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Waldomiro de Deus


Nascido em 1944 aos 12 anos, fugiu da pequena Itajibá, no sul da Bahia, e começou a percorrer o Brasil. Inicialmente, passou pelo interior de Minas, onde chegou a dormir em grandes pedras no meio de um rio. "Também carreguei malas na estação e dormi sobre fornos de uma padaria", lembra.

Foi como carona de um pau-de-arara que ele chegou a São Paulo. "Era 1958. Vivi como menino de rua, dormindo em bancos de praça até que um sargento da guarda civil me levou para a casa dele em Osasco", conta o pintor. O policial também lhe deu uma caixa de engraxate, com a qual começou a trabalhar. Waldomiro também lembra qual foi sua primeira obra de arte: uma escultura de barro em que mostrava uma santa em trajes modernos. "Quando a coloquei numa loja da cidade, o dono queria me bater. Achou uma falta de respeito com a Igreja e só se acalmou quando a tirei de lá."

Depois desse episódio, decidiu conhecer outras terras. Viajou por Catanduva e Presidente Vanceslau. Mas retornou a Osasco, já com 17 anos, onde conseguiu emprego como jardineiro. "No fundo da casa, encontrei tintas, pincéis e cartolina. Comecei a pintar de noite e a dormir durante o serviço", conta. Foi demitido, mas até hoje lembra da primeira imagem que criou: um enterro. "Pintei muito nessa fase. Lembrava do interior da Bahia e retratava festas populares, histórias sobre mula-sem-cabeça e lobisomens."

Desempregado, pegou umas 30 cartolinas que havia desenhado e foi para o Viaduto do Chá. Colocou tudo no chão e conseguiu vender duas delas para um americano, obtendo dinheiro suficiente para alugar um quarto para dormir. Começou assim uma carreira como pintor que decolou de fato quando encontrou o que ele chama de "primeiro anjo da minha vida": o Marquês Terry Della Stuffa. "Ele me deu roupas, espaço para pintar e tintas a óleo", diz.

Waldomiro de Deus passou então a conviver com coquetéis da alta sociedade paulista, conhecendo a família Matarazzo e o crítico Pietro Maria Bardi. "Encontrei assim o meu segundo anjo: o físico e crítico de arte Mário Schemberg. Ele lia minhas obras como se fossem um livro", agradece o pintor.

Nos anos 60, já vivendo de sua arte, Waldomiro de Deus morava na Rua Augusta. "Adorava aquelas lojas de roupas bonitas. Um dia, vi uma minissaia numa vitrine. Não sabia o que era. Experimentei e vi que era para mulher. A dona da loja me desafiou. Disse que me pagava se eu saísse com ela no meio da rua. Não pensei duas vezes. Me xingavam de tudo quanto era nome feio", relata. Esse tipo de atitude desafiadora lhe deu notoriedade. "Pintei Nossa Senhora de minissaia com cinta-liga e botas", lembra. Seu nome virou assim sinônimo de polêmica. Convidado para o programa de TV "Quem tem medo da verdade", por exemplo, e questionado sobre a sua masculinidade por vestir minissaia, não titubeou: "Levantei a saia para que vissem que eu era homem mesmo". É claro que começaram a surgir represálias pelas imagens eróticas ou consideradas desrespeitosas à religião que ele criava. Certa vez, foi raptado por um grupo de jovens armados. "Eram membros da seita Tradição Família e Propriedade. Consegui convencê-los que podia ser rebelde, mas nunca, como eles, assustaria alguém daquele jeito. Acho que por isso me soltaram sem um arranhão no meio de um matagal", relembra.

De volta ao Brasil, em 1975, o pintor mora hoje em Goiânia e tem atelier em Osasco. Casado, com seis filhos, já pintou mais de 2 mil obras sobre folclore, céu, inferno, planetas e situações do cotidiano. Avaliadas entre R$ 1,5 mil a R$ 30 mil, conforme o tamanho, elas estão espalhadas por colecionadores e museus de todo o mundo. "Posso viajar muito, mas sinto saudade das minhas origens", diz, lembrando que o começo de sua pintura está ligado às coisas simples do interior, um universo que a UNESP, pela distribuição de suas unidades pelo Estado de São Paulo, conhece muito bem. A partir de 1966, Waldomiro viveu na Europa, expondo na França, Itália, Bélgica e Holanda. Conheceu ainda celebridades, como Salvador Dali. "Ele me deu um beijo surrealista, com aqueles bigodes que pareciam duas antenonas". Morou ainda num convento, em Jerusalém, Israel, perto da Vila Dolorosa. "Lá, as freiras me olhavam com desconfiança devido a minha roupa à Jimmy Hendrix. Foi também lá que senti, num raio azul que veio do céu, a presença de Deus."

Conheça as obras do artista

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