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A crise no Quênia


A África Subsaariana corre o risco de viver mais uma vez o horror de uma limpeza étnica - dessa vez no Quênia, país que se destacava pela estabilidade econômica e política. O país está à beira da guerra civil num conflito que já matou pelo menos 340 pessoas. O estopim foi a reeleição do presidente Mwai Kibaki, em processo considerado fraudulento pela oposição. Representante da etnia kikuyu, que domina a política e a economia do Quênia desde sua independência, em 1963, Kibaki venceu por 231.728 votos. Tomou posse uma hora após o final da eleição. O candidato derrotado Raila Odinga, da etnia luo, o acusa de fraude - e o que era um protesto contra uma eleição tornou-se um extermínio étnico. A União Européia reconhece indícios de fraude e, em 03 de janeiro de 2008, a Procuradoria Geral do Quênia solicitou a imediata revisão na contagem dos votos.

Entenda a crise desencadeada pelas eleições

Qual a diferença desta eleição para as anteriores realizadas no Quênia?
O presidente Mwai Kibaki (foto ao lado) foi eleito em 2002 com a promessa de mudança, encerrando 40 anos de domínio de um único partido, o Kanu, no governo.

As eleições de 2002 foram amplamente elogiadas, depois de votações anteriores marcadas por alegações de irregularidades e violência étnica.

O presidente do Quênia na época, Daniel arap Moi, concordou em deixar o poder depois de 24 anos de governo. O candidato apoiado pelo presidente também aceitou a derrota. No entanto, nas eleições atuais a impressão é de que o Quênia retrocedeu.

Observadores da União Européia criticaram o pleito e disseram que alguns dos resultados divulgados na capital, Nairóbi, eram diferentes dos apurados nos distritos eleitorais. Em algumas regiões, o número de votos foi maior do que o número de eleitores registrados.

Que papel a questão étnica teve no processo eleitoral?
A política queniana sempre foi muito influenciada pela questão étnica. Os membros do grupo étnico de Odinga, o Luo, concentrados principalmente no oeste do país e nas favelas de Nairóbi, votaram em sua maioria no "seu" candidato. Da mesma maneira, a maioria dos Kikuyus, que vivem principalmente na região central do Quênia, votou em Kibaki.

A corrupção ainda é comum no Quênia, o que leva muitas pessoas a acreditar que ter um parente no gogoverno pode trazer benefícios diretos, como um emprego no serviço público.

Em algumas regiões do país, há confrontos entre Luos e Kikuyus. Na década de 90, o partido Kanu foi acusado de incitar tensões étnicas e colocar seus grupos rivais uns contra os outros, mantendo-se desta maneira no poder.

Como é a vida no Quênia?
O Quênia é a economia mais desenvolvida do Leste da África e é famoso entre os turistas por suas reservas e praias no Oceano Índico. O país faz fronteira com vizinhos mergulhados em conflitos, como a Somália, a Etiópia e o Sudão.

Durante o primeiro mandato de Kibaki, a economia do país cresceu de maneira estável, mas muitos quenianos ainda não foram beneficiados por esse crescimento.

Nas favelas superlotadas de Nairóbi, os moradores são obrigados a conviver com gangues violentas. As condições sanitárias são precárias. Não há esgotos, e os banheiros são substituídos por sacos plásticos, depois jogados pela janela.

Essas são algumas das pessoas que esperavam que Odinga trouxesse mudanças para o país. Essas pessoas afirmam que Kibaki não manteve sua promessa de acabar com a corrupção, um problema que há anos atrasa o desenvolvimento do Quênia.

O que deve acontecer a partir de agora?
Odinga convocou uma grande manifestação em Nairóbi para esta quinta-feira. O candidato e seus apoiadores esperam ser conduzidos ao poder pela força do povo nas ruas. No entanto, as autoridades já estão em alerta na capital e deverão reforçar a segurança.

Odinga tem também a opção de entrar com um recurso legal contra o resultado das eleições. Mas como Kibaki foi empossado imediatamente após a divulgação do resultado oficial, são poucas as chances de que essa alternativa trouxesse resultados para o candidato derrotado.

Qual a posição da comunidade internacional?
A pressão internacional foi crucial para que o ex-presidente Daniel arap Moi deixasse o poder após as eleições de 2002. O Fundo Monetário Internacional suspendeu a ajuda financeira ao país devido à preocupação com a corrupção.

A União Européia e a Grã-Bretanha criticaram o processo eleitoral. Os Estados Unidos, que já receberam algumas vezes ajuda do governo queniano em sua luta contra extremistas islâmicos na vizinha Somália, fizeram críticas menos veementes.

A pressão internacional sobre o Quênia só vai ter resultado se as principais potências mundiais se unirem e estiverem realmente determinadas a agir.

Fonte: BBC Brasil | Revista Isto É

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