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Os indianos: 6. Grandes rios, grandes civilizações

André Bueno / Professor de História e Filosofia da FAFI-UV (Paraná) do blog indologia.blogspot.com

O delta do Ganges é o maior do mundo. Esta imagem da NASA mostra o delta e
sedimentos que correm para a Baía de Bengala. Alimentado por chuvas de monção e
degelo do Himalaia, os rios transbordaram frequentemente. Estas inundações muitas
vezes causam danos catastróficos, mas também enriquecer o solo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os grandes rios engendraram as grandes civilizações: o Nilo, egípcio; o Tigre e Eufrates, sumerianos; o rio Amarelo, chinês; o Indo, indiano. Contudo, neste vasto subcontinente indiano sete vezes maior do que a França e hoje dez vezes mais povoado, dois rios são responsáveis por esta civilização; se esta eclodiu efetivamente na bacia do Indo, em compensação, será na do Ganges, principalmente no decurso dos séculos seguintes, que se sucederão uma série de dinastias que farão questão de estabelecer aí suas capitais.

Além disso, na mitologia indiana, o Ganges é chamado de Santa Mãe e é considerado como a réplica, aqui na terra, da Via Láctea; todo o crente aspira ir um dia em peregrinação, mergulhar seu corpo no rio sagrado, e talvez obter o insigne favor de morrer às suas margens, de aí ser incinerado e ter as cinzas misturadas às suas águas. Ainda hoje, com as suas escadas (ghats), mergulhando no rio, Benares (imagem ao lado) é a cidade santa onde os peregrinos vão aos milhões purificar-se e procurar a esperança de uma vida melhor para sua próxima reencarnação. Assinalemos, no entanto, que esta água purificadora está terrivelmente poluída. Bernard Shaw, humoristicamente cáustico, dizia que os próprios micróbios não podiam viver ali!

Estes rios traziam a esperança, mas também a vida e a morte. Na fornalha indiana fustigada pela excessiva monção, não há vida sem água, sem rega; os rios e os riachos arrastam esta água preciosa. Criadores de vida, os rios podem igualmente tomá-la de súbito, pois seu humor é estranhamente caprichoso e vagabundo: em algumas horas, acontece encherem-se e arrastarem tudo; de se deslocarem também e de se fixarem a quilômetros do leito original anterior!

A água comanda tudo, sobretudo a implantação da aldeia ou da cidade, quando se pode estar seguro de a reter em bacias suficientes. Uma fonte é um tesouro, não é, pois, de admirar que as mais antigas divindades fossem as Nagas, estes gênios-serpentes de várias cabeças, apostados perto das fontes e bacias para as proteger. Ainda hoje os camponeses os veneram.

A vida só é possível pela água, com o Indo abrasado no seu vapor, sob um sol implacável e uma atmosfera demasiado poeirenta, secas e fome espreitam o camponês e ainda febres e doenças temíveis; as epidemias matavam às centenas de milhares. A média de vida dos Indianos era e é ainda dramaticamente baixa; uma criança que nascia tinha poucas possibilidades de chegar à velhice. Por outro lado, o seu nascimento acorrentava-a definitivamente à sua condição social, medíocre para a quase totalidade dos seres, mantendo-a aí em virtude da disciplina férrea imposta pelo sistema das castas. Era preciso portanto resignar-se a esta amarga constatação: que a vida só é sofrimento, que o universo inteiro só encerra sofrimento. Assim sendo, como não poderia ela ficar obcecada por visões paradisíacas, supraterrestres, feitas de palácios suntuosos e de parques verdejantes onde vivem deuses e heróis de plástico ideal, que nem a fome nem a doença atormentam e que escaparam ao seu karma se libertaram da constrangedora cadeia? Com efeito, a arte indiana só mostra seres perfeitos, bem nutridos, de formas volumosas, sem taras nem imperfeições, parecendo ignorar a angústia, a fome, a dor, o desgosto. Por isso, eles já estão próximos dos deuses; a perfeição das formas humanas participa igualmente do divino. Este universo intemporal e ideal da arte, povoado de seres sobrenaturais, joviais e de plástica agradável, tem paradoxalmente aos olhos dos Indianos mais existência do que os seus semelhantes imediatos e contemporâneos, tão imperfeitos e efêmeros; os acontecimentos terrenos e os indivíduos têm pouca realidade e significação, uma vez que estão condenados a desaparecer. Os conceitos abstratos e gerais, em contrapartida, pelo fato da sua perenidade e de sua inalterabilidade, são os únicos reais e válidos, assim como só as leis e os costumes de instituição divina têm um caráter absoluto e indiscutível. Daí o aspecto profundamente espiritualista do pensamento indiano.

Além disso, esta concepção que rebaixa a vida humana à condição de simples elo de uma cadeia ininterrupta de reencarnações, conduz à aceitação de tudo e, ainda, à paralisia da vontade, pois que para a eternidade, o tempo e a evolução não têm sentido. Por outro lado, as vidas anteriores decidiram tudo e a existência atual, momentânea, esta curta e penosa aventura, é só o fruto dos méritos anteriores. Daí a indiferença dos hindus pelas realidades contingentes e sua atração pelo ideal e a alta espiritual idade, como o testemunha toda a sua arte que não se preocupou nunca em exprimir as sensações passageiras; sua nobreza e dignidade derivam desta atitude eminentemente espiritual e religiosa, profundamente firmada na alma indiana. Daí, igualmente esta continuidade exemplar, esta homogeneidade e coerência excepcionais, que observamos na evolução da arte e que lhe asseguraram sua perenidade mesmo depois que contatos brutais com culturas estrangeiras tivessem alterado e abalado, por várias vezes, o caráter monolítico da indianidade sempre "una" na sua diversidade.

Pelo grande desfiladeiro de Khyber (imagem ao lado), ao longo de milênios, se expandirão os Árias, os Gregos de Alexandre, os Citas, os Hunos, os Turcos; depois pelo mar virão os Europeus. Em nenhum momento, apesar das inevitáveis perturbações e desvios, a indianidade foi desenraizada deste subcontinente fechado sobre si mesmo, entre mares e o Himalaia. Tanto por fatores religiosos como pela constante fidelidade às tradições milenares, esta continuidade foi igualmente favorecida pelos dados geográficos.

Fechada sobre si mesma, sem dúvida! A Índia terá um esplendor universal sem equivalente em sua época, que se prolonga até hoje. Por toda a Ásia até à China e ao Japão, a Índia, sem o desejar, representou um poderoso papel civilizador, sem ter tido nunca o mínimo interesse imperialista, o que merece ser dito. Este fervilhante, mas sereno centro de cultura, marcou todo o Extremo Oriente com a sua visão e pensamento; o budismo, nascido na Índia, depois de sete séculos, sai do próprio solo, floresce ainda em muitos países da Ásia, que modelou profundamente. O Sudeste da Ásia traz no mais alto grau a marca da civilização indiana e uma cultura tão perfeita como a dos Khmers, que procede dela quase totalmente.

Esta Índia que imaginamos como um bloco monolítico pela sua notável homogeneidade de cultura, não conhece, de resto, a unidade política senão de maneira breve e descontínua, por três vezes somente: com a dinastia Maurya, pouco antes da nossa era; com a dos Guptas, nos séculos IV e V, e com os Mongóis, estes de origem não indiana e ainda por cima muçulmanos, desde o século XVI ao XVIII. Por três vezes somente - cinco ou seis séculos no máximo, dos vinte últimos - a união política foi realizada. Nos intervalos, pequenos reis e príncipes erguiam efêmeras capitais, mas também templos assombrosos. No conjunto, foi regra geral a fragmentação política e não a unidade.

Isso, naturalmente, condicionou e explica a diversidade aparente do estilo indiano, que subsiste como expressão de províncias muito diversas, separadas por milhares de quilômetros. Não esqueçamos nunca que a Índia é um subcontinente imenso, de climas diversos e paisagens que vão do deserto aos vales glaciares, com populações de várias raças, falando línguas diferentes de maneira que hoje é-lhes necessário o inglês para se compreenderem entre si e que o cimento que ligou todos os Indianos foi sempre o bramanismo, sendo o budismo e jainismo dois dos seus rebentos. O dia em que uma religião, o islamismo, conseguiu desviar das suas raízes uma parte da população, a Índia explodiu: em 1947, o Paquistão muçulmano desmembrou-se; depois de 1970, o Bangladesh, província oriental do Paquistão, separou-se por sua vez deste último.

Seguiremos a civilização indiana de há quarenta séculos a esta parte, porque podemos considerar, que desde a primeira fase proto-histórica, os germes iniciais da indianidade são reconhecíveis. Dividiremos, grosseiramente, em três grandes painéis o longo e muito complexo desenrolar desta civilização, que se confunde com a do seu pensamento totalmente impregnado de religiosidade e de espiritualidade, uma vez que mistura o divino e o humano.

Aparecida por volta de 2500 a.C., forja, durante um milênio, misteriosamente, sua própria visão e concepções. Depois, durante dois milênios caóticos, origina uma série de culturas diferentes atingindo seu ponto culminante nos séculos IV e V, durante o período gupta. Enfim, durante o último milênio, seguiremos sua decadência entrecortada por alguns belos períodos.

Nota: É preciso entender por Indiano o habitante da Índia e, por hindu, o adepto da religião hinduísta, que é uma forma evoluída do antigo bramanismo. Nem todos os Indianos são forçosamente hindus.


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