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Rembrandt


Rembrandt nasceu na Holanda, em 1606. Seu nome completo era Rembrandt Harmensz van Rijn. Há poucas pessoas famosas na história que são conhecidas por seu primeiro nome, e Rembrandt é uma delas.

Durante sua vida foi um artista importante, e sua fama aumentou com o passar dos anos. As pinturas, os desenhos e as gravuras criadas por ele são inestimáveis.

Rembrandt era famoso por pintar retratos. Ele pintou a si mesmo e todos em sua família. As pessoas o pagavam para pintar seus retratos. A fotografia não havia sido inventada naquela época, de modo que contratar um artista era a única forma de “tirar um retrato”. Rembrandt gostava de usar iluminação forte para acrescentar atração a um rosto. Ele mostrava a metade do rosto de uma pessoa com uma luz do sol forte caindo sobre ela e a outra metade na sombra. Os jovens artistas desenham seus amigos com luz brilhante e sombra escura, de maneira parecida com a de Rembrandt.

Discípulo de Jakob van Swanenburch, uma das suas primeiras pinturas é A Cena de Emaús, onde Cristo, como que saído diretamente do Evangelho, portanto, sem os artifícios e sofisticações católicos, nos surge em meio a humildes estalajadeiros, enquanto que a tela dedicada aos Os Oficiais da Companhia de Santo André é concluído no mesmo ano do nascimento de Vermeer de Delft, em 1632. Adrien Van Ostade, outro contemporâneo dele, então com 22 anos, move-se um tanto ao léu pelas ruas movimentadas de Amsterdã, tropeçando em prostitutas e marinheiros, em vendedores, "camelôs", ébrios.

Todos esses tipos humanos servirão de modelo para as telas dele. Nesta mesma cidade, Emanuel de Witte freqüenta outros ambientes. Sua Bolsa de Amsterdam nos dá uma boa imagem fotográfica da época: eclesiásticos se misturam com judeus, mercadores europeus com árabes no afã de comprar papéis Amsterdã era um centro internacional do comercio mundial que fazia com que a busca pelos lucros igualasse a todos. Não apenas dinheiro circulava por lá, visto que Amsterdã, por volta de 1630, tornara-se por igual no maior mercado de artes da Europa e a nação usufruía de um período extraordinário nas suas artes: a Época de Ouro da pintura holandesa (1584-1702).

A divisão do trabalho, a especialização, típicas imposições da sociedade moderna, atinge por igual a arte. Paisagistas, figurativistas, retratistas coletivistas, decorativistas, a pintura é agora cada vez mais uma arte mais e mais específica e profissionalizada. Rembrandt, todavia, está acima disso. Nega-se se especializar, a dedicar-se a uma coisa só, e talvez seja essa sua rebeldia que o fará passar - depois de ter amealhado razoável fortuna - os últimos anos na miséria. Suas telas abrigaram uma incrível gama de elementos de ordem religiosa (cenas bíblicas), gente comum (mendigos, pedintes, mulheres despidas, cenas domésticas, imagens de casamentos e noivados, etc.) e retratos das ordens corporativas (médicos ou oficiais da guarda local) e uma série incrível de paisagens com moinhos, barcos, estradas, pontes ou aldeias e cidades. Além de uma boa quantidade de auto-retratos feitos em momentos diversos da sua vida: da juventude à maturidade.

O Boi Desolado, uma patética porção de carne pendurada numa trave, foi concluída no mesmo momento em que Baruch Spinoza era expulso da congregação judaica. Com 23 anos Spinoza, considerado um herético incorrigível pelos integrantes da sua sinagoga, troca então seu prenome de Baruch pelo latino Benedictus. Torna-se exímio limpador de lunetas e lentes microscópicas, extraordinariamente desenvolvidas por Leeuwenhoek. Nesses afazeres modestos vai se mantendo pois entendia que um bom dinheiro produzia má filosofia. Enquanto todos procuram encher os bolsos, Spinoza é um estóico. Despreza inclusive uma pensão de um admirador. Suas sentenças atordoam os meios intelectuais. Ressuscitando os sofistas, repete: "dizemos que uma coisa e boa por que ela e vantajosa para nós, e não por ela ser boa em si própria". Ou ainda: "neste mundo, o bem e o mal atingem indiferentemente o justo e o pecador". Spinoza, em seu isolamento, tem olhos atentos para o que está acontecendo nos seus arredores.

Do Auto-retrato Juvenil, pintado em 1633, até Rembrandt Rindo, passaram-se 35 anos. E neste período muita coisa sucedeu às artes holandesas e a Rembrandt. Em 1634, aos 28 anos, casado com uma rica herdeira da aristocracia, Saskia, e atingindo merecida fama, não se contém: retratou-se alegremente com a esposa. Ele erguendo um copo ensaiando um brinde; ela sob seus joelhos, esboça um sorriso condescendente com a embriaguez do marido feliz. É o sucesso, a vida fácil, o dinheiro tranqüilizador. Possui uma bela casa, coleciona objetos de artes, móveis, tapetes, obras raras, e, admirador de Leonardo e Rafael, todas as gravuras que pode comprar da arte italiana daquela época. Oito anos depois, ela subitamente faleceu, e com ela a felicidade esfuziante que o pintor gozava foi-se para sempre. Uniu-se então à babá do seu filho Titus, uma moça simples vinda do campo chamada Hendrickje Stoffels. Mulher comum e sem ambições, concordava em ser sua concubina pois que o testamento de Saskia não permitia a Rembrandt contrair segundas núpcias. Situação que terminou fazendo com que o casal, denunciado pelos vizinhos, tivesse que dar satisfações ao Consistório Calvinista visto a ilegalidade da relação que mantinham.

A catástrofe econômica dele sobreveio após uma série de especulações malfadadas. Suas telas gradativamente perderam significação no mercado das artes. Uma nova onda classicista vinda da Itália na década dos cinqüenta, arranca-lhe uma concessão, A Lição de Anatomia do Dr. Jean Deyman onde abertamente se inspira em Mantegna com seu Cristo morto.

Enquanto Rembrandt decai, o pintor Jacob van Ruysdael, nascido em Harlem, passeia pelos campos holandeses e inflaciona o mercado com idílicas paisagens onde moinhos, canais e praias são constantes, todas num tom monocromático.

O naturalismo cede lugar, pelo menos no mercado consumidor, e conseqüentemente no preço, para os influenciados pelo classicismo italiano, ou àqueles que se deslocaram para lá estudando-o "in loco".

Pode-se datar dessa época, a volta definitiva de Rembrandt à pesquisa da luz. Tornou-se o mais extraordinário colorista da Holanda e, quiçá, da Europa. Seus contemporâneos o ignoram; a posteridade não. Ao contrário da maioria dos artistas do barroco, utiliza o claro-escuro para a pesquisa interior. Torna-se o retratista da alma. Por meio de contrastes violentos, tenta captar o íntimo do retratado, a psicologia do modelo. Nas palavras do historiador da arte Eugene Fromentin: "Nas profundezas da natureza há coisas que somente esse pescador de pérolas descobriu".

Da Ronda Noturna ao Sindicato dos Padeiros, vinte anos decorreram. Mas apesar dessas retratações coletivas, cada figura que integra o quadro mantém uma personalidade própria, distinguida pelo movimento ou pela expressão facial sutilmente destacada. O nome dele brilha entre os homens dotados daquela época. Complica-se sua vida profissional com o crescente desentendimento dele com sua clientela, como foi o caso do agente de arte português Diego Andrada que se negou a completar a soma devida ao artista caso ele não executasse certas alterações numa modelo retratada. Rembrandt levou o caso para ser julgado no seu grêmio profissional – a Guilda de São Lucas. Insistia em não aceitar a intervenção dos clientes nas suas obras.

Na década dos anos 60, porém, escassearam-se as encomendas e a verba para pagar os modelos. Rembrandt não se abate. Voltou-se para a família como matéria-prima para os quadros. Hendrickje vestida em trajes místicos, bíblicos, ou mesmo em poses nuas, Titus lendo sozinho ou ainda com a esposa e os filhos são retratados. A pobreza faz com que Rembrandt veja o ser humano com outros olhos, procura-lhe o íntimo e põe nele a busca todo o seu talento. O tom passional passa a ser circunspeto. A vida interior é ainda um oceano desconhecido para a burguesia mercantil holandesa, mas Rembrandt é um desbravador, um pioneiro. O seu Rabino, acabado em 1657, é uma figura patética, estranha, com um olhar perdido nos mistérios, um olhar de quem passou anos e anos intoxicando-se com a leitura talmúdica, um olhar drogado pela teologia.

Aos 62 anos, idade de sua morte, deixa-nos uma tela onde aparece sorrindo – ironicamente ergue as sobrancelhas, a boca desdentada perde-se na escuridão. Entretanto, vemos a sua testa: a inteligência que a oculta brilha para nos. É o auto-retrato (o último é de 1669, ano da sua morte) de um velho matreiro que aprendeu muito com a vida, sorri sarcástico para o mundo que está para deixar.

Por não querer acompanhar a moda e ficar fiel a seus compromissos subjetivos, perde uma clientela que pouco entusiasmo demonstrou pela "vida interior" de quem quer que fosse. Seu filho Titus logo o acompanhou à tumba, deixando apenas duas herdeiras, Cornélia, a filha que tivera com Hendrickje, e sua neta Titia, filha de Titus.

Quando o sepultaram na igreja de Westerkerk, quantos dos seus conterrâneos sabiam que ali estavam enterrando o maior pintor da sua história? Certamente que apenas uma minoria o apontaria com um gênio superior em meio àquele verdadeiro mar de nomes valiosos que compuseram o século de ouro das artes holandesas.

Logo após a sua morte, alguns críticos o enalteceram. Um deles, um ensaísta francês, apesar de observar que a perspectiva dele estava bem longe da de Raphael, entendeu, todavia que o desenho e o uso das cores por Rembrandt refletia como ninguém o espírito do povo holandês. O holandês, todavia, foi um mau pintor de corpos femininos, seus nus desconhecem o erotismo e a sensualidade, ainda que o seu desenho permanecesse soberbo. Ele nunca foi bom em detalhes (como Velásquez, por exemplo), mas no todo, ao ver-se a cena inteira retratada, seguramente ele se encontra entre os grandes de todos os tempos.

Fontes:
Clark, Kenneth - Rembrandt and the Italian Renaissance, Nova York: John Murray Ltd & New York University Press, 1966
Muller, J.E. – Rembrandt. Londres: Thames and Hudson, 1968.
Schama, Simon – O desconforto da riqueza: a cultura holandesa na época de ouro. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
Slive, Seymour/Rosemberg, Jacob/Kuille, E.H.Ter. – Arte y Arquitetura en Holanda, 1600-1800. Madri: Editora Catedra, 1981.
Zumthor, Paul – Holanda no tempo de Rembrandt. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.

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