A Moratória, de Jorge de Andrade
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Análise da obra
Encenado pela primeira
vez em 1955, A Moratória mostra como seu autor, Jorge Andrade, tem perfeito
domínio do que se espera de uma peça teatral a ponto de conseguir inovar imensamente
sem perder de vista a característica essencial do gênero: a valorização da encenação.
Por muito tempo a dramaturgia brasileira cometeu o erro de se concentrar apenas no texto, provocando distorções com obras em que a linguagem das personagens destoava pela falta de naturalidade, com falas gigantescas e cansativas (é obrigatório lembrar exceções como Martins Pena, no Romantismo, e Nélson Rodrigues, no Modernismo). Esqueciam que o aspecto mais vivo do teatro é a necessidade de ter de ser visto, ou seja, é muito mais do que história em si.
Jorge Andrade, tem traços neo-realistas, tornando A Moratória
um filho tardio da ficção regionalista da Geração de 30, que tinha como
companheiros Graciliano Ramos, Jorge Amado, Rachel de Queirós e José Lins do
Rego. Mas a obra tem elementos existenciais tão profundos que lembram o modo
como o melhor dos regionalistas, Graciliano Ramos, extrapolou os ditames desse
grupo, tornando-se universal.
Estrutura
O elemento estrutural mais importante dessa obra é a sua organização
sistematizada em dois planos e três atos:
1. Plano do presente (1932, aproximadamente), no espaço de uma casa modesta
2. Plano do passado (1929), no espaço de uma fazenda tradicional.
Além de quebrar a linearidade que tornaria o texto e a encenação um tanto quanto
monótonos, essa organização permite aos espectadores Ter acesso simultâneo aos
dois instantes fundamentais da história, levando a uma comparação que foi
prevista pelo autor, para assim comentar, sublinhar os fatos sobre os quais quer
chamar a atenção. Dessa forma, os espectadores não podem contar nem ao menos com
o refrigério da dúvida. Sabem, antecipadamente, que toda esperança é inútil. Por
isso, pode-se dizer que sofrem mais que as personagens.
Tempo / Espaço
Como todo texto conciso e de forte consciência dramática, a ação se desenvolve
próxima do seu desenlace. Temos dois momentos fundamentais, o passado (1929),
próximo da perda da fazenda que segue até a perda definitiva; e o da esperança
de retorno com base na moratória e no resultado do processo de nulidade (1932),
que se encaminha até a decisão final do juiz, com a derrota definitiva, pondo
fim a toda e qualquer esperança.
Há dois espaços fundamentais: a sala de uma modesta casa de cidade do interior
de São Paulo e a de uma larga casa da fazenda tradicional. O espaço da fazenda
não se manifesta de modo concreto e genérico, mas por meio de pequenos
incidentes que perpassam pela conversa como o balaústre que está estragado, os
vidros da bandeira da porta que estão pedindo troca, ou mesmo as formigas que
tornaram a sair. Importante notar, que esses sinais apontam todos infalivelmente
para a ameaça de morte (decadência) que paira sobre a fazenda ou,
metonimicamente, sobre essa classe que ela representa, isto é, a classe
dominante da época, os donos do café.
A Moratória transcorre inteiramente no âmbito familiar. Não há nenhum
elemento de fora que faça a mediação entre aquele universo em fase terminal e a
nova realidade. Talvez só o relógio na parede. Mesmo o advogado, que traz a
notícia da perda definitiva da fazenda, é candidato a noivo da filha (Lucília).
De algum modo, portanto, está inserido na família, envolvido com ela.
Linguagem
Muito bem elaborada, de um coloquial fiel e bem estilizado, sem decair nos vícios de linguagem da fala que enfeiariam o produto. Nota-se no autor o que foi apontado como um artesanato na escolha vocabular, do nível de linguagem, no emprego do tom. É aspecto que o torna um clássico do moderno, pois é um texto calculado para fluir natural ao seu leitor/telespectador.
Ainda assim, o tratamento literário não se restringe à transfiguração do padrão coloquial. O autor se permite trabalhar com inúmeras simbologias, sem tornar o texto etéreo, muito menos hermético. Basta lembrar, por exemplo, o galho seco de jabuticabeira que surge no cenário, que claramente consegue simbolizar a força já mirrada da antes poderosa classe cafeicultora.
Temática
Em A Moratória, a crise e as mudanças sociais provocadas pela
desvalorização do café são enfocadas a partir da classe arruinada: uma família
de fazendeiros é obrigada a hipotecar suas terras e terminar por perdê-las. O
ponto de vista da peça é o da aristocracia rural decadente, forçada a
sobreviver, sem se adaptar, numa nova ordem social. Lucília e Marcelo - os
filhos - ingressam, não sem amargura, no mundo do trabalho: Lucília torna-se
costureira e Marcelo emprega-se num frigorífico. Enquanto isso, Joaquim e Helena
_ os pais _ vivem da esperança de retomar sua fazenda. Joaquim é o mais
resistente à mudança de vida e de status - "ainda somos o que fomos" é o que ele
sempre repete - e é também quem mais se agarra à ilusão. A realidade
sócio-econômica resultante da crise de 1929 é mostrada através do desespero e
das esperanças de uma tradicional família paulista empobrecida. São os conflitos
individuais e familiares que filtram a análise social.
Na peça, a utopia projetada pelos personagens, principalmente por Joaquim e
Helena, é uma utopia regressiva, que sonha com o passado e com a recuperação de
seus valores e referências. Mas apesar disso, o presente se impõe, e se sobrepõe
a todo e qualquer esforço de atrasar o relógio, ou enlouquecê-lo de vez,
fazendo-o andar para trás. A inevitabilidade é o próprio presente.
Personagens
Os personagens de A Moratória são os desbravadores do Oeste paulista, os
fazendeiros da Paulista e da Mogiana, gente que teve o seu esplendor subitamente
ferido pela crise de 1929.
Helena - pessoa bondosa, humilde, que ama a todos de maneira bem
distribuída, procurando compreender cada um e aceitá-lo com suas virtudes e seus
defeitos. Como toda mulher daquele tempo é totalmente obediente ao marido.
Joaquim - personagem principal, homem sistemático do interior, forte na
aparência, mas sensível no interior. Cuida de todos os negócios, não permitindo
que as mulheres se metam em atividades que julga serem apenas dos homens.
Dispensa todo tipo de ajuda, por isso sofre muito quando a filha precisa
costurar para sustentar a família. É preso à tradição, não aceitando as
mudanças. Mesmo assim, Joaquim, procura se adequar ao novo
sistema, longe da oligarquia em que vivia a sociedade brasileira desde então.
Marcelo - filho de classe dominante, nada quer na vida, evitando qualquer
esforço físico ou intelectual. Quer desfrutar dos benefícios que a posição do
pai lhe proporciona, e, quando tudo desanda, refugia-se na bebida.
Lucília - moça forte, de temperamento enérgico e paciente, única no
conjunto familiar a estar preparada para a nova vida de sofrimento e luta pelo
pão de cada dia. Orgulhosa, no entanto, não gosta de aceitar ajuda dos parentes.
Enredo
Existe como pano de fundo à narrativa a Crise de 29 e a Revolução de 30, que provocaram a queda de um sistema oligárquico velho e que não encontrava mais espaço no novo status quo. Tal sistema fica, na peça, representado na figura de Joaquim, que, apegado a um universo de valores antigos, negocia café a prazo em meio a uma crise e ainda se atola em dívidas.
Chega a desenvolver esperanças achando que sua fazenda não irá à praça para pagamento de dívidas, pois seria arrematada pela irmã, Elvira. Acredita na dignidade de ver seu bem nas mãos de parentes, algo bem melhor do que sob posse de terceiros. Há nesse ponto um elemento que valoriza a dramaticidade da obra. A mulher não o ajuda, o que gera duas conseqüências.
A primeira é que de fato a fazenda vai à praça, acelerando a decadência de Joaquim e sua família. A segunda é a possibilidade que se abre para que possamos enxergar a força de Jorge Andrade, capaz de apresentar de maneira poderosa e convincente o caráter de suas personagens apenas pela ação e diálogos. Nota-se a tensão surda, interna e externa, por que passa Elvira, pois manda constantemente pequena ajuda à família de Joaquim, como café (é extremamente curioso, e chocante, que essa família, antes cafeicultora, passe a mendigar café) e leite. Esta mulher havia sido desprestigiada na divisão da herança, já que a melhor parte da fazenda tinha ficado para Joaquim. Assim, fica no ar a idéia de que, se ela não ajudou, pelo menos pode ter sentido uma ponta de satisfação ao ver a derrocada de Joaquim, sem mencionar que as contribuições dela ficam como um misto de humilhação vingativa com caridade e intenção de compensar uma consciência pesada. É uma pessoa que se sente na obrigação de praticar a caridade (faz até parte de uma entidade assistencial), mas não perde a mania de lembrar suas dificuldades em realizar esse ato, como se estivesse jogando na cara o favor que vem sendo feito aos parentes, apesar das queixas constantes de seu marido, que já havia se estapeado com Joaquim por causa de dívidas.
Na realidade, as mulheres dessa peça mostram-se muito mais adaptadas e conscientes do que os homens. Para corroborar tal argumento não precisamos nos concentrar na figura de Elvira. O destaque merece ser dado à Lucília, que, após a derrocada, amadurece amargamente e passa a sustentar a família, graças às suas costuras, atividade que Joaquim, seu pai, acha indigna (as críticas dele baseiam-se, mais uma vez, num universo de valores antigos. A tarefa de costureira não caberia bem a alguém da aristocracia cafeeira, em nada afeita a servir os outros). Ela é bem diferente do irmão, Marcelo, que sempre fora preguiçoso, sem disposição mesmo até para a escola (não completou os estudos) e que piorou a índole com a queda da família, tornando-se um bêbado que troca constantemente de emprego. Outra mulher forte é Helena, mãe e esposa conciliadora (tem uma enorme tarefa diplomática num lar em constantes discussões e desentendimentos), que se vê na obrigação de ser o alicerce das esperanças principalmente de seu marido, Joaquim, homem de temperamento explosivo, o típico coronel, o que se revela no autoritarismo com que estraga as possibilidades de casamento de sua filha, pois estava apaixonada por Olímpio, filho de um inimigo político.
No fim, Joaquim e Lucília é que são a mola-mestra da obra. Ela é a força por sobrevivência na realidade, o que, como já se diz, a faz eficiente na adaptação ao novo meio, urbano, dispensando os brios aristocratas que já não funcionam mais. Nesse ponto, leva vantagem em relação ao pai, que ainda está fortemente apegado ao passado rural de origem bandeirante. É um homem que se recusa autoritariamente a enxergar ou mesmo discutir a nova situação. No fundo, é uma questão de sobrevivência, pois não há mais espaço para ele.
É talvez por isso que se agarre a uma esperança de reconquista de suas terras, animada por um decreto que permitia moratória (daí o nome da peça), já que a liquidação das dívidas só poderia ter sido feita por meio de todo um processo que contava com publicação em jornais, o que não havia ocorrido no caso dele. Esperar passa a ser a sua vida. De fato, o drama regional da peça acaba representando o drama de toda nossa civilização de esperar um retorno à redenção, à salvação, a um passado glorioso. Transforma-se, portanto, num tema extremamente humano.
O mais trágico é que a salvação não vem. Por meio de um longo processo judicial, Joaquim acaba perdendo, pois os credores acabam encontrando um subterfúgio: a lei obrigava que o processo de liquidação fosse anunciado em jornais, mas como na cidade não havia esse veículo (considerando-se que, de acordo com a etimologia latina, jornal seja de circulação diária), mas semanários, não havia como pleitear moratória e anulação da privação de bens. Fecham-se todas as portas. Instaura-se a derrocada completa.
Em suma, são temáticas pungentes e ao mesmo tempo engajadas. Mas o mais forte na obra está no que se refere à encenação. Tudo isso se passa num palco dividido em dois planos. O da esquerda, um pouco mais alto, é o do passado. Suas ações ocorrem na fazenda, em 1929. O segundo, da direita, mais baixo (símbolo de queda?) é o do presente, que se passa três anos depois, em uma pequena cidade.
O bonito é ver que esses dois planos se comunicam, muitas vezes o passado explicando
o presente, ou este reforçando aquele. Há repetição de cenas, de dados, até mesmo
o aparente diálogo entre as personagens, que providencialmente trocam de um plano
para o outro, o que só faz revelar o apuro artesanal do autor na montagem das
cenas. O fenomenal é ver como esses dois planos vão se relacionando, separados,
mas caminhando para um clímax comum. O da esquerda vai em direção à queda representada
pela perda da fazenda em conseqüência de dívidas. O da esquerda vai na direção
da queda representada na negação da moratória.