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América do Sul - A Guerra Cisplatina - Participação portenha


O desejo de Buenos Aires, após a Revolução de Maio de 1810, em conquistar a área do atual Uruguai pode ser evidenciado ao longo desta década, quando, por exemplo, os portenhos apoiavam os intentos de Artigas contra os realistas, em 1811, ou quando controlaram Montevidéu, em 1814, só abandonando-a por não resistirem à oposição artiguista. As incursões ao território oriental cessaram após a invasão comandada por Lecor, em 1816.

Porém, com o advento da independência do Brasil e a sua repercussão na Cisplatina, em 1823, ganhou força, nas Províncias Unidas, a idéia de guerrear contra o país recém-independente, sendo que, em 4 de agosto, Santa Fé assinou um tratado com o cabildo de Montevidéu para expurgar a presença brasileira da Cisplatina e no dia 21 do mesmo mês, Mansilla, governador de Entre Rios no período de 1821-24, que anteriormente assinara tratos com Lecor, intimou o antigo tratante a abandonar a província brasileira localizada no Prata.

Um pouco antes das hostilidades com Santa Fé e Entre Rios, as Províncias Unidas enviaram, em janeiro de 1823, José Valentim Gomes para negociar com o Rio de Janeiro o que os portenhos entendiam como a restituição da Banda Oriental, entretanto, segundo Carvalho (1998, p.57) “o emissário encontrou decidida repulsa a respeito da separação da Cisplatina do Império”.

A questão envolvendo esse território entendido por brasileiros e argentinos como seus, não fez com que somente as Províncias Unidas enviassem emissários para o Rio. O governo sediado nesta cidade enviou, em tal período, missões para Buenos Aires e Assunção com o objetivo de aproximar-se mais destes governos, porém malogrou em seu intento. Na primeira, o enviado brasileiro só não perdeu por completo a viagem pelo fato de espionar os liberais refugiados naquela cidade e, na cidade paraguaia, inicialmente sequer foi recebido por Francia e, quando o foi, de nada resultou o encontro.

Os esforços portenhos não fizeram com que Lecor abandonasse a província anexada, mas mesmo diante da permanência do general, não desistiram da desocupação da mesma e, com tal intento, apoiaram o plano de Lavalleja de atacar a Cisplatina e rechaçar os brasileiros desta localidade.

No entanto, o primeiro intento do oriental malogrou, sendo ele rechaçado da margem esquerda do Prata por Frutuoso Rivera, que, quando Juan Manuel Rosas foi à Cisplatina visando uma nova insurreição, debandou para o lado dos portenhos, porém permanecendo no exército brasileiro até o novo ataque de Lavalleja, quando passou a agir ao lado dos insurretos. Ao mudar de lado, Carneiro (1946) afirmou que Lecor colocou a cabeça de Rivera a prêmio, assim como a de Lavalleja, a 2.000 e 1.500 pesos respectivamente.

A nova investida teve como ponto de saída a Argentina, e de chegada o atual Uruguai, mais precisamente Agraciada, no dia 19 de abril de 1825, sendo o grupo hostil aos súbitos de D. Pedro I conhecido como Os Trinta e Três Orientais.

Sobre a chegada e os objetivos do grupo em relação a Cisplatina, Carneiro (ibid, p.38) narrou que “(...) às 11 horas da noite, realizavam o desembarque (...) Ao desfraldar a sua bandeira tricolor, com o lema ‘Libertad o muerte’, que os uruguaios empunhariam até 1829, revogando a de Artigas (...) o chefe dos orientais não deixava patente senão que os seus projetos eram de união com as Províncias Unidas (...) e não de independência da Banda Oriental”.

Esse grupo, segundo Lynch (1989), com a sua travessia, visou ativar o latente movimento emancipatório dentro da Cisplatina, tendo os Trinta e Três, com tal ação, o objetivo de anexar a então província brasileira com as Províncias Unidas, entretanto, com alguma espécie de autonomia. Os objetivos portenhos não foram muito diferentes, querendo o território à esquerda do Prata para si. O autor ainda observou que o grupo liderado por Lavalleja era financiado por estancieiros da província de Buenos Aires.

Calógeras (1998, p.409), sobre os intentos dos insurgentes, afirmou que, inspirado no projeto artiguista, “Lavalleja vinha com o velho programa de Artigas, que todos os pro-homens da província oriental partilhavam: a confederação dentro no quadro das Províncias Unidas”.

Entretanto, o autor frisou que há diferenças substanciais entre os dois projetos: o do caudilho, que atuou na Banda Oriental na década de 1810, não aceitava a incorporação a Buenos Aires sem definir previamente um pacto para a união; já o grupo de Lavalleja decretava a reincorporação as Províncias Unidas de maneira incondicional.

Este novo ataque de Lavalleja teve melhor sorte que o primeiro: as tropas brasileiras ficaram confinadas praticamente em Montevidéu e Sacramento e, a 25 de agosto de 1825, a assembléia reunida em Florida pelos insurgentes, proclamaram “nulos todos los actos de incorporación y juramentos arrancados a los pueblos de la Provincia Oriental [e] quedaba libre e independiente del Rey de Portugal, del Emperador del Brasil y de qualquiera outro poder del universo” .

Segundo Carneiro (1946, p.40), os Trinta e Três, ao desembarcarem, não gozavam de crédito, ao contrário, “a ação dos patriotas uruguaios foi tomada como uma loucura ou como ingênua imprudência”, entretanto, o autor ainda observou que o exército brasileiro estava comprometido por causa da rebelião de Pernambuco, o que acarretou em diversas derrotas.

O sucesso da investida levou a embates entre o cônsul brasileiro em Buenos Aires e o governador desta cidade, que negou a participação portenha na incursão à província Cisplatina e, ainda, ao ataque à representação brasileira na cidade. Tal fato foi demonstrado por Carvalho (1998, p.58) no seguinte trecho: “Em Buenos Aires, era atacado o consulado brasileiro (29 de outubro) e o nosso representante transladava-se para Montevidéu. Já então a ofensiva uruguaia era apoiada por tropas argentinas, apesar de nota diplomática conciliadora e cordial (...)”

O ataque de 29 de outubro e a participação dos buenairenses neste curioso ato de hostilidade ao Brasil foram detalhados por Calógeras (1998, p.416) da seguinte maneira: “(...) às dez e meia da noite, uma turba guiada por uma banda, de música, e aos gritos de ‘morram os portugueses, morra o Imperador do Brasil, morram os amigos do tirano, morra o Consul’, tinha atacado impunemente o consulado”. O autor ainda afirmou que tal ato teve o revide de soldados da marinha brasileira, que desrespeitaram, no Rio, a bandeira argentina.

A rivalidade para com os brasileiros não ficou restrita a manifestações à porta do consulado em Buenos Aires. Somou-se a isso o fato de que a cidade serviu de refúgio aos opositores brasileiros na Cisplatina, conforme relatou Carneiro (1946) que, quando a polícia de Lecor descobriu conspiradores contra o Império, muitos deles fugiram para tal núcleo urbano argentino.

Neste mesmo ano de 1825, segundo Golin (2002), as Províncias Unidas tentaram trazer Simón Bolívar para o conflito do Rio da Prata, intimando o Brasil a desocupar a margem esquerda do rio e, caso não o fizesse por bem, teria que fazer à força. Uma vez tendo sucesso a empreitada, Bolívar e seus aliados marchariam até o Rio de Janeiro, deporiam D. Pedro I e proclamariam uma república.

Bolívar chegou a cogitar a sua participação nessa união de forças contra o Império, porém, devido a problemas na região que libertou do domínio espanhol, optou por permanecer ali, tendo sido a sua participação no evento apenas diplomática, via o seu representante no Rio de Janeiro, que criticava o expansionismo brasileiro.

Não foi só Simón Bolívar que os portenhos tentaram trazer para o seu lado e contra o Império: Segundo Carvalho (1998), o ministro das relações exteriores do governo Rivadavia, buscou apoio nos Estados Unidos, ao evocar a Doutrina Monroe e a vincular D. Pedro I a Portugal e, assim, sob esta ótica, o conflito teria a interferência européia, o que foi rechaçado pela doutrina. Entretanto, o intento de Buenos Aires não foi vitorioso, pois os Estados Unidos entenderam o embate entre os dois países como americano e não europeu.

Mesmo diante destes fatos e das derrotas brasileiras nas batalhas do Rincón das Gallinas e do Sarandí – tendo à frente Frutuoso Rivera –, o Brasil não oficializou a guerra, a tratou-a como uma insurreição dentro da sua província localizada no Rio da Prata.

Lavalleja, segundo Carneiro (1946), querendo terminar logo com os embates, chegou, inclusive, a propor a Lecor, após a vitória de Rivera em Rincón das Gallinas, a intervenção do veterano das guerras napoleônicas junto ao Imperador para que fossem retiradas do território oriental as tropas brasileiras, porém, o militar negou-se a tal.

Entretanto, em 4 de novembro de 1825, o Império recebeu o comunicado de que as Províncias Unidas entenderam a Cisplatina como parte do seu território e, assim, o Rio de Janeiro declarou guerra aos portenhos em 10 de dezembro de 1825. A resposta argentina foi dada menos de um mês depois: É declarada guerra ao Brasil no primeiro dia de 1826.


J. B. Debret, Embarque das tropas para Montevidéu,
óleo sobre papel Museu Imperial de Petrópolis, RJ

Veja também: A Guerra Cisplatina | A província | Participação portenha

Fonte: Revista Tema Livre

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