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Estilos Literários: 01. Trovadorismo

Colaboração: Profs Bartolomeu Amâncio da Silva e Leonardo Campos


POESIA

Apoiava-se na poesia oral, espontânea, da fase pré-literária, e na lírica de origem provençal. Era uma poesia ligada à música, composta pelos trovadores e cantada pelos jograis e soldadeiras, que se faziam acompanhar de instrumentos musicais (viola, alaúde, flauta, gaita).

Por se destinar ao canto a à dança, obedecia a ritmos e recorrências sônicas de fácil execução e memorização. Daí a presença de refrões ou estribilhos, e do paralelismo. Compreendia dois gêneros principais: o lírico (cantigas de amigo e de amor) e o satírico (cantigas de escárnio e de maldizer).

Cantigas de Amigo - O "eu-lírico" é feminino: o trovador expressa as emoções da mulher como se falasse por ela.

Inspiram-se na vida popular, no cotidiano familiar e rural (pastoras, camponesas). São de estrutura simples apoiada no paralelismo, no refrão e na forma dialogada. Expressam uma visão mais realista do amor, colocado no plano terrestre dos desejos humanos e da sensualidade.

Cantigas de Amor - O trovador expressa as emoções do homem pela mulher amada. Originam-se da influência  provençal, projetando o refinamento da vida da corte, o ideal do amor cortês.

Inspiram-se no ambiente palaciano e a mulher é um ser idealizado, superior, inatingível, a quem o trovador, submisso, dirige seus lamentos, ocultando a identidade da amada, sob expressões respeitosas como "mia dona", "mia senhor", "fremosa dona", "fremosa senhor". Dá-se o nome cantiga de maestria à composição sem refrão, constituída de três ou mais estrofes regulares e submetida a certos formalismos estilísticos.

Cantigas de Escárnio - Sátira sutil, apoiada na ironia e na ambigüidade ("palavras cubertas que hajam dous sentidos"), sem a individualização da pessoa ofendida.

Cantiga de Maldizer - Sátira direta, contundente, palavrosa, sendo comum o calão.

Os cancioneiros são os códices (coleções de cópias manuscritas) que registram o que sobreviveu das cantigas trovadorescas galaico-portuguesas, esquecidas nos séculos clássicos, a partir do repúdio que a Renascença votou aos valores medievais, góticos ou bárbaros. São conhecidos três cancioneiros: o Cancioneiro da Ajuda, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional e o Cancioneiro da Vaticana.

PROSA

Na Primeira Época Medieval Portuguesa, a prosa revestiu-se de um caráter principalmente historiográfico, documental e eclesiástico. Nessa categoria existem quatro modalidades: cronicões (registros resumidos de efemérides, redigidos em língua latina), hagiografias e os escritos de matéria eclesiástica (exposições da vida e dos milagres dos santos e dos progressos da religião cristã, principalmente das ordens monásticas), nobiliários ou livros de linhagem (registros de casamento, nascimentos, óbitos e testamentos das famílias da nobreza, às vezes acrescidos de relatos heróicos e históricos) e traduções de Alcobaça (textos clássicos da Biblioteca de Alcobaça, traduzidos, do latim ou grego, para a língua vulgar portuguesa pelos monges cistercienses).

NOVELAS DE CAVALARIA

Na fase pré-literária, o gosto pelas narrativas de cunho guerreiro, derivado da índole germânica e do espírito cavalheiresco das cruzadas, desdobrou-se nas narrativas orais, de cunho heróico e guerreiro, denominadas canções de gesta, que perpetuaram através da tradição oral, os feitos lendários de heróis medievais como Rodrigo de Bivar (El Cid, o Campeador), Carlos Magno (e os Doze Pares de França), Rei Artur (e os Cavaleiros da Távola Redonda) entre outros.

O TROVADORISMO E A LITERATURA BRASILEIRA

* Por Leonardo de Campos

Introdução

Em boa parte da literatura mundial temos as palavras herança e resquícios como característica de determinada obra literária. O movimento modernista, conhecido de forma didática por ser uma manifestação que eclodiu ao lado da Semana de Arte Moderna, em 1922, na capital de São Paulo, possuía sua estética e proposta definidas pela antropofagia, um dos temas mais característicos do período literário, não muito distante da nossa realidade, datado do século passado. Alguns de seus representantes, como o afoito Oswald de Andrade pregava comer tudo aquilo que fosse estrangeiro e ruminasse de forma que apresentasse assim características brasileiras, uma visão ufanista de representação literária. Apesar dessas características iniciais, o movimento foi ganhado nova forma com o encadeamento de novos fatos históricos e sociais (que não convém citar aqui por questões de recorte, visando transformar o macro em micro).


Mário de Andrade, Cecília Meirelles e Manuel Bandeira:
poetas modernistas que resgataram alguns valores
trovadorescos nas suas respectivas líricas

Apesar de prezar pela estética inovadora, Mário de Andrade possui alguns poemas que são conexões das cantigas de amor de Martin Codax. Manuel Bandeira, um dos mais líricos poetas do movimento não só prendeu-se a criar novas cantigas que exalassem o amor como também repetiu, em muitos casos, a forma.

Segundo pesquisas da professora Maria do Amparo Tavares Maleval, não há com precisão como designar quem foi o primeiro neotrovador brasileiro. Alguns dados apontam para o poeta Guilherme de Almeida. Poderíamos nos debruçar entre outros representantes, como Martins Fontes, Paulo Bonfim, Mário da Silva Brito ou Augusto Meyer. Na impossibilidade de rastrear tantos poetas, o que daria aqui uma análise mais densa, nos ateremos então a Guilherme de Almeida e Mário de Andrade. Mas, visto que estamos falando de poetas do Modernismo e supracitado encontramos o termo neotrovadorismo, deixarei claro então a proposta deste trabalho: analisar os resquícios e paralelizações entre algumas produções literárias dos três poetas modernistas selecionados, ora comparando, ora analisando alguns aspectos mais superficiais, ora mostrando que mesmo inseridos dentro de um contexto social onde a literatura é tratada de forma de renovação, um retorno ao passado tão distante foi realizado, trazendo as estética trovadoresca para dentro de um movimento que buscava justamente a renovação. Não sendo esse o nosso objeto de análise, partiremos então para o necessário próximo passo, relembrando a seguinte questão: o que foi mesmo o trovadorismo?

O Trovadorismo é considerada a primeira manifestação literária de língua portuguesa e a que possui seu marco inicial na cantiga galaico-portuguesa Ora faz host´o senhor de Navarra, poema do trovador João Soares de Paiva.

A critica literária faz um panorama das trovadores da seguinte maneira: considera trovadores aqueles que compunham as poesias e melodias e a designação de trovador aplicava-se aos autores de origem nobre, sendo que os de origem plebeia eram chamados de jograis.

O teocentrismo era a mentalidade do momento. As cantigas, destinadas primeiramente ao canto foram manuscritas em cadernos, que posteriormente se tornaram coletâneas de canções, os Cancioneiros, sendo três deles os mais conhecidos: Cancioneiro da Ajuda, Cancioneiro da Biblioteca de Lisboa e o Cancioneiro da Vaticana, como já citado.


Teocentrismo: Deus é o centro
de tudo

Citar estas definições e a estrutura social medieval é de extrema importância para o entendimento do trabalho aqui desenvolvido. Na época, sabemos que as classes sociais eram divididas em nas seguintes funções: função religiosa (o clero), função guerreira (daí a origem de muitas das cantigas de amigo, com eu-lírico feminino) e a função trabalhadora. O início desta literatura era oral, anterior à literatura escrita. Esta cultura oral, passada entre as gerações, mantinha todos os conhecimentos que tornavam permitido às pessoas compreender a vida e o mundo ao seu redor. Faziam parte destes conteúdos as lendas, histórias míticas, narrativas versificadas, cantigas. Num pensamento ensaístico ao estilo Silviano Santiago, arrisco-me a dizer que hoje estamos começando a ter algo parecido retornando. Afinal, as distribuidoras não param de lançar áudio books.

Justifico a longevidade da minha introdução como uma forma de abordar os conteúdos da disciplina ministrada este semestre, que manteve em muitos momentos grandes discussões em sala de aula, todas elas aqui citadas sendo pertinentes aos temas discutidos hoje dentro do âmbito da literatura e da cultura, além claro, de fazer parte do assunto abordado.

Retornando e encerrando a introdução deste trabalho, deixo claro que os resquícios e a herança da poesia medieval encontra-se em alguns endereços literários de Guilherme de Almeida (um poeta que teve antologia de autoria de Manuel Bandeira, por isso a escolha), e Mário de Andrade.

O lirismo trovadoresco: as cantigas de amor e de amigo

A literatura teve fundamental importância na difusão de formas inovadoras de sociabilidade. Primeiro, o ideal de cavalaria, e o que mais nos importa aqui, o ideal de amor cortês: as homenagens prestadas à sua dama eram ministradas através da poesia trovadoresca. Embora tenha nascido no sul da França, a poesia trovadoresca conheceu um acolhimento fora do comum na Península Ibérica, graças aos impulsos de Afonso X, rei de Castela e aos cantares de amor e amigo, além das cantigas de escárnio e maldizer, extremamente ácidas na sua estrutura, porém um tema à parte para se analisar.


Imagem de trovadores

As cantigas de amor - Nelas, o cavaleiro se dirige à mulher como uma figura idealizada distante. Numa posição conhecida como vassalagem amorosa, põe-se a serviço da sua amada, dama da corte, tornando esse amor um objeto de sonho, distante, impossível. Com eu-lírico masculino e extremamente sofredor, a coita amorosa é o tema central na maioria das vezes, conhecido hoje como sofrimento por amor. Tal coita em muito influenciou outras estéticas literárias, como o poeta maior Luis de Camões, representante do Classicismo, o satírico Gregório de Matos no Barroco brasileiro, os poetas do Modernismo (não somente os que serão analisados aqui), a música e o cinema num nível mundial. As canções cantadas com tanto louvor por divas internacionais como Celine Dion e Mariah Carey, nada mais seriam que heranças da coita amorosa trovadoresca, salvo claro as devidas proporções de comparação.

Existe nas cantigas de amor a possibilidade de duas vertentes: as de refrão e as de mestria, que não tem refrão. O assunto principal é então a coita, há o amor cortês, impossível, ambientação aristocrática e a já citada vassalagem amorosa, uma forma vertical de relacionamento, visto que retrata as relações semelhantes as dos vassalos com seus senhores feudais. Para alguns estudiosos, a palavra drut (amante) não aparece nas cantigas de amor mas apenas nos cantares de escárnio e maldizer.

Analisando as cantigas de amor e amigo, percebe-se um certo paralelismo semântico, reafirmando a idéia dos estudiosos desta área de que as cantigas de amigo eram produzidas para serem cantadas, enquanto as cantigas de amor eram para ser lidas.

As cantigas de amigo: de origem popular possuem refrão, estribilho e paralelismo, características em evidencia na literatura oral. O eu-lírico, dessa vez, é uma mulher (sendo o homem obviamente o autor, visto que a mulher tinha acesso restrito na sociedade feudal. O eu-lirico das cantigas de amigo é uma jovem iniciante no universo do amor, muitas vezes lamentando a ausência do amado, por vezes cantando a alegria por um possível próximo encontro. A cantiga Baylia das avelaneyras traz muitos significados em sua estrutura, em um estudo que mantém relações com a natureza e com a mitologia, considerada paganismo na época.

Neotrovadorismo: as cantigas de amor e de amigo no modernismo brasileiro

1 - Os casos Guilherme de Almeida e Mário de Andrade: diferenças

Muito parecido como o caso de Mário de Andrade no poema "Quando eu morrer", integrante do livro Lira Paulistana, Guilherme de Almeida, diferente de poetas como Fernan Rodriguez de Calheiros e Nuno Fernandes Torneol. Foi, entre tantas profissões, advogado, jornalista, crítico de cinema, poeta e ensaísta brasileiro. Entre as suas proezas, foi o responsável pela divulgação do poemeto japonês haikai, no Brasil. Foi autor da letra do Hino da Televisão Brasileira, executado quando da primeira transmissação da Rede Tupi de Televisão, realizada pelo jornalista Assis Chateaubriand (Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello). Durante as pesquisas para melhor realização destas análises, foram conferidos todos os episódios da série televisiva "Um Só Coração" (2001), onde todos estes fatos comentados foram mostrados, além de declamações de poema de Mário de Andrade que eram realizadas a cada intervalo de cena.


Cena da minissérie "Um Só Coração": adaptação televisiva
sobre A Semana de Arte Moderna e boa parte dos adventos
do século XX, como por exemplo, a televisão chegando ao Brasil.

No poema “Senhora saudade”, o poeta expressou a saudade, mas a saudade que nele se observa não é mais a da amiga pelo namorado, senão a saudade personificada, que é representada em diálogo com outra personagem nostálgica do passado feliz, segundo Maria do Amparo Tavares Maleval. O mesmo que o "Quando eu morrer", de Mário de Andrade. São Paulo é a sua grande paixão. No poema, ele mapeia a cidade, solicitando que partes do seu corpo sejam sepultadas num dos lugares estratégicos por onde passou, morou e viveu.

O contraste de Guilherme de Almeida e as cantigas escolhidas de Fernan Rodriguez de Calheiros e Nuno Fernandes Torneol estão justamente na explicação do parágrafo anterior. No caso da cantiga "Aquí vej'eu, filha, o voss'amigo", de Nuno Fernandes Torneol, temos o tradicional cantar de amigo, com destaque para a forte presença da mãe como guardiã e confidente.

2 - Os casos Martin Codax e Mário de Andrade: semelhanças

Sobre Martin Codax, o que se pode dizer baseado nas pesquisas, é que a sua origem não é clara, o jogral procede provavelmente do sul da Galiza, de Vigo ou da Ilha de São Simão, em Redondela. Não há muitos dados sobre a origem deste jogral.


Imagem de Dorival Caymmi: músico e poeta também
influenciou-se por características trovadorescas

Influenciou entre tantos, Dorival Caymmi e Ana Maria Machado. Segundo Maria Amparo Tavares Maleval, Mário de Andrade mantém um nítido diálogo com Martin Codax, nas cantigas que estão anexadas. Alusoes ao mar estão claras em ambos os poemas.

3 – Outros casos

Há outros poetas modernistas que possuem essa relação com a lírica trovadoresca. Cecília Meireles por exemplo, citou muito questões como ceticismo, terra, elementos, algo que me remete ao poema "Bayla das Avellaneras". Na obra de Drummond, os seus poemas de cunho erótico possuem bastante ligação com poemas de Roy Quemado Guerra.

De acordo com a pesquisa, essa retomada de temas trovadorescos pelos modernistas, que pregavam a novidade, deve-se a Mário de Andrade, que não resistiu à qualidade das cantigas que só começaram a ser traduzidas e trabalhadas depois do século XIX.



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