A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo
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Análise da obra
A Moreninha é
um dos principais romances brasileiros e seu autor, ao lado de Manuel Antonio
de Almeida, José de Alencar, Machado de Assis, Aluísio Azevedo e outros (poucos)
é um dos mais importantes autores da língua portuguesa. Este livro, centrado
no romance entre Augusto e Carolina, é um dos pilares de nossa literatura. Numa
época onde a cultura era totalmente voltada para a Europa, A Moreninha
é uma das primeiras e magníficas tentativas de fazer literatura brasileira,
observando usos e costumes do Brasil do Segundo Império, retratando o cotidiano
da vida brasileira em meados do século passado. Joaquim Manuel de Macedo (1820-1881)
era médico, mas jamais exerceu a profissão, tendo dedicado sua vida à literatura,
à imprensa e ao teatro.
A obra retrata as
características do movimento literário a que pertence à medida que possui
espírito romântico (final feliz), nostalgia medievalista (indianismo),
idealismo, culto à natureza, cristianismo (Festa de San’t Ana), sentimentalismo,
linguagem popular e liberdade criadora. Retrata também uma realidade
fantasiada presente no autor.
Tempo / Espaço / Ação
O tipo de ambiente predominante é físico. Foram encontradas
algumas descrições interessantes, a que mais nos agradou foi: "A Ilha de... é
tão pitoresca como pequena. A casa da avó de Filipe ocupa exatamente o centro
dela. A avenida por onde iam os estudantes a divide em duas metades, das quais a
que fica à esquerda de quem desembarca, está simetricamente coberta de belos
arvoredos, estimáveis, ou pelo aspecto curioso que oferecem. A que fica à mão
direita é mais notável ainda; fechada do lado do mar por uma longa fila de
rochedos e no interior da ilha por negras grades de ferro, está adornada de mil
flores, sempre brilhantes e viçosas, graças à eterna primavera desta nossa boa
Terra de Santa Cruz."
A seqüência narrativa e a ação dos personagens se dão em
tempo linear - trinta dias. Os eventos narrados desenrolam-se durante os trinta
dias pelos quais a aposta era válida. A aposta foi feita em 20 de julho de 1844,
uma segunda-feira, e termina no dia do pedido de casamento, 20 de agosto do
mesmo ano.
Existe um recuo ao passado. Quando a história se inicia,
Augusto está no quinto ano de Medicina e conquistara, entre os amigos, a fama de
inconstante. Nos capítulos VII e VIII, o autor conta-nos a origem da
instabilidade amorosa do herói. Tudo começara há oito anos, quando Augusto
contava 13, e Carolina 7 anos de idade.
Foco narrativo
O narrador, na
verdade, é Augusto, pois perdeu a aposta feita com Filipe; mas é narrado na 3ª
pessoa, por um narrador onisciente. Aqui e ali, ele se intromete um pouco na
história, bancando o moralista.
A importância para a
obra e a repercussão no leitor é que a utilização deste tipo de narrador causa o
aprofundamento psicológico das personagens, o que não ocorreria se o narrador
não fosse onisciente ou em 1ª pessoa. A seqüência narrativa e a ação dos
personagens se dão em tempo cronológico pois ocorrem em três semanas e meia.
Temática / Crítica
social
O tema da obra é a fidelidade ao amor de infância.
Como crítica social vemos o casamento, pois, na época o
ajuste matrimonial era feito pelos pais dos jovens. A união dos filhos ganhava,
pois, conotações de negócio indissolúvel, tratado com a seriedade dos adultos
pensantes, conseqüência clara do amor arrebatador dos jovens; vemos também
referência à escravidão embora sem grande relevo. Mas há, em A Moreninha,
referência ao trabalho escravo e aos castigos corporais a que os negros eram
submetidos.
Personagens
As personagens mais
importantes são Augusto e Carolina. A personagem que mais chama atenção é
Augusto que era um estudante de medicina alegre, jovial e inconstante em seus
amores. O autor lhe confere complexidade já que no início da história o
personagem é descrito de uma forma e no final dela é descrito de outra.
A personagem central é D.Carolina, menina de quatorze anos, possuía cabelos
negros, olhos escuros, era travessa, inteligente, astuta e persistente na
obtenção de seus intentos.
Enredo
O enredo apresenta unidade e organicidade pois a história
possui início, meio e fim. O clímax do enredo ocorre quando D.Carolina revela a
Augusto, ao deixar cair um breve contendo um camafeu, que é a mulher a quem ele
tinha prometido se casar na sua infância. O desfecho dá-se no final da história.
Augusto, Leopoldo e Fabrício estavam conversando, quando
Filipe chegou e os convidou para passar um fim de semana na casa de sua avó que
ficava na Ilha de Paquetá. Todos ficaram empolgados, menos Augusto. Filipe
comentou a respeito de suas primas e de sua irmã, que provavelmente estariam na
ilha. Foi quando surgiu uma discussão que deu origem a um aposta; Filipe
desafiou Augusto dizendo que se ele não se apaixonasse por uma das moças ali
presentes, no prazo de um mês, seria obrigado a escrever um romance sobre sua
história.
Passaram-se quatro dias, Augusto recebeu uma carta, que lhe
foi entregue por seu empregado Rafael, a mando de Fabrício. A carta dizia que o
namoro de Fabrício com D.Joaninha não estava indo muito bem, pois ela era muito
exigente. Ela fazia-lhe pedidos absurdos como escrever quatro cartas por semana
, passar quatro vazes ao dia em frente à sua casa e nos bailes ele teria que
usar um lenço amarrado em seu pescoço , da mesma cor da fita rosa presa a seus
cabelos. Terminando a leitura, Augusto começou a rir porque era ele quem sempre
aconselhava Fabrício em seus namoros.
Na manhã de sábado, chegou à ilha e encontrou seus amigos,
que estavam a sua espera. Entrando na casa, se dirigiu à sala e se apresentou,
em seguida foi procurar um lugar para sentar-se perto das moças. Foi então que
ele se deparou com D.Violante, que lhe ofereceu um assento. Ela falou por várias
horas sobre suas doenças, e perguntou o que ele achava. Augusto já irritado de
ouvir tantas reclamações, disse que ela sofria apenas de hemorróidas. D.Violante
se irritou, afirmando que os médicos da atualidade não sabem o que falam.
Fabrício chegou interrompendo a conversa e chamou Augusto
para um diálogo em particular. Os dois começaram a discutir sobre a carta, pois
Augusto disse que não pretendia ajudá-lo em seu namoro com D.Joaninha. Fabrício
então declarou guerra a Augusto.
Logo após a discussão, chegou Filipe chamando-os para o
jantar. Na mesa, após todos terem se servido, Fabrício começou a falar em tom
alto, dizendo que Augusto era inconstante no amor. Ele, por sua vez, não
respondeu as provocações, mas, na tentativa de se defender, acabou agravando
ainda mais a sua situação perante todos.
Após o jantar, foram todos passear no jardim e Augusto foi
isolado por todas as moças. Apenas D.Ana aceitou passear com ele. Augusto quis
dar explicações à D.Ana, mas preferiu ir a um lugar mais reservado. Ela sugeriu
então que fossem até uma gruta, onde sentaram num banco de relva.
Começaram a conversar e Augusto contou sobre seus antigos
amores e entre eles do mais especial, que foi aos treze anos, quando viajando
com seus pais conheceu uma linda garotinha de oito anos, com quem brincou
muito na praia, quando um pobre menino pediu-lhes ajuda. Eles foram levados a
uma cabana onde estava um velho moribundo a beira da morte. Sua mulher e seus
filhos estavam chorando. As crianças comovidas deram todo o dinheiro que
possuíam à mulher do pobre velho. O velho agradeceu e pediu de cada um deles um
objeto de valor. O menino deu-lhe um camafeu de ouro que foi envolvido numa fita
verde e a menina deu-lhe um botão de esmeralda que foi envolvido numa fita
branca, transformando-os em breves. O camafeu ficou com a menina e a esmeralda
com o menino.
Depois trocados os breves, o velho os abençoou e disse que no
futuro eles se reconheceriam pelos breves e se casariam. Foram embora e a
menina saiu correndo de encontro a seus pais sem ter revelado o seu nome, e a
partir daquele momento nunca mais se viram. Acabada a história Augusto
levantou-se para tomar água. Ao pegar um copo de prata foi interrompido por
D.Ana que resolveu lhe contar a história da gruta, que era a lenda de uma moça
que se apaixonara por um índio que não a amava e de tanto ela chorar, deu
origem a uma fonte, cuja água era encantada. Disse também que quem bebesse
daquela água teria o poder de adivinhar os sentimentos alheios e não sairia da
ilha sem se apaixonar por alguém. D.Ana explicou também que a moça cantava uma
canção muito bela, quando de repente eles escutaram uma linda voz. Augusto
perguntou a D.Ana de onde vinha aquela melodia e ela explicou que era Carolina
que cantava sobre a pedra de gruta e ele ficou encantado.
Logo após o passeio, foram todos até a sala para tomar café e
a Moreninha derramou o café de Fabrício sobre Augusto. Ele foi se trocar no
gabinete masculino quando Filipe entrou e sugeriu que ele fosse se trocar no
gabinete feminino, para que pudesse ver como era.
Augusto aceitou e enquanto se trocava, ouviu vozes das moças
que iam em direção ao gabinete. Ficou apavorado, pegou rapidamente as roupas e
se enfiou debaixo de uma cama. As moça entraram, sentaram-se e começaram a
conversar sobre assuntos particulares. O rapaz ouviu toda a conversa e quase não
resistiu ao ver as pernas bem torneadas de Gabriela na sua frente. De repente
ouviram um grito e Joaninha disse que a voz parecia com a de sua prima
D.Carolina. Todos saíram correndo para ver o que estava acontecendo e Augusto
aproveitou para terminar de se trocar e saiu do gabinete para ver a causa
daquele grito.
O grito era da Moreninha que viu sua ama D. Paula caída no
chão, devido a alguns goles de vinho que tomou junto do alemão Kleberc.
D.Carolina não queria acreditar que sua ama estivesse bêbada e levaram-na para
o quarto. A Moreninha estava desesperada quando Augusto, Filipe, Leopoldo e
Fabrício entraram no quarto e percebendo a embriaguez da velha senhora começaram
a dar diagnósticos absurdos. D.Carolina só acreditou em Augusto e não aceitou o
verdadeiro motivo do mau estar de sua ama. Todos saíram do quarto e se dirigiram
até o salão de jogos. Augusto foi conversar com D.Ana e perguntou sobre o
paradeiro da Moreninha. D.Ana disse que ela estava no quarto cuidando de sua
ama. Augusto foi até até o aposento e chegando na porta viu uma cena
inesquecível; ela lavava com suas delicadas mãos os pés de sua ama e ele
comovido se ofereceu para ajudá-la. Depois disso Augusto sugeriu que a deixasse
repousar pois no dia seguinte estaria bem.
D.Carolina foi se trocar para em seguida ir ao Sarau, colocou
um vestido muito bonito mas fora dos padrões normais, pois mostrava parte de
suas pernas. Todos queriam dançar com ela e Fabrício pediu-lhe a terceira
dança, mas a garota mentiu dizendo que iria dançar com Augusto. Ele por sua vez
dançou com todas as moças e jurou-lhes amor eterno, inclusive para a Moreninha.
No fim da festa Augusto encontrou um bilhete que estava em seu paletó, dizendo
para ir à gruta no horário marcado e logo após encontrou outro no qual dizia que
aquilo era uma armadilha.
No dia seguinte, Augusto foi até a gruta no horário marcado e
encontrou as quatro jovens e antes que elas pudessem falar, foram surpreendidas
pelo rapaz que contou cada uma o que ouvira no gabinete. As moças ficaram
revoltadas e depois de irem embora Augusto foi surpreendido pela Moreninha que
começou a contar a conversa dele com D.Ana. Mas primeiro ela tomou um copo da
fonte e foi por este motivo que Augusto ficou mais impressionado pois lembrou-se
da lenda da fonte encantada, e logo depois do susto, declarou-se a ela.
Depois de acabadas as comemorações, as pessoas voltaram para
suas casas. Augusto não se cansava de contar sobre D.Carolina para Leopoldo, que
sempre dizia que aquilo era amor. Os rapazes acharam conveniente visitar D.Ana,
Augusto se encarregou dessa tarefa no domingo.
D. Ana foi recebê-lo e contou-lhe que D.Carolina estava
triste até saber se sua vinda para a ilha. Durante o almoço Augusto viu um lenço
na mão de D.Carolina e adivinhou que ela o tinha bordado e após muita conversa
D.Carolina resolveu ensiná-lo a bordar.
Depois do almoço, Filipe e Augusto foram jogar baralho,
quando ouviram o chamado da Moreninha para a primeira aula de bordado. A lição
acabou ao meio dia e Augusto achou prudente ir embora, despediu-se de todos e
combinou com D.Carolina, que no domingo seguinte voltaria e traria o lenço já
terminado.
No domingo seguinte, Augusto voltou até a ilha e levou o
lenço totalmente pronto, para que sua mestra pudesse o ver, ela não acreditou
que ele fizera um trabalho tão bem feito e começou a chorar, dizendo que ele
tinha outra mestra. Augusto tentou explicar-se de todas as maneiras possíveis, e
disse que o lenço fora comprado de uma velha senhora.
Depois de muita insistência a Moreninha aceitou a situação,
pois D.Ana disse-lhe que sua atitude era infantil.
Depois do incidente Augusto chamou a Moreninha para um
passeio e percebeu que ela estava um pouco nervosa, foi então, que ele
perguntou-lhe se havia um amor em sua vida, ela respondeu com a mesma pergunta e
Augusto disse que o grande amor de sua vida era ela. A Moreninha ficou imóvel e
disse que o seu amor poderia ser ele.
Augusto voltou para sua casa e foi proibido de voltar à ilha
por seu pai pois seus estudos estavam sendo prejudicados. D.Carolina não era
mais a mesma desde a partida de Augusto que agora estava em depressão. Seu pai,
vendo que estava prestes a perder seu filho, achou melhor que Augusto voltasse à
ilha e pedisse a mão da Moreninha em casamento.
Chegando próximo à ilha, viram a Moreninha cantando sobre a pedra, e ela ao vê-los
ignorou-os. D.Ana foi recebê-los e o pai de Augusto explicou a situação se seu
filho. Eles foram até a sala e de repente a Moreninha apareceu com seu vestido
branco chamando a atenção de todos, foi então que o pai de Augusto fez o pedido
diretamente a Moreninha, pois seu filho não tinha coragem o suficiente. A moça
ficou assustada e disse que daria a resposta mais tarde na gruta mas D.Ana disse
ao pai de Augusto que não se preocupasse, pois a resposta seria sim.
Augusto, ansioso, foi até a gruta e chegando lá encontrou a
Moreninha, os dois conversaram e ela perguntou se ele ainda amava a menina da
praia. Ele disse que não pois seu amor pertencia somente a ela. Ela disse que
não poderia se casar pois ele já estava comprometido com outra pessoa. Irritado,
ao sair da gruta foi surpreendido quando ela lhe mostrou o breve verde. Augusto
não agüentou a emoção e pegando o breve ajoelhou-se aos pés da Moreninha,
começando a desenrolar o breve reconhecendo o seu camafeu.
O pai de Augusto e D.Ana entraram na gruta e não entenderam o
que estava acontecendo, acharam que os dois estavam malucos e Augusto dizia que
encontrara sua mulher e a Moreninha por sua vez dizia que eles eram velhos
conhecidos. Logo após Filipe, Leopoldo e Fabrício viram a alegria do novo casal,
mas Filipe foi logo dizendo que já se passaram um mês, Augusto perdera a aposta
e deveria escrever um romance.
Augusto surpreende a todos dizendo que o romance já estava pronto e se intitulava
A Moreninha.