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Brasil - Balaiada (2) - As revoltas


Sendo Raimundo Gomes Vieira o homem de confiança de Padre Inácio, incumbido de levar &a

grave;s feiras e vender os bois do rico pecuarista, teve certa vez de passar na Vila de Manga do Iguará, onde o prefeito, no encargo também de comandante da força policial, mandou prender alguns dos vaqueiros de Raimundo Gomes, com o intuito de prejudicar o padre, seu inimigo político.

Impossibilitado de prosseguir a marcha e sofrendo prejuízos resultantes de fuga e morte do gado, o capataz invadiu, junto com nove companheiros, a cadeia municipal guardada por 23 soldados, soltou os presos (entre eles o seu irmão) e apoderou-se do armamento, deixando livres os soldados desarmados. Estaria iniciada a Revolta.


Armazém de carne-seca, escravos na roça no século XIX,
negros de ganho no Maranhão

Após esta audaciosa surpresa, Raimundo Gomes afixou na Vila da Manga um manifesto contendo suas reivindicações:

“Ilmo. Sr. Capitão Manuel Alves d´Abreu. Vila da Manga, 15 de dezembro de 1838. Como Acho nesta Vila com a reunião de Povo e bem do socego publico como conta do Art. sigTe. 1º) Que seja considerada a constituição e garantindo dos cidadãos. 2º) Que seja admitido o Presidente de Provincia e em Tregue o governo Vice-Prezidente. 3º) Que seja abolidos os Prefeitos e Subs-Prefeitos, Comissarios ficando com.tes em Vigorar Leis geraes e as Provincias que não forem de encontro a Constituição do Império. 4º) Que sejão espulcados empregos portuguezes e Dispejarem A Provinsia dentro em 15 dias com exseção dos cazados com familias brasileiras e os de 60 anos para cima.


Raimundo Gomes Vieira – Comde da Forca armada.
Segeu o Cap. Alberto Gomes Ferreira avizar todos os Cidadoes Brasileiros e amigos da Patria e do sucego Publico para se acharem neste Quartel da forca Armada para o bem do Brazil. Quartel da Forca.

Manga 14 de Dr.o de 1838. Comde da Forca.

Fora feitores e escravos.”(JANOTTI, 1987, 44 e 45.)

A redação do documento poderia evidenciar a sua autoria, mas, logo se nota o interesse bentevi agindo sobre o vaqueiro. Os artigos 1º, 2º e 3º mostram o descontentamento dos liberais com as Leis Provinciais denominadas Leis dos Prefeitos e Lei da Criação dos Oficiais da Guarda Nacional, pelas quais ficava determinada a nomeação pelo Presidente da Província dos prefeitos, agora com atribuições anteriormente conferidas ao juiz de paz.

Os juizes de paz, responsáveis pelas eleições municipais, pela ordem e pelo comando da Guarda Nacional, eram tradicionalmente eleitos pelas Câmaras Municipais, ou seja, constituíam representantes dos interesses das famílias mais poderosas da região.

Relativo ao manifesto, apenas o 4º artigo expressava os interesses populares, descontentes com a presença (até certo ponto privilegiada) dos portugueses no Maranhão, o que veio a se tornar característica marcante da Balaiada: o anti-lusitanismo. Outra reivindicação de cunho popular que aparece no documento é o pedido “Fora feitores e escravos” que, no entanto, não aparece em nenhum outro manifesto pesquisado por este presente estudo.

Curiosamente, a data do documento afixado por Raimundo Gomes não coincidia com a data oficial da invasão da cadeia de Manga. Tanto Maria de Lourdes Janotti quanto Astolfo Serra afirmam ter sido iniciada a Revolta no dia 13 de dezembro de 1838, mas o documento apresenta as datas 14 e 15 do mesmo mês e ano. Supõe-se, então, que a confecção do manifesto foi realizada depois da invasão, dando tempo suficiente para uma articulação política bentevi.

Com o engrossamento do grupo rebelde pelos soldados da Vila de Manga, temerosos de represálias, o vaqueiro Raimundo Gomes vaga pelo interior do Maranhão ganhando novos adeptos.

O governo da província não relevou muita importância ao movimento, considerando até mesmo extinta a rebelião. Porém, um mês depois, no dia 22 de janeiro de 1839 o vaqueiro surge na Vila de Tutóia à frente de uma centena de homens, rumo ao rio Parnaíba, acontecendo então o primeiro confronto armado da Balaiada, na Barra do Longá, entre rebeldes e a tropa do Prefeito de Parnaíba, no Piauí.

Os rebeldes, com 3 mortos, dois feridos e 18 prisioneiros, foram vencidos pelas tropas legalistas que tiveram, segundo consta, apenas uma baixa: um soldado morto involuntariamente pelo seu próprio camarada.

Este embate vitorioso foi suficiente para o Presidente do Maranhão, Sr. Vicente Pires Camargo, declarar a Revolta terminada e a paz restaurada, o que não ocorreu. Durante mais de dois meses o mestiço Raimundo Gomes circulou livremente pela Província, já dominando Mucambo, Queimada da Soledade, Espigão, Miritiba, Belas Águas, Chapadinha, Miriquitas e Caissara. Diante deste triste panorama a presidência provincial foi entregue a Manoel Felisardo de Souza Melo, “capitão graduado do imperial corpo de engenharia”.

Novos chefes se apresentam com seus seguidores, firmando como característica do movimento a existência de caudilhos rebeldes, dividindo a Revolta, e que por isso só constituíam uma legião: Relâmpago, Trovão, Corisco, Canino, Sete Estrelas, Tetéu, Andorinha, Tigre, João Cardoso, Gitirana, os irmãos Ruivos, Cocque, Mulunguêta, Matruá, Francisco Ranelinho e José Gomes, entre outros.

Nesta altura dos acontecimentos aderem também duas importantes lideranças: Manoel Francisco Ferreira dos Anjos, denominado Balaio, e D. Cosme, líder dos aquilombados.

Manoel Francisco Ferreira dos Anjos era, assim como o vaqueiro Raimundo Gomes, representante da classe mais pobre do Maranhão; no entanto, Ferreira dos Anjos não vivia agregado e tão pouco era empregado de algum poderoso. Sustentava esposa e duas filhas graças à confecção de balaio, originando sua alcunha, e à pequena oficina de costura mantida pelas mulheres da casa.

Conta-se que Balaio aderiu à Revolta após as tropas legalistas terem passado pelo vilarejo onde residia, nas proximidades de Coroatá. Aproveitando-se da estadia na vila, um oficial de nome Guimarães violentou as duas filhas de Ferreira dos Anjos. Ferido em sua honra, o artífice publicou o incidente e incitou a fúria de amigos e conhecidos a combater os legais, “vendidos aos portugueses”(SERRA, 1946, 214.). Com esses argumentos, Balaio arregimentou um grupo de seguidores e partiu para a luta com grande ferocidade e dando o seu nome à Revolta, mesmo aderindo depois do seu início e morrendo antes do término da mesma.

Também engrossando as fileiras rebeldes surge Cosme, na liderança de 3.000 negros aquilombados. Este líder não se enquadra necessariamente entre os Balaios, e poderíamos inclusive considerá-lo chefe de uma Revolta Negra Maranhense, apesar de ter se articulado fracamente com a Balaiada. A participação negra é contestada quanto ao engajamento sincero, tanto no início como no final da Revolta quando D. Cosme prende Raimundo Gomes e o teria matado se este não tivesse fugido.

Dom Cosme Bento das Chagas, tutor e Imperados das liberdades bentevís, como se auto-denominava, após fugir da prisão de São Luís, na qual estava sob a acusação de exercer a feitiçaria, apresentou-se frente à grande população negra fugida, unindo-os sob a sua bandeira e estabelecendo um quartel - general na Fazenda Lagoa Amarela, na Comarca do Brejo, onde instituiu uma hierarquia interna e fundou uma escola de primeiras letras.

Vários confrontos foram registrados no mês de abril de 1839 entre rebeldes e legalistas com decisivas vitórias balaias, iniciando o período de apogeu da revolta. No dia 15 do dito mês o pardo Manoel Rodrigues Cocque, ex-cabo do extinto corpo de polícia da província, combateu com os seus homens os soldados do major Feliciano Antônio Falcão, em um lugar denominado Mutuns. As perdas foram enormes para ambas as partes.

Mas sem sombra de dúvida o golpe mais violento infligido ao exército governista até então ocorreu em Angicos, próximo a Brejo, em 18 de abril. Os revoltosos chefiados por Antônio José do Couto Pinheiro, o Mulunguêta, massacraram os homens do Capitão Pedro Alexandrino, que, após render-se, foi assassinado a tiros junto com o tenente-coronel João José Alves. O sangrento episódio repercutiu em toda a província resultando no entrincheiramento da capital São Luís e o aumento do prestígio balaio entre as massas anônimas.

Caíram então nas mãos dos rebeldes a cidade de Brejo, sem resistência alguma em vista da debandada do prefeito e os 200 soldados que lá se encontravam, seguida de Tutóia, Miritiba e Coroatá, sob o comando de Cocque.

Astolfo Serra nos apresenta ainda dois documentos que exemplificam a participação bentevi e o anti-lusitanismo popular. No entanto, há um desencontro de datas acerca destes, que nós não conseguimos elucidar neste presente estudo, em virtude da impossibilidade de acesso aos originais teremos que confiar na compilação feita por Serra.

“Autorizado pelo povo reunido com as armas na mão Comandante em chefe, cumpre-me levar ao Conhecimento de V. Excia., os inclusos.

Artigos, a fim de V. Excia. os fazer efetivos por achar-se de presente reunida a Assembléia Provincial não fazendo menção do artigo 4.º por já se achar remediado pela resolução do Govêrno Supremo. – Deus Guarde a V. Excia. – Vila do Brejo, 5 de maio de 1839. – Ilmo. e Exmo. Snr. Manoel Felisardo de Souza e Melo Presidente da Província. – O alferes Comandante da Fôrça Armada Pedro José Gitirama.

REQUISIÇÔES

- “Os habitantes dêste Município vem em marcha reunida representar a Ilustre Câmara da Assembléia Geral.

Art. 1º Da vontade dos povos para sossêgo e bem estar da Província inteira.

Art. 2º Que seja sustentada a Constituição do Brasil garantia dos direitos do cidadão Brasileiro que lhe conseguem a sua liberdade.

Art. 3º Que sejam despedidos os Prefeitos e Sub-Prefeitos e Comissários de Polícia, pois têm aquebrantado tôdas as Leis do Brasil, e têm sofrido todo o despotismo a respeito desta Lei; ficando somente em vigor as Leis Gerais e Provínciais que não forem de encontro à Constituição do Império.

Art. 4º Que seja já demitido o Presidente da Província, e entregue o Govêrno ao Vice-Presidente.

Que sejam expulsos, os portuguêses dos empregos políticos, e despejarem a Província dentro em quinze dias, com a exceção dos que juraram a independência e os que casaram com famílias brasileiras e os velhos de 60 anos para cima; e protestamos não largarmos as armas das mãos sem primeiro vermos tomadas estas medidas acima exprimidas ao Govêrno, certificamos que seguramos as vidas dos cidadãos sem ser debaixo do fogo, e seguramos todos os seus cabedais na tranquilidade do País. – Maranhão, 1.º de Novembro de 1839.”(SERRA, 1946, 230 e 231.)

“Ilmo. e Exmo. Snr.
Achando-me na qualidades de Comandante em Chefe de tôdas as tropas presentemente reunidas, e estacionadas nesta vila, e nos diferentes pontos de tôda província, tenho a honra de levar ao conhecimento de V. Excia. que achando-nos com as armas na mão protestamos não largarmos enquanto não forem derrogadas as Leis Provinciais números 61, de 8 de Junho, e 79, de 29 de Julho do ano passado de 1838, sendo aquela da criação dos Oficiais das Guardas Nacionais e esta dos Prefeitos, ficando a primeira em vigor sòmente pelas Leis Gerais, e a Segunda de nenhum efeito combinando-se em tudo com os artigos datados em o 1.º de Novembro do mesmo ano de 1838, remetidos a V. Excia. pelo comandante Pedro José Gitirama, e porque se ache a assembléia provincial reunida, levar ao conhecimento dela a fim da mesma Decretar sôbre os objetos expendidos. – Deus Guarde a V. Excia. – Quartel do Comando da fôrça Armada na vila de São Bernardo, 7 de Maio de 1839 – ilmo. e Exmo. Sr. Manoel Felisardo de Souza e Melo Presidente do Mrn. – Pedro Alex. Dos Stos., Comte.” (SERRA, 1946, 229 e 230.)

Segundo Astolfo Serra, observa-se nestas “pitorescas requisições” recalques coletivos, pois no presente artigo “há resíduos das lutas independentistas e azedumes político – partidários”, como a despedida dos prefeitos, a extinção do despotismo e a expulsão dos portugueses dos empregos públicos. Para o autor não há em tal artigo o famigerado espírito de rapinagem, ou seja, “não foi uma aventura de bandoleiros, mas ao lado dos crimes cometidos houve uma orientação política bem assinalada”.

No dia 7 de maio de 1839 os Balaios se puseram em marcha com destino a Caxias, a segunda cidade da província, localizada a 276 km da capital na fronteira com o Piauí, onde chegaram no dia 24 do dito mês. No mesmo dia cercaram a cidade, que se encontrava totalmente desguarnecida de trincheiras. Participaram do cerco os chefes Balaio, Gitirana, o Ruivo, S.J. Teixeira, Mulunguêta e Silveira.

Mesmo sem apoio do Governo, os soldados de Caxias resistiram, chegando a vencer Gitirana e o desalojando de seu ponto; mas a posição foi reconquistada pelos rebeldes no dia seguinte. Chegaram no dia 27 os reforços rebeldes liderados por Violete e Cocque, Lívio Castelo Branco, do Piauí, com 600 homens e Milhome (ou Milone) com 300 ou 400 rebeldes de Pastos-Bons.

Finalmente Caxias cai rendida no dia 1º de julho do mesmo ano, assistindo à entrada triunfal dos rebeldes, que estabeleceram na rica cidade uma Junta Provisória, órgão civil administrativo composto por cidadãos respeitáveis de Caxias, um Conselho Militar, órgão de comando formado por todos os chefes rebeldes e logo em seguida uma deputação (diplomática) composta por um sacerdote e vários cidadãos para as negociações de paz.

“Ilmo. e Exmo. Sr. – O Conselho Militar reunido na cidade de Caxias, e composto dos comandantes das fôrças do partido Benteví, que conta seis mil homens bem armados e municiados, tomou por medida salutar e mui conveniente ao sossêgo da província, mandar perante V. Excia. uma deputação composta dos Srs. João Fernandes de Morais, Hermenegildo da Costa Nunes, João da Cruz, Feliciano José Martins, padre Raimundo de Almeida Sampaio, Brasileiros probos e dignos de tôda a consideração para apresentar a V. Excia. os desejos e votos do partido Benteví, os recursos com que conta, e a firme determinação em que se acha para fazer respeitar as leis, a constituição e o trono augusto de S. M. o Imperador; e muito confia que V. Excia., convocando imediatamente a assembléia provincial, haja de adotar as medidas que se propõe, porque elas são sem dúvida a declaração da vontade da província. Caxias, 10 de junho de 1839 – Ilmo. e Esmo. Sr. Manoel Felisardo de Sousa e Melo. Segue-se as assinaturas.”

Além dêste ofício do conselho militar, vejamos o seguinte discurso da deputação cujo original temos ante os olhos.

“Ilmo. e Exmo. – O partido denominado Benteví, que parecia fraco, nas que tem adquirido fôrças e muito elementos de resistência a outro qualquer que o pretenda suplantar, havendo à custa de esforços e trabalhos conseguido apoderar-se de tornar sua tôda a província maranhense, respeitando sempre as leis e o trono augusto de S. M. o Imperador, nos manda em deputação perante V. Excia., a representar a V. Excia. o estado de engrandecimento em que se acha, e as medidas em que se julga convenientes ao bem da província, a fim de que V Excia., tomando-as na devida consideração, as adote para salvar a província das imensidades de males que a ameaçam, si elas não foram aprovadas. Não há dúvida, Exmo. Snr., que alguns excessos praticou êste partido no seu comêço; hoje, porém, que êle acaba de tomar Caxias, onde se municia de oitenta mil cartuchos embalados, mil armas, peças de artilharia, e mais de trezentos barris de pólvora, apoiados em mais de seis mil homens apresenta uma barreira irresistível, e manifesta a vontade da província. Assim, Snr., o partido Benteví, querendo sustentar os objetos mais caros aos bons Brasileiros, nos manda perante V. Excia., como muito interessado no sossêgo da província, haja de lhe dar uma resposta satisfatória, ou as condições que julgar convenientes, porque a deputação está autorizada a recebê-las ou modificá-las.”

Vejamos as instruções do conselho militar à deputação.

Art. 1º - O Conselho Militar e tropa reconhece e respeita o govêrno de S. M. o Imperador, as leis e a constituição do Império.

Art. 2º - O Conselho Militar declara que o povo e a tropa, que se acha reunido e se conserva com as armas nas mãos, não tem outras vistas mais que impedir ao Exmo. Snr. presidente da província abrogação das leis provinciais que criaram as prefeituras, e ofenderam a lei geral sobre a organização de uma guarda nacional, além dos artigos seguintes.

Art. 3º - Que o Exmo. Snr. Presidente da Província, reunindo extraordinariamente a assembléia provincial conceda uma anistia àquelas pessoas que de qualquer modo se acham comprometidas na presente luta, por quanto ela só tem por fim lançar por terra aquelas leis, que ameaçam as liberdades pátrias.

Art. 4º - Pede ao Exmo. Snr. Presidente da Província oitenta contos de réis em dinheiro, para indenização da tropa, por quanto a indenização imposta aos habitantes desta cidade (Caxias) que lhe fizeram a mais decidida oposição, não é suficiente para cobrir os deficits dos respectivos presos.

Art. 5º - Que os presos do Estado que se achavam em custódia, sendo processados legalmente, respeitando-se o fôro de cada indivíduo, conforme a constituição do Império e leis existentes, sejam obrigados a cumprir suas sentenças, havendo recursos delas na forma do código do processo.

Art. 6º - Que saiam da província os portuguêses, propriamente falando, ficando sòmente os adotivos, a quem não será permitido os empregos públicos, a venda de armas de qualquer natureza, munições ou quaisquer outros gêneros combustíveis, sob pena de serem tomados pela fazenda pública, com denúncia ou sem ela, e por inabilitados de pegar em armas em qualquer ocasião.

Art. 7º - Que dentre as fôrças Bentevís sejam considerados em seus respectivos postos aquêles oficiais de melhor conduta, e que mereçam a opinião assim do govêrno como do público, para serem empregados nos corpos da província.

Art. 8º - Que o conselho militar obriga-se a fazer depor as armas, logo que estas requisições sejam adotadas pelo Exmo. Snr. Presidente da Província e Assembléia Provincial, podendo admitir-se aquelas modificações que a deputação entender fazer, em cumprimento dos interesses e dignidades do partido Benteví.” (SERRA, 1946, 225 a 228.)

O Conselho Militar era um órgão de comando rebelde, do qual fazia parte todos os chefes de oposição, bem como líderes políticos do Partido Bentevi. O teor do ofício do Conselho Militar endereçado ao Presidente da província, Senhor Manoel Felisardo de Sousa e Melo, é datado de 10 de julho de 1839, ou seja, nove dias após a tomada da cidade de Caxias pelas tropas rebeldes. Dentre suas reivindicações percebe-se que o movimento possuía um caráter localista, pois não havia contestação por parte dos rebeldes no que diz respeito à ordem estabelecida em âmbito nacional: em outras palavras, eles respeitavam as leis e a Constituição do Império.

O partido coloca-se como porta voz do povo e da tropa no que se refere às suas reivindicações. Percebe-se o uso deste como “massa de manobra”: esta foi a forma encontrada pelo partido Bentevi de legalizar o movimento, denotando-lhe um caráter popular embora as reivindicações do povo nunca tenham sido atendidas. A principal delas é a abolição das leis provinciais que criaram as prefeituras, bem como “ofenderam a lei geral sobre a organização de uma Guarda Nacional”.

Tais leis provinciais, números 61 de 08 de junho e 79 de 29 de julho de 1838, esvaziaram o poder municipal, pois concentraram o poder administrativo nas dependências das Assembléias Legislativas Provinciais, acarretando indefinições e rivalidades na esfera do poder local. Não obstante, o partido Bentevi denuncia a ilegalidade de tais leis, pois “ameaçavam as liberdades pátrias e traduziam a ineficiência administrativa e a corrupção da guarda nacional sob liderança do partido cabano.

Um dos traços mais importantes foi a forte tendência xenófoba em relação a comunidade lusa que exercia cargos públicos e monopolizava o comércio maranhense. Essa xenofobia possui traços sócio – políticos: social quando referente ao comércio luso que impedia o acesso da camada média brasileira à economia local. Política quando referentes às pretensões Bentevis de assumir o mando político provincial, que estava em mãos do partido Cabano oriundo do partido Restaurador e suas tendências lusitanas. Daí a reivindicação de cargos públicos para os melhores oficiais do partido Bentevi.

Parte dos objetivos políticos buscados pelo partido Liberal foram conseguidos no governo Manoel Felisardo. Pressionado pelo fragor da luta, prometeu-lhe a revogação da “lei do prefeitos” e dos “guardas nacionais”. Tal vitória política foi suficiente para que os liberais se desvencilhassem dos balaios.

Percebe-se o fraco teor ideológico do movimento liberal no interior do movimento balaio, que se mostrou heterogêneo em suas origens ideológicas. Consequentemente, essa fragilidade de ausência ideológica corroborou para o insucesso do movimento.

Lívio Lopes Castelo Branco - foi um dos poucos representantes autenticamente bentevi engajado ativamente na luta. Natural de Campo Maior, no Piauí, era filho de uma das famílias mais ilustres do norte, foi vereador da câmara, promotor e juiz de paz na sua cidade natal.

Além de suas posses e cargos desempenhados, Lívio possuía ainda um motivo “todo especial” para entrar na Revolta: era inimigo político, dos mais ferrenhos, do Presidente da Província do Piauí, Visconde de Parnaíba. A Balaiada mostrava-se assim, uma oportunidade única para o líder piauiense. Conta-se também que Lívio Castelo Branco aderiu por estar com a cabeça a prêmio em sua província, pelo preço de um conto de réis. No entanto, não se sabe de onde surgiu a acusação.

O piauiense se engajou de livre e espontânea vontade, assim como abandonou o movimento. Após conceder uma face política ao mesmo, se refugiou no interior do Ceará e Pernambuco, foi anistiado (como poucos) e chegou a ganhar cargos políticos, atingindo assim seus objetivos.

Com a tomada de Caxias, o Maranhão e a Corte pareciam acordar de seu torpor, começando a organizar os reforços: tropas do Pará foram enviadas, a marinha de guerra comandada pelo futuro almirante Marquês de Tamandaré aportou em São Luís com uma charrua, uma corveta e um vapor, e o Piauí enviou seus homens.

O Visconde de Parnaíba organizou grandes reforços para conter a Balaiada, que nesta altura já avançava sobre o Piauí. Suas tropas cruzaram o rio Parnaíba para o Maranhão, excursionando pela província vizinha e atacando finalmente Caxias, a base rebelde, que foi libertada para em seguida ser tomada novamente pelos balaios.

Nesta segunda tomada de Caxias, Balaio acabou morto pelas mãos de um francês residente na cidade chamado Isidoro que, após se negar a entregar dinheiro e fazendas, disparou contra o líder rebelde. Ferido, Ferreira dos Anjos ordenou a morte do francês e dos seus, resultando em uma carnificina: um homem (Isidoro), duas mulheres e oito crianças, além do confisco de todas as duas posses. Balaio morreu saindo de Caxias.

No aniversário de um ano da invasão da Vila de Manga, o presidente do Maranhão, Manoel Felisardo, foi exonerado do cargo. Assumiu em seu lugar, como presidente e comandante das Forças na província, o Coronel Luiz Alves de Lima e Silva (futuro Duque de Caxias, como o chamaremos a partir de agora).

Começou em 1840 o declínio da Balaiada, que deixou de ter a união inicial em consequência da luta interna pelo poder. Todos os líderes rebeldes se consideravam aptos ao cargo supremo em vista de suas façanhas pessoais.

Duque de Caxias, se aproveitando desta desunião, empreendeu um plano de guerra eficiente. Após examinar a situação, computou 11 mil rebeldes ou 5% da população maranhense, que segundo Astolfo Serra, era composta de 217.000 “almas”. A partir destes dados, reuniu uma força legalista de 8.000 soldados divididos em três colunas, estabeleceu hospitais em todos os acampamentos, com médicos, cirurgiões e capelães, melhorou o Hospital Central na capital e agilizou a compra e fornecimento de mantimentos.

Com as três colunas expedicionárias foram impedidas articulações entre líderes e, principalmente, entre os balaios e os negros do temido D. Cosme. Logo se fez notar os efeitos da ofensiva legalista com a reconquista das comarcas do Brejo e Tutóia, a saída de Lívio Lopes Castelo Branco, e posteriormente, a tomada da cidade de Caxias, onde foi firmado o quartel-general das tropas do governo.

No entanto, deve-se o sucesso do novo presidente da província ao seu comportamento apartidário, que primeiramente estabeleceu a ordem política para depois restabelecer a paz geral no Maranhão.

As sucessivas vitórias dos soldados de Caxias desarticularam o movimento, e muitos rebeldes traíram seus companheiros ou foram obrigados a lutar contra os negros aquilombados em troca da anistia. Várias capitulações foram tentadas por parte dos balaios, entre eles Raimundo Gomes e Manoel Lucas de Aguiar, líder da Revolta no Parnaguá, mas todas foram negadas.

Raimundo Gomes ainda tentou nova investida à frente de mil homens, mas foi vencido. Buscou refúgio entre os rebeldes de D. Cosme, sendo preso por estes. O vaqueiro, após a fuga do cativeiro negro, investiu, com um novo bando, contra Rosário e Miritiba. Sem sucesso, acabou preso e morto por asfixia enquanto era deportado para São Paulo.

D. Cosme ficou como principal líder da Balaiada, lutando até o fim junto aos seus homens que não tinham nada a perder, pois lutavam pela própria liberdade. O Líder negro acabou enforcado. Os demais líderes e respectivos bandos se embrenharam no sertão, dando origem aos primeiros grupos de cangaceiros e jagunços profissionais.

A Revolta se desfez no mesmo ritmo em que se formou: aos poucos e sem lógica, cada qual com seu interesse, motivação ou convicção, traídos por alguns, abandonados por outros, sendo o restante dizimado pela, agora, corajosa e organizada tropa legalista.

Veja também: Causas e antecedentes | As balaiadas | Levante e repressão | Conclusão: As rebeliões regenciais

Fontes:
CARVALHO, Carlota – O Sertão - subsídios para a história e geografia do Brasil. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Emp. Ed. Obras Scient Literarias, 1924.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. 1.ª ed. 3.º vol. Rio de Janeiro: IBGE, 1959.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. 1.ª ed. 15.º vol. Rio de Janeiro: IBGE, 1959.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.) – História Geral da Civilização Brasileira. 2.ª ed. Tomo II, 2.º vol. São Paulo: DIFEL, 1969.
JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco – A Balaiada. 2.ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
PRADO JR, Caio. Evolução Política do Brasil: colônia e império. 21.ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1999.
SERRA, Astolfo – A Balaiada. 1ª ed. Rio de Janeiro. Biblioteca Militar, 1946.

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