntos de Roma, que dois generais vitoriosos da Judéia, Vespasiano e Tito, se sucederam à frente do império. Sobre as circunstâncias da ascensão ao trono, do caráter, do círculo de pessoas, do comportamento em campanha desses dois personagens, o testemunho de Josefo, que, ao contrário dos outros autores, os acompanhou de perto dia a dia, é insubstituível. Mas, enquanto os autores latinos, estudados de maneira incansável no Ocidente, forneciam aos escritores a matéria de inúmeras tragédias, a obra de Josefo, que em praticamente cada página sua podia inspirar uma tragédia, foi deixada de lado pelos dramaturgos.

Narrador de uma terrível tragédia, Josefo também evoca a sociedade judaica que existia antes desta, e, embora o nascimento do cristianismo não o tenha atingido particularmente, ele nos faz penetrar em seu meio de origem. Não há um autor moderno de uma história da Palestina no tempo de Jesus ou de uma história dos judeus no império romano que não o tenha plagiado despudoradamente. Alguns não hesitaram em atacar sua preciosa fonte para melhor realçar uma hipotética contribuição original.

Caluniado ou pelo menos suspeito de parcialidade – que historiador não o é quando narra fatos vividos? – Josefo tem direito ao lugar que reivindicava para si mesmo com justo orgulho: “O historiador digno de louvores”, escreve em seu prefácio ao relato da guerra, “é aquele que registra fatos cuja história nunca foi escrita e que faz a crônica de seu tempo para as gerações futuras”.

Faleceu por volta do ano 100 E.C.

O Tribunal da História

Em sua vida póstuma milenar, Flávio Josefo assumiu os rostos mais diversos. Cristão sem saber, mago, matemático, defensor da fé ou semeador de dúvida, foi assim que ele foi apresentado desde a Antigüidade até os Tempos Modernos. Há um século, aproximadamente, os historiadores que o utilizam com gratidão como fonte principal para o período que ele cobre em seus textos, sentem-se como que obrigados a fazer por Josefo o que não lhes ocorreria fazer por nenhum outro historiador antigo: julgar o homem. A parcialidade evidente do autor da Guerra os leva a isso. Não só o ardente F. de Saulcy, mas também o austero Emil Schürer, emitem sua opinião indignada ou severa: “Ninguém se sente inclinado a justificá-lo”, escreve este último. “A vaidade e a presunção são os principais componentes de seu caráter. Mesmo que ele não fosse o traidor vil e desprezível que confessa mais tarde ser em sua Autobiografia, pelo menos transferiu para os romanos sua obediência e para a família dos Flavianos sua fidelidade, com mais rapidez e tranqüilidade de alma do que convinha a um israelita fingindo lamentar-se sobre a destruição de seu povo”. Théodore Reinach escreve que Josefo não é “nem um grande espírito, nem um grande caráter, mas um composto singular de patriotismo judaico, da cultura helênica e de vaidade”. Recentemente, Pierre Vidal-Naquet acentuou “a vaidade, o feroz espírito de classe, o cinismo” de sua personalidade, e, confrontando as traições de Tibério Júlio Alexander, do apóstolo Paulo e de Josefo, dava a palma do traidor a este último.

Paralelamente, nos círculos sionistas redescobria-se Josefo com um certo constrangimento. Ter-se-ia preferido um herói para contar a história de Massada. Em vez disso, tratava-se de um adversário ferrenho dos heróis cuja coragem se admirava. Em 1937, um grupo de estudantes de Direito reabriu o dossiê de Flávio Josefo e pronunciou a condenação do traidor. Em 1941, em plena guerra, um grupo de jovens resistentes, de inspiração sionista, reagindo como patriotas franceses e judeus, decretou a condenação de Flávio Josefo por colaboração. No Estado de Israel, não foi sem hesitação que deram seu nome a uma rua, o que é uma forma de apreciar a dívida histórica contraída em relação a ele, o que quer que se pense de sua personalidade.

A história narrada por Josefo está presente no espírito de jornalistas e de escritores, que se referem a ela sempre que as divisões políticas internas se tornam violentas demais, graças ao contra-senso que pode facilmente ser feito sob o título habitual de sua obra, a Guerra dos Judeus, que preferimos chamar de a Guerra da Judéia. Sem realmente reabilitar Josefo, a esquerda militante assimila de bom grado os zelotes, partidários do Grande Israel.

A longa história póstuma de Flávio Josefo deve tornar-nos desconfiados em relação a todas as utilizações que podem ser feitas de seu destino e de sua obra, mais particularmente da Guerra. Basta lembrar que Saulcy não via nada mais semelhante a ela do que o terror sob a Revolução, que Reinach a via como uma imagem antecipada do cerco de Paris e da Comuna, e que até a comparação com a Revolução Russa foi feita. Poder-se-ia igualmente, nos dias de hoje, mencionar a situação libanesa. A verdade é que toda guerra civil, todo confronto fratricida pode lembrar a obra de Josefo para aqueles que a leram.

Não é de causar espanto que foi um judeu alemão, Lion Feuchtwanger, convencido pela Primeira Guerra Mundial do horror dos conflitos armados, da ascensão do nazismo e do horror do nacionalismo, que tenha empreendido a reabilitação de Josefo. Em sua trilogia, Josefo torna-se um personagem atormentado por todos os problemas de identidade e pelas aflições dos judeus da Diáspora, aspirando a ser um verdadeiro cidadão do mundo. Segundo um crítico, seria Stefan Zweig que foi descrito através dele. Observemos apenas que costuma-se referir a Zweig (autor em 1916 de um drama intitulado Jeremias) e a Flávio Josefo, como o profeta Jeremias.

Esbocemos um retrato de Josefo: um rapaz brilhante, confiante em sua estrela; um intelectual eloqüente, que não gosta de derramamento de sangue; um ambicioso que não quer morrer aos trinta anos; um espírito mais político do que guerreiro; um racionalista que odeia a exaltação mística; um cortesão por senso de compromisso; e, com tudo isso, um judeu profundamente fiel.

Texto parcial: Jane Bichmacher de Glasman - Professora da UERJ

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