dcsimg

Brasil - Balaiada (4) - Conclusão: As rebeliões regenciais


O período subseqüente ao 7 de abril de 1831 passou para a História do Brasil como um dos mais conturbados que o País conheceu. Quase toda a Nação conheceu rebeliões, arruaças, sedições e agitações contra a ordem estabelecida. Já é sabida a crítica instabilidade política em que o Império mergulhara, instabilidade esta provocada pelos choques dentro da própria classe dominante e desta com os demais componentes da estrutura social vigente. É conhecida, também, a grave crise econômico - financeira que abalava o País, contribuindo ainda mais para o aumento das contradições existentes.

Entretanto, como entender de maneira clara a efervescência revolucionária do Período das Regências? Numa perspectiva mais ampla, é a partir da Independência que entenderemos a crise regencial. As contradições amadureceram no pós - independência e no Período Regencial chegaram às vias de fato.


Armazém de carne-seca, escravos na roça no século XIX,
negros de ganho no Maranhão

A Independência do Brasil processou-se de forma pacífica, sendo desde o início empresariada pela classe dos grandes proprietários de terras. Deste modo, a emancipação revestiu-se de um caráter elitista, relegando-se a um segundo plano outros setores da sociedade. Dentro da organização imperial, de feição eminentemente conservadora, a posição de destaque, o mando e as instituições traduziam as aspirações da aristocracia rural. Quanto às demais categorias, a marginalização tornou-se um imperativo, em virtude da continuidade da mesma estrutura socio-econômica do período colonial: de um lado, o mandonismo senhorial e de outro lado, a servidão. Em tal organização social, deve ser afastada qualquer hipótese de uma homogênea oposição dos “debaixo” contra “os de cima”.

Ante a ameaça representada pelo próprio Imperador Absolutista, uniu-se a classe senhorial na defesa de seus “interesses comuns”. A classe dominante, em choque aberto contra o Imperador, sentiu a necessidade de mobilizar os ditos novos componentes (o povo e as tropas), atribuindo ao próprio D. Pedro o entravamento de reformas mais democráticas, que supostamente beneficiavam os menos favorecidos. Daí as promessas, que jamais seriam cumpridas.

Nesse contexto, a Balaiada ocorrida no Maranhão não se apresentou como uma manifestação revolucionária única, mas sim, como um movimento fracionado, com tendências e levantes sucessivos e ininterruptos, indicando direções variadas. Assim, é difícil encontrar, na Balaiada, um programa político claramente definido. A Balaiada foi a síntese de vários movimentos de cunho sócio – político, ocasionados pelos seguintes fatores:

1) Divergências político – partidárias entre liberais e conservadores;

2) estratificação de hierarquização sócio – econômica que gerou o preconceito de “casta” na sociedade maranhense. Daí o caráter popular do movimento, pois o mesmo englobava grupos populares diversos. Em tal organização social, deve ser afastada qualquer hipótese de uma homogênea oposição dos “debaixo” contra “os de cima”.

A heterogeneidade de componentes, bem como interesses defendidos, faz com que haja, na verdade, duas versões históricas sobre a rebelião Balaia: uma dos sertanejos e outra das lutas entre cabanos e bentevis. Apesar de distintas entre si, tais versões encontram-se interligadas. Tal distinção tem como principal fundamento tanto os motivos que levaram os indivíduos a se engajarem na luta, quanto as suas origens sociais. De um lado, apresentam-se os “balaios”, homens do sertão e marginalizados, que personificavam uma classe social que vivia, como bem definiu Caio Prado Júnior, às margens da sociedade (classe inorgânica), e que buscavam melhores condições de sobrevivência. Compunham-se de vaqueiros (Raimundo Gomes), artesãos (Ferreira dos Anjos, o “Balaio”) e aquilombados (D. Cosme) que se reuniram no interior e, desta reunião nasceram os movimentos de massa que rapidamente, pela inexistência de um programa político se desmantelaram.

Além das organizações populares, havia também um desacerto político – partidário no quadro da elite dirigente provincial, em que a oposição ao governo do Maranhão organizava-se em torno do grupo radical, denominado Bentevi. Seus membros originavam-se da classe média, na qual incluíam-se militares, políticos e membros do partido. Para este grupo, as agitações populares só tinham aprovação enquanto servissem de anteparo às “odiosas interferências centralizadoras”. Logo, confundiam as demais camadas sociais (balaios), procurando afastá-los dos reais motivos de suas dissidências, com argumentos ideologicamente frágeis e de fundo nacionalista. Atendidas as suas reivindicações e temendo a radicalização do movimento (ameaça haitiana), os liberais retiram o “apoio” ao movimento.

A heterogeneidade de interesses tanto entre o grupo balaio quanto o bentevi, e consequentemente a ausência de uma proposta ideológica, frustou o movimento. Enquanto a classe dominante ressurgia no cenário político, a população marginalizada enfrentaria enormes dificuldades para ser reabsorvida em atividades produtivas. As consequências do fracasso da revolta podem ser vislumbradas ainda hoje no quadro social nordestino atual: o sertanejo permanece como nômade em constante processo migratório e o mandonismo local ampara-se política e militarmente por bandos armados. Ou seja, a Balaiada não promoveu uma mutação sócio – econômica e política, pois a classe popular permaneceu submetida à dominação e desmandos da elite política.

Veja também: Causas e antecedentes | As balaiadas | Levante e repressão | Conclusão: As rebeliões regenciais

Fontes:
CARVALHO, Carlota – O Sertão - subsídios para a história e geografia do Brasil. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Emp. Ed. Obras Scient Literarias, 1924.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. 1.ª ed. 3.º vol. Rio de Janeiro: IBGE, 1959.
Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. 1.ª ed. 15.º vol. Rio de Janeiro: IBGE, 1959.
HOLANDA, Sérgio Buarque de (org.) – História Geral da Civilização Brasileira. 2.ª ed. Tomo II, 2.º vol. São Paulo: DIFEL, 1969.
JANOTTI, Maria de Lourdes Mônaco – A Balaiada. 2.ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.
PRADO JR, Caio. Evolução Política do Brasil: colônia e império. 21.ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1999.
SERRA, Astolfo – A Balaiada. 1ª ed. Rio de Janeiro. Biblioteca Militar, 1946.

>> AINDA SOBRE Balaiada

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: