Cidades Mortas, de Monteiro Lobato
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Análise da obra
Publicado em 1919, pela
Revista do Brasil, este segundo livro de Lobato levava o subtítulo Contos
e Impressões e reunia trabalhos bastante antigos, alguns do tempo
de estudante de Lobato. Em edições subseqüentes, novo textos
acrescentaram-se à obra. O título do livro é tomado de
um texto de 1906. Cidades Mortas está entre os primeiros livros
corriam o país.
É no "ambiente marasmático" das pequenas
cidades do Vale do Paraíba, em sua porção paulista, que
o autor vai colher o material de seus escritos, alguns dos quais não
podem ser considerados, propriamente, como contos. Ficam, nas palavras de Nelson
Werneck Sodré, "numa espécie de limbo" - são
"esboços, cenários, rascunhos de contos" que, em Cidades
Mortas, discorrem sobre o cotidiano daquelas cidades, cuja decadência
econômica impunha-se desde as últimas décadas do século
XIX com a derrocada da produção cafeeira, deslocada para o Oeste
paulista (Sodré, 1964: 416). Ainda que alguns textos de Lobato não
possam ser considerados como contos, para nós são sinais, pistas
e emblemas que sobrevivem para nos evocar e reconstruir a memória.
Em Cidades Mortas a língua ferina de Monteiro
Lobato ataca o marasmo político-econômico-literário de seu
tempo. Cada conto descreve personagens brasileiros típicos, situações
engraçadas e comportamentos diversos.
Nos contos Cidades Mortas e Café! Café!,
assim como parcialmente em outros, critica a queda do café e seus efeitos
na população que sobrevivia dele. Em outras histórias insere
a críticas a literatura tediosa e fraca de seu tempo (citando Alberto
de Oliveira e Bernardo Guimarães por nome), ao desprezo pela honestidade,
ao absurdo e ridículo das cidades do interior paulista (principalmente
a fictícia Itaoca, mas cidades cujo nome começa com "Ita"
aparecem em vários contos para mostrar cidades pequenas com habitantes
com egos inflados), à crueldade e estupidez humanas, ao exagero de nacionalismo
com a participação na Primeira Guerra (no conto O espião
alemão), ao abuso feito por aproveitadores com os que trabalharam
duro e várias pequenas histórias onde todos esses temas são
tocados. Lobato descreve Oblivion e Itaoca como cidades onde o tempo parou.
Transforma-as. No decorrer dos fatos, o autor mescla crítica e sagacidade,
elegância e realidade, harmonia e sutileza.
Linguagem
O estilo de Lobato é simples direto, objetivo, avesso
ao rebuscamento da linguagem. Estilo ou, como ele preferia, seu temperamento,
já que "estilo é a última coisa que nasce num
literato - é o dente do sizo. Quando já está quarentão
e já cristalizou uma filosofia própria, quando possui uma luneta
só dele e para ele fabricada sob medida, quando já não
é suscetível de influenciação por mais ninguém,
quando alcança a perfeita maturidade da inteligência, então,
sim, aparece o estilo" (Lobato, 1951: 101).
Nota-se na obra a liberdade de vocabulário, e emprego
de expressões que caracterizam aquelas cidades como “velha avó
entrevada”, que “foi rica um dia e hoje é quieta”. São “histórias
sobre gente medíocre, sonolenta, vivendo um sossego que é como
o frio nas regiões árticas: uma permanente.”
Em vários contos emprega a onomatopéia.
Temática
A obra trata de assuntos relacionados à linguagem, religião,
o comportamento na sociedade, criticando as futilidades de um encontro em casas
de família.
Em Era no Paraíso, satiriza a formação
do universo e a origem do homem. Critica a preguiça intelectual dos fazendeiros
da época em Apólogo. Trata de assuntos polêmicos
e questiona valores e moralidade em Um homem de consciência e
O plágio. Crítica ao Romantismo. Trabalha constantemente
com o humor como em O fígado indiscreto. Crítica ao Ministério
da Agricultura. Em Os senhores do café critica a hipocrisia
das classes privilegiadas. Manifesta com muito humor o espírito anti-germânico
predominante no período da Primeira-Guerra em O espião alemão.
Em Café! Café! critica a monocultura e reproduz o espírito
do homem obcecado pela mesma. Crítica a desonestidade do homem, ou seja,
os que buscam levar vantagem em tudo em Um homem honesto.
Resgata também os momentos de sua própria infância.
Espaço
Numa espécie de crônica ou ensaio, num tom entre
irônico e saudosista, Lobato delineia o espaço de sua obra: o norte
paulista do vale do Paraíba, "onde tudo foi e nada é: Não
se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito. "(...)
cidades moribundas arrastam um viver decrépito. Gasto em chorar na mesquinhez
de hoje as saudosas grandezas de dantes". É, portanto num cenário
de decadência representado por ruas ermas, casarões em ruínas
e armazéns desertos, que o livro introduz o leitor, fazendo-o acompanhar
de um ponto de vista irônico figuras igualmente decadentes de homens e
mulheres.
Itaoca é uma cidadezinha qualquer do interior paulista
onde o escritor ambienta suas histórias; nela, aparecem casas de tapera,
ruas mal iluminadas, políticos corruptos, patriotas, ignorância,
miséria, e representa todas as cidadezinhas que Lobato viu se afundarem
no vale do Paraíba: “Umas tantas cidades moribundas arrastam um viver
decrépito, gasto em chorar na mesquinhez de hoje as saudosas grandezas
dantes”.
Estrutura da obra
Cidades Mortas contém histórias, algumas
antigas, ainda do tempo em que Lobato era estudante do Largo do São Francisco.
São elas: Cidades Mortas, A vida em Oblivion, Os
Perturbadores do Silêncio, Vidinha Ociosa, Cavalinhos,
Noite de São João, O Pito do Reverendo, Pedro
Pichorra, Cabelos Compridos, O Resto de Onça,
Por Que Lopes se casou, Júri na Roça, Gens
Ennyyeux, O Fígado Indiscreto, O Plágio,
O Romance do Chopin, O Luzeiro Agrícola, A Cruz
de Ouro, De Como Quebrei a Cabeça à Mulher do Melo,
O Espião Alemão, Café! Café!, Toque
Outra, Um Homem de Consciência, Anta que Berra,
O Avô de Crispim, Era no Paraíso, Um Homem
Honesto, O Rapto, A Nuvem de Gafanhotos, Tragédia
de um Capão de Pintos.
Entre todas, destacam-se fundamentalmente algumas: Cidades
Mortas, Pedro Pichorra, Cabelos Compridos e a impagável
Um homem de consciência. Cabelos Compridos e O Espião
Alemão são os dois contos mais conhecidos do livro.
Personagens
O retrato de seus personagens é sempre de carteira de
identidade: fiel, objetivo, autêntico. São personagens não
apresentam profundidade psicológica.
Os contos de Cidades Mortas entremeiam-se com digressões,
como a aguda crítica aos ficcionistas românticos (Alencar, Macedo,
Bernardo Guimarães), que transcrevemos:
"No concerto de nossos romancistas, onde Alencar é
o Piano querido das moças e Macedo a Sensaboria relambória dum
flautim piegas, Bernardo é a sanfona. Lê-lo é ir para o
mato, para a roça- mas uma roça adjetivada por menina de caudalosos,
as matas virentes, os píncaros altíssimos, os sabiás sonoros,
as rolinhas meigas. Bernardo descreve a natureza como qualificativos surrados
do mau contador. Não existe nele o vinco enérgico de impressão
pessoal. Vinte vergéis que descreva são vinte perfeitas invariáveis
amenidades. Nossas desajeitadíssimas caipiras são sempre lindas
morenas cor de jambo. Bernardo falsifica o nosso mato. Onde toda gente vê
carrapatos, pernilongos espinhos, Bernardo aponta doçuras insetos maviosos,
flores olentes. Bernardo mente."
Conto escolhido: Um homem de consciência
Chamava-se João Teodoro, só. O mais pacato e
modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito
apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para joão
Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir
a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos
ali queriam: mudar-se para terra melhor.
Mas João Teodoro acompanhava com aperto de coração
o deperecimento visível de sua Itaoca.
- Isto foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três
médicos bem bons - agora só um e bem ruinzote. Já teve
seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário
como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que
presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se
acabando...
João Teodoro entrou a incubar a idéia de também
mudar-se, mas para isso necessitava dum fato qualquer que o convencesse de maneira
absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.
- É isso, deliberou lá por dentro. Quando eu
verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada
de nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
Um dia aconteceu a grande novidade: a nomeação
de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como
se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era
nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz
de nada...
Ser delegado numa cidadinha daquelas é coisa seríssima.
Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros,
que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo.
Uma coisa colossal ser delegado - e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do
de Itaoca! ...
João Teodoro caiu em meditação profunda.
Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada botou-as
num burro, montou num cavalo magro e partiu.
- Que é isso, João? Para onde se atira tão
cedo, assim de armas e bagagens?
- Vou-me embora, respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca
chegou mesmo ao fim.
- Mas , como? Agora que você está delegado?
- Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega
a delegado, eu não moro. Adeus.
E sumiu.