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Arte Egípcia: 2. Períodos

FAAP | Danilo José Figueiredo, Mestre em História Social | Jornal "A Tarde"

Máscara funerária de Tutankhamon, em ouro maciço.
Museu do Cairo, Egito
Para os antigos egípcios, dar forma à matéria não era um ato de puro deleite, o que não significava, evidentemente, que eles deixassem de extrair muitas satisfações estéticas disso. Mas os fundamentos do ato artístico encontravam-se fora das preocupações estéticas em si mesmas: eles se situavam na esfera das crenças relativas aos mortos e aos deuses - portanto, no mundo sobrenatural. Desenhar, esculpir, pintar permitia dar corpo às presenças invisíveis nas quais o espírito humano acreditava, criar objetos reais para os ritos que lhes concerniam, fabricar suportes para todos os gestos essenciais que asseguravam a ligação entre os humanos e o mundo dos deuses. Concebê-los era, portanto, um ato sério e grave, cuja eficácia, antes de tudo, era o que se buscava.

As obras mais oficiais, os templos com a sua arquitetura, o seu cenário esculpido e pintado e a sua população de estátuas, constituíam objeto de elaboradas especulações por parte dos teólogos do templo. O desafio era considerável: tratava-se de conceber a morada terrestre do divino senhor, de lhe assegurar abrigo e proteção, de manter a ordem dos deuses aqui em baixo, de alcançar aquele equilíbrio divino que era garantia de permanência. Tudo isso era atribuição do rei do Egito. Os que oficiavam o culto e os demais teólogos não eram mais, teoricamente, do que intendentes do rei, representantes mais ou menos altamente colocados da ação do soberano. Era ele o chefe da religião bem como da administração. Na verdade, a direção das questões religiosas era apenas uma das ramificações da administração geral. Era esse aspecto completamente global da função real que constituía o fundamento da sociedade egípcia. O soberano que dominava o mundo humano era também o interlocutor privilegiado - a maior parte do tempo único - dos deuses. O culto era essencial para o bom andamento do mundo, e um dos atos fundamentais de culto do qual era investido o rei era a fundação, o embelezamento e a renovação dos templos - "monumentos" que estabilizavam a norma divina. A isso se acrescentava, do ponto de vista político, uma função historiográfica: nos templos eram inscritos os grandes feitos do soberano.

Os cidadãos privados que gozavam de melhor situação social podiam ter também os seus monumentos comemorativos, como as capelas de suas tumbas, lugares de encontro com a humanidade viva e receptáculo das oferendas vitais das quais os mortos necessitavam. As imagens, certamente destinadas a representar um indivíduo ou uma ação, podiam ser ativas inclusive quando seu beneficiário estivesse vivo. Foi o caso, por exemplo, das estátuas colocadas nos santuários a partir do Médio Império que receberam, num tempo situado para além do tempo humano, a prebenda atribuída pelo divino senhor daquele lugar.

O aspecto mágico das representações era maior; o mesmo ritual de "animação" era executado sobre as estátuas e sobre as múmias. Considerava-se que ele era capaz de "abrir a boca e os olhos", a fim de fazê-los viver. Algumas estátuas foram muradas para sempre nas capelas das tumbas, alguns relevos foram selados no interior das paredes; portanto, a recriação era a função primeira, e não a visão pelos vivos. Um grande número de estelas aos mortos, no entanto, continham um "apelo aos vivos". Tratava-se de uma prece na qual o defunto representado na estela se dirigia aos passantes presentes e àqueles que viriam no futuro para lhes suplicar que recitassem uma oração a seu favor, a qual faria surgir magicamente o alimento, bem como pronunciar o nome do defunto a fim de fazê-lo reviver. A arte não apenas completava a realidade, ela era igualmente um meio de fazê-la perdurar e de comunicar uma mensagem ao presente e para as gerações que viriam, como aconteceu com nossos monumentos aos mortos.

Embora inextricavelmente ligada à religião, a arte egípcia não se baseava num único dogma escrito num livro sagrado fundamental. Diferente da arte cristã, que se refere em permanência aos textos da Bíblia, a arte egípcia gozava de uma certa autonomia artística; a expressão formal era um modo de expressão do divino que bastava a si mesmo. Nos templos, a função substitutiva da figuração parecia primar sobre todas as demais preocupações, fossem elas comemorativas ou pedagógicas. Os deuses eram representados a partir de códigos, onde a parte do antropomorfismo era importante, mas pouco nos seus atos, salvo nas relações com o soberano. Por exemplo, seria inútil buscar entre os milhares de representações de Osíris e de Ísis, um quadro do drama desse casal divino, do mesmo modo que não havia versão escrita desse mito tão fundamental para as crenças escatológicas desse povo.

Se a arte egípcia parecia mais autônoma que a arte cristã no que concerne o verbo, é verdade que ela era quase sempre completada com o acréscimo de inscrições, às vezes longas, cobrindo boa parte da superfície da obra, participando da sua decoração e, ao mesmo tempo, reforçando e completando o seu sentido. Como nós, os egípcios não eram avaros em matéria de escrituras executadas sobre suas produções artísticas! Pelo fato de que sua escritura era composta de pequenas representações - mesmo se elas devessem ser lidas de modo fonético como a maior parte de nossas letras -, em geral não era fácil para o não-iniciado distinguir nelas cenas propriamente ditas. Isso acontecia sobretudo pelo fato de que, com muita frequência, um certo horror ao vazio levava os artistas a preencher a composição em todos os lados. O lugar da escritura deveria, portanto ser bem distinto daquele da representação, mesmo que elas fossem empregadas lado a lado na decoração e de modo análogo no plano funcional. A escritura, do mesmo modo que a arte, era detentora de um poder mágico de substituto da realidade.

PERÍODO PRÉ-DINÁSTICO

Os primeiros povoadores pré-históricos assentaram-se sobre as terras ou planaltos formados pelos sedimentos que o rio Nilo havia depositado em seu curso. Os objetos e ferramentas deixados pelos primeiros habitantes do Egito mostram sua paulatina transformação de uma sociedade de caçadores-catadores seminômades em agricultores sedentários. O período pré-dinástico abrange de 4000 a.C. a 3100 a.C., aproximadamente.


Pirâmides de Gizé
Antigo Império

Durante as primeiras dinastias, construíram-se importantes complexos funerários para os faraós em Abidos e Sakkara. Os hieróglifos (escrita figurativa), forma de escrever a língua egípcia, encontravam-se então em seu primeiro nível de evolução e já mostravam seu caráter de algo vivo, como o resto da decoração.

Na III dinastia, a capital mudou-se para Mênfis e os faraós iniciaram a construção de pirâmides, que substituíram as mastabas como tumbas reais. O arquiteto, cientista e pensador Imhotep construiu para o faraó Zoser (c. 2737-2717 a.C.) uma pirâmide em degraus de pedra e um grupo de templos, altares e dependências afins. Deste período é o famoso conjunto monumental de Gizé, onde se encontram as pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos.

A escultura caracterizava-se pelo estilo hierático, a rigidez, as formas cúbicas e a frontalidade. Primeiro, talhava-se um bloco de pedra de forma retangular; depois, desenhava-se na frente e nas laterais da pedra a figura ou objeto a ser representado. Destaca-se, dessa época, a estátua rígida do faraó Quéfren (c. 2530 a.C.).

A escultura em relevo servia a dois propósitos fundamentais: glorificar o faraó (feita nos muros dos templos) e preparar o espírito em seu caminho até a eternidade (feita nas tumbas).

Na cerâmica, as peças ricamente decoradas do período pré-dinástico foram substituídas por belas peças não decoradas, de superfície polida e com uma grande variedade de formas e modelos, destinadas a servir de objetos de uso cotidiano. Já as jóias eram feitas em ouro e pedras semipreciosas, incorporando formas e desenhos, de animais e de vegetais.

Ao finalizar a VI dinastia, o poder central do Egito havia diminuído e os governantes locais decidiram fazer as tumbas em suas próprias províncias, em lugar de serem enterrados perto das necrópoles dos faraós a quem serviam. Desta dinastia data a estátua em metal mais antiga que se conhece no Egito: uma imagem em cobre (c. 2300 a.C.) de Pepi I (c. 2395-2360 a.C.).

Médio Império


Decoração da tumba de Beni Hassan
Mentuhotep II, faraó da XI dinastia, foi o primeiro faraó do novo Egito unificado do Médio Império (2134-1784 a.C.). Criou um novo estilo ou uma nova tipologia de monumento funerário, provavelmente inspirado nos conjuntos funerários do Antigo Império. Na margem oeste do Tebas, até o outro lado do Nilo, no lugar denominado de Deir el Bahari, construiu-se um templo no vale ligado por um longo caminho real a outro templo que se encontrava instalado na encosta da montanha. Formado por uma mastaba coroada por uma pirâmide e rodeado de pórticos em dois níveis, os muros foram decorados com relevos do faraó em companhia dos deuses.

A escultura do Médio Império se caracterizava pela tendência ao realismo. Destacam-se os retratos de faraós como Amenemés III e Sesóstris III.

O costume entre os nobres de serem enterrados em tumbas construídas em seus próprios centros de influência, em vez de na capital, manteve-se vigente. Ainda que muitas delas estivessem decoradas com relevos, como as tumbas de Asuán, no sul, outras, como as de Beni Hassan e El Bersha, no Médio Egito, foram decoradas exclusivamente com pinturas. A pintura também decorava os sarcófagos retangulares de madeira, típicos deste período. Os desenhos eram muito lineares e mostravam grande minúcia nos detalhes.

No Médio Império, também foram produzidos magníficos trabalhos de arte decorativa, particularmente jóias feitas em metais preciosos com incrustação de pedras coloridas. Neste período aparece a técnica do granulado e o barro vidrado alcançou grande importância para a elaboração de amuletos e pequenas figuras.

Novo Império


T emplo da rainha Hatshepsut
O Novo Império (1570-1070 a.C.) começou com a XVIII dinastia e foi uma época de grande poder, riqueza e influência. Quase todos os faraós deste período preocuparam-se em ampliar o conjunto de templos de Karnak, centro de culto a Amon, que se converteu, assim, num dos mais impressionantes complexos religiosos da história. Próximo a este conjunto, destaca-se também o templo de Luxor.

Do Novo Império, também se destaca o insólito templo da rainha Hatshepsut, em Deir el Bahari, levantado pelo arquiteto Senemut (morto no ano de 1428 a.C.) e situado diante dos alcantilados do rio Nilo, junto ao templo de Mentuhotep II.

Durante a XIX Dinastia, na época de Ramsés II, um dos mais importantes faraós do Novo Império, foram construídos os gigantescos templos de Abu Simbel, na Núbia, ao sul do Egito.

A escultura, naquele momento, alcançou uma nova dimensão e surgiu um estilo cortesão, no qual se combinavam perfeitamente a elegância e a cuidadosa atenção aos detalhes mais delicados. Tal estilo alcançaria a maturidade nos tempos de Amenófis III.

A arte na época de Akhenaton refletia a revolução religiosa promovida pelo faraó, que adorava Aton, deus solar, e projetou uma linha artística orientada nesta nova direção, eliminando a imobilidade tradicional da arte egípcia. Deste período, destaca-se o busto da rainha Nefertiti (c. 1365 a.C.).

A pintura predominou então na decoração das tumbas privadas. A necrópole de Tebas é uma rica fonte de informação sobre a lenta evolução da tradição artística, assim como de excelentes ilustrações da vida naquela época.

Durante o Novo Império, a arte decorativa, a pintura e a escultura alcançaram as mais elevadas etapas de perfeição e beleza. Os objetos de uso cotidiano, utilizados pela corte real e a nobreza, foram maravilhosamente desenhados e elaborados com grande destreza técnica. Não há melhor exemplo para ilustrar esta afirmação do que o enxoval funerário da tumba (descoberta em 1922) de Tutankhamen.

Época tardia


Templo em Madinat Habu
Em Madinat Habu, perto de Tebas, na margem ocidental do Nilo, Ramsés III, o último da poderosa saga de faraós da XX dinastia, levantou um enorme templo funerário (1198-1167 a.C.), cujos restos são os mais conservados na atualidade.

O rei assírio Assurbanipal conquistou o Egito, convertendo-o em província assíria até que Psamético I (664-610 a.C.) libertou o país da dominação e criou uma nova dinastia, a XXVI, denominada saíta. Desse período, destacam-se os trabalhos de escultura em bronze, de grande suavidade e brandura na modelagem, com tendência a formas torneadas. Os egípcios tiveram então contato com os gregos, alguns dos quais haviam servido em seu exército como mercenários, e também com os judeus, através de uma colônia que estes tinham no sul, perto de Asuán.

A conquista do país por Alexandre Magno, em 332 a.C., e pelos romanos, no ano 30 a.C., introduziu o Egito na esfera do mundo clássico, embora persistissem suas antigas tradições artísticas. Alexandre (fundador da cidade de Alexandria, que se converteu num importante foco da cultura helenística) e seus sucessores aparecem representados em relevo nos muros dos templos como se fossem autênticos faraós — e num claro estilo egípcio, e não clássico. Os templos construídos durante o período ptolomaico (helênico) repetem os modelos arquitetônicos tradicionais do Egito.


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