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Autores: 3. Modernismo - A poesia de Fernando Pessoa

Odete Antunes (Profª Odete)

Capa do 1º exemplar da revista Orpheu
1º Tempo Modernista em Portugal
LISBON REVISITED (Lisboa Revisitada) (Álvaro de Campos)

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?
Se têm a verdade, guardem-a!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro a técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havermos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja a companhia!

Ó céu azul – o mesmo de minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta
Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!
[...]

in Fernando Pessoa. Obra poética R. de Janeiro. Nova Aguiar 1986.

Nota importante: Observe que do ponto de vista formal, características modernistas estão presentes no poema: versos livres de estrofes heterogêneas e de uma linguagem coloquial, próxima da fala.

Desde a primeira estrofe, o sujeito poético imprime um tom exasperado, irritado, ao seu discurso, que se caracteriza fundamentalmente pela negação: as conclusões, as estéticas, a moral , a metafísica, os sistemas completos das ciências, das artes e da civilização moderna, a verdade. O verso – Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!), mostra com maior clareza a postura irônica do sujeito poético perante os valores por ele negados.

A modernidade caracteriza-se pela fragmentação do ser humano – a perda de sentimento de “ser inteiro”, advinda da relativização das certezas, da multiplicidade de opções, da falta de parâmetros para a escolha do que fazer, do melhor caminho a seguir. Na sexta estrofe o sujeito poético se autodefine como um técnico e, ao mesmo tempo, como um “doido”. Percebemos a cisão entre racionalidade, técnica e irracionalidade e loucura. Nesse sentido, ele exemplifica a fragmentação do homem moderno. A ironia está presente quanto ao modo de vida burguês, com suas instituições, comportamentos rotineiros, como pagar impostos, o apego a futilidades, o seu desajustamento em relação ao mundo em que vive. Observe no verso: Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?.

O sujeito poético também se apóia na morte e na solidão para renegar esses valores do mundo, revelando sua marginalidade, seu desajustamento em relação a vida.

Pelo nervosismo e perturbação do sujeito poético, podemos considerar neurótica sua postura perante o mundo e as pessoas, partindo da leitura da oitava e nona estrofes, pois nelas o sujeito poético expressa o máximo da exasperação perante as pressões para ajustar, compactuar com valores do mundo moderno.

Comentário


Fernando Pessoa
Leitura complementar:
Biografia de Fernando Pessoa
Biografia de Álvaro de Campos
Biografia de Alberto Caeiro
Álvaro de Campos não é um poeta de “carne e osso”, mas um heterônimo - um “outro” eu poético – de Fernando Pessoa, o mais importante representante do Modernismo português e um dos grandes poetas do século XX.

Fernando Pessoa criou vários heterônimos. Além de Álvaro de Campos, os mais conhecidos são Alberto Caeiro e Ricardo Reis.

O fenômeno da heteronímia – a capacidade de multiplicar-se, de desdobrar-se em poetas imaginários – constitui a característica mais destacada de Fernando Pessoa, esse “multiplicador de eus” que tomamos como ponto de partida para estudar o movimento modernista português.

Como você viu no poema analisado, Álvaro de Campos é o heterônimo futurista de Fernando Pessoa. Ele encarna o homem moderno, com suas neuroses e obsessões, sua consciência de ser fragmentado e de viver num mundo cujos valores abomina.

Para conhecer o universo político-cultural português do início do século, compreender como nasceu e como se desenvolveu o Modernismo no país, quais eram seus principais elementos, quem eram e o que produziram seus mais importantes representantes – entre os quais Fernando Pessoa, poeta que simboliza e sintetiza algumas das questões fundamentais do mundo moderno, em termos artísticos e filosófico, leia: Revista Orpheu | 1º Tempo Modernista Português - Geração Orpheu

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