Fogo Morto, de José Lins do Rego
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Análise da obra
Fogo Morto (1943)
foi o décimo romance e é a obra-prima de José Lins do Rego. Romance de feição
realista, revela o processo de mudanças sociais passados no Nordeste brasileiro,
num período desde o Segundo Reinado até as primeiras décadas do século XX.
Na verdade, apesar de sua estrutura
literária sólida, Fogo Morto é um documento sociológico, que retrata o
Nordeste e a oligarquia composta pelos senhores de engenho, ameaçada com a
chegada do capital proveniente da industrialização. São engenhos de “fogo
morto”, onde decai o patriarcalismo com suas tragédias humanas. O romance é a
expressão de uma cultura, pois retrata o mundo da casa grande e o mundo da
senzala com as conseqüências sociais do relacionamento de um com o outro.
José Lins do Rego manifesta a tendência
regionalista de nossa literatura e de nossa ficção entre 1930 e 1945,
configurando a situação política, econômica e social do Brasil. As oligarquias
açucareiras são dominadas pelas oligarquias cafeeiras, revelando um sistema
político apoiado em acordos de interesses, mantidos por Estados que se sustentam nos coronéis dos
municípios.
Desponta assim um regionalismo novo,
diferente do regionalismo romântico: o exotismo e o pitoresco não interessam
mais. Surge agora um Brasil doente, com fome, escondido que estava sob uma capa
de “civilizado”. Surgem os problemas mais graves: o baixo nível de vida, o
banditismo, a superstição, uma população dominada por uma classe minoritária.
Esse tipo de regionalismo crítico aparecerá também nas obras de Jorge Amado,
Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz. Convém frisar que José Lins do Rego
poderia ser colocado sob a bandeira do Manifesto Regionalista de Gilberto
Freyre.
O tema central de Fogo Morto é o desajuste das pessoas com a realidade resultante do declínio do escravismo nos engenhos nordestinos, nas primeiras décadas do século XX. Gira em torno de três personagens empolgantes, que são as três mais fortes personagens da sua criação ficcional. São elas: o mestre José Amaro, o artesão, o major Luís César de Holanda Chacon, o senhor de engenho decadente, e o capitão Vitorino Carneiro da Cunha, que é, sem dúvida, a maior personagem do livro e de todos os romances de José Lins do Rego.
Linguagem
Quando José Lins do Rego publicou Fogo
Morto, já não se discutia mais a necessidade de renovar a linguagem
literária brasileira na ficção. O compromisso regionalista de José Lins do Rego
é sobretudo de âmbito popular, e é exatamente a linguagem popular da Paraíba,
isolada de influências externas, conservada em sua autenticidade regional, que o
escritor utiliza. É a linguagem dos poetas populares, distribuída, agora, com um
ritmo narrativo mais tradicional.
Quando Mário de Andrade, em Macunaíma,
procurou usar uma língua comum a todas as regiões do Brasil, ele estava
consciente de estar realizando um experimento e não de estar criando uma
linguagem. Mário apenas mostrou o que poderia e deveria ser a experiência
coletiva de um povo.
José Lins traz para a literatura a
estilização da linguagem regional com absoluta autenticidade espontânea e
pura, colhida na própria fonte, sem influência erudita.
Assim, podemos observar essa diretriz no
romance Fogo Morto: o ritmo fraseológico remontando à mais antiga
tradição dos contadores de histórias, que foram os únicos artistas populares do
Nordeste. Ora, os romances do ciclo da cana-de-açúcar são, uns mais, outros
menos, memorialistas. Essas memórias enraízam-se também na linguagem dos
cantadores nordestinos, nessa literatura oral de que o romance de José Lins
contém traços marcantes.
Personagens
Cada uma das personagens principais
representa, na verdade, uma classe social da população
nordestina. As três personagens
centrais estão envolvidas no cenário de miséria, doenças, e por uma
politicagem e
prepotência policial que defendem as minorias fortes e, como saída, o cangaço.
José Amaro - Trabalhador branco livre do Nordeste.
Revela forte orgulho por ser branco e alta consciência de
seu humano. Sabe que é explorado e não quer aceitar; porém não tem alternativa, salvo sua coragem e o apoio
ao
cangaço.
Coronel Lula de Holanda - Figura como representante da aristocracia
arruinada dos engenhos. Possuí o orgulho despótico de um senhor feudal, mas perde o poder
econômico. Refugia-se na religião, no amor ao passado, sem deixar de
lado suas vaidades.
Humilhado pela decadência e sofrendo as pressões do cangaço, isola-se.
Vitorino Carneiro da Cunha - Representa o eterno opositor, corajoso,
que aceita todas as lutas, um idealista em defesa dos
mais fracos. Plebeu e ao mesmo
tempo aristocrata pelo parentesco com o coronel José Paulino, outorga-se o
título de capitão.
Freqüentemente fazem-se comparações entre
Vitorino e a figura de D. Quixote. De fato, ele tem de D. Quixote o idealismo, a
luta pelos fracos e pela justiça (verdadeiro moinho de vento no Nordeste). De
Sancho Pança, Vitorino tem sua figura exterior: gordo, alegre, espirituoso,
sempre montado em seu burro velho, aceitando pacificamente as perseguições dos
moleques, que o chamam de “Papa-Rabo”. Assim, Vitorino representaria um D.
Quixote sertanejo, uma das maiores criações de José Lins do Rego.
Tenente Maurício - Desempenha o papel do opressor, comandando
uma tropa de homens mais temíveis que os próprios cangaceiros.
Negro Passarinho - Escravo recém-libertado, tem o vício da
bebida.
Coronel José Paulino - Senhor de engenho, poderoso e forte,
oportunista politicamente.
O Cego Torquato - Elemento de
ligação do cangaceiro Antônio Silvino.
Antônio Silvino - Cangaceiro, apoiado por mestre José Amaro.
Cabra Alípio - Extremamente devotado ao cangaço.
Adriana - Mulher de Vitorino.
Sinhá - Mulher de José Amaro.
D. Amélia - Mulher do coronel Lula de Holanda.
Representante feminino da aristocracia feudal do Nordeste. Moça prendada,
educada na cidade e, agora, presa à tristeza do sertão.
Enredo e estrutura da obra
Narrada em terceira pessoa, a obra é dividida em três partes que se ligam e se completam:
O mestre José Amaro, O engenho do Seu Lula, e O Capitão
Vitorino. Convém destacar o caráter lúdico da composição, já que o autor
entrelaça as ações das personagens em todas as partes, revelando a decadência do
Engenho Santa Fé e das famílias que lá moravam.
Três novelas interligadas, com a história pungente de três personagens trágicas. É um romance recheado de tristeza. A presença patética do romance é a de Vitorino Carneiro da Cunha, o Papa-Rabo, figura poderosa, inesquecível. É o romance cheio de loucura, que é uma das obsessões de José Lins, como a morte e o sexo. Em
Fogo Morto análise e sexo se fundem. A obsessão angustiante do sexo é vencida pela análise da alma humana, naquele áspero mundo de fatalismo e misticismo. O autor nos envolve com seu estilo lírico, as três personagens entrecruzam-se no espaço e no tempo narrativo. É uma narrativa multifacetada, com pluralidade de visões. É o imenso painel da sociedade rural do Nordeste, na transição da economia mercantil para a economia pré-capitalista. É uma espécie de síntese de toda a obra ficcional de José Lins do Rego.
Primeira parte
O mestre José Amaro - Artesão que lida com couro, mora
nas terras do engenho Santa Fé, pertencente ao coronel Lula de Holanda Chacon. O
fantasma da decadência econômica – mais sugerida do que descrita – ronda o seu
trabalho. José Amaro é um homem amargurado e sofrido que rebela-se contra a
prepotência dos senhores de engenho através de uma altivez que beira a
arrogância. O desprezo que sente pelos “coronéis” leva-o a engajar-se como
informante do bando de cangaceiros chefiado por Antonio Silvino. Assim, ele
manifesta sua rejeição aos poderosos e à ordem constituída.
Contudo, José Amaro tem o coração moldado pelos valores
patriarcais dominantes. Por isso, maltrata sua esposa, Sinhá, e sobretudo sua
filha, Marta que, com trinta anos, continua solteira e começa a ter agudas
convulsões nervosas. Em um dos momentos mais dramáticos de todo o romance, José
Amaro espanca longa e violentamente a filha em meio a uma dessas convulsões. A
partir de então, Marta vive em estado de torpor, falando coisas sem nexo. Cada
vez mais infeliz, o mestre seleiro caminha à noite pelas estradas próximas,
ruminando as suas frustrações. O povo da região passa ver nele a encarnação de
um lobisomem e o evita cada vez mais.
O destino de José Amaro se decide apenas na terceira parte da
obra. Sinhá e Marta o abandonam e o artesão percebe sua incapacidade de opor-se
às classes dirigentes. Dirige então o seu temperamento violento contra si
próprio e suicida-se com o mesmo instrumento que representava sua sobrevivência:
a faca de cortar sola.
Segunda parte
O Engenho do Seu Lula - Senhor do engenho Santa Fé,
que obtivera através do casamento com Amélia, filha do poderoso capitão Tomás
Cabral de Melo, “seu” Lula é prepotente e mesquinho, trata tão mal os
escravos que estes, após a Abolição, abandonam em massa a propriedade rural
Desinteressado das questões práticas, administra pessimamente o engenho,
levando-o a rápido declínio. Face a incapacidade de seu proprietário, o Santa
Fé, em dado momento, não produz mais açúcar. A sobrevivência familiar fica
restrita à criação de galinhas e à produção de ovos, das quais se encarrega
Amélia, a esposa do decrépito coronel.
No entanto, Lula de Holanda Chacon mantém a pose de grande
senhor, pose traduzida no cabriolé (pequena carruagem de luxo) com que percorre
as estradas, sem cumprimentar ninguém. Autoritário, impede que sua filha Nenén
namore um rapaz de origem humilde. Esta, condenada a permanecer solteira,
fecha-se sobre si própria e torna-se alvo de riso e deboche da vizinhança.
Enquanto isso, alienado dos problemas econômicos que causam a derrocada de seu
mundo, Lula entrega-se à práticas místicas, sob influência de Floripes, um negro
que era seu afilhado. Como em outros momentos de Fogo morto, o desequilíbrio
psíquico decorre do processo de decadência social. Cabe a mulher do senhor de
engenho, a compreensão lúcida e triste do fim de tudo: Os galos começaram a
cantar, o chocalho de um boi no curral batia como toque de sino. O negro saiu e
D. Amélia ficou a olhar a noite...Agora ouvia uma cantoria fanhosa, um gemer que
abafava o canto dos galos. Da casa de Macário saíam vozes, chorando uma morta.
D. Amélia fechou a porta da cozinha. Dentro de sua casa uma coisa pior que a
morte. Não havia vozes que amansassem as dores que andavam no coração de seu
povo. Viu a réstia que vinha do quarto dos santos, da luz mortiça da lâmpada de
azeite. Caiu nos pés de Deus, com o corpo mais doído que o de Lula, com a alma
mais pesada que a de Nenén.
Acabara-se o Santa Fé.
Terceira parte
O Capitão Vitorino - Personagem cujas origens o
vinculam às famílias tradicionais da região açucareira, as quais já pertenceu
socialmente, embora hoje seja apenas um pequeno proprietário que vive de maneira
modesta. Nas duas primeira partes da obra, o capitão Vitorino é uma figura
ridícula, quase grotesca, a ponto de ser denominado de Papa-Rabo pelos moleques.
Na terceira parte, contudo, ele se eleva, assumindo a condição de um homem
idealista e quixotesco. De Dom Quixote, Vitorino possui o sentido nobre dos
gestos e uma percepção limitada da realidade, que o leva investir contra tudo
aquilo que lhe parece injustiça, sem medir a força do inimigo, nem pesar as
conseqüências de suas ações.. Contesta o poder absoluto dos senhores de engenho,
da polícia militar e até dos cangaceiros, defendendo ideais éticos que parecem
inviáveis na vida cotidiana da região. Acredita que, pelo poder do voto, possa
instaurar uma ordem institucional num meio em que a única lei é o arbítrio dos
latifundiários. Trata-se de um liberal humanista, mais preocupado com o uso e
abuso da força do que propriamente com os desníveis sociais existentes na
sociedade da cana-de-açúcar. Estas faces contraditórias da visão de mundo de
Vitorino não lhe retiram a grandeza humana e literária. Ao contrário, fazem
parte de sua personalidade multifacetada.
Apesar de sua estrutura sólida, Fogo Morto é um
documento sociológico, que retrata o Nordeste e a oligarquia composta pelos
senhores de engenho, ameaçada com a chegada do capital proveniente da
industrialização. São engenhos de "fogo morto", onde decai o patriarcalismo com
suas tragédias humanas.
Convém destacar o caráter lúdico da
composição que o autor entrelaça as ações das personagens em as partes, revelando
a decadência do Engenho Santa Fé e das famílias que lá moravam.