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Victor Hugo


Filho de Joseph Hugo e de Sophie Trébuchet, nasceu em Besançon, no Doubs, França, mas passou a infância em Paris. Estadias em Nápoles e na Espanha acabaram por influenciar profundamente sua obra. Funda com os seus irmãos em 1819 uma revista, o Conservateur littéraire (Conservador literário), que já chama a atenção para o seu talento. No mesmo ano, ganha o concurso da Académie des Jeux Floraux.

O seu primeiro recolhimento de poemas, Odes, foi publicado em 1822: tinha então vinte anos. Mas foi com Cromwell, publicado em 1827, que alcançou o sucesso. No prefácio deste drama, opõe-se às convenções clássicas, em especial à unidade de tempo e à unidade de lugar.

Teve até uma idade avançada, diversas amantes, sendo a mais famosa Juliette Drouet, atriz sem talento que lhe dedicou a sua vida, e a quem ele escreveu numerosos poemas. Ambos passaram juntos o aniversário do seu encontro e preenchiam, nesta ocasião, ano após ano, um caderno comum que nomeavam o Livro do aniversário.

Criado por sua mãe no espírito da monarquia, acabou por se convencer, pouco a pouco, do interesse da democracia (Cresci, escreveu num poema onde se justifica). A sua idéia era que "onde o conhecimento está apenas num homem, a monarquia se impõe." "Onde estava num grupo de homens, deveria fazer lugar à aristocracia. E quando todos tinham acesso às luzes do saber, então vinha o tempo da democracia". Tendo se tornado favorável a uma democracia liberal e humanitária, foi eleito deputado da Segunda República em 1848, e apoiou a candidatura do "príncipe Louis-Napoléon", mas se exilou após o golpe de Estado de 2 de Dezembro de 1851, que ele condenou vigorosamente por razões morais (Histoire d'un crime).

Durante o Segundo Império, em oposição a Napoléon III, viveu em exílio em Jersey, Guernsey e Bruxelas. Foi um dos únicos proscritos a recusar a anistia decidida algum tempo depois: "Et s'il n'en reste qu'un, je serai celui-là" ("e se sobra apenas um, serei eu"). A morte da sua filha, Leopoldina, deixou-o a tal ponto desamparado que se deixou tentar, na sua lembrança, por experiências espíritas relatadas numa obra diferente nomeada Les tables tournantes de Jersey.

Viram-no emocionado com a passagem de volta a Paris na mão. No dia 4 de setembro de 1870, Victor Hugo, o gigante das letras francesas que passara quase vinte anos exilado, retornava à pátria. Agora, Napoleão III, derrotado, sitiado pelos prussianos em Sedan, no dia 2 de setembro de 1870, entregara a espada. O Segundo Império se fora e o poeta sentia-se liberto do juramento de só pôr os pés na pátria quando a liberdade tivesse sido plenamente reconquistada: "Quand la liberté rentrera, je rentrerai!"

No dia seguinte, no 5 de setembro, uma multidão o aguardava na Gare du Nord, a que acolhia os trens que vinham da Bélgica. Foi uma loucura. O carro aberto em que ele estava foi imediatamente cercado. Eufórico, o povo gritava "Viva a República!", "Viva Victor Hugo!". Em minutos, desatrelaram os cavalos e centenas de mãos uniram-se para levar o coche dele adiante. Em pé, emocionado, ele abanava para os transeuntes. Caído o imperador em Sedan, o César das letras francesas recebia os louros nas ruas de Paris. Morto o rei, viva o rei! A sua aparência, mesmo aos 69 anos, impressionava. Victor Hugo era um homem vigoroso, de apetites sensuais e gastronômicos impressionantes. O cabelo e a barba totalmente brancos ressaltavam-lhe ainda mais o olhar e o fronte inteligente. Naquela jornada apoteótica, estimam, ele apertou umas seis mil mãos. Dias depois arrumaram-lhe um escritório nas Tulherias, onde ele, como se fora um deus Olimpo vindo do exílio, recebia as homenagens de Paris inteira. Tratavam-no de père Hugo, pai Hugo!

O clima porém não era bom. A França rendera-se. Oitocentos mil alemães, comandados por von Molke, marchavam para Paris. O governo provisório nas mãos do Comitê de Defesa Nacional, tendo León Gambetta à frente, tentava detê-los. Mas com quem? Paris, por sua vez, agitava-se. O que se ouvia pelas ruas era de que a cidade não iria capitular. A Guarda Nacional, a milícia civil, estava disposta a dar armas ao povo. Victor Hugo, eleito para a assembléia nacional, não demorou a renunciar porque não podia por sua assinatura junto a de Thiers, o ministro provisório que ajustara um tratado de submissão. Entrementes morre-lhe Charles, o filho mais velho. Exausto, Victor Hugo retirou-se para Bruxelas. Então deu-se a catástrofe. As tropas do governo de Versalhes, nas mãos de Thiers, receberam ordens no dia 18 de março de 1871 de entrar em Paris e desarmar a multidão. Foi mexer num vespeiro.

Durante 73 dias, a cidade sitiada, dominada pela Comuna mobilizada para a guerra, enfrentou o exército. Brigadas de operários e suas mulheres, as petroleuses, numa resistência desesperada, deslocavam-se pelas avenidas e ruas incendiando os prédios públicos. Num repente, os miseráveis que Victor Hugo imortalizara no seu gigantesco romance (Les misèrables, 3 volumes com 2.800 páginas, que, desde 1862, vendera sete milhões de exemplares!), rebelados, tentavam "tomar o céu de assalto". Milhares de "Jeans Valjeans", na companhia das "Fantines" e das pequenas "Cosettes", assistidas pelo moleque "Gavroche", um minúsculo herói das barricadas - personagens da grande epopéia literária do proletariado francês -, haviam ocupado as ruas de Paris preparando-se para o embate final. O poeta, ainda na Bélgica, impotente, deprimiu-se. Logo ele que tanto apostara nos Estados Unidos da Europa. Não só alemães lutaram contra franceses, como esses, agora, brigavam entre si.

Acampados nos arredores da capital, estupefatos, os soldados prussianos viam o abrasar dos casarões e dos palácios ao som surdo das canhonadas e dos gritos de horror dos fuzilados. A repressão do exército francês foi brutal. Do dia 22 ao 28 de maio, a matança começada em Montmarte, tão acertadamente chamado de o Monte dos Mártires, e encerrando-se no muro dos federados do cemitério Père Lachaise, fizera com que 30 mil corpos de trabalhadores fossem trespassados pelas balas dos subordinados do general Mac-Mahon. Nesse holocausto feito em nome da ordem social, juntaram-se às tropas e aos burgueses, levas de tipos criminosos que saíram dos bueiros para virem apedrejar e mofar dos caídos. Em Bruxelas, Victor Hugo agiu para que acolhessem os desgraçados que sobreviveram aos massacres e aos desterros, do que ele chamou de L´année terrible. As autoridades locais, ignorando seus apelos por tolerância para com os communards, fizeram com que ele fugisse para o pequeno Luxemburgo. Clemência que ele continuou reclamando quando do seu retorno à França e indicado para a Câmara Alta, em 1873.

Por essas e outras é que 700 mil pessoas desfilaram em frente a sua residência na avenida Eylau (hoje Victor Hugo) quando ele completou 79 anos, em 26 de fevereiro de 1881. Nem Napoleão vira tanto povo assim do seu palanque. A sua casa tornou-se local de romaria de gente do mundo inteiro. Até um poema sobre o Brasil ele compôs para o imperador D. Pedro II. Nada em matéria de multidão equiparou-se ao seu enterro quando, no dia 31 de maio de 1885 (ele falecera no dia 22), partindo do Arco do Triunfo onde seu modesto ataúde estava exposto, cerca de um milhão de franceses se irmanaram pelos Campos Elísios para levar o féretro de Père Hugo até o Panteão. Nos seus 70 anos de atividade ele fizera de tudo: foi par da França, membro da Academia de Letras, deputado, exilado político, militante anti-bonapartista, integrante do senado e o escritor mais famoso e mais popular das letras francesas em todos os tempos. Além de célebre defensor da abolição da pena capital e emérito ativista das causas populares. Dizem que no delírio que antecedeu a morte, ele gritou "esta é a luta entre o dia e a noite".

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