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Venezuela - Populismo: 3. Caça às bruxas!

Revista Veja

Fevereiro/2003 - Caça às bruxas - Chávez desiste de diálogo e aumenta a pressão sobre seus opositores


Hugo Chávez: de acordo com
pesquisas, seria derrotado num
plebiscito
O presidente Hugo Chávez sobreviveu a uma greve geral contra seu governo que durou dois meses. Num esforço para permitir que a vida na Venezuela retornasse à normalidade, o governo e a oposição assinaram um acordo que previa o abandono da violência e da retórica agressiva por ambas as partes. Não valeu a tinta usada nas assinaturas. Chávez voltou imediatamente a demonstrar, em pronunciamentos públicos, que não estava nem um pouco a fim de diálogo ou consenso. A polícia pôs na cadeia um dos líderes da greve geral, Carlos Fernández, presidente da maior associação empresarial do país. A ordem foi expedida por um juiz por crime de "rebelião civil e traição à pátria". Não era coincidência, assim, que Chávez tenha dito publicamente que os opositores mereciam ir para a cadeia. Ao desistir de qualquer diálogo político, o presidente desmoralizou a diplomacia brasileira, que tanto se esforçou para mediar o impasse entre os venezuelanos. Também ficou sem sentido o Clube de Amigos da Venezuela, capitaneado pelo Brasil e Luiz Inácio Lula da Silva. Esse clube reúniu países interessados na busca de uma solução negociada para a crise política em Caracas.


O empresário Carlos Fernández:
prisão por liderar a greve
Hugo Chávez sentiu-se fortalecido pela vitória sobre a greve geral e achou que deveria aproveitar o momento para esmagar de vez seus adversários políticos. Se preferiu o confronto, é porque as pesquisas diziam que seria derrotado se aceitasse o referendo sobre seu mandato que a oposição queria realizar em agosto daquele ano. "Finalmente aparecem juízes de coragem. Esse aí já foi preso tarde", disse Chávez, em relação ao empresário detido. "Fui dormir com um sorriso na boca." A prisão de Fernández mostrou o clima de caça às bruxas pilotado pelo governo Chávez. Fernández foi detido por oito agentes do serviço secreto venezuelano enquanto jantava em um restaurante de Caracas. Na mesma noite, era dada a ordem de prisão a Carlos Ortega, líder da maior confederação sindical da Venezuela, que conseguiu fugir. Para piorar a situação, foram encontrados na periferia de Caracas os cadáveres de três militares que pregaram a desobediência ao regime. A oposição insistia em que eles foram vítimas de homens armados pelos círculos bolivarianos, os grupos de apoio a Chávez criados nas periferias venezuelanas.

Muita gente que participou da greve estava sendo vítima da revanche do regime bolivariano. Na gigante estatal do petróleo, PDVSA, as demissões punitivas atingiam um terço dos 12.000 funcionários. Em vão, os remanescentes realizaram manifestações diárias exigindo a readmissão dos punidos. Chávez disse que eles não teriam o emprego de volta. "Merecem cadeia", ameaçava ele. O presidente ainda estava longe, contudo, de poder proclamar vitória. Na semana passada, a oposição já havia recolhido 4,5 milhões de assinaturas exigindo um referendo que encurtasse o mandato do presidente de seis anos para quatro. Sem nenhum sinal de estabilidade à vista, a economia definhava. Trinta anos atrás, a Venezuela era tão rica quanto a Espanha. Hoje, a situação é de total penúria. O PIB venezuelano caiu 7% em 2002. Em 2003 encolheu outros 15%.

Desemprego, inflação e pobreza atingem recordes históricos na Venezuela. Em lugar de governar, o presidente só quer briga


Chávez: povo dividido entre a
oposição, que quer eleições, e as
milícias que o defendem
O dia-a-dia dos venezuelanos lembra os piores momentos do Plano Cruzado, nos anos 80. O congelamento de preços decretado pelo presidente Hugo Chávez fez sumir das prateleiras o leite, a manteiga, o óleo de cozinha e os remédios. Os mesmos produtos reapareceram, pelo dobro do preço, nas milhares de barraquinhas que tomam as principais ruas e avenidas de Caracas. As semelhanças param por aí, porque os venezuelanos estão sendo submetidos a provações econômicas e políticas muito piores que qualquer coisa que já ocorreu por aqui. Ao contrário do Brasil, que é um campeão de produção agrícola e tem um formidável parque industrial, a Venezuela importa boa parte dos alimentos e quase todos os remédios que consome. No início de 2003, numa tentativa desesperada de interromper a desvalorização da moeda nacional e a fuga de divisas, Chávez proibiu a venda de dólares no país. Sem a moeda americana, o desabastecimento tornou-se tão agudo que os pacientes em hospitais então precisaram comprar as próprias seringas e antibióticos.

Por onde se olhe, a economia definhava. O Estado quebrou. Até o salário dos diplomatas venezuelanos no exterior estava atrasado. O produto interno bruto que havia encolhido 9% em 2002 e se previa que, na melhor das hipóteses, cairia mais 20% em 2003 – seria o pior resultado da história da América Latina. Como a Venezuela, que é o quinto maior produtor mundial de petróleo, chegou a uma situação tão calamitosa? De acordo com as pesquisas, sete em cada dez venezuelanos atribuíram total responsabilidade a Hugo Chávez e achavam que ele deveria pegar sua boina vermelha e deixar o Palácio de Miraflores, a sede do governo. O que agravava a encrenca era o fato de os outros três venezuelanos estarem dispostos a dar o sangue em defesa da "revolução bolivariana", como Chávez apelidou pomposamente seu governo, iniciado em 1999. É justo lembrar que o presidente pegou um país já em má situação naquela época. A Venezuela estava na enfermaria desde meados dos anos 80, quando começou a cair sua participação no mercado global de petróleo. O produto era praticamente sua única fonte de renda. Coube a Chávez dar o pontapé final no castelo de cartas criado pela prosperidade do passado.

Nos anos de bonança, a Venezuela desperdiçou o dinheiro ganho com a venda de petróleo em obras faraônicas, estatais deficitárias e paternalismo populista. As sucessivas crises econômicas e a corrupção desenfreada terminaram por desmoralizar os partidos tradicionais. Em 1998, Hugo Chávez foi eleito presidente como a única novidade disponível. Coronel pára-quedista sem partido nem programa político, o que tinha a oferecer como currículo era a fracassada tentativa de golpe de Estado que liderou em 1992. Convenceu o eleitorado de que sua quartelada fora motivada pela indignação moral com a corrupção generalizada e se elegeu com 56% dos votos. Sua popularidade alcançou, um ano depois, estratosféricos 90%. Encantados com as promessas messiânicas, os venezuelanos deram-lhe carta branca para fazer o que julgasse necessário para tirar o país da decadência. Chávez venceu seis plebiscitos e duas eleições, reformou a Constituição, interveio no Judiciário, prolongou o próprio mandato e fez maioria no Congresso. Na hora de usar isso em benefício do país, revelou-se um desastre.


Prateleiras vazias em supermercado de Caracas e manifestação chavista com
homenagem a Cuba: governo não sabia o que fazer com a economia
Chávez formou o ministério com companheiros fardados e velhos militantes comunistas, gente sem experiência administrativa. A falta de competência da equipe, mais que qualquer veleidade ideológica de copiar a Cuba dos anos 60, enterrou a esperança que milhões de venezuelanos depositaram nele. Cheio de vontade política, mas totalmente ignorante em assuntos econômicos, o presidente cometeu erros básicos. "Pôs-se a mudar constantemente as regras do jogo econômico, o que afugentou novos investimentos externos," disse Gustavo García, do Instituto de Estudos Superiores de Administração, em Caracas. Chávez ajudou a criar o clima de intranqüilidade ao incentivar desde invasões de terra até a depredação das instalações dos meios de comunicação que o criticavam. A instabilidade provocou uma enorme fuga de divisas. O desemprego chegou a 22%, quase o dobro do registrado em 1998, e a economia informal empregou mais de metade da mão-de-obra ativa. O presidente tentou resolver as mazelas sociais com o assistencialismo mais elementar. Colocou um orçamento milionário nas mãos do Exército, para que os militares distribuíssem cestas básicas e até dinheiro vivo à população. Filas se formavam diante do Palácio de Miraflores – onde eram entregues donativos – até esvaziar o Tesouro Nacional.

Chávez sustentava que a Venezuela era rica, mas uma elite perversa ficava com todo o dinheiro. A teoria simplista funcionou porque os venezuelanos, boa parte composta de imigrantes ansiosos por fazer a América, foram criados sob o sonho de que a riqueza petrolífera dava para todos. Não dava. A classe média, que 25 anos atrás representava 65% da população, àquela época não passava de 21%. A decepção e o ressentimento crônicos viraram combustível para o ódio entre as classes sociais, que o presidente alimentava. Ficou evidente então para a maioria dos venezuelanos que a revolução bolivariana também não oferecia a fórmula mágica capaz de melhorar sua vida numa economia em recessão. Entre dezembro de 2002 e janeiro de 2003, os setores organizados, de empresários a sindicatos, sustentaram durante sessenta dias uma greve geral cuja exigência era a convocação de um plebiscito para encurtar o mandato de Chávez e convocar novas eleições. O governo sobreviveu à crise, mas os ânimos continuaram exaltados. O estilo birrento do presidente, mais apropriado para tempos de guerra do que para alguém que tinha de governar a todos, contaminou a Venezuela. "Mais que a crise econômica ou política, o pior pecado cometido por Chávez foi incentivar uma enorme intolerância de venezuelanos contra venezuelanos", disse monsenhor Luis Ugalde, reitor da Universidade Católica Andrés Bello, em Caracas.


Troca de socos entre oposicionista e simpatizante
do governo: violência estimulada de cima
Os brasileiros que o festejaram no Fórum Social de Porto Alegre, em janeiro de 2002, talvez não soubesse que os partidos de esquerda foram os primeiros a abandonar Chávez. Quase trinta deputados mudaram de lado. "Ele não faz um governo de esquerda", disse o deputado socialista Alejandro Armas, que esteve junto com o governo até dezembro de 2001. "Os pobres estão mais pobres, e, quanto mais sua gestão fracassou, mais ele endureceu o discurso, à procura de culpados externos." Em suas aparições na televisão, Chávez mais parecia um líder de torcida organizada. Só em 2003, o governo já convocou 41 cadeias nacionais de rádio e televisão.

O estilo Chávez: um chefe de Estado que
canta e conta piadas em programa de TV
Chávez falou quase quarenta horas em 25 dessas cadeias. De modo arbitrário, ele interrompia novelas e noticiários para mostrar cerimônias militares ou entregas de títulos de terra feitas pelo governo. Seu programa dominical na TV estatal, o "Alô, Presidente", dura de quatro a cinco horas. O presidente conta piadas, canta e, principalmente, xinga seus adversários. "Não vejo nenhum problema em que ele provoque o confronto, nem na sua linguagem", justificou à revista VEJA o vice-presidente venezuelano, José Vicente Rangel. "Chávez é autêntico e responde na mesma moeda com que é atacado. Ele usa a linguagem do povo."

CAOS ECONÔMICO
Antes de 2003 Durante 2003
O PIB da Venezuela caiu 9% em 2002. A previsão era que encolhesse mais de 20% em 2003.
A inflação foi de 32% em 2002 Em 2003 a inflação passou de 50%.
O número de pobres cresceu 15%. A classe média diminuiu de 30% para 21% da população.
O desemprego dobrou em quatro anos Em 2003 o desemprego estava em 22%
As reservas em moeda forte caíram 40% em quase um ano.
Um dólar valia 600 bolívares há três anos. Em 2003 o dólar valia 2.200 bolívares.
Governistas e oposicionistas perderam a compostura. O centro e muitos bairros pobres de Caracas eram controlados pelos círculos bolivarianos, a truculenta tropa de choque dos partidários de Chávez. Uma professora da Universidade Católica que criticava Chávez em palestras em favelas foi seqüestrada por três homens encapuzados e ameaçada de morte se continuasse a pregar contra o governo. No início de fevereiro de 2003, vizinhos da igreja em que se realizava o casamento da filha de um tenente-coronel amigo de Chávez organizaram um panelaço ensurdecedor na hora da cerimônia. Constrangidos, os noivos tiveram de fugir escoltados por cinco viaturas policiais. Um vôo entre Caracas e Santo Domingo teve de ser interrompido, meia hora depois da decolagem, diante da bagunça promovida por dezenas de passageiros que "descobriram" ali um general próximo a Chávez. As lanchonetes McDonald's de vários bairros de Caracas parecem bunkers em tempo de guerra, protegidas com cercas de arame farpado e guardas armados. Isso porque, como era de esperar, a rede de fast food foi o bode expiatório de muitos militantes chavistas em seus ataques ao "imperialismo".

Chávez sentiu-se fortalecido com a vitória na greve geral e não demonstrou interesse em pacificar a nação. Por iniciativa do Brasil, foi criado um grupo de países amigos da Venezuela – que incluia os Estados Unidos, que compravam 65% das exportações venezuelanas de petróleo – com o objetivo de mediar um diálogo entre governo e oposição. O presidente venezuelano boicotou o esforço com a exigência de que o grupo fosse reforçado com alguns países muito amigos, como Cuba (Chávez fala diariamente por telefone com Fidel Castro, a quem considera um mentor). Também partiu para uma caça às bruxas. Pediu na TV que juízes "corajosos" prendessem os líderes da greve. Logo foram emitidas ordens de prisão para o principal líder dos empresários, para o presidente da maior central sindical, que pediu asilo à Costa Rica, e para sete diretores da PDVSA, a estatal do petróleo. Depois da greve, a empresa não pôde voltar a funcionar normalmente porque o governo puniu 16.000 funcionários, quase metade do quadro, com demissão sumária. Foi o mesmo que pôr a nocaute a galinha dos ovos de ouro, pois a PDVSA era responsável por 60% da arrecadação de impostos na Venezuela. A oposição ainda era desarticulada e não tinha líderes capazes de transformar o descontentamento geral em força partidária. Após o fracasso de uma tentativa de golpe no ano passado e da greve geral, o próximo passo foi um abaixo-assinado, que já tinha mais de 4 milhões de signatários, exigindo eleições antecipadas. "Fui contra o golpe e contra a greve geral, mas é preciso demonstrar que Chávez só aceitava ir às urnas quando tinha certeza de que ganhava", disse o economista Alejandro Plas, que tirou um ano sabático para organizar o que ele chama de "resistência democrática".

Quem realmente mudou de vida nesses quatro anos de populismo (de 1999 a 2003) foi o próprio Chávez. O presidente engordou e, apesar de se exibir publicamente com boina vermelha e farda, adora relógios e ternos italianos. Também comprou para uso da Presidência um avião de 70 milhões de dólares. Sua filha mais velha foi estudar francês em Paris. Por pouco o casamento da primeira-filha não se realiza no Palácio de Miraflores. A repercussão foi tão negativa, até dentro do governo, que, em um raro momento de bom senso, o presidente decidiu adiar a cerimônia e escolher um local mais reservado. Chávez também estava solteiro. Durante a campanha eleitoral de 1998, ele abandonou a primeira mulher, com quem teve três filhos, e também uma amante de vários anos. Tudo isso para se casar com a loira Marisabel, que era locutora de rádio. Ela deixou o palácio há alguns meses. Dizendo-se abandonada pelo presidente, abriu um salão de beleza numa cidade do interior. Como a maioria dos venezuelanos, ela se decepcionou com Chávez.

Oposição colhe assinaturas para convocar um plebiscito para tirar o presidente da Venezuela


Chávez em ação: discurso antiimperialista e
negócios com os Estados Unidos
O presidente venezuelano Hugo Chávez é o tipo de líder que com freqüência surge em sociedades marcadas pela miséria, por décadas de corrupção e pela falta de esperança nos políticos tradicionais – o autoproclamado salvador da pátria. Líderes como ele falam do povo como se fosse uma entidade mística que concentra toda a virtude. Elegem como inimigo do povo as "oligarquias" (e nessa categoria incluem todos os seus desafetos), fazem promessas messiânicas e, quando as coisas não correm conforme o planejado, buscam a sobrevivência apelando para o carisma pessoal. Chávez é a mais recente dessas manifestações populistas, e está na fase da busca pela sobrevivência: em outubro de 2003, durante quatro dias, a oposição recolheu assinaturas para convocar um referendo que pode tirá-lo do governo antes de terminar o mandato, em 2007. A oposição disse que conseguiu 3,6 milhões de assinaturas, bem acima dos 2,4 milhões requeridos pela Constituição. Um conselho eleitoral deveria levar um mês para conferir uma por uma. O referendo poderia acontecer em abril de 2004.

A questão é se Chávez aceitaria a convocação de um referendo que, de acordo com as pesquisas, iria podar pela metade seu mandato. Uma semana antes de a oposição coletar apoio nas ruas, o presidente organizou sua própria campanha de recolhimento de assinaturas, com o objetivo de fazer um referendo para derrubar deputados de oposição. O total recolhido foi um mistério. O presidente também distribuiu ameaças. "Creio que o melhor que a oposição pode fazer é não recolher as assinaturas, senão será pior para ela", disse, sem explicar o que faria se não lhe obedecessem. Mais tarde, aliados do presidente mandaram demitir funcionários públicos que apoiaram publicamente a coleta de assinaturas. Um gesto próprio do estilo autoritário e vingativo que marcava os cinco anos de governo chavista.


Venezuelanos fizeram fila para assinar:
3,6 milhões de assinaturas em quatro dias
A elite venezuelana, conformada com a riqueza natural, não se empenhou em criar uma indústria diversificada. Segundo a organização Transparência Internacional, a Venezuela é um dos vinte países mais corruptos do mundo. Chávez assumiu uma nação com mais de 70% de pobres – e conseguiu deixar a situação ainda pior. Seu governo se caracterizou pelo uso leviano dos poderes e dinheiro públicos e, sobretudo, pela estratégia i lusionista dos programas assistencialistas, que não resolvem o problema crônico do desemprego. Abusando de recursos cênicos, conseguiu dividir os venezuelanos, jogando pobres contra ricos. Avesso a críticas, começou a perseguir as empresas de comunicação, cujos donos ele chama de "delinqüentes" em seu programa de TV dominical.

A situação na Venezuela é um lembrete da dificuldade latino-americana em aproveitar as oportunidades para dar o salto decisivo para o desenvolvimento e para a consolidação da democracia. "A América Latina é uma região privilegiada do mundo, dotada de recursos abundantes em relação à população. Enfrenta poucos conflitos étnicos ou religiosos e está longe das áreas principais de tensão internacional", escreveu Norman Gall, diretor do Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, com sede em São Paulo. Por que, apesar dessas vantagens, apresenta desempenho econômico e institucional medíocres? A única receita conhecida (mas não infalível) para o desenvolvimento é incentivar a iniciativa privada, respeitar as leis e exercer boa governança. Trata-se de um conjunto difícil de encontrar na América Latina. É mais comum que cada manda-chuva pretenda reinventar a roda. "Virou tradição na região que, a cada novo governo, as prioridades mudem e os avanços anteriores sejam desprezados", disse Gall à revista VEJA.

A modernização da economia e os avanços nas áreas de saúde e educação são comuns à maioria dos países latino-americanos. Mas o continente não consegue resolver seu maior problema, a desigualdade social. Um estudo divulgado em 2003 pelo Banco Mundial mostrou que os 10% mais abonados concentravam metade da riqueza da região. No total, 44% dos latino-americanos viviam abaixo da linha de pobreza. O temor era que a falta de resultados sociais colocasse em risco a idéia de que a democracia é o melhor caminho para eliminar a pobreza e a miséria no continente. Uma pesquisa do instituto chileno Latinobarómetro em vários países da região mostrou que a confiança na democracia caiu de 61% em 1996 para 53% em 2003. A decepção com os políticos reforçava a impressão de que a América Latina vivia perigosamente numa encruzilhada que apontava, de um lado, o populismo, e, do outro, a normalidade democrática.

A ascensão de Hugo Chávez mostra a facilidade com que países importantes se deixam seduzir pelo populismo. E apesar de tudo, com um golpe branco, ele impugnou os 3,6 milhões de assinaturas (1,2 milhão a mais que o necessário) coletadas pela oposição para convocar um novo plebiscito para encurtar seu mandato. Ao fazer isso, ele fechou mais uma porta a uma solução constitucional para a crise política. De acordo com as pesquisas, restaram-lhe o apoio de apenas três em cada dez venezuelanos. A única meta do presidente venezuelano seria então se manter no poder e tocar adiante sua "revolução bolivariana", como pomposamente apelidou seu governo.

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