Arte Chinesa: 2. Período de Cisão

  • Data de publicação
Guilherme B. Uemura

Turíbulo, perodo Han,
sc. 11, 1, a.C., 17 cm.
Galeria de Arte Freer,
Washington, D.C.
No perodo Han, a familiaridade com os clssicos e a habilidade caligrfica pressagiavam a posio de relevncia que ocuparia o homem culto chins como expoente da cultura artstica. Pela arte da pintura, companheira da caligrafia, tambm viemos a saber os nomes de grandes mestres, embora nenhuma obra destes tenha sobrevivido at nossos dias. Descries histricas dos palcios da dinastia Han indicam que os mesmos continham notveis pinturas murais. Os altos muros eram decorados com seqncias pictricas de carter moral e didtico: cenas mostrando soberanos gene rosos e sditos fiis serviam de lembretes constantes aos funcionrios. Expresso mais sugestiva eram as cenas de festas e banquetes que revelam a extraordinria prosperidade da China Han. Havia tambm a delicada pintura sobre seda que o soberano concedia aos seus subordinados como um sinal de benevolncia.



Monólito com Sakyamuui e Prabhutaratna
Período Wei, 518, bronze dourado, 25 cm
Museu Guimet, Paris
Um departamento especializado em cuidar e preservar pinturas e escritos foi fundado em 29 a.C., evidenciando o apreo em que eram tidas as obras de arte, e a valorizao dispensada pintura e caligrafia. No entanto os pintores da poca da dinastia Han (e por algum tempo a seguir) no pertenciam mesma classe social que os literatos e, como em tempos anteriores, eram considerados artfices, tal como no cenrio artstico ocidental.

Uma idia das grandes pinturas murais dos palcios proporcionada pelos afrescos que sobreviveram nas cmaras morturias, como a que foi descoberta em Lido-vang na Mandchria do Sul e em Wang-tu, na provncia de Hopei. Nestas obras, o artista primeiro esboava as linhas de contorno e depois enchia as chapadas cromticas. A famosa lpide pintada, de uma cmara funerria, atualmente no Museu de Belas-Artes de Boston, exemplifica o tipo de desenho linear que muito se aproxima da caligrafia. A seleo de temas encontrados nos raros achados de pintura Han suplementada pelas diversas inscries litoglficas de seus tmulos, especialmente na provncia de Xantung, e pelas lousas com relevos exuberantes de cenas da vida diria que apareceram em Szechuan.


Templos-Grutas de Mai-chi-shan, Kansu
Séc. VI, era cristã
A escultura da China de Huan tambm conhecida atravs das obras de finalidade funerria. Tal acervo inclui igualmente as monumentais, mas primitivas, esculturas de pedra da estrada de acesso, o chamado "caminho do esprito" (shen-tao) que conduz ao tmulo do General Ho Chu-ping, e tambm o leo alado da tumba de Kao I em Szechuan, tema que chegou China atravs da sia Ocidental, embora continue desconhecida a maneira como teria sido trazido. Figuras simblicas em barro cozido, como os vasos polidos, jias e outras oferendas, e que substituram as primitivas imolaes de homens e cavalos, se destacam no rico inventrio de objetos tumulares. As fortunas despendidas nos funerais e nos cultos aos mortos pelos funcionrios e seus familiares provocaram, o esbanjamento da economia da anterior dinastia Han que, depois de sua fragmentao em pequenos Estados, teve interditada a suntuosidade em suas catacumbas, por parte de governantes sucessivos.

No tocante arquitetura, embora nenhum monumento tenha conseguido sobreviver, as escavaes freqentes da velha metrpole de Ch'ang-an, acrescentadas aos achados de modelos de terracota, permitem-nos uma idia ntida da construo arquitetnica Han. Um dos aspectos bsicos daquela arquitetura, e que iria continuar importante nos perodos subseqentes, era o compartimento retangular sobre um pdio com pilares de madeira e uma estrutura tranada para sustentar o telhado. As paredes formavam telas entre os pilares, mas sem nenhuma funo estrutural. Estas paredes acumuladas em redor de uma seqncia de cmaras ou em contigidade, acompanhando uma linha axial centralizada, com a entrada lateral em lugar do estreito fronto, constitua a nota principal entre os elementos componentes do palcio. Mesmo as diversas espcies de torre assumiam o formato de casas superpostas, tendo um telhado projetado a separar cada pavimento.

A afetao do modo de vida da sociedade Han se reflete em vrios objetos de artesanato. O bronze perde a magia da fase arcaica: as formas se tornam mais simples, definidas e mesmo mais sbrias. A forma que ocorre com maior freqncia a ala para objetos de toucador. H tambm queimadores de incenso cujas tampas furadas assumem feitio de colinas com animais, o que reflete a preferncia Han pela natureza, e sua tendncia paisagstica. Alguns elegantes exemplares destes turbulos sobreviveram, por vezes incrustados com pedras preciosas. Uma especialidade Han eram as peas de laca polida produzidas comercialmente nas provncias de Szechuan e Hopei sob a orientao do Estado. A scia era um monoplio chins e suas produes eram exportadas atravs da sia Central pelas Estradas da Seda para a Sria e para Roma. A arte super-requintada do jade entalhado deu prosseguimento s tradies do perodo Chou; com este material precioso do Extremo Oriente, os artfices criaram elega ntes pingentes para completar os paramentos rituais e primorosos amuletos em feitio de animais.

Os trs sculos e meio entre a derrocada final da dinastia Han e a reunificao da China sob as dinastias Sui e T'ang constituem uma era de modificaes e inovaes tanto polticas como culturais. Os ensinamentos do budismo j haviam sido aceitos na China durante o perodo Han e conseguido alguns adeptos, mas a nova f s comeou a se fazer notar atravs da arte durante o citado perodo de transio.


Dvarapala
Perodo Ch'i
Pedra calcria; 1,09 m
Museu Rietberg, Zurique
0 aspecto monstico do budismo, que era inteiramente alheio ao tradicional sistema social chins, oferecia conforto e segurana aos membros desarraigados e expropriados de todos os setores da sociedade. A prtica inusitada da venerao das figuras de culto, por meio de cerimnias religiosas, provocou um influxo de estabelecimentos pios para acolherem as imagens sagradas. Na escultura e na pintura, assim como na arquitetura, os artistas tiveram que conciliar suas criaes com os modelos da sia Central e da prpria ndia; a aquisio e difuso de tais estilos criaram um ramo inteiramente novo dentro da arte chinesa. Os exemplos mais remotos, entre os que conhecemos, de imagens em bronze produzidas na China para venerao budista eram intimamente dependentes dos prottipos da sia Central e tinham, geralmente, dimenses reduzidas. A inata capacidade chinesa para assimilao e transformaes iria provocar uma fuso com estilos anteriores seus, advindo desta mescla uma nova e harmoniosa arte. Foi o que recebeu a denominao de etapa "arcaica" da escultura budista na China que, de hbito, era moldada no estilo Wei, de acordo com a dinastia fundada pelo cl Toba.

Obedecendo s regras monsticas budistas, os monges passavam os meses de vero em peregrinaes missionrias, angariando sua alimentao nas fazendas, enquanto os meses de inverno eram dedicados clausura meditativa dos mosteiros. Seguindo os precedentes indianos e os prottipos da sia Central, seus viharas, ou mosteiros, quase sempre eram constitudos de uma srie de grutas cavadas nas encostas rochosas. Os nobres Toba disputavam arduamente o privilgio de patrocinar tais estabelecimentos, dotando as grutas com suntuosa decorao de pinturas e esculturas: esses gestos de benemerncia eram estimulados pela prpria natureza do budismo, que prometia ou acenava com a salvao religiosa. As grutas de Yun-kang e Lung-men, com seus milhares de esculturas, gozam de merecida fama. Por outro lado, o santurio na montanha de Mai-chi-shan, sudoeste da provncia chinesa de Kansu, permaneceu abandonado e esquecido durante anos e s recentemente foi redescoberto. Enquanto as grutas dos templos da rea central ostentavam esculturas de pedra de dimenses avantajadas, gigantescas mesmo, aqui as imagens eram feitas de estuque, seguindo o mtodo da sia Central. Fazer com que as imagens seguissem as regras iconogrficas, formuladas na ndia, era uma condio ignorada e nova para os artistas chineses. Logo, porm, eles se adaptaram e assimilaram a idia e, no ss. V:, criaram padres de surpreendente fora interior e beleza, que lembram as esculturas dos primrdios da Idade Mdia na Europa. Na predileo pelas linhas sinuosas dos drapeados no panejamento das figuras, a atrao chinesa pela caligrafia ganhou nova vida. Nos casos em que as normas iconogrficas exigiam figuras desnudas, contudo, como na representao dos severos guardas, os artistas se viam tentados a exagerar a musculatura e a ignorar a suavidade do corpo humano.

Tambm no campo da pintura, o budismo trouxe elementos novos. As pinturas das grutas dos templos de T'un-huang - executadas entre o ltimo quarto do sc. V e a primeira metade do sc. VII - mostram claramente de que maneira os chineses lentamente insinuaram seus prprios padres estticos na pintura religiosa budista.

Simultaneamente com o mundo budista, a tradio nativa de pintura mural coexistiu, como sabemos, atravs de exemplos na Manchria e na Coria. Ao sul, em Chienk'ang, inmeros pintores e calgrafos trabalharam sob o patrocnio da dinastia oriental Chin (317-420). Podemos ter uma idia a respeito de suas obras num papiro atribudo a Ku K'ai-chih (344-406) e que est no Museu Britnico. Foi neste perodo que apareceu o papiro tpico do Extremo Oriente e que tomou a forma de livro ou inscrio.

A pintura foi ento desvinculada da arquitetura e levada para a convivncia e refinamento dos connoisseurs que poderiam contempl-la segundo sua vontade. Tudo isso fazia parte da vida dos nobres e literatos que apreciavam e praticavam tambm as belas artes - poesia, msica, caligrafia e pintura. Esta ltima deixou de exercer a funo didtica que lhe era atribuda por Confcio e j no tinha a finalidade de instruir o grande pblico, mas ser o privilgio de uma elite social cujos componentes sentiam o prazer verdadeiro em pratic-la ou contemplar suas criaes. Como conseqncia de tal mutao, por volta de 500, deparamos com as primeiras indicaes de uma teoria de arte. Ao mesmo tempo, as divergncias polticas e o fortalecimento do taosmo suscitaram maior interesse pela natureza - interesse que se refletia tanto na poesia de T'ao Yuan-ming (365-427) como nos indcios das primeiras pinturas puramente paisagsticas, de que, infelizmente, no sobreviveu nenhum exemplar.

A arquitetura deste perodo fundiu os estilos da stupa indiana com a torre nativa, produzindo o tpico pagode budista em pedra. Esquemas de mosteiros e templos empregaram o antigo tipo de vestbulo do Extremo Oriente com ptios circundantes. Nas obras artesanais o verde-cinza surge como uma inovao importante.

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