dcsimg

Os indianos: 2. As invasões indo-europeias e a civilização védica

André Bueno / Professor de História e Filosofia da FAFI-UV (Paraná) do blog indologia.blogspot.com

Esqueletos descobertos em Mohenjo-Daro por ocasião das escavações
realizadas por John Marshall e E. J. H. Mackay, entre 1922 e 1931

Dois esqueletos jaziam nos degraus de tijolos que ligam a ruela aos poços situados no nível inferior. Um deles era de um homem, outro provavelmente de uma mulher. A morte surpreendeu essas duas pessoas quando elas subiam a escada para sair à rua, e uma delas caiu de costas. Um pouco mais adiante, na ruela, havia dois crânios. Próximo dali, encontraram-se nove outros, dos quais cinco de crianças, amontoados como se tivessem sido jogados apressadamente em um fosso. Um cômodo de uma ampla casa situada na parte oposta da cidade abrigava um macabro depósito: esqueletos de treze adultos de ambos os sexos e uma criança - entre os quais figurava um crânio fendido, talvez por um golpe de espada, e outro danificado por uma arma semelhante.

Ao todo, trinta e sete cadáveres haviam sido abandonados por volta do ano 1800 a.C., nas ruas ou nas casas de Mohenjo-Daro. Tal descoberta, por ocasião das escavações realizadas por John Marshall e E. J. H. Mackay entre 1922 e 1931, constituiu para os especialistas como um enigma policial dos mais difíceis de resolver, já que não se tratava simplesmente de identificar os assassinos, mas também de esclarecer o mistério que cobria como um véu a verdadeira história do fim de uma civilização e do milênio que a ela se seguiu. Desde o suposto momento do massacre das vítimas, Mohenjo-Daro, essa grande cidade do próspero vale do Indo, parece ter permanecido desabitada durante dois mil anos.

Depois de muitos estudos e pesquisas concluiu-se que não fora a civilização que se extinguira, mas as cidades, e as armas não haviam tido ali nenhum papel. À medida que o Saraswati secava e se modificava o curso do Indo, é provável que as inundações tenham destruído numerosas colônias, enquanto outras, instaladas nas margens escarpadas dos rios, encontravam-se longe da água e das mudanças por elas provocadas. Mohenjo-Daro e Harappa foram construídas parcialmente sobre enormes plataformas de tijolo destinadas a protegêIas das enchentes, foram poupadas de danos maiores.

Ambas, porém, foram vítimas de outra enchente, a maré humana dos refugiados que vinham das povoações menos afortunadas. Talvez seja mais à superpopulação que ao abandono que devamos imputar a decadência e a insalubridade dessas cidades. E podemos supor que a agricultura, duramente atingida pelo esgotamento do solo e pelos danos causados pelas enchentes, mal tenha podido satisfazer as necessidades dessas populações em plena expansão.

Pode-se afirmar agora que o mistério havia se tornado mais denso: se as populações harappianas não foram dizimadas pelos invasores, por que teriam elas desaparecido sem deixar rastros, legando não mais que um nome à posteridade? De que maneira os indo-arianos, simples pastores nômades e belicosos, puderam dar à luz uma grande religião, uma literatura magnífica, e construir as soberbas cidades que iriam fazer a glória da Índia clássica a partir do século VI a.C., e por que estas realizações demoraram tanto a surgir?

Os métodos tradicionais da arqueologia não estavam à altura de fornecer a mínima resposta a essas perguntas. As cerâmicas e outros objetos deixados pelas culturas pós-harappianas não ofereciam informações suficientes para lançar luz sobre a idade obscura. Além do mais, os arqueólogos não encontraram nenhum vestígio dos primeiros indo-arianos, esses pastores que não deixavam marca durável no território que percorriam. Foi da singular colaboração entre cientistas e poetas há tanto tempo desaparecidos, associando um meticuloso trabalho de escavação e medição a meditações sobre as sutilezas dos cânticos, a certos detalhes dos rituais e ao testemunho de uma língua morta que nasceram os primeiros elementos de uma hipótese de todo nova. E esta nova maneira de sondar os mistérios do passado possuía raízes tão profundas quanto a própria história da Índia.


Rig Veda ou Rigveda, Livro dos Hinos, é o Primeiro Veda e é o mais importante,
pois todos os outros derivaram dele. Rig Veda é o Veda mais antigo e, ao
mesmo tempo, o documento mais antigo da literatura hindu, composto de hinos,
rituais e oferendas às divindades.
O sânscrito era a língua sagrada dos hindus, aquela que seus ancestrais indo-arianos haviam utilizado para conservar por escrito os textos sagrados mais antigos, os quatro Vedas, a começar pelo primeiro, o Rigveda. Em 1784 foi publicada a tradução do "Bhagavad-Gita", um dos textos fundamentais da filosofia hindu, que trata dos deveres e das boas ações e faz parte do Mababharata, poema épico composto por volta de 800 a.C. Primeira obra da literatura sânscrita a ser publicada em inglês, o "Bhagavad-Gita" tornou-se um clássico, muitas vezes comparado à Ilíada, relato da guerra de Tróia escrito por Homero, e a gozar de imensa popularidade pelo mundo afora.

Estabelecidas ligações entre certas palavras em sânscrito e seus equivalentes gregos e latinos, chega-se à surpreendente conclusão: o sânscrito, o grego e o latim apresentavam tantas semelhanças nos verbos e nas formas gramaticais que "nenhum filólogo podia examiná-las sem acreditar que haviam surgido de uma fonte comum, talvez desaparecida há muito tempo". Alargando ainda mais esta hipótese, declarava-se que muitas outras línguas, aí compreendidas as pertencentes aos grupos germânico e céltico, deviam provir dessa fonte comum. Além de descobrir o que se passou a chamar de família indo-europeia, foi aberto um novo campo do conhecimento, o da filologia comparada.

Os textos fundamentais desse corpus - os quatro Vedas e dois poemas épicos - tinham de excepcional o fato de oferecerem informações sobre uma época antiga, da qual nenhum outro texto escrito sobrevivera. Mesmo assim, seu valor documental é discutível, porque nada permite distinguir entre o que é mito e o que é história.

O primeiro dos quatro Vedas, o Rigveda, contém 11 mil e dezessete hinos, cuja composição original remonta provavelmente à primeira metade do segundo milênio. Esses poemas, que expressam o temor diante dos mistérios da vida e do universo, foram compilados pelos brâmanes, que lhes deram uma forma padronizada, pela qual os transmitiram oralmente através das gerações. Eles só foram postos em forma escrita muito mais tarde; o documento escrito mais antigo que se conhece remonta ao século XIV de nossa era, ou seja, muito tempo depois do início da era histórica.

Ao Rigveda juntam-se duas outras obras, o Yajurveda e o Samaveda, em que se encontram instruções e fórmulas detalhadas para os sacrifícios e a declamação dos hinos. O quarto, o Atharvaveda, um pouco mais tardio, comporta fórmulas mágicas destinadas a controlar as coortes de novos demônios e as moléstias desconhecidas encontradas pelos indo-arianos à medida que adentravam o subcontinente indiano. Após os Vedas surgiram as duas grandes epopeias, o Ramayana e o Mahabharata. Com o tempo, os Vedas acabaram por ser considerados revelações divinas da verdade metafísica, e as epopeias, instruções sobre a arte de guiar a própria conduta.

Para os arqueólogos a poesia védica e as meditações religiosas não constituem de forma alguma uma fonte de informação confiável. Seja qual for seu valor literário, esses textos não têm para eles nenhuma utilidade, já que não atribuem nenhuma data ou lugar aos acontecimentos que descrevem.

É a William Jones, que já havia revelado ao mundo a literatura védica, que se deve reconhecer o mérito de ter estabelecido, pela primeira vez, um liame entre a poesia e a história. O fator decisivo dessa revelação foi a descoberta de outro nome do Son, rio que deságua no Ganges, a leste de Patna. O culto pesquisador já possuía várias informações essenciais: sabia que o lugar em que confluíam o Ganges e o Son se localizara antigamente em Patna, antes de deslocar-se para leste movido por formidáveis catástrofes naturais, e que, nos tempos antigos, essa cidade se chamava Pataliputra. Um dia, ele encontrou em um trecho da literatura sânscrita uma referência ao Son como "rio do braço de ouro", ou Hiranyabahu, e o sentido dessa descoberta evidenciou-se para ele com uma clareza que teria certamente escapado a quem não dispusesse dessas informações.


Jones, que tornara a mergulhar nos textos clássicos gregos, na esperança de ali encontrar alguma ligação com os acontecimentos descritos pelos textos sânscritos, avaliou que a invasão do Pendjab por Alexandre Magno, em 326 a.C., lhe oferecia melhores oportunidades com relação a isto, já que os autores gregos tratavam esse episódio histórico com riqueza de detalhes. Mas infelizmente a invasão não era sequer comentada pelos trechos sânscritos. Mesmo assim, o sábio inglês descobriu que o historiador e diplomata grego Megástenes, que fora enviado em missão ao rei indiano Sandracottus por Seleuco I Nicator, um dos sucessores de Alexandre, escrevera numerosas páginas sobre a corte desse soberano da Índia e sobre sua capital, Palibothra, situada na confluência dos rios Ganges e Erranaboas. Se o segundo rio correspondia ao Son, seria possível sustentar a tese de que o Palibothra não era outro senão o antigo Pataliputra. Até a descoberta de Jones, de que o rio era igualmente chamado de Hiranyabahu, não havia como estabelecer nenhuma semelhança entre os nomes Erranaboas e Son.

A continuação das pesquisas veio revelar que na época de Megástenes reinava em Pataliputra (ou Palibothra) um rei conhecido na literatura védica pelo nome de Chandragupta, que correspondia a Sandraguptos, uma variante do Sandracottus de Megástenes. De acordo com o que se sabe sobre o reino de Seleuco I Nicator, foi entre 325 e 313 a.C. que Chandragupta Mauria subiu ao trono. A partir daí, a lista de reis fornecida pela literatura védica permitia estabelecer um ponto de partida cronológico para o período seguinte. Mas não se dispunham de elementos suficientes para recuar tanto no passado.

Apesar da imprecisão das informações no que tange a datas e lugares, o leitor atento podia extrair dos Vedas bom número de informações sobre seus autores indo-arianos e o território onde viviam. Em um dos hinos mais recentes, os versos do Rigveda fazem frequentes alusões aos cinco rios que dão seu nome ao Pendjab (pendi quer dizer "cinco", e ab "rio"), mas o Ganges não é citado sequer uma vez. Mesmo assim, nos Vedas seguintes o território dos indo-arianos desloca-se progressivamente para leste, para além do caudaloso rio chamado Saraswati, até as planícies de Kurukshetra, no Doab, ou país dos Dois Rios, entre o Ganges e o Yamuna.

Os autores do Rigveda falam de si mesmos como pastores semi-nômades, de índole belicosa, que extraem alguns recursos da agricultura para complementar sua riqueza em cavalos e bovinos. As divindades de seu panteão são muito poderosas - Indra, deus da guerra e da conquista, que despeja raios do seu carro de fogo e gosta de embriagar-se com o licor sagrado; ou Agni, deus do fogo, encarregado de queimar as oferendas em holocausto e de servir de intercessor entre os homens e as inumeráveis divindades associadas aos diferentes aspectos da natureza.

Por meio do culto prestado a cada um desses deuses - cujos rituais são descritos pelos Vedas - o crente busca unir sua alma à divindade, fonte do curso harmonioso do nascimento, do crescimento, da velhice e da renovação, que são a herança do homem, dos deuses e do universo. Esse espírito é chamado pelo Rigveda de Rita, enquanto os outros Vedas o denominam Brama. Somente a realização desse poder universal pode liberar a alma do ciclo do nascimento, da morte e da reencarnação.

Tal como descrita nos primeiros Vedas, a sociedade indo-ariana dividia-se em três classes - os brâmanes, os kshatriya e os vaishya -, que compreendem todos os "nascidos duas vezes", isto é, todos aqueles que receberam os sacramentos que permitem participar dos rituais védicos. A primeira das castas era a classe dos especialistas nos rituais, dos sacerdotes e dos poetas; a segunda era a dos guerreiros, que também podiam ser chefes de tribos; e a terceira, situada na parte inferior da hierarquia, era a dos mercadores e dos artesãos.

Com o passar do tempo, a cultura védica foi-se tornando cada vez mais complexa. Os textos e as epopeias mais tardias contêm descrições do uso dos instrumentos de ferro (ausentes no Rigveda) e do arado, bem como da cultura de diversos cereais, do trigo ao arroz. À medida que aumentavam em número, os indo-arianos foram colonizando extensões de terra cada vez mais vastas e contraindo matrimônio com as populações locais, dando ensejo ao surgimento de rixas e rivalidades entre clãs e alianças de clãs, entre invasores e nativos. Esses antagonismos exigiram uma concentração de recursos e de poder, que levaram à necessidade de uma organização mais sofisticada e consequentemente de uma maior estratificação social.

Os dois estamentos superiores da sociedade indo-ariana logo perceberam que suas especialidades podiam ser complementares, e que podiam colaborar um com o outro, conservando os sacerdotes sua supremacia sobre os assuntos religiosos e culturais, e estendendo os guerreiros sua autoridade ao campo político e econômico. A sociedade indo-ariana dividiu-se, a partir de então, em duas esferas, uma espiritual e outra secular, cada uma delas ainda mais complexa. Os rituais e sacrifícios passaram a ganhar cada vez mais importância e foram codificados na literatura védica, o que permitiu drenar mais e mais poder e riqueza para as mãos dos sacerdotes e guerreiros.

Foi assim que nasceu a noção do dharma, "o que sustém", ou "a ação justa", corpo de doutrinas filosóficas, religiosas e sociais que se tornaria o fundamento do hinduísmo e passaria a ocupar um lugar preponderante no pensamento e no comportamento dos indianos durante toda a época clássica e até a era moderna. O dharma guia o atman, ou alma individual, para que esta realize sua identidade essencial com Brama, a fonte de todas as existências. Na sequência das tribulações, que são a herança da vida e do ciclo das reencarnações, cada um pode tanto aproximar-se da moksha, última serenidade e libertação da transmigração, como afastar-se dela. Aproxima-se aquele que cumpre todos os dias os rituais que geram méritos religiosos, se dedica à prática da meditação ioga, segue os ensinamentos de um guru, ou mestre espiritual, e com seu comportamento dá mostras de sua pureza e desapego. Já o que se afasta dessa via, seja na vida atual, seja na precedente, fica impedido de atingir o moksha devido ao seu carma (lei das causas e efeitos que transcende o limite da existência).

Os Vedas mais recentes fazem referência a uma excrescência das três classes acima definidas, justificada pelo fato de que a sociedade conta em seu meio com indivíduos que não merecem nem o status nem os privilégios dos nascidos duas vezes. Com o tempo, essa categoria de seres humanos inferiores, os shudra, encontra-se não apenas excluída dos rituais de purificação do carma mas também é considerada propriedade das classes superiores, tal como o gado ou os utensílios. Baseada originalmente na capacidade de cada um, essas divisões da sociedade indo-ariana foram pouco a pouco se transformando em um sistema de castas rígido e hereditário, favorável às classes superiores e às corporações de artesãos, cuja prosperidade - material e espiritual - provinha do trabalho dos "intocáveis", casta de servos privados de direitos que sobreviveu até nossos dias com o mesmo nome.


Os brâmanes asseguraram seus privilégios retendo a exclusividade na celebração dos rituais - somente eles memorizavam e transmitiam os Vedas -, defendendo o recurso às cerimônias em todas as circunstâncias possíveis e imagináveis e cobrando honorários elevados para cuidar que elas se realizassem segundo as regras. Ao mesmo tempo que eles exerciam essa autoridade ritual até sobre os poderosos chefes de tribo, sugavam a riqueza da classe dos mercadores e fiscalizavam para que os shudra permanecessem na base da pirâmide social, interditando seu acesso aos méritos decorrentes da observação dos rituais.

Essa divisão da sociedade e do poder estabelecida pelos indo-arianos ajuda a explicar um dos mistérios da pretensa idade dos Vedas: a ausência de grandes cidades. Enquanto a classe dirigente colabora com o clero e o exercício do seu poder passa pelos rituais, não se faz sentir a necessidade de uma administração complexa. Enquanto a acumulação de riqueza é severamente controlada, não há lugar para os centros comerciais. Essas observações levam a pensar que na sociedade descrita pelo Rigveda a vida devia concentrar-se nas aldeias e nos centros religiosos; e é exatamente isso que confirmam os vestígios arqueológicos dos primeiros tempos da era védica.

Embora os Vedas tenham permitido aos pesquisadores construir uma imagem sumária mas razoavelmente clara da evolução dessas tendências no seio da sociedade indo-ariana, permanece ainda uma pergunta: Qual era a identidade das populações autóctones que os invasores eurasianos encontraram ao chegar, e que tipo de relações foram instauradas entre os dois grupos? Os Vedas nada dizem a esse respeito, englobando todos os não-arianos em termos genéricos como Pani e dasyu, aos quais se juntam às vezes qualificativos pejorativos, tais como "de pele escura" ou "de nariz chato".

Entretanto, uma análise mais minuciosa e mais aprofundada dos Vedas levou os linguistas à conclusão de que os indo-arianos nem sempre tinham encarado as populações autóctones com tal desprezo. O sânscrito dos Vedas, por exemplo, guarda traços fonéticos e semânticos da língua dravída, que muitos estudiosos acreditam ser derivada da língua harappiana. Tais empréstimos sem dúvida não teriam sido possíveis sem um contato estreito e prolongado, e talvez até mesmo sem casamentos entre os dois grupos, ou sem a abertura da religião védica às populações nativas. O exame atento do nome de um herói védico indica, por exemplo, uma ascendência dasiu, e os patronímicos de diversos brâmanes citados nos Vedas mais recentes não deixam dúvida quanto à sua origem não-ariana.
Tão logo os arqueólogos decidiram aplicar esses trabalhos à realidade para enriquecer o quadro da vida cotidiana na época védica fornecido pela literatura, e estabelecer a identidade das populações com as quais os indo-arianos tinham entrado em conflito, os dados que recolheram pareceram-lhes à primeira vista desconcertantes. A maioria dos estudiosos permaneceu admitindo a hipótese de que, mesmo abandonando a ideia de uma grande conquista militar, as populações indígenas, fosse qual fosse sua identidade, tinham ao menos sofrido, da parte dos indo-arianos, uma magistral derrota no campo cultural. Certas descobertas arqueológicas - conjunto de objetos de cobre, vestígios de uma cerâmica distintiva e sinais do início da idade do ferro - pareciam confirmar esse ponto de vista. A tentação de atribuir todas essas inovações aos invasores nômades era tão sedutora que poucos resistiram a ela, embora, afinal de contas, não houvesse nenhuma prova para fundamentá-la.

Em 1951, o número de conjuntos de ferramentas de cobre desenterrados no Doab e no centro da Índia chegava a trinta e sete. Como tais ferramentas diferiam, pela forma e pela função, das da cultura harappiana, e como atribuía-se a elas uma data que parecia coincidir com a da chegada dos indo-arianos, alguns estudiosos concluíram que elas constituíam mais um sinal da invasão e da dominação do vale do Ganges pelos indo-arianos. Mas as pesquisas posteriores vieram desmentir de uma vez por todas essas suposições cômodas. Os modernos métodos de datação permitiram, com efeito, determinar que certos objetos desses conjuntos haviam sido enterrados desde 2650 a.C., e que a aparição dos indo-arianos remonta ao ano 1800 antes de nossa era.

As escavações efetuadas por B. B. Lal, membro da Sociedade Indiana de Arqueologia e aluno de Mortimer Wheeler, oferecem outro exemplo de como a vontade indomável de confirmar as hipóteses em vigor a propósito das origens e da história dos indo-arianos muitas vezes se surpreende com perspectivas inesperadas. No início da década de 1950, Lal procurou levantar o véu de mistério que caía sobre a idade obscura dos Vedas, e tentou resolver o que ele qualificava de "um dos problemas mais desconcertantes da arqueologia indiana". Em sua busca da verdade sobre os indo-arianos, ele tomou como guia o poema épico Mahabharata, onde se encontra o relato sobre a batalha entre cinco príncipes virtuosos e seus cem primos maus pelo domínio de um reino muito próspero.
Depois de identificar mais de trinta sítios associados ao relato, Lal lançou-se a uma estafante empreitada de exploração sistemática. O essencial de suas descobertas consistiu em cacos de louça de barro, um dos vestígios mais comuns deixados pelos povos antigos. As camadas inferiores dos sítios aonde o haviam levado os relatos da literatura védica revelaram entretanto peças de um gênero especial, "uma bela cerâmica cinza decorada com motivos desenhados em negro", para usar as próprias palavras do arqueólogo. Praticamente todos os sítios védicos do Pendjab e do Doab revelaram esse estilo de cerâmica, denominado Painted Grey Ware, o qual remonta à primeira metade do primeiro milênio antes de nossa era. B. B. Lal passou então a considerar uma possibilidade, a de que "essa cerâmica detém talvez a chave dos mistérios da idade obscura".

Assim como a presença de esqueletos havia sido interpretada por Wheeler como sinal de uma invasão militar, também Lal e seus colegas dos anos 50 supuseram que a mudança observada na cerâmica assinalava o aparecimento de um novo povo. A Painted Grey Ware não se parecia com a cerâmica harappiana; além de sua argila ser mais fina, o cozimento mais cuidadoso e a decoração mais elaborada, a elegância das formas levava a marca do seu criador. Por volta do século VI a.C. a Painted Grey Ware foi substituída pela Northern Black Polished Ware, cerâmica negra polida associada à época clássica da Índia.

O fato de que esse tipo de cerâmica facilmente identificável ocupava lugares precisamente defInidos veio reforçar a interpretação tradicional sobre a idade obscura: a cultura da Painted Grey Ware, dos indo-arianos, havia suplantado a cultura harappiana, antes de ser, por sua vez, substituída pela Northern Polished Black Ware.

Outras descobertas pareciam confirmar indiretamente esse cenário. Ao lado das cerâmicas cinzentas pintadas, encontraram-se por vezes esqueletos de cavalos e vestígios de trabalhos em ferro, metal que surgiu no subcontinente quase na mesma época. Foi assim que Lal e outros pesquisadores construíram a imagem dos indo-arianos como um povo de cavaleiros belicosos, que trabalhavam o ferro e produziam a cerâmica acinzentada, e de uma cultura que acabou por desalojar a civilização urbana do vale do Indo.

Houve entretanto outros arqueólogos que chamaram a atenção para o fato de que não se havia descoberto nenhuma cerâmica do tipo Painted Grey Ware fora dos sítios do noroeste da Índia. A ideia de que os indo-arianos tinham trazido a cerâmica consigo, sem que dela restasse o menor traço antes de sua chegada, tinha poucas chances de ser aceita. A conclusão que acabou por firmar-se foi a de que a Painted Grey Ware não era um produto importado pelos invasores recentes, mas fruto do trabalho das populações autóctones, que provavelmente haviam ocupado a região durante muito tempo.


Painted Grey Ware (PGW) encontradas no Ghaggar e regiões
Indo-Ganges e pertencem ao início da Idade do Ferro na Índia
Quando os especialistas decidiram estudar os vestígios arqueológicos sem se deixar influenciar pelas hipóteses antes prevalecentes a respeito dos indo-arianos, pareceu-lhes mais lógico pensar que os autóctones tenham procedido a mudanças na cerâmica que produziam do que deduzir dessa modificação a chegada de uma nova população. Desde o final da década de 1970, são cada vez mais numerosos os especialistas na arqueologia da Índia antiga a acreditar que a Painted Grey Ware - da mesma forma que os conjuntos de ferramentas de cobre - é produto da evolução de uma cultura de muitos séculos de existência e estabelecida por muito tempo na região.

Sabe-se que os harappianos expulsos de suas cidades pelas inundações e modificações de curso dos rios emigraram para o vale do Indo, o Pendjab e os limites ocidentais do vale do Ganges, onde se empenharam em fazer renascer sua agricultura em novas terras, iniciaram os trabalhos em cobre e em ferro e se adaptaram a culturas e técnicas que ate então lhes eram desconhecidas.

A introdução de culturas de verão - como a do sorgo, do milho e do arroz - revela uma policultura sazonal bem mais complexa e mais produtiva que os métodos e culturas precedentes, e geradora de excedentes de cereais que permitiram a expansão da pecuária, do povoamento e do comércio. Nessa mesma época, as espessas florestas do sudeste do Doab e do centro do vale do Ganges abrigavam outros grupos nativos, constituídos principalmente de caçadores-coletores, que eventualmente praticavam também a agricultura e a pecuária. Durante o segundo milênio anterior à nossa era, essas populações receberam influência de seus vizinhos harappianos do oeste, e aprenderam a cultivar o arroz, o trigo e a lentilha, além de iniciarem a criação de bovinos, porcos e cabras. Com o aumento da produção de alimentos, elas começaram a se aglutinar e a formar povoados, nos quais, com o passar do tempo, se foi impondo a especialização de tarefas e a estratificação social. Essas tendências, que levam as marcas da cultura harappiana, já estavam profundamente enraizadas antes da chegada dos indo-arianos.
Graças a esses novos conhecimentos, a tese da descontinuidade, que andava a par com as antigas interpretações sobre a idade obscura, cedeu lugar à hipótese de uma interação contínua e prolongada entre diversas culturas estabelecidas. À medida que os indo-arianos franqueavam as gargantas e passagens das montanhas do noroeste e penetravam no interior do subcontinente indiano, entravam em contato com as populações harappianas do vale do Indo e do Pendjab. As relações entre esses dois grupos eram conflituosas, e os pastores nômades não cessavam de lançar às cidades dos agricultores ataques sucessivos, perpetuados nos relatos do Rigveda.

Mesmo assim, não se pode afirmar que os indo-arianos pura e simplesmente subjugaram as populações harappianas, porque a hostilidade não excluía a troca de ideias. Foi assim, por exemplo, que durante o segundo milênio a.C. as populações do Swat, vale de um afluente do Indo situado nas montanhas que se erguem na fronteira do Meganistão, incineraram seus mortos segundo a forma descrita pelos Vedas, sem entretanto abandonar de todo seus antigos métodos de sepultamento. Mais ou menos na mesma época apareceram em Pirak e no Swat estatuetas de cavalos, enquanto os artesãos começaram a pintar nas cerâmicas de Harappa novos motivos, talvez atribuíveis a uma influência indo-ariana. Ao que tudo indica, ocorreu então o que costuma acontecer quando um povo agressivo e versado na arte da guerra entra em contato com outro, econômica e tecnologicamente mais avançado: uma fusão progressiva que preserva o melhor das duas culturas. Em geral, o poderio militar serve para impor a ordem e remanejar de alto a baixo o aparelho social e político, mas não toca nas aquisições técnico-econômicas.


Curva no Ganges, nos montes Garhwal, em Uttarakhand
No decorrer do primeiro milênio antes de nossa era, esse processo ao que parece foi intensificado no vale do Ganges. Embora em termos numéricos a relação de forças tenha sido extremamente desfavorável para os recém-chegados indo-arianos, seus carros de guerra e seus modos belicosos deviam representar ameaça suficiente para convencer as populações nativas a buscar entendimento com eles. Por outro lado, não é impossível que a decadência da antiga ordem social e religiosa da civilização harappiana tenha deixado uma lacuna que veio a ser preenchida pelos rituais indo-arianos, para grande alívio das populações indianas.
Em vez de esmagar totalmente os nativos, os indo-europeus certamente preferiram integrar a elite dos chefes tribais e religiosos da civilização do Indo à sua própria hierarquia, ou seja, às classes superiores - sacerdotes, guerreiros, administradores e artesãos - da sociedade védica. Depois, sendo do interesse dos elementos dominantes da população autóctone o sucesso e a perenidade da sociedade integrada, eles trataram de relegar a maioria dos nativos à classe social mais baixa, a dos servos.

Essa foi, em todo o caso, a ocasião de uma notável síntese, na qual os indo-arianos desempenharam aparentemente papel mais de catalisadores do que de agentes principais. Talvez eles nem tenham inventado nem importado a Painted Grey Ware, mas certamente contribuíram para o surgimento do contexto que facilitou a difusão dessa cerâmica. Quanto ao cavalo, é indubitável que se deve aos indo-arianos sua introdução no subcontinente, embora a utilização para fins econômicos e militares só tenha se generalizado bem mais tarde.

Seja como for, os indo-arianos deixaram uma marca incontestável na vida religiosa, social e intelectual da Índia. Sua influência foi tão forte que bastaram alguns séculos de coexistência para que, das planícies do Pendjab às florestas do Doab, as populações nativas abandonassem seus próprios idiomas e adotassem o dos recém-chegados, idioma este precursor do sânscrito.

O maior mérito da fusão dos povos do centro-norte da Índia é ter realizado, no desenrolar da época védica - à qual o epíteto de obscura se tornou definitivamente inadequado -, uma síntese que, a partir do ano 600 a. C., lançou os fundamentos sobre os quais haveriam de expandir-se as maiores cidades-estados conhecidas da história do mundo. O antropólogo americano Jonathan Mark Kenoyer relacionou cinco condições indispensáveis para que esse gênero de cidades pudesse aparecer e perdurar, e constatou que o subcontinente indiano da época reunia todas elas. Entre esses elementos indispensáveis figuram a estratificação da sociedade, de par com a existência de uma rede de ligações entre especialidades econômicas e classes sociais, e a disponibilidade de certo número de recursos, aliada a uma evolução técnica suficiente para produzir excedentes.

Sem sombra de dúvida, a desintegração da agricultura provocada pelas gigantescas modificações do curso dos rios desempenhou papel primordial na queda das grandes cidades harappianas durante o segundo milênio, e a revolução agrícola representada pela adoção da policultura sawnai, pelas populações sobreviventes, encorajou a subsequente expansão das cidades harappianas. A onipresença da Painted Grey Ware testemunha um progresso regular das técnicas e uma crescente aptidão para produzir e distribuir excedentes. Foi assim que as próprias populações nativas da Índia criaram uma parte dos termos da equação que resultaria em um renascimento do urbanismo.

Se é verdade que anteriormente se atribuiu um papel excessivamente importante aos indo-arianos na história da Índia antiga, é também indubitável que sua contribuição foi essencial. Foi a divisão da sociedade em classes e ocupações bem determinadas que forneceu à fase seguinte de urbanização seus órgãos e sua estrutura. Os privilégios da elite não teriam podido existir sem o trabalho dos menos afortunados. Os chefes espirituais tinham necessidade de templos, de vestes sacerdotais e de imagens religiosas; os reis, de palácios, de adereços e de exércitos; os guerreiros, de armas, de armaduras e de meios de subsistência; os artesãos, de locais de trabalho, de matérias-primas e de ferramentas. E nenhuma dessas classes era auto-suficiente.

Em uma sociedade tão estratificada, era indispensável transformar os excedentes agrícolas em alimentos e levá-los do produtor ao consumidor. À medida que outros recursos, tais como o ferro, as pedras preciosas e conchas marinhas, passaram a ter importância para os artesãos, que forneciam armas aos guerreiros, adereços aos ricos e poderosos e objetos sagrados aos sacerdotes, tomou -se também necessário extraí-los, processá-los e transportá-los. As rotas entre as fontes de matérias-primas e seu lugar de processamento e consumo entrecruzavam-se, e nos locais dessas intercessões de atividade humana o surgimento de cidades se tornou primeiro uma possibilidade e logo depois uma necessidade.

É o surgimento de um novo tipo de cerâmica, mais refinada - a Painted Grey Ware, depois a Northern Black Polished Ware - que melhor ilustra a amplitude dos progressos tecnológicos conquistados ao longo dessa época de profundas mutações. Mas os imperativos decorrentes da estratificação social - necessidade de ferramentas e de técnicas para lapidar pedras preciosas, colorir pérolas, trabalhar o vidro e as conchas e fabricar todos os emblemas indispensáveis à identificação da classe - também contribuíram muito para o desenvolvimento da cultura da idade védica. No fim do período, os conflitos pela supremacia entre reinos em vias de consolidação estimularam o progresso da tecnologia militar, seja de obras defensivas, seja de armas ofensivas. Os ataques e as escaramuças deram lugar a verdadeiras campanhas militares organizadas com o fim de obter os recursos de que o regime tinha necessidade. Foi então que uma parte cada vez maior da região centro-norte da Índia caiu sob o domínio de repúblicas ou de reis.

Os sacrifícios de cavalos, prática ritual que adquiriu importância cada vez maior durante o período final da idade védica, ilustram bem a forma como se desenrolou o processo. O ritual exigia que se deixasse um cavalo andar a esmo durante um ano inteiro acompanhado de um grupo de guerreiros. Ao final desse tempo, o rei sacrificava o animal e reivindicava a posse de todas as terras que ele havia percorrido. Ao encerrar-se a era védica, por volta do ano 600 a. C., o vale do Ganges abrigava dezesseis grandes estados com suas capitais, que rivalizavam entre si pelo comércio e pela guerra.

As maravilhosas cidades da Índia clássica já estavam em gestação, bem como as grandes religiões - entre outras, o budismo e o jainismo - que entrariam em conflito com os rituais e as tradições de brâmanes hindus. Um grande imperador preparou-se para entrar em cena para unificar todas as cidades-estados do Ganges. E graças à escrita, cuja utilização se generalizara para a redação das proclamações, dos códigos de leis e para o registro dos acontecimentos, nenhum detalhe dessa efervescência se perdeu. Ora, nada disso teria se passado sem o formidável entrecruzamento de culturas que foi obra - e a contribuição durável - da idade védica, uma época que na verdade não merece de forma alguma o epíteto de obscura.


>> AINDA SOBRE Os indianos

Comentários

Siga-nos:

Instituições em Destaque

 
 

Newsletter

Cadastre-se na nossa newsletter e receba as últimas notícias do Vestibular além de dicas de estudo: