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Autores: 5. Romantismo - A obra de José de Alencar

Página 3 Pedagocia & Comunicação

A prosa de ficção surgiu no Brasil por meio de um gênero literário, o romance, e o primeiro romancista brasileiro foi o fluminense Joaquim Manuel de Macedo, com o best-seller "A Moreninha". No entanto, o romance brasileiro ganhou consistência e orientação a partir da entrada de José de Alencar na cena literária brasileira.

Para compreender a importância de Alencar, é necessário entender o papel que a literatura ocupava na sociedade da época. É preciso ter em vista que não existia televisão e que, nesse sentido, o romance cumpria o papel hoje cumprido pelas telenovelas. Mas note que a novela de TV não visa apenas dar vazão à imaginação e à fantasia, que se expressam através das aventuras e peripécias vividas pelas personagens. A novela também se dedicava a registrar a realidade em que a narrativa se ambientava (evidentemente, não nos referimos às novelas de época).

Novelas e jornalismo

Assim como as telenovelas documentam hoje a vida dos habitantes ou de grupos sociais da cidade do Rio de Janeiro e de São Paulo, o romance também tinha essa função no século 19. E pode-se dizer que de maneira ainda mais intensa, uma vez que o romance surgiu nas páginas da imprensa, publicado como folhetim, o que aumentava os laços entre a literatura e o jornalismo. Da mesma forma que o jornalismo, também, o romance expressava idéias, opiniões e juízos de valor, ajudando o leitor a formar a seu modo de ver e compreender a realidade.

Pois bem, se o romance é um instrumento para se documentar a realidade e transmitir idéias, foi José de Alencar quem resolveu se aproveitar ao máximo dessas qualidades do "veículo" e com ele estabelecer um amplo panorama da vida no Brasil, da nacionalidade brasileira. Não se pode deixar de dizer, que esse projeto de Alencar teve início em meados do século 19, durante o Segundo Reinado, o momento histórico em que nosso país estava se consolidando enquanto nação independente, com características próprias.

Identidade nacional

Tratava-se de um momento em que era necessário estabelecer e afirmar a identidade brasileira. José de Alencar tomou para si a tarefa de fazer isso no âmbito literário. Seus romances pretendiam apresentar os aspectos que o autor distinguia em nossa realidade e exaltava as virtudes do país e de seu povo. De fato, Alencar se encarregou da tarefa com tamanho empenho que não se contentou em usar a língua portuguesa "clássica", aquela que o colonizador português legou, mas procurou abrasileirar o português em seus textos, o que foi talvez uma de suas mais importantes características de estilo.

Quanto à divisão temática de dos romances de Alencar, pode-se dividi-la em quatro categorias, das quais destaca-se alguns títulos mais importantes:

Romances indianistas: O Guarani (1857), Iracema (1865) e Ubirajara (1874);

Romances Urbanos: Cinco Minutos (1860), Lucíola (1862), A Pata da Gazela (1870), Sonhos d'Ouro (1872) e Senhora (1875);

Romances regionalistas: O Gaúcho (1870), O Tronco do Ipê, Til e O Sertanejo;

Romances históricos: As Minas de Prata (1862) e A Guerra dos Mascates (1873).

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Romances indianistas

Afirmar a identidade brasileira, significava em primeiro lugar valorizar os traços autóctones do brasileiro, isto é, aqueles que aqui já existiam antes da chegada dos colonizadores. O índio era quem iria representar esse papel, de vez que ele é o homem da terra brasileira em estado puro. Assim, o índio assumiu o papel de herói de símbolo da raça, papel que nos dias de hoje têm sido assumido principalmente por jogadores de futebol e atletas de um modo geral.

Nesse sentido, destaca-se Peri, o personagem principal de O Guarani, romance em que Alencar, de modo épico, fez uma alegoria das origens do Brasil. Peri tem todas as características heróicas que se possa imaginar: ele surge no romance caçando, "no braço", uma onça. Logo mais, ele descobre as maquinações que o vilão, Loredano, trama contra seu senhor, dom Antonio de Mariz, e trata de frustrar seus planos. Além disso, nutre pela filha de dom Antônio, a jovem Ceci, o mais puro e dedicado dos amores. Esse par amoroso Peri-Ceci tem características de um simbolismo evidente: da união do índio com o branco é que se origina o "mestiço" brasileiro.

O Guarani é a epopéia da formação da nacionalidade. Esse caráter nacionalista e grandioso levou-o a ser adaptado para o canto lírico, dando origem à ópera de mesmo nome, composta por seu contemporâneo Carlos Gomes, bem como a algumas adaptações cinematográficas, das quais a mais recente data de 1988, dirigida pela atriz e diretora Norma Bengell e não faz jus à obra de Alencar. No entanto, vale destacar também a obra Iracema que também apresenta uma alegoria do surgimento do homem brasileiro, a partir da união da índia Iracema e do colonizador Martim, porém de modo lírico e poético.


Iracema (1884), de José Maria de Medeiros, inspirado no romance-poema de José de Alencar.
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Romances urbanos

Nessas obras, Alencar se dedicou a traçar um painel da vida na Corte, ou seja, a cidade do Rio de Janeiro, sede da monarquia brasileira. Os enredos basicamente trataram de aventuras amorosas e procuraram traçar os perfis das mulheres que os protagonizaram. Nesse sentido, Alencar avançou numa característica que se tornou importante ao gênero romance: a observação psicológica das personagens. Ao mesmo tempo, fez crítica de costumes sociais de sua época.

Esse é particularmente o caso de Senhora, em que o autor faz uma crítica ao casamento por interesse e ao arrivismo social, narrando a história de Fernando Seixas que é "comprado" para ser marido de Aurélia Camargo. Aurélia havia herdado uma providencial fortuna com a qual se vingou de Fernando, que a desprezou quando ela era pobre. Como se vê, contudo, trata-se de questões superficiais. Alencar não conseguia perceber nem tematizar as grandes mazelas da sociedade brasileira de seu tempo. Por outro lado, sua literatura urbana abriu caminho para o surgimento de uma obra genial como a de Machado de Assis.

Romances regionalistas

O maior mérito de Alencar, aqui, é o de ter inaugurado um caminho que se revelou muito proveitoso para a literatura brasileira. Ao colocar o foco sobre as realidades regionais do Brasil - no Rio Grande do Sul, em O Gaúcho; no interior de São Paulo, em O Tronco de Ipê, no Nordeste em O Sertanejo -, Alencar logo conquistou seguidores, que também fizeram literatura regionalista, como o Visconde de Taunay e Bernardo Guimarães, ainda no século 19.

Contudo, foi no século 20 que o regionalismo manifestou-se com grande vigor na literatura brasileira, gerando grandes autores a partir da década de 30. São muitos os autores regionalistas que se pode destacar e que produziram obras-primas para a literatura brasileira de um modo geral. Entre eles, é impossível deixar de citar José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Érico Veríssimo e João Guimarães Rosa.

Romances históricos

O romance histórico é um subgênero do romance que não deu muito certo no Brasil, mas não se pode acusar Alencar por isso. Em seus romances dessa categoria, ele procurou mostrar que o Brasil independente tinha raízes na Colônia. De resto, convém lembrar que debruçar-se sobre o passado "brasileiro" propriamente dito seria debruçar-se sobre o Brasil pré-cabralino e aí entraria-se na seara do romance indianista. O romance histórico faz mais sentido na Europa onde as tradições medievais de cada nação fornecem matéria narrativa e efetivamente refletem as origens de cada país.

Considerações

O projeto alencariano de retratar a realidade brasileira pelo romance talvez peque pelo fato de os modelos do autor serem europeus e por ele se ater demais aos seus modelos. Mas o que se pode esperar de um autor brasileiro daquela época? Os romancistas europeus do século 19 contavam com uma tradição narrativa que datava no mínimo do século 14, para não falar da literatura greco-romana. A literatura brasileira não contava com nada disso e nenhum homem pode criar qualquer coisa a partir do nada.

Isso atenua Alencar da acusação de simplesmente transpor os padrões europeus para nossa realidade. Além disso, o mérito de Alencar é o do pioneiro, o daquele que procura e desbrava caminhos. Finalmente, o crítico Roberto Schwartz aponta um mérito a mais na obra de Alencar que não deve ser desprezado: ao transpor os modelos europeus para a realidade brasileira tão distante da realidade européia, a obra de Alencar tem involuntariamente um quê de paródia, que prenuncia a maneira satírica com que os modernistas e os tropicalistas vão olhar para os valores estrangeiros e tentar criar valores genuinamente nacionais.


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