História da Mecânica: 4. O renascimento - Precursor do Nascimento da Ciência Moderna

  • Data de publicação
Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo)

Na transio entre a mentalidade medieval europia, marcadamente contemplativa e submissa s inquestionveis verdades da f, e a mentalidade moderna, com a volta da racionalidade para o entendimento do mundo, surge um movimento artstico e cientfico denominado Renascimento (sculos XV e XVI). Esse movimento criou a base conceitual e introduziu valores que permitiram a revalorizao da razo e o advento da cincia moderna no sculo XVII.

Como forma de se opor viso de mundo dominante no perodo medieval, isto , o teocentrismo (Deus como centro), os renascentistas revitalizam o pensamento greco-romano (da o nome de Renascimento), inicialmente fazendo do homem o centro do conhecimento, ou seja, trazendo tona o antropocentrismo. O Renascimento proporciona o desenvolvimento do racionalismo, isto , a explicao do mundo por verdades estabelecidas pela razo, e no pela f, e permite que seja desenvolvido o esprito de observao experimental com a mente mais aberta ao livre exame do universo para descobrir as leis que regem os fenmenos naturais.

Para conhecer a realidade, surge, durante o Renascimento, um novo mtodo de investigao, o empirismo, baseado na observao e experimentao sistemtica, que uma das bases das cincias naturais modernas. Conhecer algo a respeito da natureza no se limita ao exerccio da reflexo; ela se faz a partir da realidade observada. Este conjunto de atitudes contrapunha-se mentalidade contemplativa e submissa s verdades da f dominante na Idade Mdia, abrindo caminho para o surgimento da cincia moderna no sculo XVII.

Coprnico e Kepler


Nicolau Coprnico
A primeira grande revoluo do pensamento, no que tange ao Universo, veio com a contribuio do astrnomo polons Nicolau Copérnico (1473 - 1543) ao estudo do movimento dos planetas. Em seu livro De Revolutionibus Orbitum Celestium ("Sobre as Revolues das Esferas Celestes"), Coprnico contesta o modelo geocntrico hegemnico no pensamento desde Aristteles e prope um novo modelo, no qual a Terra estaria em movimento e o Sol ocuparia o centro da esfera celeste.

O modelo heliocntrico de Coprnico proporcionava uma explicao mais simples para o movimento dos planetas do que o proposto por Ptolomeu no modelo geocntrico. Havia uma economia de crculos necessrios para descrever os movimentos astronmicos conhecidos, e a simplificao decorrente no tratamento matemtico do movimento dos planetas facilitava a anlise das posies relativas dos planetas, permitindo que alguns fenmenos conhecidos da observao astronmica, como por exemplo os movimentos retrgrados dos planetas, pudessem ser facilmente descritos.

A despeito dessas vantagens, o modelo heliocntrico teve de esperar ainda quase um sculo antes de ser aceito como o melhor modelo para descrever o movimento dos planetas. A resistncia vinha do fato de que esse modelo de universo estava intimamente ligado viso de mundo da poca.

Retirar a Terra e o homem do centro do Universo no foi fcil nem mesmo para Coprnico. Desde o incio da filosofia natural grega acreditava-se que o homem ocupa um lugar todo especial no Universo e, alm disso, estar em movimento seria sinnimo de inconstncia, de vagar. Por isso, o prprio Coprnico acreditava que as estrelas deveriam estar fixas. O Universo como um todo deveria ser esttico, por razes que ele explica em seu De Revolutionibus:

"A condio de estar em repouso mais nobre e mais divina do que aquela de mudana e inconstncia; assim, essa ltima mais adequada para a Terra do que para o Universo."


Johannes Kepler
Os trabalhos de Coprnico despertaram grande interesse na astronomia experimental pelo fato de dar explicaes simples aos movimentos planetrios, como antes mencionado. nesse contexto que se coloca a relevncia do trabalho de Tycho Brahe (1546 - 1601), astrnomo dinamarqus que fez inmeras observaes sobre o movimento dos planetas. As observaes de Tycho Brahe serviram de base para Johannes Kepler (1571 - 1631), seu assistente e sucessor, formular as famosas leis de Kepler, que sintetizam as principais caractersticas do movimento planetrio. Kepler estabeleceu que o movimento dos planetas tem as seguintes caractersticas:

Os planetas executam rbitas elpticas. O Sol ocupa o lugar de um dos dois pontos no interior da elipse, conhecidos como focos. A primeira lei concorda, portanto, com a tese defendida por Coprnico de que o Sol ocupa o centro do Sistema Solar, mas as rbitas no so esfricas como Coprnico propunha.

Os planetas tm velocidade maior perto do Sol e velocidade menor quando se afastam dele. Kepler conseguiu demonstrar que essa mudana de velocidade corresponde a uma linha imaginria que une o planeta ao Sol, e que cobre reas iguais dentro da elipse em tempos iguais.

O perodo do movimento dos planetas tal que o quadrado do perodo proporcional ao cubo do semi-eixo maior da elipse.

Observe-se que as leis de Kepler fazem desmoronar a idia de rbitas circulares. As trajetrias dos planetas em torno do Sol so elipses. O Sol mantido, como preconizou Coprnico, no centro. O movimento mais complexo do que se imaginara at ento. Como explicar as leis de Kepler? A resposta a essa questo foi dada por Newton ao formular suas leis do movimento e a lei da gravitao universal.


Giordano Bruno
O modelo de Coprnico foi oficialmente rejeitado pela Igreja Catlica, em 1616, atravs de um dito, embora o filsofo italiano Giordano Bruno (1548 - 1600) tenha sido excomungado e queimado vivo pela Santa Inquisio, segundo alguns, em virtude de sua defesa ao heliocentrismo e ao que chamava de "pluralidade dos mundos habitados", apresentada em seu livro "Acerca do Universo Infinito e dos Mundos". No se pode ter absoluta certeza das razes pelas quais Giordano Bruno foi processado e morto pela Inquisio porque o texto completo do processo inquisitrio foi perdido. No julgamento final, Giordano Bruno fez o seguinte comentrio: Espero vossa sentena com menos medo do que a promulgais. Chegar o tempo em que todos vero como eu vejo.

Estes fatos esto aqui citados para chamar a ateno sobre a dificuldade de mudanas em idias defendidas por algum tipo de poder, neste caso por parte do poder religioso.

A idia do modelo heliocntrico pode ser creditada a um outro sbio grego da Antigidade. Trata-se de Aristarco de Samos (320 a.C. - 250 a.C.). Aristarco props, cerca de trs sculos antes de Cristo, um modelo heliocntrico.

A aceitao das teses de Coprnico ocorreu numa fase de grandes mudanas sócio-culturais no mundo ocidental. A autoridade quase que absoluta da Igreja estava sendo contestada por Martinho Lutero e outros religiosos chamados de reformadores.

Tambm o surgimento da burguesia, cuja influncia acaba se formando principalmente no final do sculo XVI na Inglaterra, foi um fator determinante no desenvolvimento das cincias. Essa nova classe constituda de comerciantes hbeis tornou-se mais independente dos senhores feudais e da Igreja medida que se aprofundava a transio de uma economia baseada no escambo (base de troca) para uma economia monetria (baseada na moeda). Essa evoluo econmica permitiu o surgimento de uma classe social mais empreendedora, diligente e, do ponto de vista da cincia, mais criativa.

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