Estilos Literários: 04. Barroco

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Colaboração: Bartolomeu Amâncio da Silva (Prof. Bartô)

Na Literatura Portuguesa, a designação de barroco para classificar determinada época e determinado estilo tornou-se quase ambígua, em virtude das muitas e desvairadas acepções que foram atribuídas à palavra. De barroco, sinônimo de bizarro, de barroco, esquema escolástico de silogismo falso, de barroco, termo corrente na crítica de artes plásticas, sinal de mau gosto e coisa absurda, passou-se a barroco, etiqueta histórica e estética, que se dava como equivalente ou palavra substituta de Seiscentismo.

O barroco é fruto duma atitude espiritual complexa, carregada de elementos renascentistas, evoluídos ou alterados, atitude que leva o Homem a exprimir-se, na pintura, na arquitetura, na poesia, na oratória e na vida, segundo um modo sui generis. Este modo concretiza-se na literatura por uma rebuscamento da perfeição formal, uma aventura de arte pela arte. Na prosa seiscentista, os períodos articulam-se em paralelismos e simetrias, em frações sabiamente bimembres ou trimembres, em antíteses.

Os limites cronológicos do barroco português podem fixar-se, sem rigidez, entre os anos de 1580 e 1756. A prosa atinge nesta época a sua maioridade. Entramos num mundo novo de ritmo e estruturação da frase, num novo sistema de articulação das palavras na frase e das frases no discurso. A prosa barroca é uma prosa artística; possui a maturidade que não alcançara a prosa do Quinhentismo.

São barrocas obras como os sermões do Pe. Antonio Vieira - no seu conceptismo e na valorização da palavra como verbo e música.

Mas o gongorismo não contagiou muitos prosadores seiscentistas, nem o conceptismo obscureceu o significado dos seus parágrafos. Foi na poesia que a sombra de Gôngora se agigantou; o gongorismo levou muitos poetas ou pseudo-poetas do Seiscentismo a exageros que se generalizaram. Nos primeiros anos do século XVII o estilo de poesia camoniana era grande, como podemos identificar no cancioneiro barroco Fênix Renascida, onde encontramos muitas glosas de poesias de Camões.

Mas Gôngora foi o grande mentor dos poetas maiores e menores do Seiscentismo, que não se cansavam de o imitar. Alusões mitológicas, requintadas e brilhantes metáforas. A poesia culta reluzia, brilhava, recamada de lantejoulas; eram de prata os rios, pérolas as lágrimas, e havia ouro e diamantes em quase todos os versos do Parnaso.

Parece poder concluir-se que nas raízes do estilo barroco está uma transformação dos valores formais do Renascimento através do Maneirismo.

As coisas mais perfeitas, na verdade, desde que não variem, acabam, mais tarde ou mais cedo, por aborrecer. Por causa disto, os autores de qualquer escola, atingida a saturação, começaram a sentir uma certa angústia psicológica e trataram de pesquisar novidades, na ânsia de serem originais e de darem ao público criações de interesse. Foi assim que, mesmo inconscientemente, fizeram evolucionar os estilos. Geralmente, esta evolução não destrói o essencial; o essencial permanece, mas tão coberto de adornos excessivos que mal pode respirar e mal se enxerga. Parece que a proporção, a ordem e o equilíbrio dos melhores expoentes da arte acabam, em qualquer idade, por cansar toda a gente.

Os escritores de então, embora continuassem a admirar a cultura greco-latina, procuraram, numa ânsia incontida da originalidade, retorcer e exagerar as formas e apresentar aos leitores os assuntos mais inesperados pelos processos mais imprevistos. Daí o aparecimento da rebuscada artificialidade do cultismo e do labiríntico discorrer do conceptismo.

Cultismo

Tendência típica da literatura barroca, para usar e abusar de metáforas cintilantes, requintadas, de hipérboles e de jogos de palavras. Corresponde à sobrecarga ornamental da arte plástica da mesma época (é lembrar as suntuosas obras de talha das igrejas barrocas) e ligou-se estreitamente ao conceptismo no amor da agudeza e do chiste, no desejo de surpreender e maravilhar o leitor. O grande modelo seguido pelos poetas cultos ou cultistas é Gôngora. O cultismo dirigiu-se em parte à imaginação sensorial, em parte à inteligência. Quer na poesia quer na prosa se encontram estes processos até meados do séc. XVIII. O próprio Pe. Antonio Vieira, apesar de, no Sermão da Sexagésima verberar os artifícios gongóricos de certos pregadores, não esteve completamente isento de jogos de palavras, e utilizou, a cada passo, construções paralelas, simétricas, desdobrando com virtuosismo os elementos dum contraste.

Conceptismo

Tendência característica da literatura barroca, para os jogos de conceitos, prova de engenho sutil, não menos estimada em poesia do que em prosa. Já se encontrava conceptismo no Cancioneiro Geral e nos poetas petrarquizantes do Quinhentismo, como Luís Vaz de Camões, mas no séc. XVII a tendência intensificou-se e tomou aspectos novos, sob a influência dominante de Gôngora e de Quevedo. Embora cultismo e conceptismo estejam intimamente unidos, frutos como são da mentalidade barroca, há autores predominantemente conceptistas e de clara expressão - clássica, em certo sentido: é o caso do Pe. Antônio Vieira. Todavia, o pensar por simetrias e contrastes determinava, no plano formal, paralelismos e antíteses; e Vieira é medularmente barroco pela vigorosa exuberância e pelo dinamismo interior que leva a criar artificialmente dificuldades lógicas para depois, com surpreendente agudeza, as resolver.

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