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Estilos Literários: 12. Primeiro Tempo Modernista

Colaboração: Bartolomeu Amâncio da Silva (Prof. Bartô)

O primeiro momento, conhecido como fase heróica, corresponde à Semana de Arte Moderna, em 1922, em São Paulo. Essa semana serviu como elemento de divulgação e dinamização das discordâncias, acelerando o processo de modernização. O objetivo central era se impor contra o Naturalismo, Parnasianismo e Simbolismo ainda vigentes.

Além disso, visava estabelecer uma teoria estética, nem sempre claramente explicitada por seus criadores e que acaba por renovar o conceito de literatura e de leitor. A Semana incluiu uma série de eventos (l3, l5 e 17 de fevereiro de 1922) no Teatro Municipal de São Paulo, reunindo artistas e intelectuais que, sob o aplauso e vaias da platéia, apresentaram uma espécie de sarau, declamando poemas, lendo trechos de romances, fazendo discursos, expondo quadros e tocando música.

Alguns acontecimentos, anteriores a 1922, preparam a trajetória do Modernismo; fatos, especificamente, ligados à estética renovadora, se multiplicam. Em 1912, Oswald de Andrade traz da Europa a novidade futurista; em 1913, o pintor Lasar Segall faz uma exposição, negando a pintura acadêmica. Em 1917, a exposição dos quadros de Anita Malfatti, em São Paulo, destacando a pintura expressionista, assimilada na Europa, coloca, de um lado, os que apóiam o novo e, de outro, os conservadores.

Na literatura, a transformação e o rompimento com o velho estão presentes, sobretudo, na obra de Oswald de Andrade, Memórias Sentimentais de João Miramar, publicada em 1916, cuja característica experimental notável se aprofunda em edições posteriores. Em 1920, Oswald e Menotti del Picchia iniciam a campanha de renovação nos jornais, tendo como expoente o poeta Mário de Andrade que, em 1922, traz a público Paulicéia Desvairada. Seu "Prefácio Interessantíssimo" corresponde a um primeiro manifesto estético.

Outra manifestação, em 1921, são os Epigramas Irônicos e Sentimentais, de Ronald de Carvalho, que, apesar de terem sido publicados em 1922, já revelam a busca por uma nova forma de expressão. No Rio de Janeiro, Manuel Bandeira se utiliza do verso livre. Ao final de 1921, os jovens de São Paulo preparam a Semana, contando com o apoio de Graça Aranha que, ao procurar criar uma filosofia para o movimento, acaba seu líder. Vários escritores do Rio e de São Paulo participam do evento: Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida, Menotti del Picchia, Ronald de Carvalho, Ribeiro Couto, Mário de Andrade e Oswald de Andrade.

Sabem que estão produzindo algo de novo, em oposição às tendências dominantes, entretanto não conseguem apontar claramente a trajetória a ser seguida. A esses escritores juntam-se os que publicam pela primeira vez: Luís Aranha Pereira, Sérgio Milliet, Rubens Borba de Moraes, Sérgio Buarque de Holanda, Prudente de Morais (neto), Antonio Carlos Couto de Barros. Unem-se, também, os pintores: Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Emiliano di Cavalcanti, Vicente do Rego Monteiro; o escultor Victor Brecheret; o compositor Heitor Villa-Lobos e o historiador Paulo Prado, criador do movimento Pau-Brasil, em 1924. Ainda, em 1922, é lançada a renovadora revista Klaxon, em São Paulo, cuja publicação se estende até o número nove.

O movimento pela nova estética se radicaliza em São Paulo, revelando o aspecto agressivo e polêmico da empreitada. Aos poucos, escritores de norte a sul se ligam ao grupo na batalha de oposição aos conservadores. O espírito nacionalista, inspirado pelo desejo de libertação da tradição européia, toma conta das manifestações e estimula a luta dos renovadores.

Após a Semana, surgem propostas variadas que dão origem aos grupos: Pau-Brasil, lançado por Oswald de Andrade, cujo nome adotado fazia referência à primeira riqueza brasileira exportada e tinha como princípios a exaltação do Carnaval carioca como acontecimento religioso da raça, o abandono dos arcaísmos e da erudição, a substituição da cópia pela invenção e pela surpresa; o Verde-Amarelo, que se colocava em oposição ao Pau-Brasil, pregava o nacionalismo ufanista e primitivista. Mais tarde, transformou-se no grupo da Anta, escolhida como símbolo da nacionalidade por ter sido o totem da raça tupi; o grupo Regionalista, iniciado no Recife, que pregava o sentimento de unidade do Nordeste; e por fim, o Antropofágico, liderado por Oswald de Andrade, inspirado no quadro Abaporu, (aba, "homem"; poru, "que come"), de Tarsila do Amaral, propõe a devoração da cultura importada com intuito de reelaboração, transformando o que veio de fora em produto exportável. As obras ligadas a esse movimento são Cobra Norato, de Raul Bopp, e Macunaíma, de Mário de Andrade.

Nesses agrupamentos, o enaltecimento do primitivismo passa a incluir a mitologia e o simbólico, sobretudo no movimento Antropofágico que, propondo a devoração dos valores europeus, lança suas idéias na Revista de Antropofagia (1928-1929).

Nessa primeira fase, o rompimento com o velho, a necessidade de chocar o público e de divulgar novas idéias estão marcados pelo radicalismo. Enquanto várias revistas são criadas por escritores renomados e por iniciantes, o movimento vai se estruturando de forma mais vibrante no Rio e em São Paulo, estendendo-se a Minas e ao polêmico regionalismo nordestino. As publicações variadas são fundamentais para o movimento que, extremamente ativo, se estende até 1930, quando menos agressivo, muda de rumos, principalmente, com referência à prosa, dominada, tradicionalmente, pela literatura oficial, ligada à Academia Brasileira de Letras, antagonista dos "futuristas", ou seja, dos modernistas, "rebeldes excêntricos do período".A partir dessa data, as novas idéias se generalizam, constituindo-se em padrões de criatividade. Findo esse primeiro momento, abre-se espaço para a segunda fase; a fase construtiva que prima pela estabilização das conquistas, com forte apelo social.

A Poesia - A poesia, produzida na primeira fase, apropria-se do ritmo, do vocabulário e dos temas da prosa, constituindo-se no principal veículo de divulgação do movimento. Abandona os modelos tradicionais do Parnasianismo e deixando de lado os recursos formais, adota o verso livre, sem número determinado de sílabas e sem metrificação, respeitando a inspiração poética. A cadência rítmica é mantida próxima da prosa em obediência à alternância de sons e acentos, demonstrando que a poesia está na essência ou no contraste das palavras selecionadas. A opção pelo verso livre expressa a alteração da música contemporânea, produzida pelo impressionismo, pela dissonância, pela influência do jazz e dodecafonia.

O registro do cotidiano aparece valorizado por meio de elementos diferenciados, incluindo: a linguagem coloquial; a associação livre de idéias; uma aparente falta de lógica; a mescla de sentimentos contrastantes, revelando o subconsciente e o nacionalismo. Às vezes, a preferência recai sobre o "momento poético" - observação de um determinado aspecto ou de um instante emocional, resultando em condensação poética.

O presente é incorporado aos versos por meio do progresso, da máquina, do ritmo da vida moderna. O humor, igualmente empregado, manifesta-se sob a forma de ironia ou paradoxo, surgindo o poema-piada, condensação irreverente que busca provocar polêmica.

A Prosa - A prosa do período não apresenta o mesmo vigor da poesia, mas revela conquistas importantes. A princípio, demonstra certa densidade, carregada de imagens, provocando tensão pela expressividade de cada palavra. Os recursos são variados como: a aproximação com a poesia, o apoio na fala coloquial e na utilização de períodos curtos. Um dos modernistas, Oswald de Andrade, aplica essas experiências não só em seus artigos e manifestos, mas também na obra Memórias Sentimentais de João Miramar (1924). Trabalha a realidade através de recursos poéticos, empregando metáforas e trocadilhos. Essa técnica, aliada a uma "espécie de estética do fragmentário", compõe-se de espaços em branco na formatação tipográfica e também na seqüência do discurso, cabendo ao leitor a tarefa de dar sentido ao que lê.

Ao lado de Oswald de Andrade, outros escritores se destacam: Antonio de Alcântara Machado com Pathé Baby, Plínio Salgado com O Estrangeiro, José Américo de Almeida com A bagaceira. Há os que dão ênfase à experiência léxica e sintática, tendo como suporte a fala coloquial. Mário de Andrade é um de seus representantes com Amar, Verbo Intransitivo e Macunaíma. Neste último, o novo está, sobretudo, no emprego da lenda, revelando contornos poéticos, derivados da liberdade na escolha do vocabulário, nacionalizando o modo de escrever.

Fonte: USP

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