A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá Carneiro
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Análise da obra
Esta obra foi
considerada por José Régio como a obra-prima de entre as novelas de Sá Carneiro,
onde estão presentes três de suas obsessões dominantes: o suicídio, o amor
pervertido e o anormal avançando até a loucura.
Nesta obra, ao incitar seus personagens na busca de uma transcendência
distorcida, Sá-Carneiro cria uma atmosfera de exacerbado lirismo. Capaz de
acrescentar um prazeroso sabor ao narrar o inarrável, mesmo no leitor que possui
poucas fibras de sensibilidade ele é capaz de produzir um turbilhão interior
próximo ao palpitar acelerado do coração quando em êxtase.
A Confissão de Lúcio, publicada pelo poeta em 1914, um ano antes do
aparecimento do primeiro número de Orpheu é uma novela que parece
apresentar, através da fragmentação, a existência de questões que ficam sem
resposta: repetição de silêncios intervalares, espelhamentos intertextuais como
forma de dar consistência a essa outra voz, consciente de que tudo aquilo é
material com que se constrói a obra de arte, cuja linguagem é plástica e
maleável, criadora de um sentido provisório e impossível de fixar.
Foco narrativo
A Confissão de Lúcio é obra narrada em primeira pessoa
e o personagem-narrador procura sempre demonstrar o contrário da característica
da obra, isto é, apresentar os (simples) fatos a fim de obter credibilidade do
leitor, que é o “júri”. Ao
modo próximo dos simbolistas, o narrador vai captando as relações mais íntimas
do âmbito da percepção, levando esse conjunto de sensações a rever o conceito de
realidade e aproximá-la do fantástico.
A narrativa começa do fim para o início, e já na primeira
página o próprio narrador demonstra claramente a desilusão que tomou conta de
sua vida depois dos acontecimentos que vai narrar, a ponto dos dez anos que
passara na prisão por um crime que não cometera parecerem-lhe "uma coisa
sorridente". É bom lembrarmos que há uma certa ironia que passa por toda a
narrativa, e tal ironia provém do próprio narrador. É como se, o tempo todo, ele
estivesse analisando o passado sob os olhos do presente, a fim de dar um tom de
maior veracidade aos fatos narrados, porém, sua tentativa é malograda, uma vez
que a ironia empregada assume apenas um tom de riso profilático e é totalmente
posta por terra no final, pois notamos que o narrador nada mais é do que a
vítima confessa delas próprias.
As várias funções exercidas pelo narrador Lúcio na história -
ele é ao mesmo tempo personagem narrador e receptor de outras obras - indicam a
ambigüidade, inerente à linguagem, em que o significante desliza constantemente
sob o significado, tornando impossível o estabelecimento de qualquer sentido
definitivo. E também que o reverso (ou o complemento?) da criação é a
destruição: Lúcio destrói no fogo sua peça Brasas, Ricardo mata Marta, sua
criatura, o final da obra da americana coincide com a sua morte.
O estilo da narrativa tem por objetivo deixar o leitor em
constante dúvida (o relato é real ou imaginário?). Inicialmente, os autores
optaram pelo mesmo estilo: uma confissão. Essa confissão alcançou o objetivo na
novela de Sá Carneiro.
Ele intensifica o caráter
documental de sua obra: a novela é apresentada ora como confissão de fatos
consumados ora como um diário íntimo.
Não estou escrevendo uma
novela. Apenas desejo fazer uma exposição clara de fatos. E, para a clareza,
vou-me lançando em mau caminho - parece-me. Aliás, por muito lúcido que queira
ser, a minha confissão resultará - estou certo - a mais incoerente, a mais
perturbadora, a menos lúcida.
(...) E são apenas fatos que
relatarei. Desses fatos, quem quiser, tire as conclusões. Por mim declaro que
nunca o experimentei. Endoideceria, seguramente.
(...)
Não importa que me
acreditem, mas só digo a verdade - mesmo quando ela é inverossímil.
(A Confissão de Lúcio -
Prólogo)
O protagonista desta
narrativa cumpre um destino absurdo que não é possível explicar pela lógica
comum: deixa-se prender e condenar por um crime que não cometeu e que afinal não
existiu.
Personagens
Com
relação às personagens, dentre as várias existentes, entendemos ser o triângulo
amoroso formado por Lúcio, Ricardo e Marta, o cerne fundamental que levará à
desilusão do autor/narrador no final da narrativa.
Ricardo - o protagonista dos fatos narrados. Trata-se de um poeta que, antes
de ser apresentado a Lúcio, é mencionado por várias personagens. Sua marca
principal é a incoerência: seu maior problema é que sente-se totalmente estranho
à vida normal, ao mesmo tempo que sente uma irresistível atração por ela.
Lúcio Vaz - narrador-personagem, jovem escritor português, é a duplicação do
eu de Ricardo, ou seja, o seu outro, o grande conflito que marca toda a obra de
Sá-Carneiro.
Marta - retratada como uma mulher belíssima, mas todo um mistério a envolve
durante toda a parte da narrativa em que aparece. É esposa de Ricardo, porém
Lúcio se apaixona por ela. Os dois têm uma relação extra-conjugal que, para
Lúcio, parece óbvia demais para Ricardo não perceber. Lúcio parece ter certeza
de que Ricardo sabe de sua relação, mas acha muitíssimo estranho que este nada
faça. Em dado momento, Marta deixa de vir à casa de Lúcio e passa a encontrar-se
com Sérgio Warginsky, outro freqüentador da casa de Ricardo, o que deixa Lúcio
horrorizado.
Para falar de Marta, é necessário ter em mente esta questão do outro, pois esta
é a explicação mais plausível do desenrolar final da narrativa, uma vez que
é ela quem acende o estopim das ações que levarão à desilusão em relação à vida
do autor/narrador.
Enredo
Num primeiro momento a
história de desenvolve na Paris de 1895. O narrador, Lucio, nos conta do meio
artístico e destaca-se nessa narração a figura de Gervásio Vila Nova: escultor,
dono de uma conversa envolvente, embora fosse algo “disperso, quebrado, ardido”.
Destaca-se ainda, nesse momento, a admiração que vai desenvolver por uma
misteriosa americana, mulher rica e linda: “Criatura alta, magra, de um rosto
esguio de pele dourada - e uns cabelos fantásticos, de um ruivo incendiado,
alucinante.” Por meio dela fica sabendo da chegada de Ricardo Loureiro, poeta
cuja obra era muito admirada.
Numa festa promovida por
Gervásio, Lúcio é apresentado a Ricardo. Logo da primeira conversa vai se
desenvolver uma grande amizade e admiração entre ambos.
A admirada americana ruiva
desaparece de cena, Gervásio também encerra aqui sua participação no enredo, uma
vez que retorna a Portugal. Enquanto as conversas com os outros tinham um
interesse voltado para o intelectual, o conhecimento, as feitas com Ricardo
pareciam atingir a alma de Lúcio. Desse amizade nasce uma relação que pode ser
representada como sendo uma projeção de Lúcio sobre o outro, Ricardo.
Pressente-se um tom de homossexualidade: “Mas uma criatura do nosso sexo, não
a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu sexo, se
essa criatura ou eu mudássemos de sexo.”
Ricardo vai para Lisboa, ficam
os amigos separados por um ano, trocam-se cinco cartas durante esse período. Em
dezembro de 1897 Ricardo retorna a Paris: “As suas feições haviam-se
amenizado, acetinado - feminilizado, eis a verdade.” Lúcio sabia, no
entanto, que Ricardo havia se casado. Num jantar Lúcio é apresentado a ela,
Marta: “Era uma linda mulher loira, muito loira, alta, escultural (....)
Cheguei a ter inveja de meu amigo.”
Os três ficaram amigos
inseparáveis. Participavam em reuniões de amigos intelectuais e artistas, e
nessas se destacava a figura de Sérgio Warginsky, músico russo, que no entanto,
vai criar uma impressão negativa e de quase ódio em Lúcio.
Envolvido com sua produção
literária, por vezes, Ricardo deixava Lúcio a sós com Marta. Entre situações às
vezes constrangedoras que beiravam o limite da amizade, Lúcio começa a se sentir
envolvido pela figura de Marta. Até que, enfim, Marta torna-se amante de Lúcio.
Lúcio acaba se apaixonando por Marta, apesar de continuar a amizade com Ricardo.
Estranhamente Lúcio atenta para alguns detalhes da fala de Ricardo, como quando
o amigo lhe diz que ao se observar ao espelho não mais se via: “Ah! Não
calcula o meu espanto... a sensação misteriosa que me varou... Mas quer saber?
Na foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de orgulho.”
Por outro lado, Marta também
parecia a Lúcio como uma mulher irreal: “sim, em verdade, era como se não
vivesse quando estava longe de mim.” Nada confirmava sua existência além do
perfume penetrante que ficava no leito, precisava não mais provar o amor, mas a
existência real dessa misteriosa mulher que tanto se entregava a ele e que traía
com intensidade o amigo: “As suas feições escapavam-me como nos fogem as das
personagens dos sonhos. E, às vezes, querendo-as recordar por força, as únicas
que conseguia suscitar em imagem eram as de Ricardo. Decerto por ser o artista
quem vivia mais perto dela.”
Depois de algum tempo, Marta
torna-se fugidia, demora-se menos com Lúcio, os encontros tornam mais difíceis.
Lúcio começa a desconfiar de Marta e desenvolve um sentimento de ciúme. Nas
tardes em que apenas encontra o amigo Ricardo, começa a procurá-la
desesperadamente. Uma vez seguindo Marta, descobre que ela fora ao apartamento
de Sérgio Warginsky. Por essa época, Lúcio terminara uma peça de teatro e começa
a andar pelas ruas, em uma dessas andanças encontra Ricardo, este lhe faz uma
estranha afirmação, de que Marta é uma criação de Ricardo: “Compreendemo-nos
tanto, que Marta é como se fora a minha própria alma,. Pensamos da mesma
maneira; igualmente sentimos. Somos nós dois... (...) E ao possuí-la, eu sentia,
tinha nela, a amizade que te deveria dedicar.”
Nesta cena alucinante, Ricardo
mata Marta, e então Lúcio descobre que um mistério envolvia essa morte: Marta
folheava um livro, em pé, ao fundo da casa. Ricardo dá-lhe um tiro à queima
roupa:
“E então
foi o Mistério... o fantástico Mistério da minha vida...
Ó
assombro! Ó quebranto! Quem jazia estiraçado junto da janela não era Marta -
não! - era o meu amigo, era Ricardo... E aos meus pés - sim, aos meus pés! -
caíra o seu revolver ainda fumegante!...”
Marta desaparecera, como uma
ilusão, uma névoa.