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Região Centro-Oeste: 2. Pantanal: terra das águas

Martha San Juan França - Revista Superinteressante

Uma das maiores planícies do mundo não é um pântano, mas um ecossistema único: pelo tamanho, pela diversidade de suas formas de vida e pelo lugar onde fica. Sua beleza é fruto disso tudo.

Há pelo menos 30 milênios, um mar de água se eleva lentamente, invadindo toda a planície do centro da América do Sul. As dimensões dessa inundação são colossais. Aos poucos, 2/3 dos 150.000 quilômetros quadrados do território ficam encharcados - uma área igual à do Estado de Santa Catarina fica embaixo da água. Caso isso acontecesse no sul do país, seria uma tragédia de proporções inimagináveis. Mas, no Pantanal, encravado entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, a chegada das águas significa renovação. Sem as enchentes, a região seria um deserto. Por causa delas, ali se encontra uma das mais deslumbrantes paisagens das Américas.

Até os anos 50, aproximadamente, os cientistas chegaram a desconfiar que, no passado remoto, um mar interior cobria a região, como um enorme lago de água salgada. Quando foi avistado pela primeira vez por uma expedição branca, no século XVI, a área estava inundada e recebeu o nome de Lago dos Xaraiés. Foi uma homenagem à tribo desse nome, da família dos guaranis, com quem os exploradores fizeram contato. O lago, depois se descobriu, não existia realmente. Mesmo durante a época das cheias, muitos terrenos, que os moradores do Pantanal chamam cordilheiras, escapam de ficar embaixo da água e, por isso mesmo, ali se refugiam bois e animais selvagens. Ademais, todo ano, durante os seis meses que dura a estiagem, quase toda a planície fica descoberta. E, com a falta de chuvas, o gado chega a passar sede.

Se não foi um mar nem um lago, o Pantanal tampouco é um pântano. Pelo menos, é o que dizem os pesquisadores, que implicam com o nome com que a região foi batizada, em época incerta, pelos habitantes do lugar. Aparentemente, eles se referiam às primeiras áreas inundadas pelos rios como pantanais - e o termo pegou. "Jamais se descobriram ali os charcos estagnados ou os lodaçais traiçoeiros típicos dos pântanos", objeta o geógrafo Aziz Ab’Saber, da Universidade de São Paulo, um dos maiores especialistas em Geomorfologia brasileira, o estudo do relevo terrestre. Ab’Saber prefere chamar o Pantanal de planície inundável - "única pelo seu tamanho porque está no interior do continente e pela diversidade de domínios da natureza", enumera.

A imagem de pântanos movediços não se aplica a nenhum pedaço do Pantanal Matogrossense. Trata-se, na verdade, de pequenos afloramentos de água estagnada, resultantes do movimento do subsolo, e de difícil escoamento. Em alguns lugares, as plantas ali acumuladas transformam-se em turfeiras, depósitos de carvão vegetal que deixam o solo mole e pegajoso, como em certas regiões da Inglaterra e também no Brasil, mais precisamente no Vale do Paraíba e em Ribeira de Iguape, São Paulo. As planícies inundáveis são muito mais comuns. Estão presentes do Amazonas ao Rio Grande do Sul e suas áreas mais facilmente alagadas são chamadas brejos, várzeas, banhados ou vargens, conforme a região. Também são comuns pelo mundo afora.

O magnífico cenário do Pantanal, hoje se sabe, enfeita um fundo de concha situado entre as terras altas bolivianas a oeste e as serras brasileiras a leste. Há cerca de 60 milhões de anos, quando se elevaram tanto a Cordilheira dos Andes como o Planalto Brasileiro, a região do Pantanal, ao contrário, esvaziou- se. Uma malha impressionante de rios, formada pelo Paraguai e seus afluentes, despencou nesse imenso anfiteatro, vinda do norte e do leste, escavando os planaltos vizinhos e acumulando os sedimentos na planície. A região foi sendo lentamente aterrada. O Rio Paraguai, muito raso para suportar a imensa descarga que recebe de seus afluentes, ainda encontrou obstáculos ao sul, ao atravessar a Serra do Bodoquena. Ao percorrer esse assoalho liso, cuja declividade não passa de 33 milímetros por quilômetro, não tem alternativa senão transbordar.

Assim, é fácil entender por que a enchente demora para baixar - avançando cerca de 10 quilômetros por dia, leva seis meses para atravessar o Pantanal. Enquanto ainda está ganhando terreno no sul, já começa a diminuir de volume no norte. Areia, vegetação decomposta, aguapés, tudo se movimenta com a cheia. Quando ocorre a vazante e a água escorre para outras paragens, fica no lugar uma sopa de detritos na qual nascem capim, ervas, arbustos e uma infinidade de flores - um conjunto exuberante de vegetação que jamais brotaria naquele solo pobre sem a contribuição das águas. Até porque no Pantanal não chove muito. Na tórrida cidade de Corumbá, no sul da planície, por exemplo, chove menos do que em São Paulo. Esse fenômeno lembra o que ocorre no Rio Nilo, na África, cujas enchentes fertilizaram o deserto e fizeram a grandeza do Egito há 5.000 anos.

Não é preciso ir muito longe para imaginar o que seria do Pantanal sem o constante vaivém das águas. Do outro lado da fronteira, no território da Bolívia, fica uma das áreas da planície do Chaco, formada na mesma época e da mesma maneira que a planície mato-grossense. Apesar do nome, que lembra charco e por isso pode dar margem a confusão, a terra ali não é úmida, mas árida. A palavra chaco vem do idioma quíchua, ainda hoje falado pelos indígenas da região, e significa terra de caça. Na sua parte central, o Chaco é um imenso descampado, dominado por bosques baixos e vegetação de savanas. Ali não ocorrem inundações. Os poucos córregos que percorrem a planície são parcamente alimentados nas cabeceiras, localizadas nos altiplanos andinos, onde raramente chove—ao contrário do que acontece nas úmidas serras nas bordas do Pantanal, onde estão as nascentes do Paraguai e seus afluentes.

Do lado de cá da fronteira, o verde se transforma à medida que o Paraguai atravessa os 700 quilômetros de seu percurso pantaneiro. De leste para oeste da planície, o grande rio e seus afluentes passam por matas, cerrados e campos que, em alguns trechos, lembram a caatinga nordestina. Na parte sul e na borda ocidental, a vegetação se parece com a dos bosques chaquenhos. Calcula-se que durante o Período Quaternário, há 20 ou 30.000 anos, espécies de vegetação tropical e subtropical dos cerrados, do Chaco e da periferia da Amazônia disputavam o espaço enquanto os rios abriam caminho na planície. É por isso que um cientista como Fernando Flávio Marques de Almeida, da Universidade Estadual de Campinas, que trocou a Engenharia pela Geologia e estuda a região há quarenta anos, desde que se apaixonou por ela, afirma que não existe um único Pantanal na região. "São quase uma dezena, cada um com características diferentes", esclarece. A gente do lugar reconhece esses pantanais por nomes diferentes: pantanal de Cáceres, ou de Poconé, ou de Nhecolândia etc.

"Trata-se de uma espécie de mosaico, onde se interpenetram diversos ecossistemas e suas respectivas faunas", concorda outro pantanólogo, Francisco de Arruda Machado, o Chico, biólogo da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Filho de pescadores, nascido numa vila perto de Cuiabá, Chico só podia mesmo se especializar no estudo da multidão de peixes da bacia do Paraguai. Segundo ensina, eles representam um dos elos mais importantes da riquíssima cadeia alimentar do Pantanal, capaz de sustentar animais de grande porte, em vias de extinção em outros pontos do território brasileiro, como a onça-pintada, o lobo-guará, o tamanduá, a capivara e o cervo.

Durante a época das cheias, cardumes e mais cardumes sobem os rios para a desova, no conhecido fenômeno da piracema. Os filhotes se alimentam de microorganismos e da vegetação aquática, como os aguapés, que cobrem as áreas inundadas, ou baías, conforme se diz na região. Quando vem a vazante, muitos rios interrompem seu curso, formando uma seqüência de pequenos lagos, onde jacarés, cobras, pequenos roedores e pássaros fazem a festa. "Numa lagoa de 2 metros quadrados se encontram sessenta espécies de peixes convivendo lado a lado", contabiliza Chico, orgulhoso.

Alterar esse sistema, a conseqüência inevitável da interferência humana em larga escala na região, significa desequilibrar o ciclo de vida no Pantanal. Sabe-se, por exemplo, que o acréscimo de aguapés, provocado pelo assoreamento dos rios, e a matança indiscriminada dos jacarés, estão aumentando os cardumes de piranhas nos rios. Não existem números comparativos a respeito, mas o fato é certo. As aves —a forma de vida que mais chama a atenção no Pantanal— também estão ameaçadas. No caso, o vilão é o uso de agrotóxicos nas plantações de soja a em volta da planície. Mas a fartura de asas e plumas é tamanha que, ao menos por enquanto, ainda não há por que se preocupar.

Infinidades de aves coloridas, entre os quais espécies migradoras, habitam os viveiros pantaneiros, que às vezes cobrem mais de 1 quilômetro de bosques. Ali voam garças, araras, papagaios, biguás, maçaricos, batuíras, colhereiros —e os tuiuiús, de corpo branco e pescoço vermelho, escolhidos por sua beleza como o símbolo oficial da região. Deslumbrados com toda essa abundância, os mais entusiasmados fãs leigos do Pantanal asseguram que a região, como manancial de espécies, é ainda mais rica que a Amazônia. É e não é. Na verdade, explica o ecólogo Wellington Braz Carvalho Delitti, da USP, "as espécies da floresta são mais variadas, mas no Pantanal a quantidade é mais perceptível".


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