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Os indianos: 8. Dos Vedos ao Islã

André Bueno / Professor de História e Filosofia da FAFI-UV (Paraná) do blog indologia.blogspot.com

No decorrer do segundo milênio antes da nossa era, todo o mundo antigo foi abalado por invasões, movimentos de populações, que se entrechocaram como um movimento de ondas, cujo centro principal de origem emanava da Ásia central. Com intensidade diferente, todas as regiões foram afetadas: os Dóricos instalaram-se na Grécia, os Hititas na Anatólia e os Árias nos planaltos iranianos e na Índia setentrional. Estas tribos arrastaram outras na sua passagem. Quando os Árias - daí em diante os Indianos históricos - aparentados com Iranianos, como o demonstra a língua, se espalharam entre 1500 a.C. e 1200 a.C. pela planície indo- gangética, foi-lhes necessário empurrar as populações indígenas recalcitrantes em direção ao Decão. Atualmente, etnias como os Tamuls, os Tégulus e os Kanara, de raça dravidiana, e os Munda, repelidos igualmente para a Índia central, constituem núcleos de sobrevivência do antigo substrato aborígine, que se esforçava por sobreviver ao lado do ocupante.

Temendo ser absorvidos por esta massa de submetidos que restava, os conquistadores, mais bárbaros, mas dotados de melhor armamento, instauraram uma sociedade fechada e compartimentada em castas, fundada primeiro numa descriminação racial baseada na cor da pele, depois na função social. Ao alto da pirâmide, os Sábios ou brâmanes, depois os Guerreiros ou xátrias, em seguida os Camponeses ou vaicias e enfim os Sudras para os servir. Quanto aos autóctones, não assimilados, ficavam "fora das castas".

Durante várias gerações, os brâmanes transmitiram oralmente os Livros do Saber, os Vedas, que se aparentam com o Avesta do Irã e só serão registrados escrito a partir do século VI antes da nossa era, quando a escrita de origem aramaica foi introduzida no Pendjab, sem dúvida pelas administrações do ocupante persa aquemênida. Este conjunto literário - os Vedas - vibra de poesia naturalista e apresenta-se como uma compilação de cantos e hinos litúrgicos, acrescentada de todo o ritual a observar nos sacrifícios.

Antigos pastores nômades, os Árias, introduziram sua teogonia constituída essencialmente por divindades astrais, celestes e atmosféricas: o Sol (Suria ou Vishnu), o Céu estrelado (Varuna), o Céu trovejante (Indra) e os deuses da Tempestade, o Fogo (Agni) e toda uma plêiade de divindades e gênios secundários. Ao longo dos séculos, vingança dos vencidos, esta teogonia não cessaria de evoluir num sentido cada vez mais influenciado por eles.

Ao texto sagrado dos Vedas, juntar-se-iam, em breve (por volta de 600 a.C.), outros textos mais especulativos: comentários religiosos, os Brahamana e os Upanichades lições esotéricas, num verdadeiro-conjunto de meditações filosóficas. Foi então, que se elaborou o dogma fundamental, que regeu todo o pensamento indiano: o do Samsara, ou da transmigração, do ciclo sem fim das reencarnações ao qual todo ser vivo está condenado. Estas vidas sucessivas, estes perpétuos renascimentos são determinados pelo caráter variavelmente meritório das vidas anteriores; em suma, tem-se a vida que se mereceu toda a existência dos futuros budistas será orientada pelo desejo de fugir definitivamente deste ciclo infernal.

Do seio dos Yogin, ou ascetas brâmanes, que vivem retirados nas florestas para meditar, sairiam duas novas religiões, o jainismo e o budismo, enquanto a teogonia indiana não cessava de proliferar e de se vestir de lendas cada vez mais poéticas e maravilhosas. Com efeito, essa sociedade védico-brâmane, petrificava a sociedade que se esfarelava numa infinidade de subcastas. Esta rigidez paralisante devia provocar no século VI a.C. os dois grandes cismas, que parecem mais de origem social que religiosa, visando romper as estruturas muito compartimentadas da sociedade brâmane. O jainismo foi pregado por um monge de origem real, Vardhamana, apelidado de Jina, o Vitorioso, e o budismo por um obscuro príncipe dos confins do Nepal, Siddharta Gautama, chamado o Sábio, quer dizer Buda, que não admitia o sistema das castas. Estas duas religiões, nascidas quase ao mesmo tempo no século VI antes da nossa era, terão o desenvolvimento brilhante de que temos conhecimento.

Abalado, o bramanismo reagiria e orientar-se-ia numa via que originará mais do que uma religião, uma verdadeira civilização. Hoje ainda, a filosofia, as crenças, os ritos, os mitos e lendas brâmanes continuam rigorosamente enraizados e vivos. Claro que o seu exagerado panteísmo, um pouco idólatra, pode surpreender-nos à primeira vista, na realidade não passa de uma "cortina de névoa", uma irradiação infinita do conceito do Deus único: “Deus está em tudo". Estas inumeráveis divindades, cósmicas na origem, serão todas sobrepujadas e dominadas, sem exceção, pelas personalidades esmagadoras de Siva e de Vishnu, que constituem com Brama, a Trimurti, (a tríade) brâmane. O último dos três deuses não atingirá nunca a imensa popularidade dos dois primeiros. No bramanismo, o caminho apresentado ao crente para romper a engrenagem da transmigração é o yoga, que ambiciona um conhecimento e uma concentração interior, adquiridos através de um severo ascetismo do corpo e do espírito.

Desde a queda da civilização de Mohenjo-Daro, a planície indo-gangética tinha sem dúvida seus deuses, seus mitos, sua maneira de sentir e de pensar, mas já não tinha arte. Será preciso esperar a passagem de Alexandre que, indiretamente, avivará as brasas que incubavam há séculos. Um rei de Magadha - o atual Bihar - inspirando-se em Apadana de Persépolis, mandou construir um palácio que espantou o viajante grego Megástenes. Saía-se da "' arquitetura" de lama, palha e madeira! Magadha parece que desempenhava um papel considerável na história indiana, dominou todo o vale gangético nos séculos VI e V a.C. Pode- se considerá-lo como o berço da Índia antiga; é em Magadha, com efeito, que nasceu o budismo, o qual obteve um extraordinário eco tanto no pensamento como nas artes plásticas. Pode-se considerar, que toda a produção artística dos dois últimos séculos antes da nossa era, traz a marca exclusiva da religião budista. Com o soberano Asoca (272 a 231?) acaba o longo silêncio da arte, que tinha desaparecido com a chegada dos Árias. O primeiro império indiano da história será obra da dinastia Mauria (322 a.C. a 187 a.C. ?), cuja mais ilustre personalidade foi o soberano Asoca. Convertido ao budismo, conseguiu levá-lo à quase totalidade da península indiana, onde chegou a exercer sua soberania. Realizava assim a primeira unificação política e favorecia a volta a uma arte digna deste nome. Com ele vemos aparecer o uso da pedra, tanto em arquitetura como em escultura. Na construção, segundo um reflexo freqüentemente observado, o trabalho na pedra inspira-se diretamente nas técnicas utilizadas na madeira, reproduzindo paradoxalmente todos os elementos do madeiramento.

Fez gravar em altas colunas de pedra - que se encontraram dispersas por uns trinta lugares mais ou menos - éditos que pregavam uma moral universal de rara elevação. Mas, depois da sua morte, o continente retornou rapidamente ao desmembramento político que tantas vezes conheceu. No decorrer dos últimos séculos antes da nossa era, o repertório iconográfico do budismo elaborava-se lentamente, assimilando fórmulas decorativas estrangeiras, gregas, alexandrinas, mas sobretudo irano-aquemênidas. Foi sem dúvida do Irã, que veio a singular técnica da escavação rupestre, monolítica, que aparece por volta de 80 a.C. e que se manterá por muito tempo (até aos séculos VIII e IX d.C.). De Pataliputra, a capital de Asoca e de seu palácio, que tanto espantou Megástenes, pouca coisa resta.

Foi nesta época, que apareceram os primeiros stupa, tão peculiares na Índia, esses grandes relicários em forma de tumulus, hemisféricos, encimados por um mirante munido de um guarda-sol, símbolo de autoridade e dignidade. O maciço era contido dentro de uma balaustrada ligeiramente recuada; esta galeria intersticial, a céu aberto, servia para a deambulação ritual, circular e repetida, tendo o edifício à direita, ou à esquerda, em sentido inverso, para os ritos funerários. Esta balaustrada e a base do stupa de um e de outro lado fiel, eram ornamentadas com uma infinidade de pequenos baixos-relevos narrativos, ilustrando a vida de Buda, colocados aí para sua edificação. Nos lugares de Sanchi, Bharhut e Bodhgaya, existem ainda alguns muito nítidos.

Na Índia, a escultura sempre se integrou na arquitetura, a ponto, de às vezes, transformar os edifícios em verdadeiras esculturas monumentais (como a de Mahabalipuram, Ellora...) ou em grandes tapeçarias esculpidas (como em Madurai e os Gopurás de Tiruvannamalai). Neste baixos-relevos narrativos do início, a imagem de Buda não era reproduzida, mas sugerida por símbolos: a marca das suas pegadas, seu guarda-sol, seu cavalo ou seu trono vazio... Esta regra iconográfica cheia de respeito, desapareceu no século II da nossa era. Espontâneo e vivo, o estilo de Bharhut, permaneceu como um dos mais atraentes da Índia.


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