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Manuel Maria Barbosa du Bocage


Foi o maior poeta português do século XVIII, que se irmana com Camões nas desventuras de uma existência repartida entre Portugal e a Índia. Manuel Maria l’Hedois de Barbosa du Bocage - de seu nome completo - era filho de um advogado e de uma senhora francesa de ascendência normanda. Órfão de mãe desde os dez anos, assentou praça em Setúbal em 1781, tendo-se alistado dois anos depois na recém-fundada Academia dos Guardas-Marinhas, em Lisboa. Conheceu então a boemia lisboeta, os botequins, o Nicola, onde o seu gênio poético se afirmou no improviso e lhe ganhou aplausos. Subitamente, ao fim de dez meses de freqüência do curso, Bocage abandonou os estudos, sendo dado como desertor em 6 de junho de 1784. Nomeado guarda-marinha, partiu para a Índia a 4 de abril de 1786, fazendo escala no Rio de Janeiro, tendo chegado a Goa em 20 de outubro.

A sua estada na Índia foi por ele comparada ao exílio de Ovídio entre os Getas - os "bárbaros" indianos que o rodeavam. Promovido ao posto de tenente, foi destacado em Damão, mas só aí permaneceu dois dias, 7 a 8 de abril de 1789, refugiando-se em Macau de onde viajou para Lisboa, em 1790.

No seu regresso, Bocage aderiu à Nova Arcádia, onde assumiu o pseudônimo literário de Elmano Sadino. Em 10 de agosto de 1797 foi preso por ordem do intendente Pina Manique, acusado de ser "autor de papéis ímpios e sediciosos". A peça principal do auto de acusação era o poema Pavorosa Ilusão da Eternidade. A 7 de novembro do mesmo ano foi transferido para os cárceres da Inquisição, daí seguindo, a 22 de março de 1798, para o Hospício de Nossa Senhora das Necessidades, dirigida pelos padres do Oratório. Pouco depois saiu do convento e um trabalho regular e remunerado tornou-se nele uma necessidade desde o momento em que procurou dar à irmã mais nova, Maria Francisca, um lar. E assim se instalou na travessa André Valente, no andar onde morreu e se encontra afixada uma placa comemorativa da sua presença.

Foi durante este período que travou uma polêmica com José Agostinho de Macedo, ditando a um amigo no Nicola a Pena de Talião, sátira que ficou célebre na literatura portuguesa. Consumido por um quotidiano desregrado, contraiu um aneurisma, que o forçou ao recolhimento e o levou a reconciliar-se com as normas convencionais da existência e com os inimigos. Reduzido a extrema penúria, foi graças aos esforços de um amigo, José Pedro da Silva, que lhe recolheu os poemas compostos durante a enfermidade e os publicou, vendendo-os pela rua, que o poeta auferiu alguns recursos com que manteve o modesto lar. Os poemas desta fase final da sua vida mostra um passado de boemia e de irreverência, perdido o ardor que animara os verdes anos e o sustentara até à hora da doença. Morreu em 21 de dezembro de 1805.

Toda a poesia de Bocage se nutre das suas vicissitudes biográficas. O amor e o erotismo, o ódio e a raiva das ofensas sofridas ou imaginadas, vibram nos seus versos com a intensidade do excesso, que a forma apurada e o rigor verbal dominam, tornando mais impressionante o seu efeito estético. O poeta cultivava com igual desenvoltura todos os gêneros, desde o soneto de fina conceituação petrarquista ao verso fescenino, servindo-se ainda dos códigos de um discurso classicista, onde prorrompeu já um vigoroso individualismo em revolta com as normas e os tabus da sociedade vigente. A atitude do poeta contra a tirania e o despotismo não implicou, no entanto, na aceitação do radicalismo da Revolução Francesa, a que se opõe, nem a via do libertino, que o seduziu, esmoreceu nele as suas crenças e convicções de católico. Bocage foi um ser contraditório, que soube viver intensamente na sua poesia as suas contradições existenciais. O seu fascínio pela morte e a expressão da sua extrema emotividade fizeram dele um precursor do Romantismo, cujos desbordamentos evitou no apego à contenção clássica, impondo-se como um artífice do verso, o chamado elmanismo, que tanto atrairá os parnasianos portugueses e brasileiros.

Foi um tradutor rigoroso do latim e do francês, vertendo para o nosso idioma textos de Ovídio, Museu, Lacroix, Voltaire, Delille, Pierre Rousseau, entre outros.

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