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Os indianos: 13. Sociedade na época Maurya

André Bueno / Professor de História e Filosofia da FAFI-UV (Paraná) do blog indologia.blogspot.com

A sociedade está mais diferenciada e melhor classificada que outrora, embora o rigorismo das castas não seja ainda certo e varie conforme as regiões e segundo a religião dominante. No círculo real e nos meios budistas, surgem também muitas funções das quais ainda não se fizera menção.

Embora o seu poder sofra forte concorrência de parte do sacerdócio, o rei é a principal personagem da escala social: é teoricamente escolhido pelos nobres e pelo povo devido às suas virtudes e sinais particulares, mas, na prática, a transmissão do poder real é amiúde hereditária. É sagrado solenemente em companhia da rainha; a sagração consiste essencialmente numa aspersão (abicheca) executada pelo oficiante, pelos brâmanes eminentes, pelos sacerdotes e assistentes.

Como na época precedente (desde que disponha de meios financeiros para isto), o rei celebra o sacrifício do cavalo (asvameda), o que consagra sua soberania. Possui muitas residências, mesmo na sua única capital e, em princípio, jamais habita o mesmo quarto duas noites em seguida. Todas as manhãs, em hora fixa, é acordado por um concerto; o sacerdote do palácio vem logo depois cumprimentá-lo; em seguida recebe o relatório de seus ministros. Encaminha-se a seguir ao tribunal de justiça; depois disto, submete-se a massagens, banha-se e toma uma refeição. Cumpridos os seus deveres religiosos, dá audiência a seus inspetores e agentes de informação. Tem, então, licença para divertir-se; entrega-se à prática de certos jogos (tiro ao alvo com o arco, partidas de dados etc.) e passeia nos jardins do palácio; inspeciona seus elefantes e sua cavalaria. Mas a qualquer momento, esteja ele tomando uma refeição, no gineceu, no seu quarto, na quinta, na carruagem, no parque, deve ser sempre informado do andamento dos negócios públicos. E em qualquer lugar o imperador pode tomar uma decisão; suas ordens, mesmo verbais, devem ser imediatamente executadas. Finalmente, celebra os ritos do crepúsculo, banha-se, toma a última refeição e retira-se para seus aposentos acompanhado pelos sons de sua orquestra particular. Tudo o que diz respeito à sua pessoa é cuidadosamente fiscalizado; no palácio são mantidos papagaios, pavões e gansos que assinalam pelos seus gritos a presença de serpentes venenosas, havendo também mangustos para matá-las; os instrumentos que servem à sua toilette e à sua massagem são examinados; inspecionam-se as iguarias que lhe são servidas e os medicamentos que lhe são prescritos.

Sua vida é cercada de luxo, mas ele é, antes de tudo, em pessoa, tanto na guerra como na caça, um guerreiro combatente. Seus principais divertimentos caracterizam-se pela virilidade; consistem em partidas de caça e em torneios, em jogos diversos, freqüentemente em companhia das mulheres do palácio. Não deve ser despótico; rodeado de conselheiros, amigos e parentes, governa o reino, levando em conta os conselhos dos chefes das corporações e os relatórios de sua polícia. Sua condição real é fortemente destacada pelos textos: sendo de essência divina, o soberano é o eixo do mundo humano, réplica terrestre dos deuses e, especialmente, do rei dos deuses, Indra, cujas proezas guerreiras e atos justiceiros reproduz na terra. Está, além disto, estreitamente ligado ao cosmo, cujos movimentos e particularidades reproduz cá embaixo.

A estrutura administrativa e política do reino repousa numa hierarquia semelhante à da época védica: os prefeitos de aldeias, subprefeitos, prefeitos, governadores de províncias, vice-reis e ministros. Estes últimos são encarregados da orientação das Obras Públicas, das Finanças e dos Negócios Interiores, cabendo ao rei o privilégio de cunhar moeda; comissários, um controlador e um provincial percorrem periodicamente (de três em três ou de cinco em cinco anos), em viagem de inspeção, o Império inteiro.

Um estrito controle imperial exerce-se por toda parte: nos gineceus, nas herdades, nos campos e até nas comunidades religiosas. Executam-no fiscais reais que dependem unicamente da autoridade do rei e que aplicam a justiça segundo um processo uniforme. A justiça é distribuída por diversos tribunais, aos quais são agregados juízes especializados incumbidos de garantir os direitos e atribuir penalidades às faltas; persistem, entretanto, os castigos corporais, os ordálios, as mutilações e as torturas. Quanto à política exterior, baseia-se em grande parte nas informações obtidas pelos espiões e policiais; todos os meios são bons, para tirar proveito da fraqueza inimiga; a avaliação de seus recursos é cuidadosamente prescrita, bem como a dos recursos dos povos aliados; recomenda-se a fomentação de discórdias entre muitos aliados inimigos do reino; a traição é um meio reconhecido no mesmo plano que a força das armas.
A situação e a vida dos xátrias, nobres e guerreiros assemelham-se muito às do rei: vários deles ocupam postos importantes, como o de chefe do exército, cuja investidura lembra muito a sagração real. Os xátrias gozam dos maiores privilégios, podem sacrificar para si mesmos, estudar o Veda e devem fazer doações sem conta aos membros do sacerdócio.

Os brâmanes são freqüentemente considerados como mais poderosos e mais importantes que os xátrias e que o próprio rei. Seu poder é ainda maior do que na época védica e repousa, em grande parte, no conhecimento da magia, a qual impregna todos os atos da vida individual e oficial. Enriquecem muito, em virtude dos donativos, incessantemente renovados, que lhes fazem o rei, os xátrias e os mercadores. O mais eminente dentre eles, o diretor do alto culto, é sempre o capelão real (puroíta), escolhido por causa de seu profundo conhecimento do Veda, da magia, da mântica e da política. O papel dos brâmanes no Estado parece considerável, pois encontram- se na base de seu funcionamento religioso e ritual, penetram na intimidade do rei, servem-lhe muitas vezes de conselheiros; são, enfim, cercados pelo respeito e pelo temor de todo o povo. Os mais respeitados são os anacoretas, homens e mulheres, que acabam os seus dias nos eremitários, observando um retiro frugal.

O desenvolvimento do comércio enriquece toda uma classe de mercadores que, reunidos nas corporações, têm o seu representante junto ao rei; eles próprios podem ser agentes reais. Sua prosperidade manifesta-se, às vezes, em importantes doações feitas aos lugares sagrados. A mesma classe ligam-se os banqueiros, cuja fortuna é amiúde vultosa. Mas a massa popular compõe-se principalmente de trabalhadores rurais e de todos os que vivem da criação ou da caça, de operários e artesãos, aos quais devemos somar os comediantes, lutadores, cantores, adivinhos e médicos, cuja habilidade é louvada por Megástenes e cujos cuidados se estendem também aos animais. No grau mais inferior da escala social, encontramos toda a sorte de funções, ofícios e condições: os habitantes da jângal e os estrangeiros, os caçadores, os cortadores de erva, os cocheiros e os condutores de elefantes, os palafreneiros e escudeiros, os portadores ou portadoras de pára-sóis, de enxota-moscas e estandartes, os soldados e os músicos. Por fim, todos os empreiteiros, os que pavimentam os parques, os carregadores etc.

A vida individual das altas castas codificou-se, mas não variou fundamentalmente. A partir deste período, divide-se em quatro fases hierarquizadas, que representam a curva ideal da existência masculina: passam sucessivamente pelos estágios de estudante (bramacharín), de dono da casa (griasta), de anacoreta (vanaprasta) e de eremita ou monge (samniasin). O bramacharin é, de fato, o sucessor do estudante védico; seu estágio dura pelo menos doze anos, pode prolongar-se durante quarenta e oito anos e mesmo, excepcional- mente, por toda a vida. Para que possa tornar-se um bramacharin, o jovem deve formular o pedido ao seu mestre (guru), oferecer-lhe alimentos e oferendas destinadas ao fogo do sacrifício. O guru procede, então, a uma pesquisa relativa ao nascimento e à família do postulante e, sendo o resultado satisfatório, acolhe-o em sua casa, onde se acham assim reunidos quatro ou cinco discípulos. Celebra- se a cerimônia que assinala o início da educação, simbolizando o nascimento espiritual do bramacharin. Desde então, leva este uma existência muito severa e é submetido a rigorosíssimas obrigações; a regra à qual obedece se estriba numa disciplina do corpo e do espírito e num trabalho tanto físico como intelectual; deve, em tudo, total submissão ao seu mestre. Vestido com uma única peça escura, feita de pele de antílope negro, começa a jornada levantando-se antes do guru; adora o sol e consagra seu coração aos deuses, indo depois ajudar o guru; banha-se três vezes por dia e come, depois do mestre, uma alimentação severamente prescrita. Ficando de pé durante o dia, sentando durante a noite, não se abriga quando chove, não se resguarda quando faz frio, atravessa os rios a nado; deve observar uma castidade absoluta e preencher certos deveres quotidianos, tais como mendigar para o guru, manter o fogo do sacrifício, limpar a casa, cuidar do gado, cultivar os campos; acompanha o guru nos seus deslocamentos, assistindo-o nas cerimônias rituais. Sua posição quanto ao guru é a de filho em relação ao pai. Por fim, deve dedicar-se ao estudo. Este varia segundo a casta; se se trata de um brâmane, o discípulo será formado para o ensino; se é um xátria aprenderá o manejo do arco e da espada, as sutilezas do combate e da guerra, conduzir um elefante e uni carro, a equitação, o salto e a natação; ser-lhe-ão ensinadas também a escrita, a pintura, a arte dramática e a medicina. Brâmane, xátria ou vaicia, todos têm de aprender a ser bons donos de casa (griasta); de qualquer maneira deverá o discipulo decorar o Veda e exercitar-se na sua recitação corrente; os objetos deste estudo são, principalmente, os textos do Rig-Veda, do Iajus e o Saman, a fonética, o ritual, a gramática, a exegese, a métrica, a astronomia etc. O método empregado pelo guru para o ensino destas diversas disciplinas é o de um catecismo segundo perguntas e respostas; tal método deve conduzir o bramacharin a praticar, seja a introspecção, cuja finalidade é aniquilar nele todo o desejo e dirigi-lo para o samniasca, seja a contemplação, que suprime a consciência da pluralidade e abre o caminho à ioga.

A duração do estágio na qualidade de bramacharin é variável, mas, ainda que, teoricamente, sejam indicados oito anos para um xátria e apenas quatro para um brâmane, não pode ele, de maneira alguma, terminar antes dos dezesseis anos. Quando o estágio chega ao fim, o bramacharin toma um banho ritual e procede à troca de vestes, à qual procedia também o estudante védico. Recebe um grau universitário que varia segundo o estado de seus conhecimentos adquiridos no decorrer dos anos de estudo. Deixa o seu guru, oferecendo-lhe presentes.

Imediatamente após superar o estado de bramacharin, o jovem reingressa na sua família; aí, é acolhido com honras; passa a ser recebido por toda parte e é declarado apto ao casamento. Pode, entretanto, prolongar a sua educação, com o objetivo de tomar-se um dono de casa (griasta) perfeito, devendo seguir, para isto, os ensinamentos de especialistas reputados e literatos célebres, os quais percorrem incessantemente o país; pode ingressar em diversas universidades (asrama) onde lhe serão ensinadas a arte, a literatura, a ortopedia, a zoologia, a física, a geometria etc. Pode também participar das discussões das academias que se reúnem nas diferentes províncias e mesmo de congressos convocados pelo rei, durante os quais as trocas de idéias e os debates possibilitam-lhe a aquisição de conhecimentos suplementares de filosofia e ritual.

Desde que se tomou griasta, o homem deve fundar um lar e casar-se na sua casta; deve executar ritos privados, viver de seu oficio, dar exemplo de devoção e autodomínio. Toda a sua vida está regulamentada pelas prescrições rituais; são inúmeras e dizem respeito aos menores atos da vida quotidiana, às menores circunstâncias da existência. Ganha-pão de sua família, ele prepara sua própria alimentação, acolhe os mendigos, faz oferendas e continua a estudar os Vedas todas as manhãs.

Embora só se considere o griasta depois de ter tomado mulher, esta tem uma posição menos privilegiada do que nos tempos védicos. É, entretanto, admitida nas asrama, onde uma bem cuidada educação lhe é ministrada, na qual a dança e o canto acompanham a filosofia. Mesmo participando integralmente da vida familiar e estando o seu papel de mãe sempre em primeiro plano (a ponto de suscitar a mesma veneração que encontramos na Divina Mãe ou Grande Deusa), nem por isto deixa de estar completamente submetida ao marido ou, na falta deste, ao filho mais velho. Apesar de profundamente respeitada e participando dos ritos quotidianos, não torna parte nos grandes sacrifícios. Finalmente, é-lhe absolutamente proibido um novo casamento em caso de viuvez, pois o matrimônio é um sacramento inviolável; as melhores esposas fazem-se queimar vivas na pira crematória de seus maridos. Numerosos tipos de mulher, freqüentemente contraditórios, aparecem através da literatura; o mais ideal é representado por Sita, esposa de Rama no Ramaiana, cujo amor fiel, beleza, virtudes familiares e pureza constituem um exemplo da felicidade conjugal. Mas existem, por outro lado, muitas alusões, segundo as quais a mulher é essencialmente impura, má, briguenta, leviana, falsa, infiel, de espírito incontrolável; eis por que se recomenda ao marido que "desconfie da esposa". Todavia, tem sempre direito à assistência, ainda quando abandona a casa conjugal.

Quando sente a aproximação da velhice, o homem entra num terceiro estado, que é o de anacoreta (vanaprasta). Retira-se, então, para a floresta; sua esposa pode ou não acompanhá-lo. Habita um eremitério servido por urna aguada e composto de choupanas de ramagens ou de pequenas construções rudimentares cobertas de colmo; um destes compartimentos é reservado ao fogo do sacrifício, que o vanaprasta trouxe do seu próprio lar, ao deixá-lo. O anacoreta veste urna roupa de casca de árvore, cujo filamento era obtido, ainda recentemente, esmagando-se entre duas pedras a casca de certas árvores (Sterculia urens e Antiaris suddecanea, em particular); traz os cabelos soltos, alimenta-se de frutos e raízes, acolhe sem distinção de casta todos os caminhantes que passam pelo eremitério e vive entre os pássaros e animais da floresta, alimentando-os e cuidando deles. Sua ocupação essencial é abastecer-se da madeira necessária à. manutenção do fogo do sacrifício; esta madeira é acondicionada em feixes e levada para o eremitério, devendo alimentar o fogo sobre o qual são realizadas as oblações rituais com o auxílio de colheres de formas e dimensões variadas. Devendo observar castidade total, retoma ele certos aspectos de sua vida de bramacharin, banha-se três vezes ao dia, dorme sobre a terra nua, entrega-se ao ascetismo, estuda e medita o Veda.

Enfim, o estado supremo da vida de um homem é o de samniasin, asceta nômade e mendicante, que ocupa a posição mais elevada e mais honrada. Praticando a confissão pública, possui, teoricamente, os mais profundos conhecimentos do Veda, da magia, da medicina e do ascetismo.

O acesso ao culto, por parte de camadas mais populares do que antigamente, parece generalizar-se lentamente, para atingir seu pleno desenvolvimento na época seguinte. O culto privado transforma- se: o do fogo é substituído pela samdia, que consiste na adoração do sol nascente, em abluções diversas e em exercícios respiratórios: acompanhados de meditação. As oblações vegetais continuam a gozar de grande prestígio. A base da alimentação é o arroz. A carne, consumida, na época védica, não parece ter o seu uso completamente permitido, pelo menos nos meios budistas: os gregos assinalam, de fato, que os hindus se abstêm de comê-la, e Açoca interdita, ao mesmo tempo, a morte .ritual de animais e o abate de gado. O arroz é, segundo os gregos, o elemento essencial da alimentação. As bebidas fermentadas não parecem proibidas, mas, com toda certeza, estão limitadas ao domínio ritual; o arroz serve-lhes de matéria-prima.


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