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Europa - I Guerra Mundial


O primeiro conflito mundial tem uma importância tão grande quanto o segundo, embora, muitas vezes não tenha sido objeto de tantos estudos. No entanto, a despeito de ter terminado há mais de oitenta anos, aquele foi um conflito que contribuiu decisivamente para destruir uma ordem mundial política, econômica e cultural que prevalecia desde 1789. Inovações tecnológicas - o tanque de guerra, o avião, as armas químicas, a metralhadora e o submarino - fizeram com que a visão romântica e heróica da guerra acabasse de modo brutal.

Também destruiu impérios seculares e gerou na Europa uma instabilidade política que permitira o surgimento de doutrinas radicais de esquerda e de direita, que seriam as principais forças vertentes do conflito seguinte. Mas, ao contrário da II Guerra Mundial, o conflito de 1914-1918 não possuí um "vilão" determinado e claro como foi o III Reich. Todas as nações estavam empenhadas em uma corrida armamentista e em uma disputa por colônias - alimentadas por um nacionalismo exacerbado - que, com certeza, levaria à guerra. Sem ter medo soar fatalista, o fato é que a guerra era inevitável. Mas ninguém tinha sequer uma vaga idéia de suas dimensões e de suas conseqüências.

A Primeira Guerra Mundial foi um conflito militar, iniciado por um confronto regional entre o Império Austro-Húngaro e a Sérvia, em 28 de julho de 1914. Confronto que se transformaria em luta armada, em escala européia, quando a declaração de guerra austro-húngara foi estendida à Rússia em 1º de agosto de 1914. E que finalmente passaria a ser uma guerra mundial da qual participaram 32 nações: 28 delas, denominadas ‘aliadas’ ou ‘potências coligadas’, entre as quais se encontravam a Grã-Bretanha, a França, a Rússia, a Itália, e os Estados Unidos, lutaram contra a coligação dos chamados impérios centrais, integrada pela Alemanha, pela Áustria-Hungria, pelo império otomano e pela Bulgária.

A Primeira Guerra Mundial decorreu, antes de tudo, das tensões advindas das disputas por áreas coloniais. Além disso, dos vários fatores que desencadearam o conflito destacaram-se o revanchismo francês, a questão da Alsácia-Lorena, a "Questão Balcânica" e a corrida armamentista anglo-germânica.

A Alemanha, após sua tardia unificação política (ocorrida somente em 1871), liderada pelo Chanceler Otto von Bismarck (1815-1898), passou a reivindicar áreas coloniais e a contestar a hegemonia internacional inglesa, favorecendo a formação de blocos antagônicos. Sua sede por novas colônias, garantiu-lhe algumas possessões na África, Extremo Oriente e Oceano Pacífico. O mesmo vale para a Itália (unificada entre 1860 e 1870), que avançou sobre a Líbia e a Eritréia.

Deste modo, as ambições imperialistas das grandes potências européias podem ser mencionadas entre os principais fatores responsáveis pelo clima internacional de tensão e de rivalidade que marcou o início do século XX. Essas ambições imperialistas manifestaram-se através dos seguintes fatores:

a) Concorrência econômica: as grandes potências industrializadas buscavam por todos os meios dificultar a expansão econômica do país concorrente. Essa concorrência econômica tornou-se particular mente intensa entre Inglaterra e Alemanha, que depois da unificação política entrou num período de rápido desenvolvimento industrial.

b) Disputa colonial: a concorrência econômica entre as nações industrializadas teve como importante conseqüência a disputa por colônias na África e na Ásia. O domínio de colônias era a solução do capitalismo monopolista para os problemas de excedentes de produção e de controle das fontes fornecedoras de matérias-primas.

Além desses problemas meramente econômicos, a Europa possuía focos de conflito que transpareciam no plano político. Em diversas regiões, surgiam movimentos nacionalistas que apresentavam o objetivo de agrupar sob um mesmo Estado povos considerados de mesmas raízes culturais. Entre os principais movimentos nacionalistas que se desenvolveram na Europa, podemos destacar:

a) O Pan-eslavismo: Liderado pelo Império Russo, pregava a união de todos os povos eslavos da Europa Oriental, principalmente aqueles que se encontravam dentro do Império Austro-Húngaro, notadamente na região dos Bálcãs.

b) O Pan-germanismo: Liderado pela Alemanha, pregava a união de todos os povos de cultura germânica da Europa Central, sob sua liderança.

c) Revanchismo francês: com a derrota da França na guerra contra a Alemanha, em 1870, os franceses foram obrigados a ceder aos alemães os territórios da Alsácia e da Lorena, regiões ricas em minérios de ferro e em carvão. A partir dessa guerra, desenvolveu-se na França um movimento de cunho nacionalista-revanchista, que visava desforrar a derrota sofrida contra a Alemanha e recuperar os territórios perdidos. Um de seus maiores instigadores foi o jornalista - e depois Primeiro-Ministro - Georges Clemenceau (1841-1929).

d) Corrida Armamentista: entre 1898 e 1914, a Alemanha, agora governada pelo Kaiser (Imperador) Wilhelm II (1859-1941), decidiu implementar uma política de agressivo rearmamento, principalmente de sua Marinha de Guerra. Esse conceito de uma força naval potente a fim de guarnecer os protetorados alemães de além-mar, teve como seu principal mentor, o Almirante Alfred Tirpitz (1849-1930) e se concentrou principalmente na construção de encouraçados (então chamados Dreadnoughts). A reação inglesa foi rápida mas, a despeito da Marinha alemã nunca ter se equiparado à Marinha Real em quantidade, sua tentativa desencadeou um frenesi que somente seria visto novamente na Guerra Fria: a força dos países era medida pelo número de seus encouraçados.

Nesse contexto de disputas entre as potências européias, podemos destacar duas grandes crises, que provocariam a guerra mundial:

A crise do Marrocos: Entre 1905 e 1911, França e Alemanha quase chegaram à guerra, por causa da disputa da região do Marrocos, no norte da África. Em 1906, foi convocada uma conferência internacional, na cidade espanhola de Algeciras, com o objetivo resolver as disputas entre franceses e alemães. Essa conferência deliberou que a França teria supremacia sobre o Marrocos, enquanto à Alemanha caberia uma pequena faixa de terras no sudoeste africano. A Alemanha não se conformou com a decisão desfavorável, e em 1911 surgira novos conflitos com a França pela disputa da África. Para evitar a guerra, a França concedeu à Alemanha uma considerável parte do Congo francês.

A crise balcânica: No continente europeu, um dos principais focos de atrito entre as potências era a Península Balcânica , onde o enfraquecimento do Império Otomano cedeu lugar ao nacionalismo da Sérvia e ao expansionismo da Áustria-Hungria. Em 1908, a Áustria anexou a região da Bósnia-Herzegovina, ferindo os interesses da Sérvia, que pretendia incorporar aquelas regiões habitadas por eslavos e criar a Grande Sérvia. Por último, duas guerras na região em 1912 e 1913 acirraram mais ainda os ânimos naquela área. Os movimentos nacionalistas da Sérvia passaram a reagir violentamente contra a anexação austríaca da Bósnia-Herzegovina. Foi um incidente ligado ao movimento nacionalista sérvio que serviu de estopim para o inicio da guerra.

Política de Alianças e o estopim da Guerra

As ambições imperialistas associadas ao nacionalismo exaltado fomentavam todo um clima internacional de tensões e agressividade. Sabia-se que a guerra entre as grandes potências poderia explodir a qualquer momento. Diante desse risco quase certo, as principais potências trataram de estimular a produção de armas e de fortalecer seus exércitos. Foi o período da Paz Armada. Característica desse período foi a elaboração de diversos tratados de aliança entre países, cada qual procurava adquirir mais força para enfrentar o país rival. Ao final de muitas e complexas negociações bilaterais entre governos, podemos distinguir na Europa, por volta de 1907, dois grandes blocos distintos:

A Tríplice Aliança: criada em 1882, era formada por Alemanha, Império Austro-Húngaro e Itália. Mais tarde entraram: Império Turco-Otomano (1914) e Bulgária (1915). Em maio de 1915 a Itália passou para o lado dos aliados, em razão de antigas pendências territoriais com a Áustria

A Tríplice Entente: formada por Inglaterra, França e Rússia em 1906. Durante a guerra outros países aderiam: Bélgica (1914), Sérvia (1914), Japão (1914), Itália (1915), Portugal (1915), Romênia (1916), Estados Unidos (1917), Brasil (1917) e Grécia (1917).

O palco estava pronto e todos os países esperavam pelo motivo, mesmo incidental, para incendiar o estopim da guerra. De fato, esse atrito surgiu em função do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco.

O crime foi praticado em 28 de junho de 1914, pelo estudante Gavrilo Princip, ligado ao grupo nacionalista sérvio "Unidade ou Morte", que era apoiado pelo governo da Sérvia, quando o Arquiduque e sua esposa Sofia, visitavam a cidade de Sarajevo, na Bósnia. Instigados pelos alemães, o governo austríaco deu um ultimato de quatro semanas à Sérvia para que renunciasse às suas pretensões nos Bálcãs.

Os sérvios simplesmente ignoraram a intimação austríaca, amparados pela proteção do Império Russo. Final-mente, em 28 de julho de 1914, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia e, e a partir daí, diversos outros países envolveram-se no conflito, em uma verdadeira reação em cadeia resultante da política de alianças:

28/07/1914: O Império Austro-Húngaro declara guerra à Sérvia;
29/07/1914: Em apoio à Sérvia, a Rússia declara guerra ao Império Austro-Húngaro
01/08/1914: A Alemanha declara guerra à Rússia;
03/08/1914: A Alemanha declara guerra à França.
04/08/1914: A Inglaterra declara guerra à Alemanha, em resposta à invasão da Bélgica.

A guerra do movimento

Essa fase foi marcada pela imensa movimentação dos exércitos beligerantes. Na madrugada do dia 4 de agosto de 1914, cinco poderosos e bem equipados exércitos alemães, totalizando um milhão e meio de soldados, penetraram através do território belga, considerado até então neutro. A poderosa ala direita do exército alemão tinha a função de realizar uma ampla manobra de envolvimento, levando de roldão os exércitos franceses estacionados na fronteira franco-belga. Sua distribuição era a seguinte:

Ala Alemães Região Franceses
Direita 750.000 Bélgica 200.000
Centro 400.000 Ardenas 360.000
Esquerda 350.000 Lorena 450.000
Mesmo sendo obrigado a alterar o plano original, o General Helmut Johann von Moltke (1848-1916), então chefe do Estado-Maior alemão, via que suas tropas estavam obtendo os resultados esperados. Sua superioridade inicial, porém, começou a ser ameaçada pelo engajamento do exército belga e pela chegada do corpo expedicionário britânico, rapidamente desembarcado na região. Os alemães, que contavam com 80 divisões, teriam que enfrentar 104 das do inimigo. Depois de frustarem as tentativas ofensivas francesas em Mulhouse e na Lorena, ocuparam toda a região que vai das proximidades de Paris a Verdun. Caíram sob seu controle 80% das minas de carvão, quase todos os recursos siderúrgicos e as grandes fábricas do Noroeste francês.

Um grande erro de comunicações entre as tropas do I Exército, sob comando de Alexander von Kluck (1846-1934) e do II Exército, liderado por Dietrich von Bülow, permitiu que os franceses detivessem o ataque sobre sua capital. O General Joseph Galliéni (1849-1916), percebeu a falha dos alemães e solicitou reforços de emergência para o General Joseph Joffre (1852-1931). Deslocados rapidamente pelas vias férreas, as tropas francesas contra-atacaram na região do Rio Marne, entre os dia 6 e 9 de setembro. A chamada "Batalha do Marne" teve duplo significado: não só salvou a França de uma derrota, como alterou as regras da guerra. Todos os Altos Comandos deram-se conta da impossibilidade de se manter a guerra de movimento devido às extraordinárias baixas. Com o fracasso da ofensiva alemã, Moltke cedeu seu lugar ao General Erich von Falkenhayn (1861-1922).

Da guerra movimento à guerra de trincheiras

Bem poucos generais e políticos haviam se dado conta do mortífero desenvolvimento das armas modernas. Em 1898, um banqueiro de Varsóvia, Ivan Bloch - já havia alertado para os terríveis efeitos que as armas de fogo cada vez mais poderosas fariam sobre a infantaria, obrigando esta a refugiar-se em trincheiras ou então estaria sujeita a terríveis massacres. Seu livro "The Future Of War In Its Technical Economic And Political Reation" contemplava a guerra do futuro como enormes sítios em que a fome atuaria como juiz decisivo.

O alerta pouco efeito teve sobre os militares e estadistas no período que antecedeu 1914. Pelo contrário, a imensa maioria dos especialistas calculava que o conflito duraria entre 4 a 6 meses no máximo, sendo ridicularizado aquele que predizia durar um ano ou mais. Quando a guerra teve seu início, quase todos os generais estavam apegados as doutrinas novecentistas não computando em seus cálculos os terríveis efeitos da metralhadora e da artilharia pesada. Esses dois instrumentos tornaram inviáveis os deslocamentos desprotegidos dos bombardeios de gás de mostarda, empregados pela primeira vez pelos alemães em 22 de abril de 1915, assim como do lança-chamas, da aviação e do tanque de guerra (utilizado pelos ingleses como arma tática de apoio a infantaria). Como salientou o pensador John Kenneth Galbraith, o desenvolvimento das técnicas militares de matar não foi acompanhado pelo desenvolvimento da "capacidade de pensar" dos generais tradicionais. "a adaptação de táticas estava muito além da capacidade da mentalidade militar contemporânea."

Após a batalha do Marne, o recuo alemão para regiões mais afastadas de Paris combinou com o surgimento das trincheiras - "os soldados se enterraram para poder sobreviver". No inverno de 1914-1915, 760 quilômetros delas haviam sido escavadas, partindo do Canal da Mancha até a fronteira suíça. Em alguns pontos, distanciavam-se apenas de 200 a 300 metros uma da outra, e em outros chegavam a quatorze quilômetros. Durante os quatro anos seguintes, milhões de homens iriam viver como feras atormentadas pela fome, frio e pelo terror dos bombardeios. Em todas as batalhas que se sucederam, as linhas não se alteraram mais do que 18 quilômetros. Nunca, em toda a história militar da humanidade tantos pereceram por tão pouco.

Os generais hereditários e seus quadros de oficiais não pensavam em outra coisa senão em enviar contingentes cada vez maiores de homens, eretos, sob pesada carga, avançado a passo lento, em plena luz do dia, contra o fogo de metralhadora inimigo, após pesado bombardeio de artilharia. A esse bombardeio, as metralhadoras, ou pelo menos um número suficiente delas, invariavelmente sobreviviam.

Por isso, os homens que eram mandados avançar eram sistematicamente dizimados, e essa aniquilação, é pre-ciso que se frise, não é figura de retórica, ou força de ex-pressão. Quem fosse lutar na Primeira Guerra Mundial não tinha esperança de retornar.

As condições nas trincheiras eram igualmente imprestáveis:

"Os efeitos produzidos (do bombardeio) são bastante lamentáveis. O recruta recém-chegado recomeça a inquietar-se, sucedendo o mesmo com os outros dois. Um deles escapa, desaparecendo a correr. Os dois outros nos dão trabalho. Precipito-me atrás do fugitivo sem sabem se lhe devo dar um tiro nas pernas. Ouço neste momento um assobio; deito-me no chão e quando me levanto vejo a parede da trincheira coberta de estilhaços de obus, ensangüentada por pedaços de carne e de restos de uniforme. Volto para o nosso abrigo." - Erich Maria Remarque (1898-1970), escritor alemão veterano do conflito em sua obra-prima "Sem Novidades no Front".

"O odor fétido nos penetra garganta adentro ao chegarmos na nossa nova trincheira, a direita dos Éparges. Chove torrencialmente e nos protegemos com o que tem de lonas e tendas de campanha afiançadas nos muros da trincheira. Ao amanhecer do dia seguinte constatamos estarrecidos que nossas trincheiras estavam feitas sobre um montão de cadáveres e que as lonas que nossos predecessores haviam colocado estavam para ocultar da vista os corpos e restos humanos que ali haviam." - memórias do veterano Raymond Naegelen, que lutou na região de Champagne.

No ano de 1915, os franceses (na Champanha) e os ingleses (em Ypres) tentam inutilmente romper as linhas alemãs. A guerra havia chegado a um impasse, pois ambos os lados eram suficientemente fortes para não serem derrotados. Devido as características da guerra de trincheiras, o elemento tático que um ataque de surpresa proporciona, tornou-se inoperante. A necessidade de concentrar fogo de artilharia durante dias inteiros para poder abalar as primeiras linhas do inimigo, alertava este da iminência do ataque. Deslocava então suas forças para a região ameaçada e terminava por deter a ofensiva.

No primeiro semestre de 1916 (21/02 - 21/07) foi a vez dos alemães tentarem romper com as fortificações francesas em torno de Verdun. Comandados por Falkenhayn, lançaram-se com uma cobertura menor de artilharia que a usualmente utilizada. Os franceses conseguiram deter o poderoso ataque. Em pouco mais de cinco meses, os alemães tiveram baixas de 336 mil soldados enquanto seus inimigos, 362 mil. Foi a mais sangrenta batalha da Primeira Guerra Mundial, tornando célebre a determinação da infantaria gaulesa - "NE PASSERON PAS"; eles não passarão!

Os aliados, depois do fracasso alemão em Verdun, tentam por sua vez afastá-los de suas posições na região do Somme. De 24 de junho a 26 de novembro de 1916, os anglo-franceses tentam romper as linhas alemãs e um novo fracasso se repete, com perdas assombrosas. Foi a maior batalha da História em número de perdas (mesmo quando comparada aos combates da II Guerra).

Batalha de Verdun (Fevereiro a Agosto de 1916)
Perdas francesas Mês Perdas alemãs
24.000 Fev 25.363
65.000 Mar 56.244
42.000 Abr 38.299
59.000 Mai 54.309
67.000 Jun 51.567
31.000 Jul 25.969
27.000 Ago 30.572
315.000 TOTAL 282.323

Batalha do Somme (Julho a Novembro de 1916)
Perdas aliados Mês Perdas alemãs
208.645 Jul 103.000
76.891 Ago 68.000
175.460 Set 140.000
95.348 Out 78.500
59.913 Nov 45.000
623.907 TOTAL 500.000
Fonte: Alistair Horne; Verdun e Somme, In História do Século 20
O bloqueio naval e a guerra no mar

Dada a impossibilidade de dobrar o inimigo por batalhas terrestres, os ingleses trataram de bloquear as ligações marítimas dos alemães. Esses, decretam então a guerra submarina. Em maio de 1915, afundam o transatlântico "Lusitânia" onde perecem 120 cidadãos americanos, fazendo com que a opinião pública nos Estados Unidos se volte contra a Alemanha. No ano de 1916, intensificam a guerra comercial ordenando o afundamento sumário inclusive de navios neutros que se aproximem do litoral britânico. Essa medida terminará por levar o Presidente W. Wilson a declarar guerra à Alemanha em 6 de abril de 1917, e à Áustria-Hungria em 7 de dezembro do mesmo ano.

Mesmo assim, a campanha submarina germânica foi extremamente bem sucedida, quase levando à Inglaterra ao colapso. Somente com a introdução dos sistema de comboios, em 1917 é que conseguiu-se retomar o abastecimento regular das ilhas britânicas. Ainda assim, as perdas aliadas foram gigantescas:

Perdas da Marinha Mercante Inglesa (Tons)
1914 1915 1916 1917 1918 Total
241.201 855.721 1.237.634 3.729.785 1.694.749 7.759.090

Perdas da marinha mercante - Potências aliadas e neutras
País Perdas (Tons)
Grã-Bretanha 7.756.659
Noruega 1.177.001
França 888.783
Itália 846.333
E.U.A. 394.658
Outros países 1.680.240
Perdas Totais 12.743.674

Como comparação, as potências dos Impérios Centrais (Alemanha, Turquia e Áustria-Hungria), perderam apenas um total de 263.976 toneladas ao longo de todo o conflito.

Enquanto isso, a Marinha Britânica tentava atrair a Marinha de Alto Mar Alemã para um combate decisivo. Embora batalhas tenham ocorrido nas ilhas Coronel (Oceano Pacífico, 01/11/1914), Falkland (07/12/1914) e Dogger Bank (24/01/1915), somente no final de maio de 1916, próxima à costa da Dinamarca - na região conhecida como Jutlândia - é que finalmente os Dreadnoughts de ambos os lados se enfrentaram em um combate tradicional. Ocorrida entre 31/05 e 01/06/1916 envolveu 151 navios ingleses e 99 alemães e seu resultado foi indecisivo: os ingleses tiveram mais perdas - 14 navios e 6.784 homens contra 11 navios e 3.390 baixas dos alemães - mas mantiveram a vantagem tática. Daí até o fim da guerra, nenhum outro combate de superfície ocorreu entre as duas frotas, ficando a armada alemã estacionada em seus portos.

Enquanto isso, na Europa, novas armas entraram em uso na tentativa de romper a estagnação que havia tomado conta do front ocidental. Dentre estas, destacamos o uso dos aviões e das armas químicas.

A guerra aérea

Quando o Arquiduque Francisco Ferdinando foi assassinado em 28/06/1914, faziam menos de dez anos desde o vôo pioneiro do brasileiro Alberto Santos-Dumont e seu "14-bis"em Paris. Nesse pequeno intervalo, os avanços obtidos com a autonomia e a confiabilidade provou que o avião era um viável, embora ainda exótico, meio de transporte. Em 1909, o francês Louis Bleriot completou a primeira travessia do Canal da Mancha e, em 1913, Roland Garros realizou o primeiro vôo de travessia do Mediterrâneo entre o sul da França e a Tunísia.

No mesmo período, formularam-se as primeiras conjecturas e hipóteses a respeito do uso do avião como arma militar. Depois do vôo de Bleriot, o famoso escritor inglês H. G. Wells escreveu, profeticamente, que "... não há mais, de um ponto de vista militar, uma ilha inacessível".

Em 1911, os italianos, durante sua guerra contra o Império Otomano pela posse da Líbia, se tornaram os primeiros a fazer uso militar do aeroplano, ao jogar granadas sobre tropas inimigas a partir de um monoplano de construção alemã. No ano seguinte, ele também jogaram bombas a partir de um balão dirigível.

Quando a I Guerra Mundial eclodiu, em agosto de 1914, o número de aeronaves em todos os frontes era muito pequeno. A França, por exemplo, tinha menos de 140 aeronaves. Ao fim do conflito, os franceses dispunham de 4.500 aviões, mais do que qualquer outro protagonista. Embora este seja um indicativo interessante, não serve para demonstrar a quantidade de aeronaves empregadas na guerra: em quatro anos os franceses haviam fabricado nada menos que 68.000 aviões! Destes, 52.000 foram perdidos em combate - uma taxa de perda de 77%!

O mesmo período entre 1914 e 1918 não viu apenas o aumento da produção, mas também um grande desenvolvimento tecnológico no campo da aviação. Um típico avião britânico do início da guerra, o multiuso BE2c, tinha uma velocidade de 116 km/h, impulsionado por um motor de 90 H.P., e tinha uma autonomia de vôo de três horas. Já no final da guerra, existiam aviões desenhados para tarefas específicas: desenhado para ter rapidez e manobrabilidade, o caça SE5a de 1917 possuía um motor de 200 H.P. e velocidade máxima de 222 km/h.

Em 1914 era importante que a aeronave fosse fácil de se voar, já que a quantidade de pilotos treinados era mínima. Naquela época, um piloto da RAF era mandado para combate após ter completado um treinamento de três horas e meia de vôo real. Logo, os aviões eram desenhados para ter estabilidade mas, ao final do conflito, essa característica deu lugar à manobrabilidade. Aviões famosos como o inglês Sopwith Camel e o triplano alemão Fokker Dr.I eram difíceis de se voar, mas extremamente ágeis.

Não apenas os aviões se tornaram mais rápidos, manobráveis e poderosos, mas algumas configurações tecnológicas desapareceram durante a guerra. Muitos dos aeroplanos de 1914 tinham a configuração "pusher", com a hélice
situada atrás, "empurrando" o avião. Ao fim do conflito, a maioria absoluta tinha o design mais convencional, com as hélices puxando ("tractor") o aparelho. Outra característica técnica que desapareceu com o conflito, foram dos motores rotativos, como aqueles que equipavam os aviões Fokker E.I e Dr. I.

Além disso, a Primeira Guerra Mundial viu o apogeu e o fim de outro veículo aéreo como arma de guerra: o balão dirigível rígido. Usado principalmente pela Marinha Alemã, esses gigantescos "barcos voadores" (Luftschiff) produzidos pelo Conde Ferdinand von Zeppelin, espalharam o terror sobre a Inglaterra entre 1915 e 1917 ao efetuar os primeiros ataques de bombardeios sobre Londres e outras cidades.

A altitude em que voavam era tal que nenhum caça aliado tinha teto de serviço com capacidade de atingi-los, o que lhes assegurou a invulnerabilidade por um bom tempo. Seu fim somente veio com o desenvolvimento de projéteis de metralhadora revestidos de fósforo incendiário, que se revelou fatal para os invólucros do Zeppelin, que continham gás hidrogênio - altamente inflamável.

Se, em 1914, existiam poucos generais que viam os aviões como nada além de uma ferramenta para observação e reconhecimento (e muitos deles tinham grandes reservas mesmo para esse papel), ao final da guerra, ambos os lados haviam integrados os aviões como uma peça chave em suas estratégias. Embora o aeroplano não tenha desenvolvido o mesmo papel decisivo que teria nos conflitos subseqüentes, foi na I Guerra Mundial que ele provou seu potencial. Foi nessa época que as tarefas básicas que uma aeronave poderia realizar foram descobertas, testadas e refinadas: observação e reconhecimento, bombardeio tático e estratégico, ataque ao solo e guerra naval.

Com a crescente importância e influência dos aviões, as necessidades do domínio do espaço aéreo surgiu e, com ele, a aviação de caça. Sua função era a de estabelecer a superioridade sobre os aviões adversários, abatendo-os ou inutilizando-os. Surgiram, aqui, as primeiras e heróicas figuras lendárias da I Guerra Mundial: os ingleses Edward Mannock (73 vitórias), William Bishop (72), James McCudden (57) e Albert Ball (44); os franceses René Fonck (75), Georges Guynemer (54) e Charles Nungesser (44), os americanos Eddie Rickenbacker (26) e Frank Luke (21); o italiano Francesco Baracca (34) e os alemães Ernst Udet (62), Erich Löwenhardt (54), Werner Voss (48), Josef Jacobs (48) e Oswald Bölcke (40 vitórias e responsável pelo desenvolvimento das técnicas de caça ainda ensinadas hoje em dia). Isso para ficar apenas em alguns nomes mais conhecidos.

Mas foi neste conflito em que o avião se firmou como artefato bélico, que a aviação militar viu surgir sua maior lenda: Manfred Freiherr von Richthofen, o Barão Vermelho. Com oitenta vitórias, foi o maior ás da Primeira Guerra Mundial, e simboliza, ainda hoje, o ideal do piloto de caça. Com seu triplano Fokker vermelho, ele habita o nosso subconsciente como nenhum outro antes ou depois dele...

A guerra química

Com o advento da poderosa indústria química no século XIX, foi inevitável que a Guerra de 1914-1918 usasse o gás venenoso como uma arma de combate. Depois de duas experiências de poucos resultados, feitas no fronte ocidental ainda em 1915, o exército alemão, seguido dos franceses e ingleses, fizeram largo uso do gás de cloro e de mostarda a partir de 1916. Assim, os soldados conheceram mais um abominável instrumento de morte. O pavor dos atingidos foi total. Desde então, nada provocou no homem moderno tamanha fobia do que vir a morrer inalando gás venenoso.

a) O gás no fronte de batalha

Registra-se o dia 03 de janeiro de 1915 como aquele em que, pela primeira vez, os alemães lançaram cartuchos de gás venenoso sobre as trincheiras inimigas, operação, diga-se, inutilizada pelas baixas temperaturas. Mas logo que o tempo melhorou, em abril de 1915, a situação foi outra.

Nos dias seguintes ao 25, na região de Langemarck, perto de Ypres, uma densa névoa verde-cinza, típica do gás de cloro, expelida de 520 cilindros, começou a soprar em direção às linhas de um regimento franco-argelino que sustentava a posição. Quando eles viram aquele vapor tóxico vindo na direção deles, envolvendo tudo, adentrando por todo os lados, provocando-lhes uma violenta náusea, foi um salve-se quem puder.

O pânico fez com que os soldados, deixando as armas e as mochilas, corressem como loucos para as linhas da retaguarda em busca da salvação. Tiveram que improvisar algumas máscaras na hora mas sem grandes resultados. Nas trincheiras e nos campos, jogados ao léu, encolhidos, espumando, ficaram os que não conseguiram escapar. Psicologicamente foi um sucesso. O inimigo desertara em massa. A notícia logo espalhou-se de boca em boca pelos corredores das trincheiras e dos valos onde milhares de homens se encontravam - um diabo em forma de nuvem fétida estava solto nos campos da Europa.

b) Banalização do uso do gás

Em setembro daquele mesmo ano de 1915, os ingleses deram a sua resposta ao ataque de gás em Ypres, jogando sobre os alemães entrincheirados perto de Loos uma substantiva quantidade de gás de cloro.

Se nos começos desse tipo de recorrência ao gás mortífero era costume utilizar-se grandes cilindros para despejar veneno ao sabor da direção em que o vento soprava, em seguida avançou-se para o uso de um cartucho próprio, o The Projetor, capaz de lançar cápsulas de gás venenoso a enorme distância.

Foi a partir do ano de 1916, especialmente durante a longa batalha de Verdun, travada entre alemães e franceses, que o gás entrou em cena de vez. E, desta vez, foi a estréia de um novo gás, muito mais tenebroso em seus efeitos do que o cloro - o chamado "gás mostarda" (dicloroetilsulfeto). De cor amarelada forte, ele mostrou-se capaz de devastar as linhas adversárias mesmo em meio às tropas equipadas com máscaras antigás. Em contato direto com qualquer parte da pele da vítima, de imediato, ele levantava bolhas amareladas, atacando em seguida os olhos e as vias respiratórias. Além disso, tinha a capacidade de permanecer fazendo efeito durante um tempo bem superior do que os outros, como o gás lacrimogêneo (lachrymator), e o de cloro, seja ele fosgênico ou difosgênico.

Deste então, a paisagem da guerra das trincheiras foi toldada pela presença sistemática dos vapores do gás de mostarda que, utilizado por ambos os lados, passou a ser o manto sombrio e enfumaçado que cobria os soldados em seus últimos momentos de vida. Tamanha foi sua presença nas batalhas que no ano final da guerra, em 1918, ¼ dos obuses lançados pela artilharia eram de gás venenoso.

O gás cloro (Cl2) foi a primeira delas. Desde então, muitas outras substâncias já o substituíram e suplantaram. Podemos classificar as armas químicas de acordo com o modo como atuam. Nesse critério, os principais tipos são os seguintes:

Agentes asfixiantes: atuam nos pulmões, causando-lhes sérias lesões e dificultando a respiração. Podem provocar a morte por asfixia. Exemplos: Cl2 (gás cloro) COC2 (fosfogênico) Cl3C-NO2 (cloropicrina).

Agentes que atuam no sangue: também matam por asfixia, mas por meio de outro mecanismo. São substâncias que se combinam com a hemoglobina, tornando-a incapaz de transportar o O2 para as células do organismo. Exemplos: HCN (gás cianídrico) ClCN (cloreto de cianogênio) BrCN (brometo de cianogênio), usados nas câmaras de gás e nas sentenças de morte ainda hoje nos EUA .

Agentes causadores de feridas: provocam irritações nos olhos e na pele. Dependendo da quantidade, causam feridas, náuseas e vômitos. A irritação dos pulmões pode matar por asfixia. Exemplos: gás mostarda; mostarda de nitrogênio; Lewisita.

Agentes lacrimogêneos: provocam uma forte irritação nos olhos. Exemplos: H3CCOCH2Cl (cloro-acetona), H3CCOCH2Br (bromo-acetona) e H2CCH-COH (acroleína).

Agentes nervosos: das armas químicas são as mais perigosas. Normalmente não têm cor nem cheiro. Atuam sobre o sistema nervoso, bloqueando a transmissão dos impulsos nervosos de uma célula (neurônio) para outra. Matam em minutos por parada cardíaca ou respiratória. Exemplos: gás tabun, gás sarin e agente VX.

A guerra na Frente Oriental

Em agosto de 1914, aproveitando-se da intenção dos alemães em atacarem o Ocidente, os russos, antes que a mobilização total estivesse completada, iniciaram uma poderosa ofensiva sobre a Prússia Oriental. Depois de obterem uma vitória em Gubinnen penetraram na direção dos Lagos Mansurianos e da cidade de Tannemberg. A rapidez da ofensiva, obrigou os alemães a retiraram tropas do fronte francês e rapidamente recambiá-las para a Prússia.

Refeitos do impacto das primeiras derrotas, os alemães sob comando do General Paul von Hinden-burg (1847-1934) e de seu chefe do Estado-Maior, Erich von Luddendorf (1865-1937), passaram para a contra-ofensiva.

O II Exército Russo sob comando do Gen. Samsonov, foi cercado e batido em Tannemberg (26 a 30/08/1914) e o I Exército Russo, liderado pelo Gen. Rennenkampf foi destroçado na Batalha dos Lagos Mansurianos (setembro de 1914). A oportunidade da Rússia vencer a guerra no Oriente foi definitivamente perdida.

No ano seguinte, em 1915, os exércitos austro-alemães ocupam a Polônia Ocidental e Varsóvia cai em 5 de agosto. As sucessivas e desastrosas derrotas do Exército russo terminam por levar o Czar Nicolau II a assumir o comando geral do Exército. Mas a crise era muito mais ampla do que a simples troca de comandos ineficientes ou incompetentes, era toda a estrutura político-administrativa e industrial do país que começou a ruir.

Num esforço inaudito, os russos tentam uma grande ofensiva na região da Galícia - a Ofensiva Brusilov - na qual depositam imensa confiança. Depois de destroçar alguns exércitos austríacos, a ofensiva emperra. Não havia apoio logístico, nem reservas para explorar as vantagens inicia-is. O fracasso de Brusilov dá início a uma corrosiva desmoralização dos soldados russos.

Em 1917, os austro-alemães empurram vigorosamente o Exército russo para suas fronteiras naturais. Os Estados bálticos caem sob seu controle, colocando a capital do país, Petrogrado, ao alcance das tropas alemãs. Em março de 1917, depois de grandes manifestações de massa acompanhadas de ondas de greve, o regime de Nicolau II é deposto.

O Governo Provisório, liderado por Kerenski ainda tenta infrutíferas investidas contra os alemães, até ser finalmente deposto pelo golpe de estado bolchevique. A Rússia retira-se da guerra pelo Tratado de Brest-Litovsk, onde Lênin faz enormes concessões territoriais (3 de março de 1918). Os alemães no entanto, não podem mais tirar proveito de suas tropas que combateram no Oriente. Mesmo com sua transferência maciça para o fronte Ocidental, teriam agora que se defrontar com as recém-chegadas tropas americanas cujas reservas humanas eram infindáveis.

Outras campanhas

Itália e Balcãs: inicialmente comprometida em lutar com o aliado das Potências Centrais, a Itália adota uma posição neutra. Sabe-se no entanto, que havia assinado um acordo secreto com a Inglaterra para poder preservar seu império colonial. Em maio de 1915, os italianos resolvem declarar guerra a seus antigos aliados, os austríacos. Os exércitos italianos realizam sua ofensiva no fronte Nordeste, onde combatem os austríacos na região do rio Isonzo. De junho de 1915 a setembro de 1916 travam onze batalhas e avançam apenas 11 quilômetros com perdas terríveis.

Em outubro de 1917, os Impérios Centrais numa operação conjugada derrotam os italianos na Batalha de Caporetto, que se tornou o maior desastre militar da Itália. Quatrocentos mil soldados abandonam suas posições e 250 mil rendem-se para os alemães e os austríacos, obrigando os italianos a fortificarem-se no rio Piave. No ano de 1918, retomarão a ofensiva recuperando parte do território perdido.

A Sérvia, que havia resistido às primeiras ofensivas dos austríacos no segundo semestre de 1914, termina por ser ocupada pelos alemães e búlgaros no ano seguinte. A der rota da Sérvia, provocou o êxodo da população pelas montanhas da Albânia, sob terrível temperatura. Os poucos sobreviventes foram recolhidos pela esquadra inglesa e trans portados para a Grécia.

Turquia e Oriente Médio: os aliados ocidentais preparam um desembarque de tropas na península de Galípoli, em 25 de abril de 1915. Seu objetivo era a ocupação dos estreitos turcos (Bósforo e Dardanelos) assim como enfraquecer o flanco das Potências Centrais num ataque indireto. Os turcos depois de uma obstinada resistência fazem com que as forças anglo-francesas sejam obrigadas a retirar-se (9 de janeiro de 1916).

No Oriente Médio, dominado parcialmente pelos otomanos, a situação se deteriora. Os ingleses estimulam levantes árabes. Destaca-se nesse papel o oficial Thomas Edward Lawrence (1888-1935), o "Lawrence da Arábia". As guerrilhas árabes terminam por enfraquecer as posições turcas na região da Palestina e Cisjordância, facilitando a ofensiva britânica do General Edmund Allenby (1861-1936), que ocupa Jerusalém e Damasco. Na Mesopotâmia, depois do desastre inglês de Kutel-Amara, retomam a ofensiva e Bagda é ocupada em março de 1917. No após guerra, a região é partilhada entre Franceses (Líbano e Síria) e Ingleses (Palestina, Jordânia e Iraque).

O fim da guerra

Desde o início da guerra, os Estados Unidos mantinham uma posição de "neutralidade" em face do conflito. Ou não intervinham diretamente com suas tropas na guerra. Mas, em janeiro de 1917, os alemães declararam uma guerra submarina total, avisando que torpedeariam todos os navios mercantes que transportassem mercadorias para seus inimigos na Europa.

Pressionado pelos poderosos banqueiros estadunidenses, cujo capital investido na França e na Inglaterra achava-se ameaçado, e pela opinião pública que não se conformava com as perdas de navios e vidas pela ofensiva submarina germânica, o Governo dos Estados Unidos declarou guerra à Alemanha e ao Império Austro-Húngaro em 6 de abril de 1917.

A Revolução de março de 1917, foi o sinal de alerta para as classes dirigentes européias apressarem o término da matança. Neste mesmo ano, eclodiram vários motins no exército francês, sufocados pelo General Henri Petain (1856-1950). Na Alemanha eclodem motins na esquadra confinada em Kiel. O recrudescimento dos protestos e greves contra os regimes vigentes poderiam evoluir rapidamente para a Revolução.

Em mensagem enviada ao Congresso americano em 8 de janeiro de 1918, o Presidente Thomas Woodrow Wilson (1856-1924) sumariou sua plataforma para a Paz que concebia:

1) "acordos públicos, negociados publicamente", ou seja a abolição da diplomacia secreta;

2)liberdade dos mares;

3) eliminação das barreiras econômicas entre as nações;

4) limitação dos armamentos nacionais "ao nível mínimo compatível com a segurança";

5) ajuste imparcial das pretensões coloniais, tendo em vista os interesses dos povos atingidos por elas;

6) evacuação da Rússia;

7) restauração da independência da Bélgica;

8) restituição da Alsácia e da Lorena à França;

9) reajustamento das fronteiras italianas, "seguindo linhas divisórias de nacionalidade claramente reconhecíveis";

10) desenvolvimento autônomo dos povos da Áustria-Hungria;

11) restauração da Romênia, da Sérvia e do Montenegro, com acesso ao mar para Sérvia;

12) desenvolvimento autônomo dos povos da Turquia, sendo os estreitos que ligam o Mar Negro ao Mediterrâneo "abertos permanentemente";

13) uma Polônia independente, "habitada por populações indiscutivelmente polonesas" e com acesso para o mar;

14) uma Liga das Nações, órgão internacional que evitaria novos conflitos atuando como árbitro nas contendas entre os países.

Os "14 pontos" não previam nenhuma séria sanção para com os der-rotados, abraçando a idéia de uma Paz "sem vencedores nem vencidos". No terreno prático, poucas propostas de Wilson foram aplicadas, pois o desejo de uma vingança por parte da Inglaterra e, principalmente, da França prevaleceram sobre as intenções americanas.

Nesse meio tempo, a Rússia retirou-se da guerra, favorecendo a Ale-manha na frente oriental. Esta procurou concentrar suas melhores tropas no ocidente, na esperança de compensar a entrada dos Estados Unidos.

Em março de 1918, os alemães tentaram um último e desesperado esforço para romper a linha dos aliados antes que a presença das tropas americanas tornassem inviável a vitória - a Ofensiva do Kaiser (Kaiserschlacht). Mas a Alemanha já se encontrava exausta. Os quatro anos de guerra haviam-lhe retirado a flor da juventude masculina enquanto a população civil encontrava-se atormentada pela fome e inanição - resultado do bloqueio naval aliado.

Em julho de 1918, ingleses, franceses e americanos desferem sucessivos golpes sobre as divisões alemãs as obrigando a recuar até a fronteira belga. O Alto-Comando alemão - Hindenburg e Ludendorff - aconselham o governo a solicitar um armistício. Sucessivamente, a Bulgária, a Turquia e o Império Austro-Húngaro depuseram armas e abandonaram a luta. A Alemanha ficou sozinha e sem condições de resistir ao bloqueio, liderado pelos Estados Unidos, que privaram o exército alemão, não de armamentos, mas de lubrificantes, borracha, gasolina e sobretudo víveres.

Em Berlim e demais cidades, multidões realizam manifestações contra o Kaiser que, em 10 de novembro embarca para seu exílio holandês. Imediatamente, foi proclamada a República alemã, com sede a cidade de Weimar, liderada pelo partido social democrata. A velha monarquia dos Hohenzollern deixou de existir, sendo substituída pela República de Weimar.

No dia seguinte, em 11 de novembro de 1918, dois delegados republicanos encontram-se na Floresta de Compiègne com o Marechal Foch e assinam os documentos que punham termo oficialmente à guerra.

A Alemanha havia assinado uma convenção de paz em condições bastante desvantajosas, mas o exército alemão não se sentia militarmente derrotado. Terminada a guerra, os exércitos alemães ainda ocupavam os territórios inimigos, sem que nenhum inimigo tivesse penetrado na Alemanha. Surgia a teoria da "punhalada nas costas", que seria muito bem explorada por Adolf Hitler.

O Tratado de Versalhes e o fracasso da Liga das Nações

No período de janeiro a junho de 1919, realizou-se no palácio de Versalhes, na França, uma série de conferências com a participação de 27 estados nações vencedoras da Primeira Guerra Mundial. Lideradas pelos representantes dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França, essas nações estabeleceram um conjunto de decisões, que impunham duras condições à Alemanha.

Nesse ínterim, a Alemanha estava em estado de convulsão social e política. Marinheiros, soldados e operários amotinaram-se e, influenciados pelos acontecimentos da Revolução Russa, tentaram instaurar "repúblicas soviéticas" na Bavária e em Berlim. O governo provisório recorreu, então, às tropas que retornavam do front e que se re-organizaram em unidades de voluntários independentes: os "Freikorps".

Soldados endurecidos por quatro anos de combates em trincheiras fétidas e reconhecidos por usarem caveiras pintadas em seus capacetes e tanques (ou, por vezes, uma suástica), os Freikorps foram implacáveis na repressão às forças revolucionárias, aniquilando o levante spartakista em Berlim (e fuzilando sua líder Rosa Luxemburgo) bem como sufocando os levantes na Baviera e no porto de Kiel.

Os alemães finalmente se viram obrigados a assinar o Tratado de Versalhes, no dia 28 de junho de 1919 - exatamente cinco anos depois da morte do Arquiduque Francisco Ferdinando. Se recusassem a assinar o documento, o território alemão poderia ser invadido. Contendo 440 artigos, o Tratado de Versalhes era uma verdadeira sentença penal de condenação à Alemanha. Estipulava, entre outras coisas, que a Alemanha deveria:

a) Entregar a região da Alsácia-Lorena à França;
b) Ceder outras regiões à Bélgica, á Dinamarca e a Polônia;
c) Entregar quase todos os seus navios mercantes à França, Inglaterra e Bélgica;
d) Pagar uma enorme indenização em dinheiro aos países vencedores;
e) Reduzir o poderio militar dos seus exércitos a um máximo de 100.000 homens, sendo proibida de possuir aviação militar, submarinos, blindados ou encouraçados modernos.

Não demorou muito tempo para que todo esse conjunto de decisões humilhantes, impostas à Alemanha, provocasse a reação das forças políticas que no pós-guerra, se organizaram no país. Formou-se, assim, uma vontade nacional alemã, que reivindicava a revogação das duras imposições do Tratado de Versalhes. O nazismo soube explorar muito bem essa "vontade nacional alemã", gerando um clima ideológico para fomentar a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A Alemanha ficou de tal modo enfraquecida que, entre novembro de 1918 e o início de 1922, nacionalistas poloneses organizados em unidades paramilitares, tentaram ocupar e anexar à força partes da Prússia Ocidental e Oriental, Posnânia e Silésia Superior. Mais uma vez, o governo da República de Weimar recorreu, a contragosto, aos Freikorps. Estes travaram uma série de batalhas entre 1919 e 1921, que frearam o avanço polonês e recuperaram o território por eles ocupado. Os combates somente diminuíram com a intervenção de uma Comissão Aliada, apoiada por tropas inglesas.

Posteriormente, em 1923, os próprios Freikorps tiveram que ser finalmente dispersados pelo Governo Federal alemão, após terem efetuado algumas tentativas de derrubar o governo social-democrata de Berlim. Muitos veteranos dos Freikorps ingressariam, então, no Partido Nazista de Hitler e formariam a primeira geração da infame SS.

Além do Tratado de Versalhes, foram assinados outros tratados entre os países participantes da I Guerra Mundial. Através desses tratados, desmembrou-se o Império Austro-Húngaro, possibilitando o surgimento de novos países, como a Polônia, Checoslováquia e Iugoslávia.

Em 28 de abril de 1919, a Conferência de Paz de Versa-lhes aprovou a criação da Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), atendendo proposta do presidente dos Estados Unidos. Sediada em Genebra, na Suíça, a Liga das Nações deu início às suas atividades em janeiro de 1920, tendo como missão agir como mediadora no caso de conflitos internacionais, procurando, assim, preservar a paz mundial.

A Liga das Nações logo revelou-se uma entidade sem força política, devido à ausência das grandes potências. O Senado americano vetou a participação dos Estados Unidos na Liga, pois discordava da posição fiscalizadora dessa entidade em relação ao cumprimento dos tratados internacionais firmados no pós-guerra. A Alemanha não pertencia à Liga e a União Soviética foi excluída. A Liga das Nações foi impotente para impedir, por exemplo, a invasão japonesa na Manchúria, em 1931, e o ataque italiano à Etiópia, em 1935.

Deste modo, o tratado de Versalhes, ao impor punições humilhantes aos alemães, semeou o revanchismo que desencadearia, depois, a Segunda Guerra Mundial. A Primeira Guerra, provocou uma alteração profunda na ordem mundial: os EUA surgiram como principal potência econômica mundial, houve o surgimento de novas nações, devido ao desmembramento dos Impérios Austro-Húngaro e Turco e surgiu um regime de inspiração marxista na Rússia.

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