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Os indianos: 10. Quadro Social-econômico - Época Védico-bramânica

André Bueno / Professor de História e Filosofia da FAFI-UV (Paraná) do blog indologia.blogspot.com

A principal característica desta civilização está numa vida agrícola baseada na eficácia do sacrifício divino. Os recursos dos aborígines e de seus conquistadores árias residiam, sobretudo, nos produtos da caça, da cultura e do gado. Além do arco e da flecha, os árias utilizavam um machado de cobre, armadilhas e fossos para a caça de grande porte (elefante, leão e, depois, tigre), cães para seguir as pistas e cavalos para a perseguição, bem como redes para capturar pássaros. Quanto à pesca, parece ter-se desenvolvido somente na época dos bramanas; os rios e ribeiros junto aos quais se instalaram as primeiras tribos árias são, de resto, pouco piscosos.

A agricultura é a principal ocupação. O gado compõe-se de vacas leiteiras, de touros e de cordeiros, de ovelhas e de cabras; cães de guarda são empregados para reunir os rebanhos, o que é feito pelo menos uma vez por dia, aproximadamente ao meio-dia. A vaca sempre foi um animal muito respeitado, sendo proibido matá-la e comer sua carne; é ordenhada três vezes por dia. O boi serve para puxar carros e para labores agrícolas. Quanto à cabra, seus pêlos servem à confecção de tecidos. O cavalo, por vezes integrado no rebanho, serve tanto para a agricultura como para ser atrelado a carros, quando da realização de cortejos rituais; é montado, mas não empregado para a guerra. O elefante só passa a ser domesticado a partir da época dos bramanas, revelando-se, desde então, um incomparável auxiliar do homem; ainda não é utilizado para a guerra. Enfim, o gato não parece ter sido ainda domesticado. Tem-se a impressão de que o rebanho é um bem comunal; é encurralado em certas áreas cercadas e alojado na casa.

A agricultura - que é designada por uma palavra comum aos hindus e aos iranianos - praticava-se com o auxílio de uma charrua que é, provavelmente, um arado puxado por dois carneiros; apesar de pretender-se que, na época dos brâmanas, lhe podiam ser atrelados até 24 bois, segundo parece, sua evolução foi bem lenta nos séculos seguintes, uma vez que figuras do século II a.C. (as mais antigas deste instrumento) atestam o seu aspecto rudimentar. Desde a época antiga são as culturas irrigadas cuidadosamente; os canais de irrigação, cavados e mantidos em comum, são, mais tarde, completados por reservatórios de água. A partir da época bramânica, tendo os árias penetrado nas regiões mais férteis do País do Meio, aprende-se a adubar as terras e a tirar proveito do humo e da ação benéfica das monções.

As culturas consistem, inicialmente, na da cevada (?). Estendem-se, mais tarde, ao arroz, que lá se aclimata, e ao algodão que fornece desde então a base da tecelagem; acrescentam-se a isto o trigo, as ervilhas, o sésamo, a cana-de-açúcar, muitas categorias de legumes, flores e frutos; nada se sabe de preciso a respeito da cultura destes últimos, mas encontra-se menção de Ficus religiosa Linn., e do Ficus indica Roxb.

A alimentação é composta, portanto, de cereais, transformados ou não em farinha, de leite e de manteiga, de mel, legumes, frutos e, até a época bramânica, de carne (cabra, carneiro, boi, cavalo); com efeito, a carne animal apenas foi proscrita a partir do momento em que os brâmanes impuseram uma estrita regra a este respeito. Existem, também, duas bebidas embriagantes: o soma, produzido à base de uma planta de origem iraniana não identifica da e empregada a partir da época védica para a realização do sacrifício, e a sura, extraída de diversas plantas, bebida pelo povo e parcialmente interditada.

O comércio parece ser, a princípio, pouco desenvolvido, mas bem logo torna-se florescente; é favorecido pela construção em comum de estradas carroçáveis ao longo das quais são construídos pousos para os viajantes. De resto, a viagem é habitualmente praticada, tanto pelos mendigos e brâmanes como pelos mercadores.

Estes últimos agrupam-se em corporações; reúnem-se para formar caravanas que, percorrendo as estradas e os caminhos, ligam entre si as principais cidades e transportam, de uma a outra região, as musselinas, os brocados, as sedas, os tapetes, drogas, perfumes, jóias, armas e objetos de cutelaria. É verossímil que estas caravanas cubram amplos percursos e já estabeleçam uma ligação com as regiões limítrofes da Índia, particularmente com os mercados afeganes e iranianos. Nas cidades, o comércio pratica-se em lojas abertas ao público e nos bazares. São freqüentemente mencionados ricos mercadores, o que prova a existência de atividade comercial. Existe também o comércio fluvial, sendo utilizados, para isto, navios suficientemente importantes para terem necessidade de remadores e de um timoneiro.

O direito comercial baseia-se na troca, sendo a unidade de valor, a princípio, representada pela vaca e por um ornamento (niccha) de ouro ou de prata; mais tarde, é conhecida também uma espécie de baga (crichnala) que serve igualmente de peso e uma placa ou moeda de ouro (satamana) valendo 100 crichnala. A empreitada, a dívida e o empréstimo são praticados; mencionam-se mercadores cúpidos e usurários; enfim, há taxas de juros a 1/6 e a 1/16. O contrato é habitual e cercado de uma espécie de ritual. O não-pagamento da dívida pode acarretar severa punição: o devedor pode ser condenado ao pelourinho ou à escravidão.
Quanto à indústria, baseia-se essencialmente no artesanato rural. Inicialmente, os ofícios mencionados são pouco numerosos: as mulheres tecem o algodão, os pêlos de cabra, costuram, bordam e trançam esteiras; os carpinteiros de carros fabricam os instrumentos aratórios, as carroças e os carros de guerra; os carpinteiros propriamente ditos talham a madeira; os ferreiros trabalham o cobre, o bronze ou o ferro; os curtidores preparam os couros e as peles.

rogressivamente formam-se as corpo rações e há, então, maior especialização, conforme os materiais tratados: a madeira é utilizada pelos segeiros, carpinteiros e escultores; o ferro, o cobre, o estanho, o chumbo, a prata (rara) e o ouro (muito abundante) são fundidos e modelados pelos ferreiros e ourives; o marfim, que entra na confecção de arcos e de flechas, é também trabalhado por especialistas. Os utensílios são de madeira, cobre e ferro. Existem ainda muitos outros oficios: joeireiros, oleiros, lavadeiros, tecelões etc. Os importantes são os barbeiros, os astrólogos e os sacerdotes das aldeias, por serem indispensáveis em todos os atos significativos da vida; os mais desprezados são os caçadores, pescadores, os carniceiros e todos os que, por força de seu trabalho, se vêem obrigados a matar animais (sobretudo nos Estados orientais). Enfim, há, naturalmente, pastores e agricultores; existem, também, guardiões e mensageiros. É enumerada, ainda, toda uma categoria de ofícios ambulantes, prestando-se aos divertimentos: saltimbancos, acrobatas, tamborineiros, flautistas, atores. Mais freqüentemente são estes ofícios hereditários, e certos corpos de ofício ocupam completamente uma aldeia, consagrada unicamente a uma indústria; mas há também os artesãos ocasionais, que são escravos autorizados a trabalhar para poderem resgatar-se.

Enfim, é provável que a guerra tenha sido também uma fonte de renda, especialmente para a classe dos rajania, mais tarde xátrias, que dominam a sociedade védica. São acompanhados pelos artesãos e agricultores, que serão, mais tarde, substituídos por soldados mercenários. Não dispomos de pormenor algum referente à repartição do espólio de guerra.


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