Os persas: 2. Organização política e social

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Prof. Plínio Correa de Oliveira

Como já visto, era enorme a extensão territorial do Império Persa, desde o Hindus até além do Bósforo, compreendendo o Egito. Estava dividido em províncias, denominadas satrápias, governadas por sátrapas.

Os soberanos dotaram o império Persa com muitas vias de comunicação, porquanto tinham necessidade de se comunicarem em situações difíceis. Havia também um sistema de correios, muito bem organizado.

Os reis não confiavam muito nos sátrapas. Por isso é que colocavam junto aos sátrapas um espião, que era o próprio secretário destes. Estes secretários eram recrutados na aristocracia, e tinham o caminho aberto para o cargo de sátrapa. Sendo nomeado pelo rei, este era por eles informado de tudo quanto fazia o sátrapa.

Os persas praticavam uma política de tolerância, deixando aos povos conquistados todas as suas leis, costumes etc. Os impostos eram cobrados pelos naturais do país. Esta política era benigna, e por isso o Império Persa teve muito mais duração do que o dos caldeus. Os persas unificaram o Oriente sob o seu domínio.


Cilindro de Ciro, cujas inscrições são consideradas por muitos como a
primeira declaração de direitos humanos da história, em razão de sua
referência à tolerância religiosa
Governavam com relativa brandura, apesar de os seus soberanos terem por vezes rasgos de crueldade, como por exemplo o seguinte: Ciro, o grande persa, tendo vencido os Lídios, aprisionou Creso, rei da Lídia, condenando-o à fogueira. Mas o filho deste, que era mudo, falou pela primeira vez, implorando a vida de seu pai, no que foi atendido.

Quando Creso já se achava no alto da pira, onde devia ser queimado, começou a bradar: Sólon, Sólon! Ciro, intrigado, perguntou a Creso o que significavam tais brados. Creso disse então a Ciro que Sólon, legislador ateniense, certa vez lhe dissera que não havia no universo reino imperecível. Ciro então perdoou a Creso, e ainda nomeou-o seu ministro. Ciro não errou nesse procedimento, porquanto Creso auxiliou-o muito, ajudando-o a governar a Lídia com benignidade e brandura.

Os soberanos persas deixaram também, a exemplo dos caldeus, narrações de bravuras.

Entre os persas, muitas vezes os filhos pagavam pelos pais, como em caso de alta traição, em que eram punidos também todos os parentes do traidor.

Quanto à organização da sociedade, podemos distinguir na Pérsia antiga quatro classes: sacerdotal, guerreira, agrícola e artesã. A classe guerreira era muito importante, porquanto fornecia o exército, e os guerreiros eram recrutados na nobreza.

Os povos incorporados ao império não tinham direitos iguais. Em primeiro lugar vinham os persas verdadeiros, seguidos dos medos, depois vinham os bactrianos etc; enfim, os povos que mais haviam resistido ao domínio dos persas tinham menos direitos. O critério da distribuição dos direitos obedecia ao nascimento da raça, sendo que a raça vitoriosa se impunha à vencida. Os povos conquistados mais recentemente ficavam sob a tutela dos povos conquistados anteriormente.

Assim, em quase todas as sociedades da antiguidade havia a divisão em classes sociais. Foi o Cristianismo que extinguiu esse costume de distinção entre o vencido e o vencedor, e fez com que um homem de uma classe mais baixa pudesse atingir, por seus méritos, outra classe mais elevada.

O critério aceito para a distribuição das riquezas não tinha por base o mérito, mas exclusivamente a raça de que havia nascido a pessoa. Por isto é que era extremamente difícil uma pessoa gozar de direitos maiores do que os que as leis do império facultavam às pessoas de sua raça. E a hierarquia das raças, dentro do império, tinha como único critério a força.

Os persas venceram os medos, e por isso tinham mais direitos que estes. Medos e persas, aliados, venceram juntos os outros povos que compunham o império, razão pela qual os medos eram o segundo povo do império. Assim, portanto, os povos eram colocados em posição superior à destes últimos, e portanto o único critério que vigorava para estabelecer a hierarquia dos povos, dentro do império, era a força.

Quanto ao exército, havia nele um núcleo formado pela guarda dos 10.000 imortais, todos persas, constituindo a medula do exército, e todos eles fidelíssimos ao rei. Isto prova a instabilidade do Império Persa, pois se os reis tivessem confiança nos povos conquistados, formariam esse corpo de guarda com soldados recrutados entre os povos vencidos.

Família

A família era indissolúvel, havendo porém raras exceções, como no caso de esterilidade da mulher, em que, se a esposa quisesse, o marido poderia abandoná-la. A família era muito sólida e estável, tendo o pai muita autoridade.

Arte


Escribas com oferendas, arte persa em relevo
Como já visto, a Pérsia elaborou uma civilização de síntese, assimilando-a à dos vários povos de que se compunha o seu império. Este caráter heterogêneo da civilização persa se nota acentuadamente na sua arte, que em grande parte se inspirou nos princípios artísticos caldaicos.

Mas além da influência caldaica nota-se também na arte persa, com menor intensidade, a influência dos egípcios e dos gregos. Encontramos também na arte persa particularidades que lembram a arte egípcia. Portanto, eles elaboraram uma arte de síntese, em que entraram elementos artísticos de várias procedências (assírios, gregos, egípcios etc).

Um dos motivos de decoração dos persas era o touro alado, como o dos assírios. Eles eram useiros no encimar os capitéis das suas colunas com cabeças desses animais.

Na antiga Pérsia não havia templos, porque os persas consideravam o seu deus como um ser puramente espiritual, que não podia caber entre as paredes de um edifício. Eles achavam que deviam adorá-lo ao ar livre, e por esta razão havia as piras nas florestas.

Os persas empregavam muito os ladrilhos, à semelhança dos caldeus. Entretanto, havia uma diferença entre as figuras artísticas dos persas e as dos caldeus: as figuras dos assírios e babilônios aparecem sem relevo, ao passo que as figuras persas nos ladrilhos apresentam-se como um alto-relevo; são figuras que se destacam sobre o fundo. Essa foi uma pequena diferença da arte persa, com relação à arte caldaica.

Não se pode dizer que a escultura dos antigos persas foi grandiosa, contudo atingiu um grau apreciável de desenvolvimento. Não é errôneo afirmar-se que a escultura dos persas foi uma cópia servil da escultura caldaica.

Como tipos mais importantes de arquitetura persa, daria para citar os palácios e as sepulturas. Os palácios eram muito suntuosos, lembrando os palácios assírios. Os tetos eram feitos com madeiras preciosas. As sepulturas reais não tinham o caráter de religiosidade das sepulturas egípcias. As sepulturas reais persas eram talhadas em rochedos. A entrada representava a entrada de um palácio, mas para se tomar acesso às mesmas não há escadas nem rampas. Estão situadas a uma boa distância do solo.

Costumes

Os judeus viviam sob o domínio dos caldeus. Quando os persas, derrotando os caldeus, destruíram o Império Mesopotâmico, foram os judeus restituídos à liberdade, por um decreto de Ciro. Foi encontrado tal documento, e se conhece o texto do decreto em que Ciro deu a liberdade aos judeus. Por esse texto, sabe-se que Ciro permitiu aos judeus reconstruir o seu templo em Jerusalém, fato que é confirmado também pela Bíblia.

Isto não deve levar a supor que os persas foram um povo de inigualável benignidade. Fatos como os narrados impressionaram o espírito da maioria dos povos da antiguidade, que eram em geral dotados de grande inclinação para a crueldade, e fizeram com que os persas passassem para a História como um povo benigníssimo. Tal critério pode levar, à primeira vista, a juízos errôneos a respeito do caráter deste povo. Convém fixar bem este caráter dos persas, porque por ele se define toda a antiguidade.

Aliás, se pode ver por isto até que ponto eram considerados pelos antigos os sentimentos de bondade, solidariedade e misericórdia, que, pode-se dizer, eram quase inexistentes entre esses povos, e aparecem em toda a sua pujança com o advento do Cristianismo. Encontra-se entre os persas fatos que acusam grande crueldade, pois sabe-se que chegaram a mutilar prisioneiros vencidos, cortando-lhes o nariz, as orelhas, enfim, tudo o que havia de "cortável" no rosto deles.

Pois bem, este era o povo que tinha fama de "benigno" na antiguidade. Costumavam os soberanos persas vangloriar-se dos seus feitos, das suas vitórias, como no famoso rochedo de Bebristum. Uma ou outra vez, usavam de misericórdia para com os povos vencidos. Entretanto, muitas e muitas vezes, à maneira dos caldeus, usavam de grande crueldade com os povos que dominavam, como já se pode ver. Havia entre eles o costume de crucificar os prisioneiros.

Sabe-se que Creso, rei da Lídia, foi condenado à fogueira juntamente com quatorze crianças da nobreza lídia, e toda aquela história da invocação de Creso a Sólon etc, é que Ciro pensou que aquilo que se tinha dado com Creso podia se dar com ele, e então libertou Creso e nomeou-o seu ministro. Pode-se ver com isto o verdadeiro caráter da benignidade de Ciro, baseada inteiramente no temor de um infortúnio.

Com referência à crueldade, conhece-se casos muito interessantes que mostram a existência deste instinto entre os persas. Entre outros, daria para citar o de Cambises, que tentou a conquista da Etiópia e foi mal sucedido neste empreendimento. Na volta, sobreveio uma grande tempestade de areia, que fez com que os persas ficassem sem víveres. Os soldados persas sofreram então muita fome, e contam os historiadores que eles se matavam uns aos outros, para saciarem a fome. Numa ocasião, tendo Cambises recebido um desacato em Mênfis, no Egito, mandou matar 2.000 pessoas desta cidade, por tal motivo. Este foi o povo que passou para a História como um dos mais benignos da antiguidade, tendo em vista que naquela época imperava a lei da força.

Um fato significativo na História, neste sentido, verificou-se na história romana. Os gauleses, chefiados por Breno, venceram os romanos nas proximidades do rio Alia, entraram em Roma, e só se comprometeram a retirar-se com o pagamento de pesada indenização. Tendo os gauleses usado pesos falsos, os romanos reclamaram contra esta irregularidade. Breno atirou então a sua espada ao prato da balança, pronunciando a frase que ficou célebre na História (tudo antes do advento do Cristianismo): "Vae victus!" — Ai dos vencidos!

Há ainda um outro fato característico, auferido pela sociedade com o advento do Cristianismo: os hospitais só foram fundados após o advento do Cristianismo. Os doentes, que eram inferiores fisicamente, eram por isso votados ao desprezo. Haja vista o caso dos espartanos, que matavam as crianças nascidas com físico inferior.

*Transcrição das apostilas do curso de História da Civilização utilizada as aulas no Colégio Universitário da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.


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