Contemporânea: 1. Guerra Civil Espanhola

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Equipe Passeiweb

O conflito na foto de Centelles Osso
A Guerra Civil Espanhola, iniciada no dia 18 de julho de 1936, foi marcada, durante trs anos, pelo conflito entre as foras nacionalistas de direita - que pretendiam um golpe de Estado - com os partidrios da esquerda republicana, no poder na poca.

Esse sangrento conflito entre as "duas Espanhas", que deixou mais de 500.000 mortos e ficou famoso em todo o mundo pelas mltiplas atrocidades ocorridas, terminou em abril de 1939, com a vitria dos direitistas comandados pelo general Francisco Franco, que imps ao pas a represso atravs de uma ditadura que prosseguiu at 1975, ano de sua morte.

A Alemanha de Hitler e a Itlia de Mussolini apoiaram os direitistas, enquanto que a Unio Sovitica apoiou os republicanos durante o confronto, classificado atualmente por muitos como um preldio da Segunda Guerra Mundial.

Auxiliado pelas foras area alem e italiana, o exrcito rebelde na frica, comandado por Franco, e as foras nacionalitass do norte, dirigidas pelo general Emilio Mola, conquistaram inmeras vitrias no caminho para Madri.

Entretanto, as foras rebeldes foram detidas por milcias ao norte da capital. A entrada na guerra em outubro, junto aos republicanos, da URSS e depois das clebres Brigadas Internacionais permitiu equilibrar temporariamente as foras.

Os dois grupos iniciaram uma guerra de posies, marcada por duras batalhas - Jarama, Belchite e Teruel - e massacres indiscriminados da populao civil, especialmente em Guernica, no Pas Basco, arrasada pela aviao nazista em abril de 1937, com 1.600 mortos.


Uma das fotos mais famosas da Guerra Civil Espanhola atribuda a Robert Capa.
O momento exato da morte de um soldado republicano perpetuou a imagem de uma guerra
fratricida, primeiro smbolo dos "fascnios ideolgicos' que marcariam indelevelmente o sculo XX

Pouco a pouco, o exrcito nacionalista, bem equipado e disciplinado, foi se impondo aos republicanos, que no foram auxiliados pelas democracias ocidentais, entre elas a Frana e a Inglaterra.

A ltima contra-ofensiva em novembro de 1939, com a derrota dos republicanos, marcou a rendio dos esquerdistas, que se renderam no dia 1o de abril de 1939. Essa derrota foi seguida de uma cruel represso do regime de Franco, que fuzilou cerca de 50.000 republicanos.

O "Blitzkrieg" - ofensiva relmpago com blindados - foi um dos mtodos de ataque aperfeioados na Espanha pelas foras estrangeiras presentes no conflito, que depois foram usadas na 2 Grande Guerra.

As crianas da Guernica e seus Pases Adotivos


Crianas na guerra civil espanhola (1936-1939)
Fotgrafo desconhecido
Com a Guerra Civil, durante os anos de 1937 e 1938, mais de 35.000 crianas foram levadas para a Unio Sovitica e Mxico. Outros pases europeus tambm acolheram os refugiados, entre eles, Frana (22.000) e Blgica (mais de 3.000). Muitas deles nunca mais voltaram para a Espanha, mas seus depoimentos nos permitem reconstruir hoje a parte da histria de uma gerao que sofreu os horrores da guerra e o desarraigo.

Mxico - O governo republicano, transferido para Valencia, organizou desocupaes infantis para o Mxico, pas que ofereceu refgio atravs do seu Presidente Lzaro Crdenas. Quase 500 mil crianas foram enviadas para a cidade de Morelia em Michoacn, alojando-se em uma escola recm equipada num prdio da igreja. A sociedade moreliana era extremamente conservadora para acolher crianas de famlias republicanas, dando lugar a uma srie de conflitos. A imprensa conservadora aproveitou o momento para fazer uma campanha contra a poltica cardenista em relao aos refugiados espanhis. Na dcada de 60, as crianas de Morelia j haviam estabelecido profundas razes sociais e familiares no Mxico, por isso muitas delas no voltaram para a Espanha.

Amparo Batanero: Tinha apenas 5 anos quando pegou um trem para ir ao Mxico junto com seus irmos em 1937. As lembranas dos primeiros anos no so muitas, mas recebia cartas de sua me dizendo-lhe que se comportasse e que se reuniriam em breve. Mesmo com uma dvida pendente, visitou Espanha para conhecer os pais e a irm menor que tinha ficado l. Em 1974 recebeu a nacionalidade mexicana com orgulho e agradecimento.

Unin Sovitica - A Unio Sovitica apoiou o governo republicano desde o incio da Guerra Civil e acolheu mais de 3.000 crianas, recebidas como heris. Elas foram educadas no mais alto nvel das diversas matrias para que ocupassem boas posies profissionais ao regressarem Espanha. Mas ao final da Segunda Guerra Mundial, Espanha e Unio Sovitica j no mantinham boas relaes diplomticas e as crianas no tiveram alternativa do que continuar a viver no local que as acolheram. A maioria que decidiu voltar ao pas de origem durante a dcada de 50 no conseguiu se adaptar e seus diplomas acadmicos no foram reconhecidos pelas autoridades espanholas.

Juanita Prieto: Em julho de 1937, aos 12 anos de idade, ela deixou seus pais, tios e avs para se refugiar na Unio Sovitica. Ela estudou com professores espanhis e com livros que eram traduzidos para que as crianas no perdessem o contato com a lngua castelhana. Durante muitos anos viveu com a iluso de voltar para Espanha, mesmo sem ter tido nenhuma notcia de familiares. Durante a dcada de 90, com a Unio Sovitica devastada e sem nenhum patrimnio, transladou-se para sua terra natal onde, mesmo com as lembranas da infncia, sente-se tratada como estrangeira.

Gr Bretanha - Inicialmente, negaram acolher as crianas refugiadas por temor que o ato fosse interpretado como um apoio aos republicanos, mas a forte reao da opinio pblica britnica diante o bombardeio de Guernica, forou o governo a mudar sua deciso. 4.000 crianas foram recebidas sem nenhuma contribuio econmica ou material. Voluntrios de organizaes civis ocuparam-se delas em um imenso acampamento ao ar livre no sul da Inglaterra. Aps o final da Guerra Civil, uma grande parte destas crianas voltaram para a Espanha.

Begonia Ballesteros: Suas lembranas da guerra so a sirenes antes dos bombardeios e a destruio. Morava em Bilbao e foi levada para a Gr Bretanha junto com sua irm em 1937. Em 1940, quando Franco pede que as crianas refugiadas sejam devolvidas, volta para seu pas sem conseguir ver os pais, em meio de perseguies e fome.

A Obra Magistral de Picasso

Ver imagem ampliadaGuernica (figura ao lado) um leo sobre tela de 349 x 777 cm e foi encarregado pelo governo da Repblica Espanhola para o Pavilho de Euskadi na Exposio Internacional celebrada em Paris em 1937.

A idia de propaganda dos republicanos era manifestar a oposio deles ao levante nacional e a guerra provocada pelos rebeldes. Mas Picasso s comeou a pintar o quadro aps o bombardeio, por sugesto de Juan Larrea, poeta espanhol surrealista residente em Paris.

Para realizar esta obra, Picasso recorreu das fotografias publicadas nos jornais da poca que mostravam a cidade em chamas. Atravs delas, fez uma composio utilizando somente o branco, o preto e o cinza.

A composio est distribuda como um trptico. O painel central ocupado por um cavalo agonizante. O quadro reproduz em total seis seres humanos e trs animais. A base do tringulo central est assinalada pelo corpo cado do guerreiro morto, um corpo desmembrado, esquartejado e que se transforma em smbolo visual da matana.

Picasso nunca deixou de colocar na parte debaixo das suas obras a assinatura e a data em que as terminou, mas em Guernica este detalhe no aparece. Talvez o autor quisesse com sua omisso expor uma dimenso atemporal obra.

Com esta obra, Picasso mostra um compromisso poltico e ideolgico que reflete no somente a crueldade de um massacre concreto, mas deixa uma splica contra a injustia da guerra e a barbrie do fascismo e o nacional-social que invadiria a Europa mais adiante.

Desde 1981 o quadro est instalado no Museu Reina Sofa de Madrid, pois a vontade do autor era de que ele no pisasse solo espanhol at a morte de Franco em 1975.

O Brasil no contexto da Guerra Civil Espanhola

A primeira pergunta que se coloca e que se mostra importante para a anlise da participao brasileira no contexto da Guerra Civil Espanhola remete questo da nossa pouca participao naquele conflito. Seria pelo fato de mantermos uma tradio histrica mais vinculada a Portugal, a razo explicativa para tanto? Uma entre outras respostas mostra a presena dominante do Estado Novo que, tendo sido gestado desde 1930, em 1937 j assumia a responsabilidade de zelar pelo posicionamento do pas, colocando-o vulnervel aos programas da esquerda.

Logicamente, num Estado como o Brasil, onde os movimentos pendulares de esquerda/direita oscilaram com freqncia e fora, o efeito de situaes semelhantes no exterior teria que produzir impactos. Assim mesmo, antes do estabelecimento da ditadura estadonovista, o terrorismo de direita j inibia qualquer iniciativa brasileira que se afigurasse como apoio esquerda1. Dada a no existncia expressiva de imigrantes espanhis como noticiadores dos atos republicanos, restava grande imprensa e s instituies comprometidas com iderios afinados com o governo motivar e controlar qualquer divulgao.

O Estado oficial brasileiro era claramente interessado em promover a verso da Guerra como caos e resultado da democracia desordenada decorrente das eleies e do regime republicano. Nada mais oportuno que a exemplificao imediata da Espanha. Neste sentido, alis, atuaram as mquinas propagandsticas da direita que j estavam funcionando a todo vapor desde o chamado binio negro espanhol (1934-36).

Na mesma linha, todo um servio saneador de propaganda insistia, sobretudo atravs do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), na mesma tecla. Isto valia para a poltica autoritria brasileira como um sinnimo da vontade governante, acima da Constituio e dos direitos civis suspensos em 1930 e, depois, em 1934, e novamente em 1937. Elaborou-se, ento, no Brasil uma engenharia noticiosa que reorganizou as informaes, instruindo-as com teor ideolgico, montada para fomentar a idia de que as esquerdas, em qualquer lugar do mundo, eram inconseqentes e desastrosas. Assim, as notcias da Guerra Civil Espanhola tiveram um efeito de eco para mostrar a oposio como incapaz e destruidora da ordem e do progresso.

Depois de afogado o movimento comunista do Rio de Janeiro de 1935, o exemplo espanhol serviria para o governo brasileiro reforar suas teses autoritrias, e, neste cenrio, poderia atuar como juiz, evitando que ocorressem no Brasil os desastres da Guerra Espanhola.

Estava proibido o apoio aos republicanos. Alm do governo, a grande imprensa tambm se situava e, logicamente, ainda que nem sempre respondendo como porta-voz nico do Estado, em essncia concordava com os posicionamentos da direita, mas, nos detalhes, divergia, fazendo ainda srios ataques ao futuro ditador Getlio Vargas.

Numa poca em que os meios de comunicao internacional estavam organizados em cadeias e que o Brasil se colocava como pas de certa importncia no contexto econmico mundial, havia um envolvimento global interessado em mant-lo como parte de um todo mais amplo, at em nvel do noticirio. Grandes jornais, como O Estado de So Paulo, ento o mais importante do pas, mantinham compromisso coerente com a posio do governo no tocante ao apoio s direitas mas dentro de um projeto prprio, variante do governo. Este fato, alis, colocou O Estado sob censura de 1939 a 1942.

Em face do posicionamento to claro do governo central, e do controle dos rgos noticiosos, haveria de restar aos brasileiros apenas formas alternativas de participao nos eventos espanhis.

Na literatura brasileira, h poucos escritos a respeito do assunto e registra-se apenas um livro de memria de autoria de Jos Gay da Cunha, Um brasileiro na Guerra Espanhola. Escrito sob o ponto de vista do cronista, o livro traduz muito do sentido de um militar brasileiro, defendendo fora do prprio pas o que no podia fazer dentro dele.

O Estado Novo no s perseguia os simpatizantes, como tambm promoveu controle rgido da correspondncia e da produo dos cidados comuns e, especialmente, dos artistas. Nesse sentido, explicam-se atitudes clandestinas como a de intelectuais que teriam facilitado viagens para brasileiros sarem do pas rumo Espanha. Alis, entre os pontos mais instigantes do debate sobre o envolvimento do Brasil na Guerra Civil Espanhola, est o posicionamento dos jornalistas, artistas e escritores.

Se, na superfcie aparente, pouco realce eles tiveram, em profundidade nota-se que houve alguma produo que, por meio de sutilezas e riscos, permitiu vazar comentrios a respeito das questes em jogo na Espanha. Uma srie variada de obras e atitudes de escritores, de uma ou de outra maneira, trouxeram a Espanha ao conhecimento pblico. Num ambiente de censura, logicamente, estas "notcias" no foram bvias nem sem camuflagens. Tambm no surgiram imediatamente nem sem contornos, s vezes de difcil captao.

Com os jornais censurados, com o controle da produo artstica exercido pelo Estado que atuava diretamente no resultado dos trabalhos, restava aos intelectuais a imaginao para materializar formas de solidariedade. A poesia foi o gnero mais freqentado pelos artistas que se manifestaram a favor da Espanha republicana. Logicamente, o espao da oposio se fazia mais importante, porque significava um duplo protesto: protesto contra a ditadura brasileira e oposio ao fascismo.

Como ningum, Manuel Bandeira foi o escritor que mais se destacou pela influncia poltica que exercia sobre os jovens. Em sua poesia havia referncias ousadas em favor da Espanha republicana. Existe um poema em que esto explicitamente expressas duas referncias fundamentais argumentao central deste projeto. Bandeira inicia o verso No vosso e em meu corao mencionando Neruda e termina com Lorca, dizendo:

Espanha no corao / No corao de Neruda, / No vosso e em meu corao. / Espanha da liberdade, / No a Espanha da opresso /...A Espanha de Franco, no! / Espanha republicana, / Noiva da revoluo!/Espanha atual de Picasso, / De Casals, de Lorca / Irmo Assassinado em Granada! / Espanha no corao.

Nada mais bvio e arriscado. Diante de um poema como este, fica evidente que deve ter sido escrito antes do estabelecimento do Estado Novo, no incio de 1937. Carlos Drummond de Andrade, amigo e admirador de Bandeira, tambm escreveu e, de maneira envolvente, pedindo "Notcias de Espanha". Drummond constri um monlogo no qual pergunta e responde a si mesmo:

Aos navios que regressam marcados de negra viagem, / aos homens que neles voltam com cicatrizes no corpo ou de corpo mutilado, / peo notcias de Espanha /...Ningum as d. / O silncio sobe mil braas e fecha-se entre as substncias mais duras. / Hirto silncio de muro, de pano abafando a boca, de pedra esmagando ramos, / e seco e sujo silncio em que se escuta vazar como no fundo da mina um caldo grosso e vermelho /...cansado de v pergunta, farto de contemplao, / quisera fazer do poema no uma flor: uma bomba e com essa bomba romper o muro que envolve Espanha.

Talvez ainda mais penetrante seja o verso A Federico Garca Lorca, tambm do incio da Guerra. Diz o autor: "Sobre teu corpo, que h dez anos se vem transfundindo em cravos de rubra cor espanhola, aqui estou para depositar vergonha e lgrimas" e termina prenunciando "Esse claro dia espanhol, composto na treva de hoje, sobre o teu tmulo h de abrir-se..." Drummond manteve uma devoo continuada Espanha e, mesmo mais tarde, um dos mais importantes ncleos de sua produo dedicado a Don Quixote, em versos que faz na dcada de 1950, ilustrados por Portinari.

Na rea das tradues h um significativo registro. Jos Bento Monteiro Lobato, um dos intelectuais mais proeminentes do Brasil, preso pelo Estado Novo, em 1941, traduziu, na cadeia onde estava preso por agredir com cartas o presidente, um dos romances de Hemingway mais reeditados no Brasil, Por quem os sinos dobram. Com esta traduo rebelde, Lobato procurava romper o silncio imposto pelo DIP, que existia desde 1939, tanto para promover uma imagem positiva do pas como para filtrar notcias. O momento do lanamento daquela traduo era tenso, e esta foi uma das poucas maneiras de levar a pblico debates sobre anarquistas, comunistas, guerrilheiros. Traduzir era uma alternativa para romper o bloqueio, pois como no respeitar um texto que tivera consagrao internacional?

Na linha dos romances sobre a Guerra Civil Espanhola, apesar do nmero reduzido h dois exemplos , importante evidenciar que ganham sentido representativo se consideradas as condies em que foram produzidos. A primeira novela sobre a Guerra surgiu logo em 1940 e o prprio autor, Erico Verssimo, explica que Saga o seu pior livro, e continua dizendo: "Esse romance, que revela o estado de esprito do autor naqueles dias sombrios, o monstro epiceno, smbolo de uma absurda ambivalncia poltica". Ao fim da explicao, que desmerece o prprio texto, Verssimo diz:

...enquanto Clarissa (personagem que se casa com o brigadista brasileiro que luta em campos espanhis) e o marido olhavam para os verdes de seu vale e cuidavam de suas galinhas e vacas, continuei a viver a minha vida, sob o olhar vigilante dos rapazes do Departamento de Ordem Poltica e Social.

O livro Saga foi baseado em um dirio de um ex-combatente do Rio Grande do Sul que optou por lutar na Espanha. Valeram tambm as sugestes de Jesus Corona, um espanhol morador do Rio Grande do Sul que forneceu informes sobre o campo de concentrao de Argeles-sur-Mer. O que de mais interessante resta a dizer sobre este texto que a crtica brasileira o tem considerado mais pelas suas debilidades estticas que pelo valor histrico que indubitavelmente possui.


Foto: Guerra Civil Espanhola.
Federico Garca Lorca foi morto por tropas falangistas
no dia 19 de agosto de 1939.
Em 1956, Jorge Amado abria a trilogia Subterrneos da Liberdade com uma sintomtica evocao a Garca Lorca (Buscaba el amanecer y el amanecer no era). O conjunto dos livros narra as aventuras de partidrios comunistas no Brasil, e, especialmente, o segundo volume (Agonia da Noite), ocupa-se da relao direta entre os marinheiros do porto de Santos e a recusa em transportar caf para a Espanha de Franco. No fosse o largo espao do livro ocupado para a discusso da problemtica espanhola, o texto quase que passaria sem significado para a histria, mas os detalhes chegam a impor certa ateno de quem l sob a hiptese da discusso da problemtica internacional.

Na linha das histrias curtas, ou contos, pelo menos uma merece destaque, no pela qualidade esttica e sim pela originalidade do contexto. Trata-se de um conto de Guido Guerra, escritor baiano que relata as aventuras de um filho e de seu pai espanhol, Manolo, que sendo antifranquista, em terras brasileiras, detrata Franco.

Um dos itens mais interessantes da resistncia de segmentos intelectuais brasileiros transparece nas pginas da Revista Acadmica, inaugurada em 1933, no Rio de Janeiro. Esta empresa reunia os modernistas brasileiros para divulgar idias e trabalhos atualizados. Faziam parte deste grupo pessoas como Mrio de Andrade, Alvaro Moreira, Artur Ramos Anbal Machado, Cndido Portinari, Santa Rosa, Jorge Amado, Srgio Milliet e Jos Lins do Rego.

O secretrio de redao era Murilo Miranda e a Revista deveria ser mensal. Sabe-se que esta publicao durou de 1933 a 1945, tendo colocado a pblico 66 nmeros. Indubitavelmente, a Revista tinha em mente a orientao da intelectualidade local em face dos problemas polticos que atormentavam a Europa dividida entre esquerda e direita. Depois de 1937, a presena da Guerra Civil Espanhola passa a chamar a ateno, e de uma mdia de quinze artigos publicados por nmero, houve casos de sete serem sobre aquele evento.

Os textos, em geral, em obedincia a uma estratgia clssica, eram traduoes de intelectuais renomados internacionalmente (Gorki, Malroux, Gide, Lorca, Thomas Mann). Interessante notar que se alguns dos membros do corpo editorial eram comunistas (Graciliano, Jorge Amado, Santa Rosa e Portinari), outros no o eram. Enfatizava-se, com vigor, nestes artigos, a quebra da legalidade e o respeito democracia.

Convm lembrar que nem s de oposio eram alimentados os argumentos que discutiam a Espanha. No caso dos aliados de Franco, um importante texto fora publicado pela "Bibliotheca da Intelligencia a Servio dum Christianismo Racional", sob o ttulo Espanha em Sangue: o que vi e sofri. O autor, o jornalista Soares dAzevedo, que estava na Espanha por ocasio do incio da Guerra, na defesa irrestrita do Catolicismo divulgava o caos, motivado pelos sem crenas.

O debate sobre a Guerra Civil Espanhola, seus efeitos e envolvimentos brasileiros, convida a supor que houve nveis de comprometimento. Em primeiro lugar, considera-se os limites da participao brasileira submetida ao totalitarismo da ditadura varguista. Por outro lado, importante ressaltar a existncia de sintonia com a problemtica internacional, manifestada, por exemplo atravs da participao dos judeus brasileiros que procuravam, como os comunistas, afastar o fantasma do fascismo. Igualmente representativo o papel democratizante que assumia parcela do Exrcito brasileiro, que no tempo abrigava uma representativa e atuante ala de esquerda. Vale assinalar que a Guerra Civil Espanhola serviu como metfora para a provocao do grande debate nacional em torno da democracia e de suas viabilidades brasileiras.

Fontes: Discovery Channel | ltimo Segundo | Prof. J. C. Sebe Bom Meihy - Histria da Universidade de So Paulo (USP) | Unicamp

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